O Jazz agoniza em La La Land?

Assisti – finalmente! – ao filme La La Land, na tevê, canal fechado. É dos bons. Boa música, boas interpretações, boa história – e três declarações de amor: ao jazz, ao cinema e a Los Angeles. Não é difícil apreciar a película, mesmo para aqueles que abominam musicais e os consideram nostalgia geriátrica. Um desfecho razoavelmente imprevisível: o amor se concretiza, mas muito mais no plano da lembrança e do que poderia ter sido do que na realidade palpável. É bem armado. Cinema é a tal matéria: o olhar dos protagonistas ao fim da história, tudo o que foi sem ter verdadeiramente acontecido.

Mas não é exatamente sobre a trama ou interpretações que quero falar. O que me chamou a atenção no filme, além dos elementos óbvios, foi um diálogo entre o personagem masculino central, um pianista de jazz (fã de Monk e de Bud Powell), e o líder de uma banda que considera o jazz tão moribundo quanto uma modinha medieval. Eu sou fã de jazz, todos sabem. Todos os que me conhecem, claro. Consumo-o há mais de trinta anos e a grande maioria dos meus discos permeia esse gênero, sejam os grandes instrumentistas, os grandes intérpretes, as formações mais significativas, as composições mais emblemáticas. O diálogo entre os personagens trouxe à superfície uma discussão que há muito se faz: o jazz está morto ou apenas agoniza?

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Vamos aos fatos. A música como um todo é um diálogo. Precisa de um emissor e de um receptor – ela, a música, é o código. Sozinha, sem alguém para emiti-la ou recebê-la, é tão estéril quanto desnecessária. Há quem produza jazz, hoje – mas quem ouve, de fato? Difícil dizer, mas creio que a grande falha está em apresentar o jazz como algo que ele não é: elitizado, para poucos, para iniciados, blablablá. O jazz é música popular, e como tal deve ser encarada. A questão gira em torno de um ponto fundamental: não é música para se dançar e, por conseguinte, seu consumo se destina a uma fatia mais madura do público ouvinte. Exatamente isto: ouvinte.

Quem, entre 15 e 20 anos, dedica-se a consumir música apreciando o desempenho de um artista em seu instrumento? As generalizações são, grosso modo, estúpidas, mas ouso dizer que praticamente ninguém nessa faixa etária dispõe-se a frequentar ambientes onde a música executada não permita gritinhos, pulos, balanços. O jazz é uma vítima dessa cultura. Para sobreviver, precisa tornar-se acid jazz e, a partir de então, gozar do prestígio com a meninada. É disso que fala a personagem Keith, interpretada pelo músico John Legend, ele mesmo um cantor pop. O jazz, segundo ele, está morto. Precisa ressurgir de outra forma, precisa vestir uma nova roupa. Eu ainda penso o contrário.

 

Fala! #3: Julio Cortázar

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“Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela.”

O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar

O Melhor do Jazz #2: álbuns de estúdio

A continuação. Numa anterior postagem, a partir de um desafio de Lucas Lessa, apreciador do jazz e do Ipsis Litteris, escrevi sobre os melhores discos de jazz ao vivo. Cinco, na minha opinião. A subjetividade mandando ver. Agora, os cinco melhores em estúdio – as mesmas regras, a mesma visão pessoal, o mesmo blablablá.

My Favorite Things é um clássico. John Coltrane, outro. E o tema-título, canção de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein, mais um. O que Coltrane fez foi manter a melodia básica da canção (contida no filme A Noviça Rebelde) e elevá-la harmonicamente ao céu. Sem exageros. E é um disco emblemático porque é o primeiro no qual está junto o quarteto clássico do saxofonista: McCoy Tyner (piano), Steve Davis (baixo) e o maior baterista de jazz, Elvin Jones. Retomando: é um disco de clássicos: além da faixa citada, há uma Cole porter (Everytime we say goodbye) e duas de George Gershwin (Summertime e But Not for Me). Um álbum essencial em que Coltrane toca os saxes soprano e tenor. AQUI o álbum completo.

Junte três dos melhores saxofonistas altos da história: Charlie Parker, Johnny Hodges e Benny Carter. Adicione aí o maior virtuose do piano jazzístico: Oscar Peterson. Depois chame um dos grandes baixistas do gênero (Ray Brown). Não satisfeito, convoque mais três sopros: Charlie Shavers (trompete), o extraordinário Ben Webster e o magnífico Flip Phillips (sax tenores). As cerejas do bolo: a guitarra de Barney Kessell e a bateria de J. C. Heard. Pronto! Tem-se aí um dos maiores discos do jazz. Destaque para os 14 minutos de um medley baladoso e para os improvisos de quase 15 minutos em Jam Blues. Um discaço, completinho, AQUI.

