Categorias
autores biografia contracultura escritores jornalismo literatura livros política

12 anos sem Norman Mailer

Numa seara habitada por Truman Capote, Gay Talese, Lillian Ross, Tom Wolfe e Hunter Tompson, destacar-se não era fácil. Pois Norman Mailer não somente se destacou, como foi o melhor do grupo. É o craque máximo do new journalism e um ficcionista de primeira linha, capaz de escrever sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e Os Mortos, clássico) com o mesmo primor estilístico que concedeu à biografia romanceada de Marilyn Monroe. Ou ainda escrevendo sobre uma de suas poucas paixões: o boxe. O livro A Luta, que versa sobre o embate entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, é um primor textual: nada se acrescenta, nada se omite. Fez mais: transformou Picasso em personagem, assim como o fez com o assassino de Kennedy: Lee Harvey Oswald. Em tempo: a obra de Picasso estimulou Mailer a desenhar. AQUI você confirma isso (é só comprar o livro).

O que torna Mailer tão especial? Talvez porque ele consiga algo que muitos escritores tarimbados tentaram, sem êxito: escrever ficção e falar de política ao mesmo tempo. Que eu me lembre, Gore Vidal conseguiu – e só. Provavelmente, após esta postagem ter sido publicada, eu me lembre de outro nome (mas não vou fazer adendos). A Guerra do Vietnam, o feminismo, os conflitos raciais, a relação USA-Cuba, as bandidagens das primárias para presidente, tudo isso era seu assunto, e foi uma espécie de destroçador do american way of life, que ele considerava uma baboseira nociva que precisava sempre ser atacada.

Resultado de imagem para os nus e os mortosNorman não se ateve à literatura, aos livros – ou ao jornalismo. Foi roteirista de cinema, escreveu para teatro e para a televisão, foi ícone contracultural, e despertou o ódio das feministas (e de qualquer pessoa normal) quando uma de suas esposas o acusou de violência: ele a esfaqueou duas vezes (uma estocada no peito e outra nas costas), com uma pen-knife. A propósito: Norman Mailer se casou seis vezes. A esposa esfaqueada chamava-se Adele Morales, pintora de origem peruana, e que morreu 3 anos após o ex-marido.

Hoje faz 12 anos que Norman Mailer morreu. Sinceramente? Acho que ele fez falta como escritor e como jornalista, principalmente durante os anos Obama, com sua dialética refinada e cáustica. Quanto ao governo atual, de Donald Trump, bem, acho que Mailer estaria salivando, pronto para estraçalhar a Casa Branca, demolindo-a, como fez com tudo que merecia demolição.

Categorias
autores contracultura escritores jornalismo literatura livros quadrinhos

Bueno, Contracultura, Cassidy

Eduardo Bueno é um jornalista que sabe escrever, sabe ir além do texto jornalístico e de suas regras de como fazer o leitor entender – muitas vezes o óbvio.  Ir além do texto jornalístico, para mim, é aproximar-se da literatura. Não espere, claro, que eu o compare a Tom Wolfe, a Truman Capote ou ao meu preferido, Gay Talese, craques do new journalism. Se é para iniciar esta postagem com alguma comparação, aproxime Eduardo Bueno de Ruy Castro, de Fernando Moraes. Devo dizer que esse não é o propósito deste texto.

Li, há pouco mais de dois meses, Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, do dito cujo. Uma reunião de textos – quase todos ótimos – sobre um tema que me interessa: contracultura. Escrevi sobre isso na biografia Os Mamíferos…, mas não é sobre mim que quero falar. Contracultura não é tema explorado há pouco tempo. Contracultura é, evidentemente, algo tão antigo quanto a cultura per si. O Iluminismo foi contracultural, bem como o Modernismo, catapultado pelas vanguardas que a Europa gerou. Enfim! Eduardo Bueno reúne textos que publicou entre 1984 e 2010, e mais um texto inédito, intitulado Quatro Mil Dólares e uma Ponta.

