Seinfeld versus Friends

Rendi-me à Netflix. Vale menos do que se propaga, mas, ainda assim, merece uma checada. A parte boa: além de algumas boas séries (a maioria sugerida por meus alunos), há Seinfeld.  Sim, ele mesmo, com os deliciosos microcapítulos de Comedians in Cars Getting Coffee e Jerry Before Seinfeld. Só isso já valeria ficar em frente à tevê. Vasculhando mais, encontrei a série Friends, completinha, sem pôr nem tirar. Mas por que falo isso? Eu explico.

Não sei quem disse que, daqui a 100 anos, os americanos serão reconhecidos por 3 elementos básicos: a sua Constituição, sintética e eficaz, o jazz e os filmes de faroeste. Eu diria 4: as sitcoms, as comédias de costumes de 25 minutos que, de uma forma inequívoca, demonstram o que os ianques pensam e como agem. É claro que todo o mundo conhece Friends, que a cada episódio fazia um balanço do dia-a-dia de seis amigos – homens e mulheres, em igual número – na atribulada New York dos anos 90. Das piadas de Chandler à beleza refulgente de Rachel, os amigos faziam rir – ainda fazem, em reprises – com seu humor ligeiro e em alguns momentos piegas.

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O sucesso de Friends não residia somente no seu timaço de vistosos atores/competentes humoristas, mas principalmente nas resoluções alto-astral de cada episódio. Assistindo a Friends, aprende-se sobre solidariedade, sobre lealdade, carinho, confraternização e amizade – tão caros nos dias de hoje, e mais raros ainda em cidades grandes, onde reina o pessimismo e onde o egoísmo é carta marcada. É algo cristão. O título é apropriadíssimo: nada é tão importante quanto os laços que nos unem a pessoas de origens distintas que invadem nossa vida e fazem dela algo mais fácil de suportar. Eram doces, todos eles – cada um a seu modo. Muitas vezes a taxa de glicose superava o limite tolerável, mas a desmiolada Phoebe e o medíocre ator Joey (com sua charmosa burrice) seguravam o barco – e não deixavam que ele afundasse. Seinfeld, a meu ver, trabalhava na contramão, e talvez esse seja seu mais precioso segredo.

Jerry Seinfeld fazia o papel de si mesmo, um judeu com cara de passarinho. Nem bonito nem atlético, o meia-idade Jerome era o exemplo do politicamente incorreto. Daí seu charme transgressor e sua empatia com um público que desejava muito silenciosamente que o mundo acabasse. Vivia num cubículo e frequentava um coffee-shop decadente, ponto de encontro de um grupo tão heterogêneo quanto engraçado. Jerry era um humorista bem-resolvido, mas não tão bem-sucedido, seus pais eram neuróticos, muitas vezes chatos, e ele os amava mais quando estavam na Flórida, a milhares de quilômetros. Tinha 3 amigos tão politicamente incorretos quanto ele: o baixo, calvo e complexado George Costanza; a pequena, inquieta e interesseira Elaine Benes, e o incompreensivelmente alucinado Cosmo Kramer.

Quem lhes cruzasse o caminho era invariavelmente chicoteado pela mordacidade das piadas cáusticas, pela falta de solidariedade, pelo desprezo por aquilo a que nós chamamos raça humana. Ninguém era poupado, nem eles mesmos. Com frequência, George sentia-se satisfeito por ver Jerry em apuros. Os deboches direcionados a Elaine eram constantes. Kramer não era levado a sério: suas idéias mirabolantes e sua capacidade de raciocínio confundiam a todos – os espectadores inclusos. Mas a incorreção política desses 4 cavaleiros do fim-do-mundo constituía seu patrimônio maior porque nos fazia rir daquilo que estávamos – e sempre estaremos – impossibilitados de fazer: não obedecer a essa neurose carregada de regras – muitas delas idiotas – que invade o Ocidente e faz de nossa sociedade um grupo de caretas. Infelizmente – ao menos por enquanto -, os capítulos de Seinfeld não estão disponíveis na Netflix.

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Muita gente vai dizer que não se pode comparar Friends com Seinfeld. Pode ser. Mas convém lembrar que ambos conheceram a estratosfera do sucesso nas comédias de costumes, e fizeram o mundo rir. Têm, portanto, algo em comum, inclusive o fato de que sobrevivem apenas na memória e nos revivals. E, no caso de Friends, na Netflix. E como se diz por aí, se há algo em comum, a comparação é inevitável. Ok, evitemos. Então fale você. Se você tem canal por assinatura, dê uma checada nos 2 sitcoms e diga a verdade: em qual você preferiria estar?

 

About the author

Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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