Imagine um disco em que tudo dá certo. Setting The Pace realmente realiza o que o título promete: marca o ritmo, e, para isso, dois dos melhores saxofonistas de todas as épocas se encontram: Dexter Gordon e Booker Ervin. Na cozinha, Alan Dawson (bateria), Reggie Workman (contrabaixo) e o excelente Jaki Byard, no piano. São apenas quatro faixas (duas delas de Ervin), que tem mais presença que Dexter no disco – algo que pode ser considerado uma façanha quase milagrosa. É hard bop da melhor qualidade, um disco aceso, vibrante, com um pianista que parece ter quatro mãos e um baterista que é, sempre, muito competente. Um álbum pra lá de essencial. Uma pequena amostra AQUI.

Resultado de imagem para money jungleMoney Jungle. Quem aprecia o jazz sabe exatamente do que os três protagonistas deste disco são capazes. De ir além do que se pode imaginar – essa é a resposta. Duke Ellington, o maior compositor do jazz; Charles Mingus, o maior baixista e orquestrador de primeiríssima; Max Roach, um dos melhores bateristas de todos os tempos. Precisaria dizer mais? Sim, porque o repertório, carregado de blues e de post bop, tem a marca do pianista, que dita as normas do disco. Num disco sem sopros, Ellington é suave, mas preciso. Roach, um tanto tímido – absolutamente sensacional, todavia! -, dialoga com Mingus de forma hipersensível. É um tremendo disco! Uma reunião de gênios cujo resultado é um dos melhores discos de jazz que conheço. AQUI, o disco por inteiro.

Resultado de imagem para kind of blueE quem, comprometido em criar uma lista honesta dos melhores discos de jazz em estúdio, poderia deixar Kind of Blue de fora? A obra-prima do jazz modal, a revolução (ou uma delas) que Miles impôs ao gênero. Na postagem sobre discos ao vivo, citei Jazz at The Plaza. A sessão rítmica é a mesma. Miles, Coltrane, Cannonball, Bill Evans (o pianista Wynton Kelly faz uma ponta), Paul Chambers, Jimmy Cobb. O melhor sexteto do jazz – e ponto final. Para muita gente, este disco é o melhor exemplo do que o jazz significa. Sem contar que, comercialmente, é o mais importante trabalho de Miles Davis. Se você nunca ouviu nada de jazz, pode ouvir isso que basta. Destaque para So What e All Blues. Está tudo AQUI.

Robert Wise, o versátil

Em conversa com amigos que apreciam cinema – talvez até mais do que eu -, ouvi gritarem aos quatro ventos que Solaris, de Andrei Tarkovsky, era o mais bem acabado filme de ficção científica já feito. Eu vi Solaris em fita cassete, fim dos anos 1980, e achei um filmaço, mas meu voto, para indignação do grupo que me ouvia, era para O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise. Este sim, a melhor das ficções científicas. Não, não é aquela versão estapafúrdia com Keanu Reeves. É a película de 1951. De novo: é apenas uma opinião, sujeita a pedradas certeiras e a concordâncias improváveis. E arrisco mais:  O Enigma de Andrômeda é a segunda melhor ficção-científica de todos os tempos. A propósito, também é de Robert Wise. Eis aí um diretor que é competente nessa seara, e é ainda melhor nos musicais. Regeu duas obras-primas no segmento: A Noviça Rebelde e Amor Sublime Amor, dois clássicos dos anos 1960, imortais, notáveis.

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Isto sempre me impressionou em Robert Wise: a versatilidade, a capacidade de andar por caminhos variados – em muitos casos até opostos. Exemplo? Um indivíduo que dirige Marcado Pela Sarjeta, um filme sobre boxe e melancolia, é também capaz de dirigir Dois na Gangorra, uma bela história de amor, com certo toque de deboche? Se você acha que sim, assista aos dois filmes e tente unir os pontos comuns – se você os encontrar, claro. Robert Wise foi montador em Cidadão Kane, de Orson Welles, deu continuidade ao clássico Cat People, de Jacques Tourneur, A Maldição do Sangue de Pantera, fez o magnífico Quero Viver!, o excelente A Estrela e ainda filmou o clássico da literatura de terror As Duas Vidas de Audrey Rose, filmes tão distintos que nem sei como cabem na mesma postagem. Sim, sei: o diretor é o mesmo, claro.

