Edward Hopper & a poesia

Se Sam Peckinpah estrela de uma postagem recentíssima foi chamado por mim de poeta da violência (mesmo sendo cineasta), Edward Hopper, um dos meus pintores favoritos, é o poeta da solidão. Espero que meus sexto e sétimo leitores compreendam que a poesia pode estacionar em qualquer arte e fora dela. Sabem também, claro, que a poesia (também) está em quem olha e vê, e não somente em quem a presumivelmente produz. Falemos, então, de Hopper. Se você nunca ouviu falar dele, deve, ao menos conhecer esta tela, cujo título é Nighthawks, de 1942:

Os críticos diziam que Hopper representava a vida moderna norte-americana, marcada pela angústia da recessão, das guerras e dos conflitos internos. Isso é balela, quase clichê o que resume mal o artista e a obra per si. O olhar de Hopper mostrava o quase óbvio: os sentimentos, os arroubos românticos, o erotismo e o afeto são elementos secundários. Não contam porque o ser humano é um solitário por princípio, está por conta própria: vê a solidariedade e o companheirismo como substantivos distantes, quase nulos. É cada um por si e Deus contra todos.

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Natureza e civilização distanciam-se nas telas de Edward Hopper. Esse novo realismo prioriza os elementos concretos, distantes do elemento bucólico, ao mesmo tempo que, influenciado pelos impressionistas, cria uma atmosfera cuja estética privilegia as mesmas cores e, em muitos casos, as mesmas formas daqueles artistas. A obra acima, denominada Autômato, de 1927, revela tal influência – de Renoir a Pissarro, passando por Manet e Sisley. Todos parecem presentes. Mais do que uma influência, Hopper parece homenagear os grandes mestres. Abaixo, Soir Bleu, de 1914: todos juntos, mas solitários.

Janela do Hotel 1955

Talvez valha a pena saber: a vida de Edward Hopper era monótona, simples. Viajou pouco (esteve na Europa duas vezes, mas nada muito longo), viveu a vida inteira com a mesma mulher que também era pintora e que dava pitacos no trabalho do marido. Viveram com razoável modéstia por opção, possuindo apenas uma casa de campo, que funcionava também como ateliê. É possível que a aparente simplicidade dos seus quadros seja reflexo da forma como enxergava a vida e a si mesmo. Acima, Janela de Hotel, de 1956

Hopper era minucioso. Preparava, durante meses, os esboços para uma nova obra. Pacientemente corrigia o que considerava excessivo. Não era pragmático, mas infinitamente preocupado com a exatidão do que queria expor. Olhar para seus quadros é perceber a poesia que há na combinação entre ambiente, luz e personagem. Um poeta tarimbado poderia, claro, criar belas obras transformando em palavras as cenas que Edward Hopper produziu. Resta saber se isso é realmente possível. Capturar a atmosfera é talento de poucos — e a atmosfera desse grande pintor não é tão fácil de traduzir. Abaixo, a fera com cara de mau.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira. Pai de 4 filhas.

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