Na contramão: jazz e Netflix

Em tempos de Covid-19 e isolamento, trabalho remotamente – seja como professor, seja como gestor cultural. Vamos em frente. Há, porém, a diversão: brincar com as filhas, cozinhar, ouvir música, ler e assistir a filmes no Netflix. Já mencionei neste blogue, quando falei sobre um documentário sobre o grande Quincy Jones. Está AQUI, disponível, para quem curte música, de forma geral, e jazz, em particular. Quincy é um dos maiores músicos do mundo.

Mas por que citei Netflix e, de quebra, dei a entender que vou, mais uma vez, falar de jazz? Porque nesta semana em que estamos assisti a dois documentários sobre dois dos maiores nomes do jazz: Miles Davis e John Coltrane. Mesmo não sendo um ouvinte do gênero, tenho certeza de que você já ouviu esses dois nomes. Para algumas pessoas, nunca ter ouvido falar neles é como ignorar que existiram, por exemplo, Shakespeare, Mozart, Dante Alighieri. Pode até ser exagero, mas sem esses monumentos – porque é isso que realmente são -, o jazz teria menos vida. Sua biografia não seria tão grandiosa.

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Sobre Miles: o documentário Miles Davis: Birth of the Cool, de Stanley Nelson, é uma beleza estrutural. Se mostra o óbvio (Miles mudou o jazz pelo menos 3 vezes), apresenta-nos um Miles frágil em alguns momentos, principalmente quando ele mesmo não acreditava em sua própria capacidade de reerguer-se, devastado pela heroína e sem fôlego para tocar seu instrumento. Mostra a relação de Miles com as mulheres – não era tão durão com elas quanto se dizia -, com o boxe, com os carrões, com a fama e, claro, com os músicos que sob sua égide formaram pelo menos dois dos melhores grandes quintetos de todo o jazz. Coltrane estava no primeiro. Miles fica como a grande ponta-de-lança do jazz, o inovador. Sem ele, o jazz ficava mais morno.

Uma curiosidade: há um disco de Miles Davis chamado Birth of the Cool, uma obra-prima que inaugura justamente a tendência cool. Miles acompanhado de oito músicos e gravado entre 1949 e 1950. Um discaço com gente do calibre de Max Roach, Gerry Mulligan, Lee Konitz, John Lewis e J. J. Johnson. Esse disco é solenemente ignorado no filme. Não pergunte por quê.

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Sobre Coltrane: o documentário Chasing Trane: The John Coltrane Documentary, de John Scheinfeld, é outra maravilha que precisa ser checada por quem gosta de jazz. John Coltrane é, para muitos, o maior sax tenor do gênero. Deve ser mesmo. O filme mostra como o artista vai-se formando, passando, inclusive, pelo Miles Davis Quintet, depois formando seu próprio time (com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones), até entregar-se às drogas e delas desvencilhar-se por amor à música.

Encontrou sua voz e aprimorou-a, conectando-a ao amor ao próximo e ao louvor a Deus – não, nada a ver com gospel song ou fanatismos religiosos. É algo que extrapola isso. Ouça A Love Supreme e você entenderá. É um retrato emocionado de quem soube emocionar através da música, de quem soube dialogar usando todas as vozes possíveis para tornar este mundo um lugar melhor. Não é fácil traduzir em palavras. Acho melhor você ouvir. O documentário mostra a trajetória desse gênio em apenas 22 anos de jazz. Morreu aos 40, imortalizado.

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About the author

Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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