Darwin, Pedro Xisto, escola

 

A figura acima tem nome: Epithalamium, e foi concebida por Pedro Xisto, poeta pernambucano cujo talento para a visualidade era inequívoco. Foi concretista, aliado dos irmãos Campos, embora não rezasse fanaticamente na cartilha Noigandres. Tenho apenas um de seus livros, Logogramas, encontrado na Livraria São José, sebo carioca da rua do Carmo. Apresentei o poema a meus alunos – aliás, é um exemplo recorrente, que considero necessário à compreensão da estética concretista. Mas por que falo isso? O poema, como é apresentado pelo autor, propõe uma relação entre texto e o mito de Adão e Eva e, de quebra, alude ao formato curvilíneo da serpente como metáfora do mal e da sensualidade.

Chamo a atenção de meus alunos para isso e aproveito, muito despretensiosamente, para perguntar se há criacionistas na sala. Os criacionistas, em sentido amplo, creem que o universo e os seres que nele habitam foram criados por Deus – e ponto final. Respeito-os como respeito aqueles que os contradizem: os evolucionistas. Na verdade, embora tenha sido educado para comungar com a primeira categoria, encaixo-me na segunda. Charles Darwin, para mim, é fundamento.

Li, com certa desagradável surpresa, que o próximo presidente, por meio de seus assessores na área de educação, quer que o Criacionismo seja discutido nas escolas públicas. Quer que seja debatido e ensinado tanto quanto o Evolucionismo o é. Em outras palavras: quer que a escola faça o que a Igreja tem o papel de fazer. Está AQUI, para quem quiser ler. A meu ver, ensinar Criacionismo nas escolas é algo tão grave quanto o contrário: a Igreja querer ensinar física e química aos fiéis. Considero, entretanto, que isso deva ser debatido, de forma responsável, criteriosa. Assim como se ensinam os porquês de vulcões expelirem lava, de aves serem capazes de voar e o que vem a ser a velocidade da luz, deve-se inserir a criança no debate sobre como o ser humano passou a habitar a Terra. Eu disse porquês. Ou seja: apontar fatos incontestáveis, evidências, razões, embasamentos. A fé tem seu importantíssimo lugar – mas não é na escola.

Respeito os criacionistas – como disse, acima -, mas mantenho-me fiel à figuraça aí acima (a barba espessa e o olhar enganosamente vago) e à sua teoria. Não cegamente, porque penso que alguns pontos do que ele escreveu precisam ser repensados, afinal que teoria permanece intocável durante 150 anos? Poucas. Algumas duram até 6 mil anos. A existência de Deus e seu poder criativo, mesmo sem uma comprovação eficaz, é uma delas. Pedro Xisto morreu em 1987. Vivo estivesse, o que diria disso tudo?

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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