Robert Wise nasceu e morreu no mês de setembro, com um intervalo de 91 anos. Nunca assisti a um filme seu de que não gostasse. Alguns mais; outros menos, mas todos eles com aquele prazer que nos faz atravessar o quotidiano e ele próprio nos faz lembrar de uma cena, de um diálogo, de uma canção. Sua versatilidade – ou sua capacidade de ser muitos sendo um só – deve ser sempre celebrada. Há outros diretores versáteis, que conseguem se equilibrar em diferentes temas e focar o mundo de distintas formas. Mas, quer saber? Falta o charme de Robert Wise. Quem chegou perto foi Robert Altman – mas este fica para depois.

 

 

Moon the Loon, 39 anos depois

Gene Krupa, o grande baterista de jazz, é o pai espiritual de Keith Moon, o maior baterista do rock. Alguns preferem John Bonham e Ginger Baker, eu sei. Outros, mais juvenis, Neil Peart. Hoje, 7 de setembro, faz 39 anos que Moon the Loon se foi, deixando saudosos e órfãos, todos eles na mesma intensidade. Já escrevi sobre o The Who, minha banda de rock preferida. Desde que ouvi Tommy, a famosa ópera rock, em 1976, não parei mais de admirar o velho Keith, furioso, vascular, técnico e absurdamente talentoso. Um mestre no seu instrumento.

Sim, é apenas uma opinião. Abaixo, é possível ver que tenho razão. A qualidade do vídeo, feito há 43 anos, não é grande coisa – mas o som é. Se alguns de meus seis ou sete leitores desconhecem a grande arte deste senhor abaixo, é o momento de ser apresentado. Com vocês, Keith Moon.

P.S. Moon the Loon, ou Moon o Lunático, foi um apelido gerado a partir das maluquices que Keith produzia com e sem a bateria.

O Melhor do Jazz #1: álbuns ao vivo

Entendem de propostas tão desafiadoras quanto perigosas? Pois meu amigo Lucas Lessa, músico e contumaz apreciador do jazz, além de frequentador do Ipsis Litteris, fez-me uma – qual seja: listar os melhores discos de jazz que conheço (e possuo). Não é fácil. Listas têm, de um modo geral e na visão da maioria de quem as lê, pouca utilidade, já que refletem exclusivamente a forma particular de avaliar um objeto. Por outro lado, divertem, principalmente a quem delas discorda. Quando digo que não é fácil listar os melhores discos de jazz, refiro-me principalmente ao número de exemplares. Como sou o dono e senhor deste espaço, vou me limitar a quatro listas de 5 discos. A primeira é de discos ao vivo. E agradeço ao Lucas por me estimular a fazer isso.

Este é, para mim, o melhor dos que conheço. The Greatest Jazz Concert Ever faz justiça ao título. Não somente porque reúne cinco gigantes do jazz, entre os melhores em seus instrumentos, mas também pelo repertório mesclando clássicos (Jerome Kern, Monk, Juan Tizol e Gillespie) e pequenas obras-primas de Denzil Best e Tadd Dameron. Mas quem são esses gigantes? Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus e Max Roach. O disco, ao vivo no Massey Hall canadense, reuniu originalmente o trio Powell-Mingus-Roach. Os sopros – Parker improvisando num sax de acrílico – entram depois. Sensacional! Atenção especial para Salt Peanuts e Perdido. É possível ouvir todo o disco AQUI.

Sonny Rollins é o melhor saxofonista tenor vivo. É um melodista de primeiríssima linha, de sopro robusto e firme. Só sua presença já bastaria para abrilhantar este disco, mas há outros brilhos neste show: Ron Carter, no baixo; McCoy Tyner no piano e, como diz a locução, o bom amigo Al Foster, na bateria, excepcional. The Milestones JazzStars é dos grandes discos ao vivo que conheço. A compreensão que os músicos têm um do outro é algo que beira o sobrenatural. McCoy Tyner, que acompanhou Coltrane por anos, e que foi sua cozinha harmônica durante esse tempo, envolve-se com a sinuosidade melódica de Rollins como se tivessem sido parceiros por décadas. E sobre Ron Carter, bem, um comentário basta: está entre os melhores no contrabaixo. Dá para ouvir a primeira faixa, The Cutting Edge, AQUI.