A maioria dos leitores de Bueno – aos menos aqueles que conheço – tiveram contato com ele pelos livros publicados pela Estação Brasil. Livros de História escritos por um jornalista – quer algo mais contracultural? Ao contrário deles, cheguei a Bueno através do livro Alma Beat, no qual se encontravam textos de outros simpatizantes do movimento, como Claudio Willer (tradutor de Lautreamont) e Antonio Bivar. Todos bons de traço, mas Eduardo Bueno era mais rock and roll, mais ácido, e tão divertido quanto esclarecedor. Eu tinha 22 anos, já era professor e pude ver o quanto eu não sabia – e quanto era necessário aprender!

Voltando ao livro: de todos os textos (16, ao todo), sem contar as crônicas, o que mais me chamou a atenção foi Visões e Revisões de Jack & Neal, escrito e publicado há 10 anos, no qual Bueno apresenta o tom de beatitude que exsudava da figura de Neal Cassady, um dos heróis da geração beat. É nesse texto que Bueno parece se emocionar, parece entregar-se ao que o movimento tinha de mais verdadeiro e honesto, mais inquieto e pujante. Há muito mais a dizer, mas um blogue precisa economizar as palavras, ou não será lido. Ok, não precisa perder seu tempo, mas ganhe de outro lado: leia o livro de Eduardo Bueno. É uma viagem de ida da qual não é necessário voltar.

Categorias
biografia cantores contracultura discos escritores jornalismo livros MPB política

Para Caetano, com amor!

Acabei de ler a biografia de Caetano Veloso: a desautorizada, para a qual ele, o biografado, havia, anteriormente, dado o ok. Após a decisão do STF sobre a censura a biografias, o livro veio a público. Caetano já havia escrito, par lui-même, sua história: Verdade Tropical, que li com avidez, urgência, em 1998. Nem quis ler as modificações, enxertos a meu ver desnecessários, feitas vinte anos depois, quando relançaram a obra. Não me interessa. Fico com o texto original. Dessa vez a coisa muda: não estando o próprio biografado no controle da situação, espera-se que se exponham fatos que não vieram a lume – ainda.

Caetano acha que o livro é mal escrito. E sobre algumas passagens o compositor baiano tem razão. É carregado de clichês, há erros gramaticais, praticamente não tem qualidade literária – mas eis a questão: não é essa a proposta do livro, a meu ver. Os autores – Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco – não me pareceram preocupados em fazer literatura, mas em contar a história de um indivíduo que, para dizer o mínimo, é o ídolo deles. E nesse ponto, detalhar os acontecimentos, explicar atitudes, expor novidades, tudo isso, marcado por um garimpo criterioso e aparentemente honesto, faz com que a leitura do livro seja considerada essencial. Ao menos a quem se interessa pela vida de um dos ícones da MPB.

Meu último livro foi uma biografia: Os Mamíferos -crônica biográfica de uma banda insular. Senti na pele o que é trabalhar com fonte primária, usando as ferramentas disponíveis (jornais, revistas, depoimentos). Havia muito pouco material sobre meus biografados. Os biógrafos de Caetano, no entanto, tinham, diante de si, uma história sedimentada, um artista sacralizado pelo tempo e pela memória, sem contar as inúmeras publicações acerca do protagonista do livro. E o resultado, em termos de pesquisa, é assombroso. É justo parabenizar!

O Caetano Veloso que mais me interessa vive entre 1965 e 1980. Das participações nos festivais à liberdade criativa da Abertura Política, passando pela polêmica do Tropicalismo, pelos shows com Chico, com Bethânia, com os Doces Bárbaros, com a Banda Black Rio, pela inquietude criativa, pelos relacionamentos amorosos – que tanto influenciaram suas composições -, pelos conflitos com a imprensa, pelo cinema, pela caretice em relação às drogas, pelo autoexílio londrino, pelos festivais internacionais de rock (de um deles ele participou), tudo isso está lá, e muito mais, como um documento que serve para compreender quem é Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Sem qualquer indulgência, transpirando honestidade, o livro é definitivo. Pode falar mal, Caetano, mas os autores fizeram uma declaração de amor a você!

