Quem ouve Jazz?

O jazz está quase virando clichê – e isso é bom ou ruim? Escrever sobre jazz é algo que sempre me trouxe uma inequívoca satisfação, comparável somente ao saborear auditivamente algo do gênero, de preferência o piano, o saxofone, o trompete, a grande orquestra. Em segundo lugar porque essa iniciativa seria impensável há trinta anos, já que poucos eram os estudantes que se interessavam por um solo de Sonny Rollins ou pelas acrobacias cerebrais de Earl Hines. Aliás, não havia muito interesse porque o desconhecimento grassava. Lembro-me de no início dos anos 1980, eu e alguns amigos às voltas com os bolachões e com os divertidíssimos blindfold tests, que consistiam em ouvir um determinado tema no jazz e tentar descobrir, sem qualquer informação adicional, quem o executava.

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Hoje qualquer garoto gosta de jazz – ou pelo menos diz que gosta. Há uma certa aura intelectual no apreciador do gênero. Rock, hip hop e samba são para os amadores e para os adolescentes, afirmam alguns. Música clássica é para os esnobes, dizem outros – que também chegam a afirmar que música gospel é para desinformados que acham que qualquer baladinha que louva a Deus tem o valor do que produzia Mahalia Jackson. Jazz – afirmam quase todos – é música para os inteligentes, para aqueles que se nutrem de harmonias complexas e melodias improváveis, para aqueles que não veem a música como passatempo, como entretenimento nem como tecido de fundo para o namorico ou para a balada.

Alguns de meus seis ou sete leitores provavelmente irão considerar o parágrafo acima preconceituoso. Talvez nem caiba nos dias de hoje, já que a internet, as propagandas de tevê, alguns (poucos, é verdade) programas de rádio e os diversos festivais de jazz pelo Ocidente transformaram a arte de John Coltrane, Charlie Parker e Bill Evans em ingredientes capazes de compor um balaio no qual cabem Odair José, Dietrich Fischer-Dieskau e John Lennon. Não sei se chega a ser lamentável, porque o jazz passa a ser ouvido por uma fatia da população que até então o ignorava.

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Eu fico feliz em saber que muitos de meus alunos conhecem Miles Davis e que curtem o som das orquestras mais afinadas – de Stan Kenton a Duke Ellington. Isso é bom, mas seria melhor ainda que o jazz tivesse mídia, que fosse popularizado, que virasse atração no fim do programa de Fátima Bernardes. Calma, puristas! O que estou dizendo é que se o jazz chegar a aparecer na grade curricular dos programas populares de tevê poderá ser um indício de que as coisas vão pelo caminho certo, e que a difusão do gênero reflete um avanço. Já imaginaram Carmen McRae ter tanto espaço na mídia quanto Anitta? Ou Thelonious Monk e Dizzy Gillespie serem tão conhecidos pelo grande público quanto Alexandre Pires e Xande de Pilares?

Há um problema nisso tudo, penso. Será que o ouvinte de jazz quer essa popularização? Imagina ele que tal condição pode prejudicar a qualidade do produto? Não creio. Acho mesmo é que o consumidor de jazz quer continuar periférico – e aprecia isso. Não quer ouvir o que o populacho ouve, considera-se habitante de outra esfera, consumindo caviar quando a maioria come pastéis na esquina. É ou não uma forma de sentir-se superior? Uma pena, porque quem perde é o jazz.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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