Naipaul, o simples?

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Vou afirmar sem dó: se você, sexto ou sétimo leitor, ainda não leu V. S. Naipaul, leia. É esse senhor aí de cima. Não é badalado, é pouco conhecido, embora tenha tido seu primeiro livro – Os Mímicos – publicado há exatos 30 anos, no Brasil, pela Cia. das Letras. Só para constar: o V é de Vidiadhar e o S, de Surajprasad. A pronúncia é desnecessária: fique com as iniciais. Mas fique mesmo com o conteúdo dos livros, obras que parecem resumir aquele axioma proposto pelo jornalista Telmo Martino: tudo o que é fácil de escrever é difícil de ler – e vice versa. Sim, é o caso desse tobaguense de origem indiana que é Sir, e justamente por isso escreve em inglês.

Resultado de imagem para v s naipaul os mímicosEu li Os Mímicos de uma tacada, logo que saiu. Reli-o no começo deste ano, trinta anos depois. Foi uma experiência boa: nem eu nem o livro somos os mesmos. A cada página relida, uma lembrança de como esse livro me impressionou, seja na forma de sua concepção, seja na temática, implacavelmente comum: o intelectual inseguro, ex-ministro de uma ilha caribenha imaginária, mostra-se estrangeiro envolvido com tudo aquilo que uma cidade grande (Londres) pode oferecer de bom e de ruim – e incluem-se aí as mulheres. Há, claro, um retorno à infância, como etapa essencial ao molde maduro, carregada de humor refinado aliado a doses de melancolia profunda e aparentemente sem muitas consequências. Só aparentemente.

V. S. Naipaul é um mestre, pode apostar. É herdeiro dos grandes escritores ingleses e norte-americanos, em especial William Faulkner e Grahan Greene, os quais, segundo ele, leu com avidez de quem queria se tornar um verdadeiro escritor. Domina os adjetivos como poucos escritores que conheço – e não os teme, como a maioria dos criadores contemporâneos, que enxergam na adjetivação uma falha no enxugamento textual. Naipaul abusa deles com talento e frequência. Escolhi como exemplo o texto Os Mímicos, mas poderia ter-me atido a Guerrilheiros ou Uma Casa para o Sr. Biswas (obra-prima sobre a colonização inglesa em Trinidad e Tobago), dois ótimos romances.

Resultado de imagem para uma casa para sr, biswasLembro-me de, à primeira vista, com o romance às mãos, há 30 anos, ter dito a mim mesmo que Trinidad e Tobago não me interessava como cenário. O que poderia ser dito sobre uma ilhota próxima à Venezuela que não beirasse o excentricismo e a caricatura? Pois fui obrigado a engolir o preconceito logo nas primeiras páginas de Uma Casa para o Sr. Biswas. Embora o texto se passe na capital inglesa, Trinidad está dentro da personagem central, gigantesca e eterna, com todas as suas complexidades de colônia. Um texto cômico, marcado pela compaixão e, acima de tudo, pelas palavras na hora certa, exatas, no lugar adequado. Uma aula de como escrever.

Bernstein aos 99

Outra anedota do mundo da música clássica. Leonard Bernstein, o maestro norte-americano, foi ao Konzerthaus Berlin assistir à regência da Quinta de Beethoven, por Herbert von Karajan, que regia a Filarmônica de Berlim. Após o espetáculo, grandioso e essencial, os dois maestros se encontram. Os gigantescos egos de ambos eram notórios, comentados por todos aqueles com quem trabalharam. Karajan, aplaudidíssimo e cheio de pompa depois de uma regência impecável, volta-se para Bernstein e afirma: “Leo, hoje, a orquestra foi praticamente regida por Deus!” Leonard, não menos vaidoso, devolveu-lhe: “Por mim?”