Junte o pianista Dave Brubeck e sax barítono Gerry Mulligan e você ouvirá grandes discos de jazz. Mas este, em especial, que traz gravações antológicas dos três blues: St. Louis, Limehouse e Basin Street. O trio de Brubeck é composto por Jack Six, no baixo, e o sempre excelente Alan Dawson, na bateria. É um disco fenomenal, transpirando energia e vigor. Já escrevi sobre Brubeck, aqui, no Ipsis Litteris. Considero-o um dos melhores pianistas, embora a maioria não pense assim. Gerry Mulligan não tem rivais no sax barítono – tornou-se uma referência nesse instrumento. E embora eu prefira Joe Morello na bateria, Alan Dawson está absoluto neste disco. Ouça Basin Street Blues AQUI.

Para muitos, Bill Evans é o maior pianista do jazz. Não sei. A concorrência no piano é grande, mas isso não importa muito. Este domingo no Village Vanguard, templo legendário do jazz, fica na história por um fato. Agora, sim, é o melhor disco ao vivo desse enormíssimo pianista. Ladeado pelo sempre excepcional Scott LaFaro, no baixo, e Paul Motian, na bateria, as 6 faixas do disco original (no cedê há mais 4, feitas de alternate takes) são executadas sem que haja risco de o mais sisudo crítico não apreciar. É um domingo para ficar para sempre. O disco original está AQUI. E não deixe de ouvir algumas dezenas de vezes Alice in Wonderland.

Jazz at The Plaza é o único disco ao vivo em que Miles Davis e Bill Evans se encontram. Seis meses após a edição do memorável Kind of Blue, o sexteto de Miles (Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e Jimmy Cobb) se apresentou no Hotel Plaza, um local impróprio para o jazz. Aliás, o local se destinava a uma festa da gravadora Columbia – e o som da apresentação foi gravado. Ainda bem! São 40 minutos de ótimas performances de todos os integrantes. Coltrane e Cannonball, tão afiados quanto necessário, são um show à parte. Para mim, é o melhor disco ao vivo do grupo de Miles – incluindo as apresentações europeias dos anos 1950 e 1960. Todo o espetáculo AQUI.

 

Caetano Veloso, um site

foto de divulgação do livro "Caetano: uma biografia: a vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos" ATENÇÃO: Devido à cláusula contratual entre o escritório do Caetano (Uns Produções, comandado pela Paula Lavigne) e a editora Pensamento Cultrix, é preciso publicar o crédito abaixo de forma integral: Pág.8: "Caetano em sua casa, em 1982, © Thereza Eugênia" ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***Caetano Veloso é um dos grandes letristas da MPB – se não for o maior. E Chico Buarque? Meu xará, penso, é mais poeta, mais lírico, gênio absoluto. E quanto a Gilberto Gil? Um craque da metáfora, sem dúvidas, capaz de tecer analogias impensáveis entre termos aparentemente inconciliáveis. Outro gênio. Belchior, Noel e Aldir Blanc rivalizam com o baiano Caetano, mas em alguns momentos específicos. No todo, acho que Caetano leva vantagem. Mas – pergunta-me meu sexto ou sétimo leitor – para que comparar?

Muito se escreveu sobre Caetano, e incluo aí a biografia recente – Caetano, uma Biografia: A vida de Caetano Veloso, o Mais Doce Bárbaro dos Trópicos – que ele próprio considerou mal escrita. Ainda não li, mas lerei em breve (e escreverei sobre isso). E por falar no assunto, lá vai: você, leitor, conhece Evangelina Maffei? Eu também não conhecia, mas é uma argentina, alucinada por música brasileira, autora de um blogue/site pra lá de completo sobre Caetano. Caetano Veloso…en detalle. Muita coisa, e sobre tudo aquilo que o envolve: festivais, apresentações, biografia, agenda, encartes, textos, discos, entrevistas. É mais completo que o site oficial do compositor.

Sensacional para quem é fã e mais sensacional ainda para quem quer conhecer por que Caetano Veloso é quem é.

AQUI você pode se regozijar.

Naipaul, o simples?

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Vou afirmar sem dó: se você, sexto ou sétimo leitor, ainda não leu V. S. Naipaul, leia. É esse senhor aí de cima. Não é badalado, é pouco conhecido, embora tenha tido seu primeiro livro – Os Mímicos – publicado há exatos 30 anos, no Brasil, pela Cia. das Letras. Só para constar: o V é de Vidiadhar e o S, de Surajprasad. A pronúncia é desnecessária: fique com as iniciais. Mas fique mesmo com o conteúdo dos livros, obras que parecem resumir aquele axioma proposto pelo jornalista Telmo Martino: tudo o que é fácil de escrever é difícil de ler – e vice versa. Sim, é o caso desse tobaguense de origem indiana que é Sir, e justamente por isso escreve em inglês.

