21 anos sem João

A morte de João Cabral de Melo Neto chegou à maioridade. Há 21 anos morria aquele que, em minha opinião nem sempre levada a sério, é o maior poeta brasileiro de todas as épocas. Deixa Gregório, Castro Alves, Bilac, Augusto dos Anjos, Vinícius, Cecília e Drummond para trás,  empatados em 2º lugar. Enfim, é opinião. Não vou tecer comentários sobre ele porque, para muitos, qualquer frase acerca desse enormíssimo poeta poderia ganhar ares didáticos. Este blogue não é para isso. Então, vão aí 3 poemas escolhidos, dentre tantos extraordinariamente bem escritos. Escolhi-os baseando-me (repito) no gosto pessoal. Coincidentemente, estão todos contidos no livro A Educação Pela Pedra, de 1966.

A propósito: deixei de fora Morte e Vida Severina. Além de longo, e por isso seria complicado reproduzi-lo aqui, seria covardia com qualquer outro poema – do próprio João, inclusive. O primeiro: solidariedade, coletivismo. O segundo: realidades que se contrapõem. O terceiro: uma aula improvável de metalinguagem. Ave, João!

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.”

(Tecendo a Manhã)

“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma”.

(A Educação pela Pedra)

“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.”

(Catar Feijão)

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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