A anedota explica bem a postura de Leonard Bernstein diante do mundo – uma postura altiva, autossuficiente, plena de segurança. Morreu num dia 25 de agosto, aos 72 anos – dos quais 50 foram dedicados a fazer da música algo maiúsculo, essencial. É evidente que muitos, antes dele, fizeram isso com e para a música, mas quem, com tanta paradoxal generosidade? Seus ensinamentos, sua lógica musical e sua dedicação à arte foram elementos definidores para aqueles que o seguiram, sejam discípulos fiéis ou admiradores contumazes. E por que não dizer que ele foi generoso também com a Filarmônica de Nova Iorque – antes dele sempre posta em segundo plano, atrás de orquestras como as de Boston ou Chicago?

Foi Leonard Bernstein que elevou os ânimos, deu à orquestra uma nova face, um dinamismo ainda não empenhado no grupo. E há quem diga que essa transformação foi rápida, algo incomum para o métier. A generosidade, entretanto, não para aí. Talvez a grande contribuição do maestro tenha sido na seara da educação. Usando o meio televisivo, muito eficaz e rápido, deu vida a projetos como Omnibus, New York Philharmonic Young People’s Concerts e Leonard Bernstein presents…, programas que tinham como objetivo estimular ainda mais aqueles que se dispunham a ouvir. Aos interessados, era um poço sem fundo de prazer e conhecimento. Aos que desconheciam a música, uma oportunidade para sair da escuridão.

AQUI, AQUI e AQUI você testemunha o trabalho desse senhor – um educador.

P. S. Já ouvi a anedota do início da postagem com os mesmos personagens, mas em papeis trocados.

Fala! #2: José Lezama Lima

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“Se ao final de sua vida, um escritor acredita ter esclarecido ou aumentado o fluxo criador de sua época – ou, mais simplesmente, de seus amigos – sentirá como se sua obra houvesse produzido um acréscimo, um desenvolvimento, e essa é sua principal utilidade. Fazer parte de um estilo, somando a ele, levando-o a sua plenitude, propicia sentir as mutações e a eternidade girando incessantemente em seu mais secreto ordenamento.”

A Expressão Americana, José Lezama Lima

Manara, Bardot

Junte Milo Manara a qualquer símbolo sexual feminino – do cinema, do esporte, da tevê – e é possível que tal símbolo seja eternizado. E quando se junta Milo Manara a um símbolo que, per si, já é eterno, já habita imaginários há décadas e para sempre habitará? Pois essa combinação existe – e está à venda. A quantia não é tão acessível quanto se possa imaginar, mas um símbolo sexual – no caso, um mito em estado puro – é, grosso modo, inacessível. E quer mito sexual mais inacessível do que Brigitte Bardot, a francesa que rivalizou com as estrelas de Hollywood e que explodiu em glamour, sensualidade e tesão?

 

Alguém dirá que a importância de Milo Manara para os quadrinhos – principalmente os eróticos – equivale à de Brigitte no cinema. Concordo. Até porque ela, mito da liberação sexual, deve ter sido a inspiração para muitos artistas plásticos (escultores, pintores, desenhistas). Manara não fugiu à regra, afinal ele foi um dos pioneiros dessa mesma liberação numa outra seara, até então povoada de super-heróis, detetives e muita aventura. Sim, um de meus seis ou sete leitores poderá afirmar que desenhar Brigitte como mito sexual não é difícil. Sinceramente? concordo – em parte. A questão é: como desenhar feito Manara?

As curvas, as silhuetas vertiginosas, o desejo implícito (nela e naqueles que a vislumbraram), a beleza graciosa das formas, a aura adolescente, a insolência da juventude – algo que só pode ser rivalizado por Marilyn Monroe, recentemente citada neste blogue. Brigitte Bardot relutou em ceder sua imagem para os desenhos. Está em outra, há décadas. Tornou-se ativista pró-animais, denunciando os horrores impetrados a eles, desde sua caça desregulada ao tráfico frequente. É só checar suas companhias nas ilustrações abaixo.

