18 anos sem Stevie Ray

Há 18 anos morria Stevie Ray Vaughan, guitarrista de blues, texano como Johnny Winter. Embora reconhecendo seu talento, nunca fui um grande fã. Cheguei a considerá-lo um sub-Hendrix de dedos pesados e de vibrato irregular, mas aos poucos cedi, principalmente ao ouvir sua versão (particularíssima) de temas como Little Wing, que considerei incomprável com Mr. Jimi. E é, mas não se pode negar que Stevie Ray fez um bom trabalho. Fui conhecendo seus discos aos poucos, ouvindo uma e outra gravação, vagaroso, até chegar à conclusão inevitável, que me faz escrever este texto.

A morte acenou há exatos 18 anos, como eu disse. E de maneira estranha: o helicóptero em que estava, em companhia de outros músicos, chocou-se com uma montanha artificial, feita para entreter esquiadores. Um dia antes, havia-se apresentado em companhia de Eric Clapton, Buddy Guy e Robert Cray - três grandes de guitarra. Vivos, felizmente.

Vai aí uma canja:

Livros para quê? (parte III)

Lá vem Grijó com mais saudosimo. Como não sou Pelé, que se refere a si mesmo em 3ª pessoa, assumo-me: cá estou eu com mais saudosismo. E agora tendo os livros como assunto. A Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em sua vigésima edição, terminou ontem, dia 24. Não pude comparecer, desta vez. Foi melhor assim, acredito. Se em outras edições privilegiaram-se a divulgação, o debate intelectual e tardes de autógrafos, hoje o evento se preocupa quase que exclusivamente em negociar massivamente o livro. A qualidade do evento tornou-se secundária. Se antes figuras do naipe de Borges, Rulfo, García Marquez, Anatol Rosenfeld, Jorge Amado e Isabel Allende freqüentavam o local, agora dão a vez a Miguel Falabella, Ana Maria Braga e Fernanda Takai. E leio que são seguidos por séquitos de fãs. Sim, os tempos são outros.

Na verdade, mesmo com a priorização dos negócios, os lucros das editoras são baixos. Alega-se que a produção dos estandes é muito alta. Acredito que sim. Leio na revista Bravo! que Luciana Villas-Boas, diretora da ed. Record - a maior do país -, afirma que a Bienal “é importante no mercado editorial porque consolida as marcas e proporciona a reunião de todas as pontas da indústria do livro: produtores, distribuidores e consumidores.” Eduardo Mendes, diretor executivo da Câmara Brasileira do Livro, diz que “a Bienal, assim como outros eventos literários como a Flip, criam (sic) um movimento de sinergia para que a questão do livro e da leitura entre na pauta de discussão da imprensa e dos governos, o que é sempre positivo para esse mercado”.

Concordo, claro. Mas onde está esse tal consumidor? Lendo livros de receitas de Ana Maria Braga ou tentando entender o que Miguel Falabella tem a dizer. Só pode. Sinto saudades, sim, de quando a Bienal era um evento de prima grandeza, no qual o livro, em toda a sua glória, era enaltecido como merece. Ele e aquele que o produzia.

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O Ensaio de Elis

As lojas de discos estão com os dias contados - não há qualquer novidade nisso. Durante a semana, passei por algumas delas, ainda remanescentes, moribundas, agonizantes, e encontrei alguns devedês - editados em 2004 - que me abriram olhos e ouvidos. Um deles resgata o programa Ensaio com Elis Regina, produzido pela TV Cultura há 35 anos. Não é apenas um registro de época. É, de fato, a oportunidade que os mais novos têm de assistir - e ouvir - a uma das grandes vozes brasileiras. É clichê afirmar isso, eu sei.

Elis Regina forma com Leny Andrade e Elizeth Cardoso a tríade fundamental de intérpretes da emepebê. Tornou-se mito em conseqüência da morte prematura e de suas causas. Muito já se disse sobre isso, de modo que retorno ao devedê. É ali que reside a eternidade. Durante 90 minutos é possível ouvir a cantora numa animada conversa sobre vida pessoal, família, amigos, parceiros (há certa melancolia em algumas passagens), além, claro, do prato principal: Elis canta.

Composições de Gilberto Gil (Ladeira da Preguiça, Meio-de Campo) Edu Lobo (Upa, Neguinho), Chico Buarque e Francis Hime (Atrás da Porta), Marcos Valle & irmão (Preciso Aprender a ser Só), Tom Jobim (Águas de Março), Baden Powell (Formosa) e outras são interpretadas sob os cuidados de Luisão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria) e o pianista Cesar Camargo Mariano. Pelo repertório é possível perceber que há de tudo: angústia, bom-humor, crítica, desejo. É Elis Regina num registro magnífico, antológico e obrigatório, restaurado pela gravadora Trama.

