As lojas de discos estão com os dias contados - não há qualquer novidade nisso. Durante a semana, passei por algumas delas, ainda remanescentes, moribundas, agonizantes, e encontrei alguns devedês - editados em 2004 - que me abriram olhos e ouvidos. Um deles resgata o programa Ensaio com Elis Regina, produzido pela TV Cultura há 35 anos. Não é apenas um registro de época. É, de fato, a oportunidade que os mais novos têm de assistir - e ouvir - a uma das grandes vozes brasileiras. É clichê afirmar isso, eu sei.
Elis Regina forma com Leny Andrade e Elizeth Cardoso a tríade fundamental de intérpretes da emepebê. Tornou-se mito em conseqüência da morte prematura e de suas causas. Muito já se disse sobre isso, de modo que retorno ao devedê. É ali que reside a eternidade. Durante 90 minutos é possível ouvir a cantora numa animada conversa sobre vida pessoal, família, amigos, parceiros (há certa melancolia em algumas passagens), além, claro, do prato principal: Elis canta.
Composições de Gilberto Gil (Ladeira da Preguiça, Meio-de Campo) Edu Lobo (Upa, Neguinho), Chico Buarque e Francis Hime (Atrás da Porta), Marcos Valle & irmão (Preciso Aprender a ser Só), Tom Jobim (Águas de Março), Baden Powell (Formosa) e outras são interpretadas sob os cuidados de Luisão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria) e o pianista Cesar Camargo Mariano. Pelo repertório é possível perceber que há de tudo: angústia, bom-humor, crítica, desejo. É Elis Regina num registro magnífico, antológico e obrigatório, restaurado pela gravadora Trama.
Uma leitora (não muito assídua) do Ipsis Litteris chamou-me de “saudosista desinformado” por enaltecer ídolos musicais do passado e ignorar os novos talentos. Talvez ela tenha razão, ao menos parcial, já que não encontro motivos para ouvir, por exemplo, Capital Inicial, Engenheiros do Havaí, Bruno e Marrone, Ivete Sangalo, Tiririca e outras insignificâncias. Minha leitora deixará de ter 17 anos - é uma questão de tempo, e então ela, finalmente, constatará que os verdadeiros artistas são atemporais, diferentemente de outros que, como febres, inevitavelmente passarão.
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