Benedetto
Há uns bons vinte anos chegou-me às mãos um exemplar de Los Suicidas, uma novela de sentenças curtas que, de imediato, geraram-me desconfianças. Sempre desconfio de narradores que evitam conectivos de toda ordem, aqueles que contam histórias de forma pausada, de má respiração. Escritor tem de ter fôlego, como se mergulhador fosse. Mas há, claro, exceções: o norte-americano Barthelme é um. Antonio Di Benedetto, autor argentino, é outro. Leio que finalmente chegam ao Brasil, em língua pátria (nossa), os livros O Silencieiro, Mundo Animal e Outros Contos, Zama e o citado Los Suicidas. Dos quatro, confesso, conheço apenas dois, mas isso é mais do que suficiente para entender que a Argentina, em termos literários, parece ser protegida por uma entidade superior - que alguns chamam de Deus, se é que Ele é chegado às letras. Deve ser.
 
Los Suicidas é de 1968. É um texto noir, um tanto freudiano, em que um jornalista, encarregado de investigar três suicídios, volta-se para o suicídio do próprio pai. É uma narrativa aparentemente simples, um tanto melancólica, mas com passagens bem-humoradas. Na contracapa da edição castelhana, há uma menção curiosa: o texto teria densas doses autobiográficas, já que vários membros da família de Benedetto eram chegados ao suicídio.

Zama

Zama, livro de 1956, é outro papo. É um romance histórico, cujo ambiente é o Virreinato del Río de La Plata, hoje Paraguai. E é justamente dali que o personagem central - Diego de Zama, funcionário da Coroa Espanhola - quer sair, mas não consegue e a narrativa concentra-se justamente nisto: na espera, que o consome tanto física e econômica quanto moralmente. O interessante do livro (que neste momento folheio e de cuja leitura me recordo) é que Benedetto despreocupou-se com a linguagem da época ou com as descrições ambientais. O que vale é a angústia do protagonista, sua dor pela distância da família e a desesperança em relação ao mundo.

 Antonio Di Benedetto sofreu com a ditadura argentina. Em 1976 foi preso, torturado, submetido a pressões durante um ano e meio. Ao sair, refugiou-se: Espanha e EE.UU. Retornou em 1985, um ano antes de morrer, a seu país natal, a Argentina que tanto amou e da qual sempre se orgulhou, mesmo em épocas tenebrosas. Sua trajetória não é muito diferente da vida de alguns escritores brasileiros que sofreram com a opressão. Mas, no quesito literatura, é.