Brigitte Bardot não tem mais a beleza que possuía – mas quem tem, após tanto tempo? Manara faz gerações de admiradores esquecer que o tempo é inexorável.

Aí abaixo está o homem que criou a mulher. Não é Deus, mas quase. E se você não se contenta com Brigitte Bardot e quiser conhecer mais mulheres que esse senhor desenhou, clique AQUI.

 

 

Os amigos de Herman Leonard

Herman Leonard é o maior fotógrafo do jazz. Ponto. Essa afirmação será confirmada por si só, nesta postagem. Não há, penso, necessidade de palavras que possam definir a sensibilidade + talento + oportunidade de capturar as imagens que este senhor capturou durante anos acompanhando grandes nomes do gênero. É o gênio da raça, o apogeu, o mestre absoluto – e olhe que tinha rivais de peso, como Jim Marshall, Bob Willoughby e William Claxton, três bambas que souberam definir, em imagens, a época e a estampa jazzística. Leonard, entretanto, fez mais: transformou ícones da música em criaturas humanas dotadas da mesma fragilidade que o mais ordinário dos homens.

Billy Holiday retratada por Herman Leonard

Billie Holiday

Há algo de melancólico na foto de Billie Holiday. Parece estar à espera do momento certo para adentrar a melodia, com sua voz de pouco alcance, mas absolutamente inesquecível. Não está em ação, mas Herman Leonard conseguiu, a meu ver, dar um tom ao momento. Billie observa, de uma forma aparentemente triste, a ação que virá. Abaixo, Dizzy Gillespie, uma das mais significativas figuras do jazz, num solo que parecemos ouvir. A fotografia é de 1948. Dizzy foi outro que Leonard acompanhou por décadas, captando o que ele possuía de mais peculiar – além, evidentemente, da música.

Dizzy Gillespie. Icono del jazz

Dizzy Gillespie

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Ella Fitzgerald

Essa senhora acima, a Primeira Dama do Jazz, era sua preferida. Herman Leonard acompanhou-a durante várias apresentações pelos EUA e pelo mundo, de 1949 até 1987. A foto exposta, feita em Paris, em 1960, é a expressão do que o jazz pode provocar em quem o produz. A percepção do momento oportuno, do êxtase, do suor que brota e que escorre pela face: tudo isso exala felicidade na captura daquilo que se chama performance e que será eternizado pelo instantâneo. Quem mais poderia ter feito isso? O mesmo se pode dizer da foto abaixo, no Downbeat Club, em 1948. Na plateia, maravilhados com Ella e com sua voz, estão Duke Ellington, à frente, e, mais atrás, Benny Goodman. E o que dizer do ponto luminoso entre o pescoço e o ombro dElla?

Dexter Gordon

Acima, a foto mais famosa feita por Herman Leonard. Dexter Gordon, um dos gigantes do sax tenor, à espera de que o show tenha início, no Royal Roost Club, em Nova Iorque. Dexter parece parado no ar, a fumaça do cigarro envolvendo-o. Atrás, o baterista Kenny Clarke. O próprio Leonard afirmou que a fumaça fazia parte da atmosfera do momento e dramatizava o instantâneo, o momento eternizado. É uma foto sensacional, de 1948. Em 1953 – abaixo -, o encontro entre o saxofonista Sonny Stitt e o sempre ótimo trompetista Dizzy Gillespie, alguns anos antes do histórico disco que reuniu os dois + o extraordinário saxofonista Sonny Rollins. Stitt, olhar absorvido, é o que há de melhor na foto.