Categorias
arte autores contracultura desenho educação mulheres política quadrinhos

O que se quer da Arte?

Lembro-me bem de, na metade – ou um pouquinho mais – dos anos 80, século passado, ter tido acesso às histórias de Paulette, a gostosíssima personagem criada e desenhada por dois Georges – Wolinski e Pichard. Paulette é anatomicamente imperfeita, algo que faz dela uma personagem quase corriqueira, uma prima distante, uma vizinha ocasional. Não poderia, nem de longe, ser uma mulher comum, já que despertou, quando criada, no início dos anos 1970, em terras francesas, repúdio por parte dos bem-comportados e dos moralistas duvidosos. Isso sem falar em sua aparência um tanto gótica e, justamente por isso, tão atraente.

Os tempos eram outros – em tese. Sim, porque foi justamente a involução, o retrocesso, a intolerância radical e a fúria homicida que apagaram das páginas a deliciosa Paulette. Fizeram pior, muito pior: mataram gente inocente cujo papel, na vida e no quotidiano, era fazer arte – e da melhor qualidade. Georges Pichard já não estava entre nós: morrera em 2003, levando seu traço imortalizado, sua capacidade inequívoca de, sinestesicamente, desenhar o sabor feminino. George Wolinski, por seu turno, foi, junto com outros componentes da Charlie Hebdo, vítima de uma ação que me repugna e revolta. Quem não se lembra, há 4 anos?

Paulette serve como metonímia: quantos personagens, a partir de agora, tornam-se malditos porque expressam liberdade, erotismo, tesão? O futuro da arte erótica no país mostra-se numa situação pouco confortável. Aponta-se para perseguições, censuras, truculências, hidrofobias. Em nome de uma moralidade tão questionável quanto frágil, preconceituam-se as atividades artísticas como inimigas da família, vilãs dos bons costumes e adversárias do bem-viver. À arte cabe, também, a transgressão. Não é seu único papel, mas questionar o status quo e as mesquinhas e quebradiças tradições é uma de suas funções. Atiçar o pensamento é seu mote.

Lembrei-me do episódio do Queermuseu, há 1 ano. Houve quem se posicionasse favorável à exposição, e tal apoio foi fundamentado em opiniões que, a meu ver, devem ser levadas em conta. A arte existe porque existe subjetividade. É justamente através da visão pessoal que se identifica o processo artístico, bem como seu valor. Houve, entretanto, uma forma distinta de ver a exposição – e essa forma precisa ser respeitada. O que não se pode respeitar (e, sim, repudiar) é a maneira como se deu o processo dialético: com violência, autoritarismo, força. O mesmo que levou, considerando as proporções, ao extermínio de Paulette. No fim das contas, é a arte levando a pior.

Fica a pergunta: e agora? Para muita gente, o poder público federal legitimará a violência contra artes e artistas que se mostrarem avessos àquilo que eles chamam de bons costumes. Não acredito muito nessa possibilidade. De qualquer forma, vão calar artistas, professores, intelectuais, pensadores, estudiosos? Gostaria muito de obter a resposta para minha pergunta: o que se quer da arte? Sabe responder, Paulette?

Categorias
blues contracultura discos música rock

Bem vivo aos 76

Dia desses me perguntaram sobre qual o melhor disco que rock que conheço. A pergunta é fácil; difícil é a resposta, já que o rock, abrangente em suas modalidades e em número de bandas e gravações, dificulta qualquer tipo de julgamento. Isso, claro, é uma visão pessoal. Creio que alguns de meus 6 ou 7 leitores tenham suas preferências já fossilizadas, trazidas da adolescência – que é quando o rock nos encanta, nos toma por inteiro. Creio que já ter dito isso numa outra postagem. Mas não fujo do desafio: para mim, Abbey Road, dos Beatles, e Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, são o que há de melhor. Sei que alguns vão torcer o nariz: Abbey Road, disco de rock? Não é?