Resultado de imagem para v s naipaul os mímicosEu li Os Mímicos de uma tacada, logo que saiu. Reli-o no começo deste ano, trinta anos depois. Foi uma experiência boa: nem eu nem o livro somos os mesmos. A cada página relida, uma lembrança de como esse livro me impressionou, seja na forma de sua concepção, seja na temática, implacavelmente comum: o intelectual inseguro, ex-ministro de uma ilha caribenha imaginária, mostra-se estrangeiro envolvido com tudo aquilo que uma cidade grande (Londres) pode oferecer de bom e de ruim – e incluem-se aí as mulheres. Há, claro, um retorno à infância, como etapa essencial ao molde maduro, carregada de humor refinado aliado a doses de melancolia profunda e aparentemente sem muitas consequências. Só aparentemente.

V. S. Naipaul é um mestre, pode apostar. É herdeiro dos grandes escritores ingleses e norte-americanos, em especial William Faulkner e Grahan Greene, os quais, segundo ele, leu com avidez de quem queria se tornar um verdadeiro escritor. Domina os adjetivos como poucos escritores que conheço – e não os teme, como a maioria dos criadores contemporâneos, que enxergam na adjetivação uma falha no enxugamento textual. Naipaul abusa deles com talento e frequência. Escolhi como exemplo o texto Os Mímicos, mas poderia ter-me atido a Guerrilheiros ou Uma Casa para o Sr. Biswas (obra-prima sobre a colonização inglesa em Trinidad e Tobago), dois ótimos romances.

Resultado de imagem para uma casa para sr, biswasLembro-me de, à primeira vista, com o romance às mãos, há 30 anos, ter dito a mim mesmo que Trinidad e Tobago não me interessava como cenário. O que poderia ser dito sobre uma ilhota próxima à Venezuela que não beirasse o excentricismo e a caricatura? Pois fui obrigado a engolir o preconceito logo nas primeiras páginas de Uma Casa para o Sr. Biswas. Embora o texto se passe na capital inglesa, Trinidad está dentro da personagem central, gigantesca e eterna, com todas as suas complexidades de colônia. Um texto cômico, marcado pela compaixão e, acima de tudo, pelas palavras na hora certa, exatas, no lugar adequado. Uma aula de como escrever.

Bernstein aos 99

Outra anedota do mundo da música clássica. Leonard Bernstein, o maestro norte-americano, foi ao Konzerthaus Berlin assistir à regência da Quinta de Beethoven, por Herbert von Karajan, que regia a Filarmônica de Berlim. Após o espetáculo, grandioso e essencial, os dois maestros se encontram. Os gigantescos egos de ambos eram notórios, comentados por todos aqueles com quem trabalharam. Karajan, aplaudidíssimo e cheio de pompa depois de uma regência impecável, volta-se para Bernstein e afirma: “Leo, hoje, a orquestra foi praticamente regida por Deus!” Leonard, não menos vaidoso, devolveu-lhe: “Por mim?”

A anedota explica bem a postura de Leonard Bernstein diante do mundo – uma postura altiva, autossuficiente, plena de segurança. Morreu num dia 25 de agosto, aos 72 anos – dos quais 50 foram dedicados a fazer da música algo maiúsculo, essencial. É evidente que muitos, antes dele, fizeram isso com e para a música, mas quem, com tanta paradoxal generosidade? Seus ensinamentos, sua lógica musical e sua dedicação à arte foram elementos definidores para aqueles que o seguiram, sejam discípulos fiéis ou admiradores contumazes. E por que não dizer que ele foi generoso também com a Filarmônica de Nova Iorque – antes dele sempre posta em segundo plano, atrás de orquestras como as de Boston ou Chicago?

Foi Leonard Bernstein que elevou os ânimos, deu à orquestra uma nova face, um dinamismo ainda não empenhado no grupo. E há quem diga que essa transformação foi rápida, algo incomum para o métier. A generosidade, entretanto, não para aí. Talvez a grande contribuição do maestro tenha sido na seara da educação. Usando o meio televisivo, muito eficaz e rápido, deu vida a projetos como Omnibus, New York Philharmonic Young People’s Concerts e Leonard Bernstein presents…, programas que tinham como objetivo estimular ainda mais aqueles que se dispunham a ouvir. Aos interessados, era um poço sem fundo de prazer e conhecimento. Aos que desconheciam a música, uma oportunidade para sair da escuridão.

AQUI, AQUI e AQUI você testemunha o trabalho desse senhor – um educador.

P. S. Já ouvi a anedota do início da postagem com os mesmos personagens, mas em papeis trocados.

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