Paul Newman morreu mas deixou impressos ali, no nitrato de prata, dois filmes que se completam e que, imortalizados, mostram por que o ator - junto a Marlon Brando e James Dean - tornou-se ícone de beleza e de talento dramático. James Dean, claro, está alguns degraus abaixo, até porque não teve tantas oportunidades de mostrar seu talento. Diferentemente dele, Paul Newman virou ídolo porque viveu o suficiente (83 anos) para imprimir, no tal AgNO3, todas as possibilidades dramáticas que fizeram dele uma das marcas do cinema. Se quiser comprovar, dê uma checada em Gata em Teto de Zinco Quente, Golpe de Mestre e O Veredicto. São 3 atores diferentes, cuja semelhança é apenas física. Não há traços comuns a eles.

Mas não são esses os tais filmes a que me referi no início da postagem. De fato, como afirmei, um completa o outro mas, mesmo assim, ainda há dois Pauls Newmans na pele do mesmo personagem, Eddie Felson, craque da sinuca que, de jovem abusado e auto-suficiente (em Desafio à Corrupção, 1961), torna-se - em A Cor do Dinheiro, 1986 -, um charmoso goslpista que pretende enriquecer em companhia de uma promessa das caçapas: o mané Vincent, interpretado por Tom Cruise. Na verdade o enriquecimento é algo secundário. O que Eddie quer é olhar para o próprio passado e enfrentá-lo. Cruise é seu espelho.

À parte interpretações filosófico-existencialistas que não cabem nesta postagem, esses dois filmes estão entre os melhores exemplos do que Paul Newman é capaz. Se a arrogância, o talento para encaçapar e o charme de Eddie são os trunfos do personagem em Desafio à Corrupção, esses mesmos elementos tornam-se secundários (exceção para o charme) quando a terceira idade mostra sua maldição. É preciso, então, burlar o terrível destino e mostrar-se potente, incansável, ereto. É o que A Cor do Dinheiro ensina, de forma cínica e irônica, a quem quiser aprender. E ninguém - acredito que nem Brando! - saberia fazer melhor esse papel que Paul Newman. Pacino? Falta-lhe altura, dirão alguns.

Há outras “duplas” de filmes estrelados por Newman. Golpe de Mestre e Butch Cassidy, por exemplo, são entretenimento puro, e de qualidade. São charmosas histórias de transgressão e anti-heroísmo que cativam os espectadores e posicionam-nos ao lado do bandido, debochadamente solidários. E a presença de Redford, também luminosa, compõe aquele painel perfeito (e completo) que somente o cinema é capaz de expor. Esse mesmo cinema que Paul Newman nos apresentou e que, numa certa medida, resumiu. Descanse em paz.