Resultado de imagem para jimi hendrix

Nunca fui íntimo do heavy metal. Alguma coisa do hard rock me agrada, em especial Led Zeppelin, Queen e Aerosmith. O disco ao vivo do Deep Purple no Japão também. Coisa séria, que um adulto pode consumir sem correr o risco de voltar no tempo e sentir-se com 14 anos. O rock progressivo, ao contrário, sempre me foi caro: Pink Floyd, King Crimsom, Yes, Jethro Tull e Frank Zappa, cujo disco One Size Fits All, de 1975, foi-me apresentado no meu aniversário de 16 anos, em 1978. Comecei a jornada pelo progressivo a partir daí. Um caminho feito de paradas, retornos, atalhos. E, por último, o mais importante: minha banda preferida é o The Who. Já mencionei isso.

Mas por que falo de rock e de lembranças, referências? E por que somente o nome de Jimi Hendrix aparece em negrito? Se vivo, o senhor da foto teria 76 anos, mas morreu num dia 18 de setembro, há 48 anos. Para mim, é o maior de todos os guitarristas – e olhe que sou fã de Clapton, que muitos consideram um deus das cordas, e de Jimmy Page, outro monstro -, embora haja uma justa ressalta a ser feita: será que Jimi manteria o pique? Essa é uma questão tão absolutamente desnecessária quanto divertida, embora muita gente leve isso a sério. Para seus detratores, ou para os fãs de outros guitarristas menores, Jimi Hendrix não teve tempo de mostrar que seria eterno. Para mim, este post mostra o contrário.

Jimi fez tudo o que era possível – e o que era considerado impossível, ele deu um jeito. Fez das distorções música para todos os ouvidos. Usou a tecnologia para expressar o som que não se imaginava existir. Foi um inovador, arriscou-se ao máximo em busca do som que queria apresentar – e acabou por influenciar todos (ou quase todos) que vieram depois dele. Poucos fizeram isso na música, e quando afirmo isso levo em conta todos os gêneros. Eu disse todos. Fez blues-rock, rock and roll, hard rock, baladas, country, jazz. Lá no início da postagem falei em Electric Ladyland. Claro que você conhece, mas, se ainda não teve oportunidade, ouça. É o derradeiro álbum de estúdio do The Jimi Hendrix Experience, trio que comportava também Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria). É ouvir para crer. E rezar pela música de Jimi Hendrix, que durará para sempre,

Resultado de imagem para electric ladyland

Categorias
atores cinema contracultura diretores filmes Filmes (re)vistos

Filmes (re)vistos #2: Clube dos Cafajestes

Críticos de cinema não gostam muito de comédias, embora reconheçam que Quanto mais Quente Melhor, de Billy Wilder, seja um dos grandes filmes já feitos. Como não sou crítico, eu gosto – e muito. E mais ainda dos filmes de John Landis, quando este se propõe fazer rir sem sequer passar perto dos recursos do slapstick, ou pastelão. John Landis fez, só para início de conversa, Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers, 1980) e Clube dos Cafajestes (National Lampoon’s Animal House, 1978). Poderia se aposentar com a certeza de dever cumprido. Ambos são protagonizados por John Belushi, o ator iconoclasta e anárquico que aporrinhava todo diretor com quem trabalhava. Com Landis, John Belushi comportou-se porque tinha um rival: o próprio Landis.

Escolho um para rever e comentar: Clube dos Cafajestes parece ser uma comédia para adolescentes – e é. Mas não para adolescentes que ouvem Jota Quest e passam horas e horas nas academias e de joelhos rezando para Youtubers sem graça e sem cérebro. Se você é um deles, esqueça. Tem de ouvir o Velvet Underground e gostar de dormir até tarde.

