Tommy, The Who

No próximo 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock, algo estabelecido há 32 anos. Ótimo. A relevância do rock é inequívoca, embora muita gente – incluindo eu – acredite que seja música adolescente feita para adolescentes. O rock não se estabelece na alma adulta – ou seja, não conheço adultos que, em sua maturidade, tenham ouvido o gênero pela primeira vez e tenham absorvido sua estética e seu propósito. Pode ser que algum de meus seis ou sete leitores conheça. O rock nos pega lá na adolescência, quando estamos mais suscetíveis à rebeldia, ao estardalhaço, à contestação. Embora não seja meu gênero de preferência, tenho apreço por alguns artistas e, evidentemente, por algumas bandas. Elvis Presley, Joe Cocker, Jimi Hendrix, Allman Brothers e The Who estão no panteão, no primeiríssimo time. Claro, claro: a subjetividade estabelecendo as normas desta postagem.

Para homenagear este dia tão importante, trago AQUI o documentário The Who: Sensation: the story of the who’s tommy. Sim, em minúsculas, mesmo sendo o álbum em questão uma das obras-primas do rock em qualquer época. Para quem é fã, é um documento e tanto. É a chance de compreender por que algumas canções do disco nasceram desta ou daquela forma. Tenho todas as versões possíveis de Tommy: a orquestrada, a trilha do filme, o álbum original de estúdio e a releitura da peça da Broadway. Pergunto-me quase sempre: será que existiu algum baterista mais técnico e mais nevrálgico do que Keith Moon? Algum baixista de rock rivaliza com John Entwistle? E quanto às inventividades textuais e musicais de Pete Townshend? Sinceramente? Não vejo nada que se assemelhe. Sim, repito: é apenas uma opinião.

Ouvi Tommy pela primeira vez em 1976, quando veio a público a trilha do filme – ao qual assisti, no finado Cine Paz, no mesmo ano. Eu tinha quatorze anos, e não entendi a profundidade messiânica da personagem, nem os delírios e exageros de Ken Russell, o diretor. Mas a música ficou naquele adolescente que dava os primeiros passos no rock, ouvindo Dark Side of The Moon e The Six wives of Henry VIII, de Rick Wakeman, discos emprestados de um querido primo três anos mais velho. Ah, sim, como esquecer a beleza fulminante de Ann-Magret, mãe da personagem central, o menino cego, surdo e mudo Tommy? Mas o que interessa aqui é o álbum. Tommy é uma ópera-rock: a primeira que existiu enquanto conceito e prática. A grandiosidade operística está lá, marcada pela eletrificação dos instrumentos e pela abordagem dramática.

A tendência de um documentário como esse é ser elogioso, condescendente. Não é o caso. Pormenores da vida pessoal de Townshend – principalmente a infância, tortuosa, vítima de abusos – são expostos de tal sorte que torna-se possível compreender por que alguns temas foram direcionados a John Entwistle, co-autor quando o chefão se sentia emocionalmente incapacitado. Há histórias saborosas, irônicas, tristes, sobre algumas das canções. É só checar – assim como não se pode perder a fala de Keith Moon a alguns segundos do fim. Justo ele, que só aparece falando no início e no fim do documentário. Assista ao filme: as palavras, aqui, são um tanto desnecessárias.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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