Buk9Citado na postagem anterior, resolvi que era hora de falar em Charles Bukowski, herói de uma geração inteira de leitores que viam cada lançamento da coleção Circo de Letras, da Brasiliense, como um capítulo bíblico. Era o coração dos anos 80, o país deixara para trás os tempos militares, e a “abertura”, iniciada em fins dos anos 70, atingiu a literatura.Falo de Bukowski, Charles, poeta e escritor que, cá entre nós, não era dos grandes. Estava longe de ser do primeiro time, até porque não era um craque com as palavras. Tornou-se ícone muito mais por aquilo que dizia e não pela maneira como estruturava seu texto - o que, geralmente, é o que interessa à boa literatura. O que dizer é importante, mas “como” dizer é a verdadeira essência.

Seu personagem Henry Chinaski (assumidamente autobiográfico) era desleixado (ou fingia ser), iconoclasta, amava prostitutas e bares fedorentos, não dava a mínima para o stablishment, vestia-se como um vagabundo, tomava quantidades diluvianas de vinho barato e escrevia poemas pornográficos. Que leitor, aos vinte e poucos, não admira um personagem nesses moldes? Li Mulheres de uma tacada, num fim-de-semana, e achei o máximo. Hoje não acho mais. Depois li Cartas na Rua e, em seguida, Factotum, dois textos feitos à base de frases curtas, picotados, como se o próprio narrador se indispusesse com as conjunções. Sempre desconfio de narrativas assim. Também li a coletânea de contos Crônica de Um Amor Louco, mas aí eu já estava cheio de reservas. Prefiro o filme: Ornella Muti está nele.

CartasruaBukowski ganhou muito dinheiro: jorraram traduções de seus livros, transposições para quadrinhos, adaptações para cinema, tudo o que um escritor pode desejar. Participou de eventos em universidades, sua obra foi vastamente estudada, e a grana dos direitos autorais entrando cada vez mais. Mas ele tinha uma imagem underground que precisava ser mantida, sob pena de trair os leitores que apreciavam mais sua atitude do que sua literatura. E assim foi. Morreu aos 73 anos, de leucemia.