Resultado de imagem para national lampoons animal house filme

O filme é sacana, despudorado, politicamente incorreto, debochado e esmaga sob o chinelo a própria adolescência que se preocupa em ser exemplo para a família. Daí se perceber que no filme ninguém presta – nem os estudantes certinhos que, em sua maioria, são rancorosos e egoístas. Belushi fala pouco – suas gags são físicas, seja no corpo, seja no rosto de sobrancelhas móveis como lagartixas. Donald Sutherland – um professor de literatura chatíssimo que fuma baseados diários – está impagável. A Festa da Toga – no fim da postagem, como aperitivo –, em que ninguém é de ninguém, é um dos grandes pontos altos de um filme feito para as alturas. Mas o bacana na película é o clima de guerra entre as fraternidades – o que já é uma contradição em termos. De um lado, os ajustados Ômegas; de outro, aqueles para quem eu torço: os Deltas. É o fraque contra o farrapo, e, no final, o farrapo sai ganhando – e, para sedimentar a vitória, destrói o desfile oficial da cidade.

Clube dos Cafajestes não pode passar na Sessão da Tarde. Há cenas consideradas desaconselháveis para menores – por isso ele é reprisado, de vez em quando, nesses corujões da Globo, durante as madrugadas insones. Não está na Netflix. Se estiver, não consegui achar. Se você dorme até tarde, é porque fica acordado durante toda a noite. Ou faça como eu: tenha o filme em casa, em blu-ray, recém comprado – é muito melhor. A propósito: se você não sabe quem é John Belushi, apresento-lhe:

Resultado de imagem para national lampoons animal house john belushi

AQUI, um aperitivo.

Categorias
cinema contracultura filmes Filmes (re)vistos quadrinhos

Filmes (re)vistos #1: Anti-heroi Americano

Gosto de rever filmes, assim como aprecio reler livros, ouvir a mesma faixa do disco repetidas vezes etc. Comentei, há algumas postagens, sobre Quino, o extraordinário cartunista argentino. Também escrevi sobre Milo Manara. Em outras palavras, também admiro os quadrinhos e, no caso deste texto específico, admiro quando os quadrinhos se ligam ao cinema. Não, nada de Marvel ou DC, embora não chegue a desgostar de algumas películas que trazem Batman, X-Men, Superman & O Justiceiro. Como você poderá perceber, vou ao outro extremo para falar de um filme que considero dos melhores que vi nos últimos anos, e que revejo tanto quanto possível: American Splendor, que aqui no Brasil ganhou o título de Anti-herói Americano, criação conjunta dos diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman.

É bom saber: American Splendor é uma revista, um comic book que se fundamenta exclusivamente em fatos quotidianos, na cidade de Cleveland, Ohio. Os autores dessa revista-crônica são o legendário e maldito Robert Crumb e um tal Harvey Pekar, o anti-herói protagonista da película, um judeu depressivo unha-de-fome e amante do jazz que trabalha como arquivista – e por isso é frustrado. Não gosta do que faz e foi abandonado pela esposa que, ao deixar o lar em que viviam, disse não aguentar a vida plebeia. Resolve criar uma revista a partir de um fato solitário: ao organizar arquivos de óbitos, vê-se diante da ficha de um homem que trabalhara durante toda a vida num emprego como o dele. A partir de então, resolve criar uma revista, que se torna famosa e vende como chicletes, mas Pekar continua na mesma, até envolver-se com uma mulher tão esquisita quanto ele, que vê em todos os seres humanos sintomas neuróticos.

