Sarah: a mais completa, em 3 discos

Mais um pouco sobre jazz. Já comentei, aqui mesmo neste espaço, que a Santíssima Trindade do vocal feminino, no gênero, é composta por Ella Fitzgerald, Carmen McRae e Sarah Vaughan. A maioria discorda: dizem que Billie Holiday é mais cantora que Carmen, tem mais charme, mais carisma e é mais afinada. Quanto ao carisma e ao charme, eu não discuto, porque são avaliações pessoalíssimas. Mas parece-me difícil avaliar quem, entre as 4 citadas, é a mais afinada. Eu não sei. Acho que empatam. Deixando de lado, contudo, as comparações (mas contraditoriamente as mantendo), dedico esta postagem àquela que considero a mais completa: Sarah Vaughan, que nos deixou num dia 3 de abril, há 30 anos.

Sarah Vaughan, Birdland, NYC by Herman Leonard on artnet

Difícil dizer qual o melhor disco de Sarah Vaughan. Oficialmente, ela gravou 50 álbuns em estúdio e 8 álbuns ao vivo. Existe pelo menos o dobro disso quando se fala em gravações piratas. Há, contudo, 3 discos que ouço regularmente: Sarah Vaughan, de 1954, acompanhada pelo genial Clifford Brown, no qual brilham faixas como April in Paris, Lover Man e Body and Soul, sem falar na clássica They Can’t Take That Away From Me. AQUI você ouve o disco inteiro. Sarah é a mais versátil: vai da balada marcada por intensos vibratos ao diálogo seco e direto com o trompete de Brown. Atenção especial a April in Paris e Lover Man. Sarah faz de tudo com a voz. Ouça e concordará comigo, tenho certeza.

Sarah Vaughan - Clifford Brown - Sarah Vaughan With Clifford Brown ...

Junte os dois mais completos em suas áreas e você terá um disco irrepreensível. Duke Ellington é o maior compositor do jazz, e Sarah Vaughan, em dois discos, resolveu mostrar ao mundo por que ele deve ser ouvido. Sempre. Coloque no disco Frank Foster e Zoot Sims (sax), J. J. Johnson (trombone) Grady Tate (bateria), Joe Pass (guitarra) e Frank Wess (flauta) e você vai achar que não precisa mais ouvir nada nesta vida. Um grande disco, em dois volumes. Escolhi o primeiro porque nele há Sophisticated Lady, Lush Life e In a Sentimental Mood. Clique nos temas e aprecie. A propósito: Duke não está ao piano. Jimmy Rowles e Mike Wofford revesam. É um disco lento, para ser ouvido com atenção. Ao menos é assim, comigo.

Sarah Vaughan - Duke Ellington Song Book One (1982, Vinyl) | Discogs

O terceiro e último é um primor de gravação, e mostra Sarah Vaughan à vontade com a música brasileira. Há mais 3 discos em que ela expressa seu encanto pela Bossa Nova e pela MPB: O Som Brasileiro de Sarah Vaughan, de 1978, I Love Brazil, de 1979, e Brazilian Romance, de 1987, com Milton Nascimento. Por que escolhi Copacabana? Porque há a gravação de Double Rainbow, a qual conhecemos como Chovendo na Roseira. Só ela já vale a escolha. E ainda há Dindi, e Gentle Rain, em gravações que considero definitivas. Em tempo: Helio Delmiro e Wilson das Neves abrilhantam o escrete que a acompanha, formado ainda pelo baterista Grady Tate e pelo baixista Andy Simpkins. Discaço!

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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