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O Melhor do Jazz #1: álbuns ao vivo

Entendem de propostas tão desafiadoras quanto perigosas? Pois meu amigo Lucas Lessa, músico e contumaz apreciador do jazz, além de frequentador do Ipsis Litteris, fez-me uma – qual seja: listar os melhores discos de jazz que conheço (e possuo). Não é fácil. Listas têm, de um modo geral e na visão da maioria de quem as lê, pouca utilidade, já que refletem exclusivamente a forma particular de avaliar um objeto. Por outro lado, divertem, principalmente a quem delas discorda. Quando digo que não é fácil listar os melhores discos de jazz, refiro-me principalmente ao número de exemplares. Como sou o dono e senhor deste espaço, vou me limitar a quatro listas de 5 discos. A primeira é de discos ao vivo. E agradeço ao Lucas por me estimular a fazer isso.

Este é, para mim, o melhor dos que conheço. The Greatest Jazz Concert Ever faz justiça ao título. Não somente porque reúne cinco gigantes do jazz, entre os melhores em seus instrumentos, mas também pelo repertório mesclando clássicos (Jerome Kern, Monk, Juan Tizol e Gillespie) e pequenas obras-primas de Denzil Best e Tadd Dameron. Mas quem são esses gigantes? Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus e Max Roach. O disco, ao vivo no Massey Hall canadense, reuniu originalmente o trio Powell-Mingus-Roach. Os sopros – Parker improvisando num sax de acrílico – entram depois. Sensacional! Atenção especial para Salt Peanuts e Perdido. É possível ouvir todo o disco AQUI.

Sonny Rollins é o melhor saxofonista tenor vivo. É um melodista de primeiríssima linha, de sopro robusto e firme. Só sua presença já bastaria para abrilhantar este disco, mas há outros brilhos neste show: Ron Carter, no baixo; McCoy Tyner no piano e, como diz a locução, o bom amigo Al Foster, na bateria, excepcional. The Milestones JazzStars é dos grandes discos ao vivo que conheço. A compreensão que os músicos têm um do outro é algo que beira o sobrenatural. McCoy Tyner, que acompanhou Coltrane por anos, e que foi sua cozinha harmônica durante esse tempo, envolve-se com a sinuosidade melódica de Rollins como se tivessem sido parceiros por décadas. E sobre Ron Carter, bem, um comentário basta: está entre os melhores no contrabaixo. Dá para ouvir a primeira faixa, The Cutting Edge, AQUI.

Junte o pianista Dave Brubeck e sax barítono Gerry Mulligan e você ouvirá grandes discos de jazz. Mas este, em especial, que traz gravações antológicas dos três blues: St. Louis, Limehouse e Basin Street. O trio de Brubeck é composto por Jack Six, no baixo, e o sempre excelente Alan Dawson, na bateria. É um disco fenomenal, transpirando energia e vigor. Já escrevi sobre Brubeck, aqui, no Ipsis Litteris. Considero-o um dos melhores pianistas, embora a maioria não pense assim. Gerry Mulligan não tem rivais no sax barítono – tornou-se uma referência nesse instrumento. E embora eu prefira Joe Morello na bateria, Alan Dawson está absoluto neste disco. Ouça Basin Street Blues AQUI.

Para muitos, Bill Evans é o maior pianista do jazz. Não sei. A concorrência no piano é grande, mas isso não importa muito. Este domingo no Village Vanguard, templo legendário do jazz, fica na história por um fato. Agora, sim, é o melhor disco ao vivo desse enormíssimo pianista. Ladeado pelo sempre excepcional Scott LaFaro, no baixo, e Paul Motian, na bateria, as 6 faixas do disco original (no cedê há mais 4, feitas de alternate takes) são executadas sem que haja risco de o mais sisudo crítico não apreciar. É um domingo para ficar para sempre. O disco original está AQUI. E não deixe de ouvir algumas dezenas de vezes Alice in Wonderland.

Jazz at The Plaza é o único disco ao vivo em que Miles Davis e Bill Evans se encontram. Seis meses após a edição do memorável Kind of Blue, o sexteto de Miles (Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e Jimmy Cobb) se apresentou no Hotel Plaza, um local impróprio para o jazz. Aliás, o local se destinava a uma festa da gravadora Columbia – e o som da apresentação foi gravado. Ainda bem! São 40 minutos de ótimas performances de todos os integrantes. Coltrane e Cannonball, tão afiados quanto necessário, são um show à parte. Para mim, é o melhor disco ao vivo do grupo de Miles – incluindo as apresentações europeias dos anos 1950 e 1960. Todo o espetáculo AQUI.

 

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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