Só essa premissa, a meu ver, já valeria uma checada no filme, mas há mais: Harvey Pekar, com a fama, chega a sentar-se por algumas vezes na cadeira diante de David Letterman (sim, o do talk-show que o Jô Soares copiava) – até que os dois se desentendem e esse é o ponto alto do filme. Hilário e o mesmo tempo triste. Tudo isso realmente aconteceu. Pekar existe de verdade – e aparece no filme ao lado do ator que o interpreta, Paul Giamatti. Dessa forma, o filme desemboca na metalinguagem, bem arrumada, irônica, mordaz, por vezes muito engraçada. Giamatti é da safra daqueles atores que se sustentam pela força dramática apenas, e não pela estampa – aliás, ele é feio como um olho roxo e suas caretas expressam sua dor e seu desprezo pelo mundo que, reciprocamente, também o despreza.

O filme se constrói em película e em desenho, como se um fosse continuidade do outro – aliás, é exatamente isso o quem acontece. A técnica vem dos quadrinhos, o enquadramento flui como num gibi no qual não existem páginas viradas. Sempre se volta a elas, pois assim funcionam as boas histórias. Tudo bem: o leitor dirá que isso não é novidade. Não é mesmo. Caso o que importasse aqui, nesta postagem, fosse trazer algo novo a quem quer que leia, qual o propósito de rever um filme? Paradoxalmente, quanto mais o revejo, mais elementos novos observo. Talvez seja esse o real esplendor.

AQUI você vê um trailer do filme.

Categorias
contracultura discos documentário filmes MPB música política

Phono 73: o que (ainda) há de melhor

Não sei se existe um festival, em terras brasileiras, que tenha sido mais representativo que o famoso Phono 73, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, em SP, nos dias 11, 12 e 13 de maio do referido ano. Quando digo mais representativo, claro que aludo ao fato de que, historicamente, essa reunião de grandes artistas influenciou gerações subsequentes, formou opiniões e apontou caminhos. A atual gravadora Universal chamava-se Phonogram, a multinacional holandesa que reunia grandes nomes da MPB, à época. Alguns eram mais conhecidos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho, Ronnie Von, Jair Rodrigues, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, Wanderléa, Hermeto Paschoal e Wilson Simonal. Outros fariam história: Sérgio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner e Odair José. Havia mais.

Imagem relacionadaNão se pode negar – nem se queria, acredito – que a tonalidade política do festival era clara. Em tempos de horror militar (no pós-apogeu do sangrento governo Médici), um aglomerado como esse não poderia ter outra denominação que não fosse reunião de comunistas. O diretor de marketing da empresa, Armando Pittigliani, sabia que tinha ouro nas mãos, mas reconhecia, naturalmente, o perigo explícito nesse tipo de evento. Uma de suas boas sacadas foi reunir todo o grupo numa grande fotografia em cujo pé se inscrevia: Só nos falta Roberto. É bom lembrar que Roberto Carlos recusou-se a participar – tinha seus motivos, e um deles era a aversão a contestações. O que, aliás, era o grande mote do festival. Uma contestação que ia da política à estética, passando pelo comportamento e pela linguagem.

Uma pena que o devedê dure tão pouco: mirrados 35 minutos, uma sobra do que foi o festival, mas, ainda assim, é o registro de imagens únicas, como as de Chico e Gil tentando entoar a emblemática canção Cálice, que só pôde ser gravada cinco anos depois, no famoso disco da samambaia, de Chico. Com os microfones cortados por ordens militares, Chico e Gil criam frases desconexas ao som da melodia. Outra imagem impressionante ficou por conta de Caetano Veloso: ao som de Asa Branca, ele dança como se estivesse possuído; depois se arremessa ao chão, grunhe e canta e geme.