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Sonny Stitt, Dizzy Gillespie

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Duke Ellington, Billy Strayhorn

Coleman Hawkins

Hawkins foi uma escola, uma tendência que trouxe à superfície um grande número de não menos grandes seguidores. O citado Sonny Rollins foi um deles. Esse close parece expressar a seriedade e a dedicação com que o enormíssimo sax tenor executava seu instrumento. Claro: não é prerrogativa sua. Muitos foram tão dedicados quanto ele, mas somente o velho Coleman teve o privilégio desse registro tão autêntico, tão verdadeiro. O mesmo se pode dizer de outro grande músico – o trompetista Fats Navarro (de quem sou fã). A fumaça, tão cara ao ambiente jazzístico, parece brotar das válvulas do instrumento, proporcionando a fusão entre imagem e som. Esta é outra foto seminal.

Fats Navarro, NYC, New York, 1948

Fats Navarro

Herman Leonard morreu em 2010, de causa não revelada. Um serviço: AQUI é possível visualizar inúmeras de suas fotos. O tema, claro, é o jazz e quem o produziu.

Campeão peso médio do sax

Imagino-me numa armadilha: escolher quem foi o melhor saxofonista com quem Miles Davis trabalhou. Charlie Parker seria a resposta óbvia: o próprio Miles diz isso em sua biografia, mas com Bird a coisa se deu ao avesso do que quero perguntar. Ou seja: Miles foi sideman de Parker. Quero saber quem foi o melhor saxofonista dos muitos sidemen do grande trompetista. A lista é boa: John Coltrane, Wayne Shorter, George Coleman, Cannonball Adderlley, Bill Evans, Joe Henderson, Sam Rivers, Eddie Lockjaw Davis, Dave Liebman, Sonny Rollins, Stan Getz, Sonny Stitt, Lee Konitz, Gerry Mulligan. Há mais, mas a memória me falha. Bem, os citados John Coltrane, Sonny Rollins, Stan Getz e Gerry Mulligan não contam. São tão absolutos quanto Miles, criadores únicos, líderes por natureza e dever.

Resultado de imagem para miles davis CARNEGIE HALLE os que “sobram”? Desses, para mim, o que melhor acompanhou Miles, o que melhor fraseou com ele, capturando a genialidade do mestre, foi Hank Mobley, cujo sopro e performance conheci no disco ao lado, ao vivo, selo Columbia. Mas não se engane: Hank só trabalhou com Miles em estúdio num disco – e que disco! -: Someday My Prince Will Come, de 1961. Ao vivo, além do citado exemplo do Carnegie Hall, há outro discaço: In Person: Friday and Saturday Nights at the Blackhawk. Nesses discos é possível ouvir a precisão melódica que fez o crítico Leonard Feather afirmar que Hank Mobley era o campeão peso médio dos sax tenores.

Veja só! Apenas um disco em estúdio pode ser parâmetro para considerar um som superlativo? Pode. Claro que é um juízo subjetivo, uma visão particular sobre o desempenho de um artista. Seria muito mais fácil, e possivelmente mais efetivo, se eu avaliasse performances de Wayne Shorter, tenor presente em pelo menos cinco álbuns de estúdio e um ao vivo. O som musculoso de Hank Mobley, herança do hard bop que ele tanto amou e praticou, combinou muito adequadamente com o fraseado cortante de Miles (ao menos no disco ao vivo), algo um tanto distante do jazz modal de um Kind of Blue, por exemplo. É só ouvir AQUI.

Imagem relacionada

Hank gravou 35 discos como líder – 25 deles (em 16 anos) pela Blue Note, a gravadora que lhe deu liberdade para criar e para escolher os sidemen. Foi um criador quase tão prolífico quanto John Coltrane, e muitos críticos o consideravam tão inovador melodicamente quanto seu ídolo, Sonny Rollins. Esta postagem, entretanto, é para falar de um Hank Mobley específico, sideman de Miles Davis, aquele que foi além de um acompanhante. Para mim, norteou muita coisa que Miles fez, mesmo que durante pouco tempo. Enfim, não há necessidade de extensão temporal para que a genialidade se expresse. AQUI, um apanhado de duas horas e meia de grande som. Do grande Hank Mobley.