Uma leitora (não muito assídua) do Ipsis Litteris chamou-me de “saudosista desinformado” por enaltecer ídolos musicais do passado e ignorar os novos talentos. Talvez ela tenha razão, ao menos parcial, já que não encontro motivos para ouvir, por exemplo, Capital Inicial, Engenheiros do Havaí, Bruno e Marrone, Ivete Sangalo, Tiririca e outras insignificâncias. Minha leitora deixará de ter 17 anos - é uma questão de tempo, e então ela, finalmente, constatará que os verdadeiros artistas são atemporais, diferentemente de outros que, como febres, inevitavelmente passarão.

Clique aqui para ver (e ouvir) trechos do devedê.

Cartuns em concurso

Os turcos têm bom gosto para quadrinhos. Apreciam Bilal, Manara, Serpieri, Crepax - e não somente por suas mulheres, mas pelo conjunto do que se vê: cor, forma, história, beleza. Curtem os heróis da Marvel e da DC. Essa ligação com os desenhos proporcionou, neste mês, em Istambul, o 28º International Nasreddin Hodja Cartoon Contest, o tradicional concurso de cartuns, charges e afins. O tema é variado, à escolha do próprio artista que, em linhas gerais - e óbvias - necessita de liberdade para criar. Entretanto, claro, o homem ainda é o principal assunto, e geralmente alvo de críticas (por vezes ácidas). Eis meu preferido:

Uma bela - e triste - sacada do que o homem é capaz de fazer. Não há humor. Outros trabalhos, incluindo o vencedor (abaixo), são elaborados a partir do mesmo tema:

Se quiser checar os finalistas clique aqui.

Lovecraft 118 anos depois

Há pouca coisa de H. P. Lovecraft entre nós, brasileiros. Durante os anos 80, eram apenas dois livros, ambos editados pela livraria Francisco Alves: A Casa das Bruxas e Sussurro nas Trevas, em traduções discutíveis, assim como era discutível a revisão. Coisa feita às pressas, creio. Mas Lovecraft é superior a deslizes. Depois vieram outros títulos - e por editoras distintas -: O horror em Red Hook, O Caso de Charles Dexter Ward, A Maldição de Sarnath, À Procura de Kadath. Chequei as traduções, confesso que rapidamente. Não comprometem, mas receio que H. P. Lovecraft seja daqueles autores que levam prejuízo quando traduzidos.

Sua linguagem é difícil, carregada de termos que, nas mãos de um escritor menos hábil, soariam como despropositais pedantismos. Trabalha arcaísmos com a habilidade, sem que eles interfiram naquilo que é mais importante num texto em prosa: contar uma história. Diz-se, aliás, que muitas das histórias narradas por Lovecraft (ou por seus narradores) advinham de sonhos tenebrosos que o perseguiam desde a infância. Verdade ou não, isso contribuiu para que sua fama (pouca, em vida) se tornasse eterna. Lovecraft, segundo consta, não gostava de música e, paradoxalmente, sua figura inspirou um sem-número de bandas que se consideram “góticas”, sabe-se lá o que isso quer dizer.
H. P. Lovecraft nasceu num dia 20 de agosto, há 118 anos. Sua literatura, claro, continua atual.
Clique aqui, se houver interesse.

Dalí, Cinema, Buñuel

Eu prefiro, entre os surrealistas, René Magritte, mas como ignorar Salvador Dalí, o catalão ególatra que se considerava a própria metáfora do Surrealismo? Talento? Sobrava-lhe, claro - não se discute esse ponto. Quem questiona não conhece a história da arte no século XX, agora relegado a século passado. O nova-iorquino MoMA traz a público uma exposição sobre a relação de Dalí com o cinema: obras como Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, ambas do espanhol Luís Buñuel, trazem idéias do pintor, sem contar a colaboração com Hitchcock e Walt Disney.
Lendo História Desenvolta do Surrealismo, de Jules-François Dupuis, deparo-me com a informação de que o filme Dreams That Money Can Buy, de Hans Hichter, teve mais influência no cinema ocidental que as películas de Buñuel. Não conheço o filme - aliás, ignorava completamente sua existência -, mas o Gúgol torna-o meu quase íntimo. Participam da algazarra Marcel Duchamp, Max Ernst, Fernand Léger, Man Ray e Alexander Calder. Cada um dirige um episódio (sete, ao todo), representando sonhos que o personagem central (Joe/Narcissus) vende a clientes mais malucos do que ele. É, no mínimo, curioso.
Cinema surrealista não é algo de fácil digestão. Lembro-me de ter exibido, no inicio dos 90, a muitos de meus alunos, O Anjo Exterminador, de Buñuel. Angustiante, bem narrado, boas interpretações. Um ótimo filme cheio de símbolos, metáforas que desafiam o espectador e que acabam por depositar pulgas atrás de todas as orelhas. Quem viu há de lembrar-se do urso e dos cordeiros, das cenas que se repetem para a salvação, do primitivismo a que o ser humano é conduzido quando o desespero o invade. Nada se explica - mas é necessário sentir. Assim é uma tela de Dalí (ou de Magritte), um poema de Césaire, um trecho de Breton. É a ideologia revolucionária que se traduz em liberdade, sensação.
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