Sérgio Sampaio, ao som de Eu quero é botar meu bloco na rua, simula um coito sexual com um parceiro imaginário. É um registro do que era a época: o desbunde que se misturava à atitude política. Gal canta Comadre Sebastiana; Toquinho, Vinícius e o copo entoam Meu pai Oxalá. Elis Regina foi vaiada – embora não se ouçam as vaias – por conta de ter, anteriormente, se apresentado nas Olimpíadas do Exército. Apesar disso, cantou Cabaré, de João Bosco e Aldir Blanc, e terminou ovacionada e perdoada por um público que reconhecia nela a maior cantora. O áudio digitalizado desse festival teve lançamento anterior: em 1997. As imagens, entretanto, não estavam disponíveis até 2005, quando foi lançada a caixa com os cedês e com o devedê. O título completo da obra é Phono 73 – O canto de um povo. Não sei se o povo teve algo a ver com aquilo, mas deveria ter tido.

Resultado de imagem para phono 73

AQUI você assiste ao que existe de registro desse grande encontro.

AQUI e AQUI você ouve o disco duplo.

Categorias
contracultura livros música

Tropicalismo, 50: dois livros

Cinquenta anos de Tropicalismo. Não é para qualquer um – ainda mais se considerando que ele morre e renasce na mesma rapidez, mesmo sem nunca ter entrado em decomposição. O que isso quer dizer? Simples: por mais que digam que o movimento morreu, em essência ele se manteve vivo e pulsante. Sim, muita gente recusa essa ideia – e isso inclui, em alguns momentos de proposital desatino, o próprio Caetano Veloso, um dos pais do movimento. Dois livros, dentre muitos sobre o assunto, merecem um destaque mais que especial. Um deles, divertidíssimo e ao mesmo tempo esclarecedor, é Marginália – Arte e Cultura na Idade da Pedrada, de Marisa Alvarez Lima, jornalista que privou com os tropicalistas e escreveu artigos para revistas como O Cruzeiro e A Cigarra.

O que há de sensacional e saboroso no livro não é a representatividade teórica do movimento, mas a visão dos envolvidos no processo. O ideal de ingenuidade, aliado a uma poderosa criatividade antropofágica, faz do livro um documento único. Artigos sobre Ligia Pappe, Helio Oiticica, Maria Bethânia, Jorge Guinle Filho, Antonio Dias, cenas (orais e fotográficas) do casamento de Caetano Veloso e Dedé Gadelha, entrevistas com Gilberto Gil, Jean-Pierre Léaud, opiniões sobre os parangolés de Oiticica e muito mais. Muito mais mesmo. Quase 180 páginas de frescor, um certo saudosismo, e uma grande oportunidade de a meninada de agora, que pensa que os rappers são os bam-bam-bans, entender o que realmente é transgressão. Um livro essencial. Um tanto incômodo de manusear por conta de suas dimensões, mas isso é detalhe.

O outro, mais analítico, mais acadêmico e tão fundamental quanto o de Marisa Alvarez, é TropicáliaUma revolução na cultura brasileira, cujo organizador é Carlos Basualdo, curador da exposição homônima e internacionalmente itinerante montada pelo Museu de Artes Contemporâneas de Chicago. O livro não se resume à música ou a textos. As artes plásticas, o cinema, o teatro, o design gráfico, a arquitetura e a moda são temas explorados porque, num certo sentido, foram influenciados pela estética tropicalista que, por si, já é uma releitura do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, em 1928. Assim como tal manifesto, o Tropicalismo encara criticamente a realidade cultural brasileira.

É um livro abrangente: textos da professora Flora Süssekind, da ensaísta (e também professora) Ivana Bentes, do pesquisador Celso Favaretto, do antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna, muitas fotografias, muito registro de época, boas discussões acerca da influência do movimento no que se pode chamar de cultura brasileira. Um trabalho de fôlego, com opiniões de gente indiretamente envolvida no Tropicalismo, como Augusto de Campos, Augusto Boal e Glauber Rocha. Se quiser saber sobre o que se fez, dentro e fora do movimento, é bom ler esse livro. É o máximo em informação, embora se dê pouca atenção à história cronológica do que se fez, à época. Para isso, recomendo um livro de 20 anos, completos agora: Tropicália – A História de uma Revolução Musical, de Carlos Callado. Vale a pena também.