 

Elvis, Nixon, comédia

A foto acima foi feita em 21 de dezembro de 1970, na tal da Casa Branca, onde morava Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos. É o indivíduo à esquerda de quem vê, de terno. O outro, evidentemente, é Elvis Presley, o maior vocalista do rock, chamado The King, um dos ícones do século que passou. Esse encontro improvável, quase bizarro, só aconteceu por insistência de Elvis, que queria, sabe-se lá por quê, tornar-se agente federal. Sim, queria uma insígnia – a qual ele nunca usou – para, oficialmente, servir ao seu país, como cana. Esse estranhíssimo encontro gerou a foto acima, fez vender milhões de jornais pelo mundo todo e o que é melhor: rendeu uma das melhores comédias a que assisti nos últimos tempos: Elvis & Nixon.

É claro que pouco se pode afirmar como realmente aconteceram os diálogos entre as duas personagens, de modo que a liberdade criativa fez vir à tona a possibilidade de que tudo tenha acontecido exatamente como se mostrou. Ou seja: há 50% de chances de o filme representar a realidade – o que o torna ainda mais cômico. o Nixon de Kevin Spacey só não rouba o filme porque o Elvis de Michael Shannon é duro na queda – e protagoniza ao menos duas cenas hilárias: ao falar mal dos Beatles (principalmente de Lennon), uma cena rápida, de poucos segundos, e ao expor suas habilidades marciais, com gritos à Bruce Lee. Tanto Elvis Presley quanto Richard Nixon eram malucos, cada um a seu modo, cada um com sua obsessão.

Outra cena (não posso esquecer): Elvis entrando numa lanchonete carregada de simpatizantes dos Black Panthers – e interagindo bem com eles. Uma ironia retumbante num filme repleto delas: a trilha sonora ignora, também retumbantemente, Elvis Presley. Estão lá a banda Credence, os cantores Sister Rosetta Tharpe e Ottis Redding e, claro, quem foi contratado para fazer boa parte da trilha: Ed Shearmur, adorador de rock e de Elvis. Há alguém que não seja? Pois é. Outra ironia: Nixon fora apelidado de Tricky, algo como ardiloso, manipulador. Este Richard Nixon não existe no filme. Ao contrário: mostra-o subserviente à filha de 22 anos – fã de Elvis, claro -, devorador de M&M’s e impotente diante de um indivíduo tão doido quanto indiferente a protocolos.

No filme, Elvis também tem suas fraquezas. É um dependente de Priscilla, a esposa, e de Tom Parker, o “coronel”, seu empresário. Mas são situações sutis, assim como expõe, também sutilmente, a grande amizade entre Elvis e Jerry Schilling, devoto do astro antes de ele ser quem foi. É uma comédia irrepreensível – exceto para aqueles que têm como referência as bobagens de Pânico na TV e pseudoartistas insossos e apelativos como Danilo Gentilli e Rafinha Bastos. Para esses não recomendo o filme. Vão achá-lo uma chatice.

Ivan: fundamental, humano

A pergunta que um escritor faz quando um outro escritor se vai: quem vai escrever, agora? Quem usará as palavras como elas eram usadas? Quem possuirá o critério, a ordem, a disposição, a linguagem? São perguntas que, sem uma resposta que as defina com exatidão, ficam em nossa memória durante tempos, épocas. E quando o escritor que se vai é mais que um escritor? É um amigo, um professor, um companheiro que ensina e nisso não se cansa? E, mais ainda: e quando esse amigo, escritor e professor é Ivan Borgo, que me deixou um tanto órfão – eu que já o sou, de pai e mãe, há 22 anos – a ponto de me sentir obrigado (e, dessa forma, melhor) a tentar contar e escrever sobre ele?

Vimo-nos pela última vez há alguns meses, num dos sábados da Logos, a livraria que resiste em Jardim da Penha em particular, e na ilha como um todo. Assim que cheguei – o estardalhaço é minha defesa contra a timidez -, Ivan recebeu-me com a gargalhada que lhe era peculiar. Eis aí a aquiescência: eu poderia ficar a seu lado e consumir suas pequenas vilanias vocabulares, suas apreciações literárias, tão audíveis quanto saborosas. Podia, ali, aprender a ver, nos textos, além do que se pode ver em nua visão. Justo eu, que me orgulho de minha profissão, que me incita a ver sempre além. Aprendi com Ivan muito mais do que aprendi nos livros.

Os sábados não serão mais os mesmos. Serão domingos chuvosos, trovejantes, de péssimo humor. Ou talvez devamos fazer exatamente o contrário: como Ivan se comportaria diante de uma adversidade que, por si só, é inevitável? Acho que, provocado pela intempérie, balançaria seu corpo numa risada. Uma risada daquelas de cinema, de filme sobre mitologia, quando um deus poderoso se mostra rindo das bobagens que a humanidade produz. Ivan era tudo isso: mitológico, sorridente, engraçado.

Sou – recuso-me à perfeição pretérita – amigo de Ivan desde que soube de sua existência, por intermédio de meu falecido pai, seu amigo. Ivan foi aluno de minha avó Emília, a quem não conheci em carne e osso. O que isso quer dizer? Para muitos, nada, mas sempre senti que havia algo de familiar em nossa distância de 33 anos, algo que eu nunca poderia presumir, mais tarde, ser tão fundamental e humano. Aliás, esses são, a meu ver, os adjetivos que definem Ivan Borgo: fundamental e humano. Uma peça essencial a essa engenharia que é vida, e sempre será. Vá em paz, meu amigo!

Mulheres #1:Marilyn, 55 anos depois

Há 55 anos Marilyn Monroe morreu. Possivelmente o maior ícone feminino do século que passou – e um dos mais relevantes da História. Quem rivaliza com ela? Cleópatra, Lucrecia Borgia, Maria Madalena, Joana D’Arc.? Calma, não falo de relevância política, social, humana. Falo de popularidade, e muita gente pode afirmar que o cinema, sendo ele o habitat de Marilyn, tenha facilitado a difusão de sua imagem. Claro que facilitou – e daí? Continua sendo um ícone incontestável. Não tinha tantos recursos dramáticos, é bem verdade, mas não era esse seu papel. Não se ia ao cinema para ver e avaliar a capacidade dramática de Marilyn Monroe, mas o que ela possuía de transbordante e fundamental: charme, beleza, sensualidade, tesão. Quer saber, sinceramente? Sendo ela quem era, por que se preocupar com atividades secundárias como atuar e decorar falas?

Billy Wilder, diretor com quem trabalhou na melhor comédia de todos os tempos, Quanto Mais Quente Melhor, em 1959, dizia que fazer Marilyn atuar era como extrair um dente. Não devia ser fácil mesmo, já que a moça possivelmente sabia que sua canastrice não interferia nas reações que provocava em qualquer ser humano com quem convivesse – homens e mulheres. Era um vulcão eruptivo 24 horas por dia, e essa afirmação pode ser interpretada tanto positiva quanto negativamente. O craque do beisebol Joe DiMaggio e o escritor Arthur Miller, dois de seus maridos – cada um a seu tempo, evidentemente -, concordavam nesse ponto. Não foram capazes de controlá-la, de lhe colocar moldes. Tentaram amansar seu comportamento e, ainda bem, foram absolutamente incompetentes na empreitada.

Dizem que se envolveu com homens errados, algo que lhe trouxe consequências tenebrosas: desde perseguição e tortura psicológica a frustrações de ordem sexual e afetiva. A imprensa, como acontece a qualquer estrela, esperava pelo deslize, e amplificava-o de tal sorte que não havia como questionar a veracidade do exagero. Marilyn Monroe sofreu com isso, e não soube se defender. Não havia, também, quem a defendesse, quem fosse capaz de enxergar o ser humano frágil vestido com a carapaça da deusa imortal, bela como se desenhada.

55 anos depois, Marilyn Monroe continua por aí. Comenta-se sobre ela como se ainda estivesse entre aqueles que nem a conheceram, que não assistiram a seus filmes, que não sabem que o pecado mora ao lado, que ignoram a preferência dos homens pelas louras ou que nunca ouviram dizer que os diamantes são os melhores amigos das mulheres. Marilyn ficou para sempre, no imaginário, na fantasia, nos filmes que se repetem à exaustão – não à exaustão daqueles que compreendem o que significam o mito e sua perpetuação. 55 anos depois, mesmo tendo minha idade (meu nascimento se deu quatro meses antes de sua morte), Marilyn Monroe continua sendo quem nunca deixou de ser.

Mais ausentes: Arreola, Brautigan

Juan José Arreoladeu as caras por aqui, no Ipsis. Mas por que retorno a ele? Pelo mesmo motivo que me fez escrever sobre Donald Barthelme, há poucos dias: a ignorância das editoras brasileiras em relação a alguns autores essenciais. Essenciais a quem? Eis a questão. É difícil afirmar que um determinado autor é mais representativo do que outro, exceto quando é uma assertiva óbvia. Tolstoi é mais importante que Rubem Fonseca? Sim. E assim por diante. Mas não é esse o ponto. A questão reside na dúvida: por que Juan José Arreola, assim como Barthelme (e outros), é praticamente autor inédito no Brasil?

O advérbio em itálico se faz necessário, já que em 1969 veio a público a edição de Confabulário Total, uma reunião de seus contos até 1961. Depois disso, até onde sei, somente em 2015, uma edição menorizada desta obra-prima chega aos olhos dos brasileiros. Arreola, mexicano, tão importante quanto os conterrâneos ilustres e justificadamente badalados Juan Rulfo e Carlos Fuentes, não escreveu muito literatura – e nem precisava mais. Já havia escrito o suficiente para eternizá-lo. Tem uma novela (La Feria, 1963) e Palíndroma, 1971. Não li nenhum dos dois – ainda. Os livros Bestiário, Confabulário, Vária Invenção e Prosódia estão – ainda bem! – em Confabulário Total, o que faz deste livro uma avis rara.

Outra figura ausente nas traduções para o português é Richard Brautigan, ícone contracultural, escritor de primeira – mas não de fácil leitura (não foi, para mim). Para não dizer que nada existe dele editado no Brasil, há uma edição de Pescar Truta na América feita pelo saudoso José J. Veiga, ed. Marco Zero, 1991. Diferentemente da prosa de Arreola, algo poético e que beira o real-maravilhoso, a prosa de Brautigan assemelha-se a um pesadelo, um emaranhado de imagens conectadas de forma aparentemente aleatória, mas só aparentemente. É uma aventura intelectual e emotiva lê-lo. Um convite a tirar os pés do chão e sair num voo cego, como ele mesmo faz. Não, meu sétimo leitor, não estou exagerando. Tenho dele A Confederate General from Big Sur, Dreaming of Babylon e o ótimo The Hawkline Monster, um faroeste contemporâneo. Quer saber? Já pensei em me aventurar na tradução, mas desisti. Não me sinto apto.

Richard Brautigan suicidou-se aos 49 anos. Não aguentou a mudança de temperatura: se nos anos 1960 foi aclamado como um deus literário por uma juventude transgressora e pacifista, na metade da década seguinte experimentou o ostracismo, foi deixado de lado, viu a fama expirar. Entupiu-se de álcool e, vivendo sozinho, após uma série de casamentos fracassados, atirou contra a própria cabeça. Foi encontrado um mês depois, o corpo decomposto, algo bastante contraditório com sua prosa, quase zen budista, alegre, adolescente (no bom sentido), mas seca como um parágrafo de Hemingway. É uma ausência sentida, em todos os sentidos. Ei-lo:

 

 

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