Chico, de volta!

Não é fácil ser Francisco. Pergunte ao religioso Jorge Bergoglio ou ao supercraque Beckenbauer. Após esta vida, se você for parar num lugar agradável, pode perguntar a dois grandes da música: Schubert e Sinatra, mas se seu negócio for poesia, pode abrir diálogo com o excelente poeta francês François Villon. Se quiser manter-se na fé, pode consultar Giovanni di Pietro di Bernardone (aquele mesmo, nascido em Assis). Tenho certeza de que todos, sem exceção, sabem como é difícil carregar esse nome – embora não haja nenhum motivo que caracterize essa dificuldade. Mas posso garantir que não é fácil. Carrego-o há quase 56 anos; não é, todavia, sobre mim ou sobre os meus xarás citados que quero falar. Esta postagem é uma comemoração: Francisco Buarque de Holanda – ou simplesmente Chico Buarque – volta aos palcos. AQUI você obtém as informações necessárias sobre esse evento.

O disco novo, Caravanas, não é grande coisa – para os padrões que ele mesmo impôs à MPB. Visto de cima, à parte e sem comparações com a obra do próprio Chico, é uma beleza: 9 canções que trazem a marca que todo fã de seu repertório busca: a ligeireza vocabular, as metáforas bem armadas, as imagens carregadas de lirismo (sem ser piegas) – a poesia, enfim. Chico é um poeta. O maior que a MPB produziu. A considerar alguns de seus textos, chega a ombrear com Jorge de Lima, com Drummond, com Murilo Mendes, com Vinícius. Não por acaso, todos eles modernos: de olhos, braços e ouvidos abertos sem preconceitos ou intolerâncias.

E por falar nisso, não se pode esquecer: nos últimos tempos, Chico foi jogado aos leões. Não, não. Se você imagina que o motivo seja algo relativo a sua produção musical, esqueça. Chico foi maltratado por quem ignora quem é Chico Buarque, o que ele produziu, o que representou – e ainda representa – para a cultura musical popular brasileira. A razão? ter escolhido um lado político, e neste lado estão Lula, Dilma e outros que se tornaram leprosos bíblicos para uma parcela dos brasileiros. Não entro no mérito sobre culpas, responsabilidades políticas, possíveis falcatruas, tráfico de influência etc. O que discuto é não permitir que alguém tenha escolha.

Apesar disso, Chico está de volta. A foto acima, de 40 anos atrás, fica na minha memória. Conheci seus discos no final dos anos 1970 – década que, aliás, foi muito boa para o compositor. É justamente nesses anos que Chico produziu, pelo menos, cinco obras-primas: Construção, Os Saltimbancos, Meus Caros Amigos, Chico Buarque (aquele, da samambaia, de 1978) e Ópera do Malandro. De quebra, fez Chicocanta, Sinal Fechado (com apenas uma canção de sua autoria) e dois discos ao vivo – um com Caetano e outro com Bethânia. Isso serve como consagração absoluta. Caravanas, o disco recente, não tem o vigor desse Chico setentista, mas ainda é melhor do que a média. Muito melhor.

Pois é. Chico está com 73 anos. Mantém a estatura, continua a produzir e, de vez em quando, escreve romances – dos quais não gosto. Ou, por outra: achei O Irmão Alemão interessante, mas fica nisso. Gosto quando resolve fazer teatro: Gota D’água, Calabar e Ópera do Malandro são sensacionais! Mas é gênio mesmo ali, na canção, na composição, letra e melodia. Não tem rivais. Para ele deve ser fácil ser Francisco. Tivesse eu essa criatividade, também acharia moleza.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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