Continuo ouvindo os tropicalistas. Mantenho, em vinil, todos os discos que adquiri no início dos anos 1980, quando o movimento tinha deixado de sê-lo fazia uma década. Continuo consumindo o rock dos Mutantes, continuo firme e reverente a Caetano, Gil e Gal. Sempre que posso revisito os arranjos sobrenaturais de Rogério Duprat e leio os textos jornalísticos e poéticos de Torquato Neto. De Tom Zé sempre desconfiei, mas isso é outro papo. Eis os principais responsáveis por esse senhor de 50 anos, tão vivo quanto uma criança, pronta para viver muito mais tempo:

Categorias
autores contracultura escritores literatura livros

Mais ausentes: Arreola, Brautigan

Juan José Arreoladeu as caras por aqui, no Ipsis. Mas por que retorno a ele? Pelo mesmo motivo que me fez escrever sobre Donald Barthelme, há poucos dias: a ignorância das editoras brasileiras em relação a alguns autores essenciais. Essenciais a quem? Eis a questão. É difícil afirmar que um determinado autor é mais representativo do que outro, exceto quando é uma assertiva óbvia. Tolstoi é mais importante que Rubem Fonseca? Sim. E assim por diante. Mas não é esse o ponto. A questão reside na dúvida: por que Juan José Arreola, assim como Barthelme (e outros), é praticamente autor inédito no Brasil?

O advérbio em itálico se faz necessário, já que em 1969 veio a público a edição de Confabulário Total, uma reunião de seus contos até 1961. Depois disso, até onde sei, somente em 2015, uma edição menorizada desta obra-prima chega aos olhos dos brasileiros. Arreola, mexicano, tão importante quanto os conterrâneos ilustres e justificadamente badalados Juan Rulfo e Carlos Fuentes, não escreveu muito literatura – e nem precisava mais. Já havia escrito o suficiente para eternizá-lo. Tem uma novela (La Feria, 1963) e Palíndroma, 1971. Não li nenhum dos dois – ainda. Os livros Bestiário, Confabulário, Vária Invenção e Prosódia estão – ainda bem! – em Confabulário Total, o que faz deste livro uma avis rara.

Outra figura ausente nas traduções para o português é Richard Brautigan, ícone contracultural, escritor de primeira – mas não de fácil leitura (não foi, para mim). Para não dizer que nada existe dele editado no Brasil, há uma edição de Pescar Truta na América feita pelo saudoso José J. Veiga, ed. Marco Zero, 1991. Diferentemente da prosa de Arreola, algo poético e que beira o real-maravilhoso, a prosa de Brautigan assemelha-se a um pesadelo, um emaranhado de imagens conectadas de forma aparentemente aleatória, mas só aparentemente. É uma aventura intelectual e emotiva lê-lo. Um convite a tirar os pés do chão e sair num voo cego, como ele mesmo faz. Não, meu sétimo leitor, não estou exagerando. Tenho dele A Confederate General from Big Sur, Dreaming of Babylon e o ótimo The Hawkline Monster, um faroeste contemporâneo. Quer saber? Já pensei em me aventurar na tradução, mas desisti. Não me sinto apto.

Richard Brautigan suicidou-se aos 49 anos. Não aguentou a mudança de temperatura: se nos anos 1960 foi aclamado como um deus literário por uma juventude transgressora e pacifista, na metade da década seguinte experimentou o ostracismo, foi deixado de lado, viu a fama expirar. Entupiu-se de álcool e, vivendo sozinho, após uma série de casamentos fracassados, atirou contra a própria cabeça. Foi encontrado um mês depois, o corpo decomposto, algo bastante contraditório com sua prosa, quase zen budista, alegre, adolescente (no bom sentido), mas seca como um parágrafo de Hemingway. É uma ausência sentida, em todos os sentidos. Ei-lo: