Dorothy Parker esquecida

Uma conhecida minha, ex-aluna de modos contidos e de bom gosto inquestionável, enviou-me um mail no qual, além de tecer comentários positivos sobre meu livro de 2009, Histórias Curtas para Mariana M, afirmou que estava lendo a edição dos Contos Completos, de Clarice Lispector, assunto de uma de minhas últimas postagens. Embora admiradora da escritora ucraniana, concordou comigo: falta às suas boas histórias o bom-humor. Comentei isso na postagem também. Afirmei, no reply, que a Sra. Lispector é séria demais e, a meu olhar, o que falta a ela é uma certa dose de Dorothy Parker.

Resultado de imagem para big loira dorothy parkerPerguntei-lhe, dando andamento ao papo: “Você leu Big Loira e Outras Histórias de Nova York?” Na verdade, Dorothy nunca escreveu um livro com este título, mas ele estrelou a primeira edição dos contos traduzidos dessa escritora cujo humor – de acidez corrosiva – falta às suas contemporâneas Virginia Woolf e Gertrude Stein, por exemplo.  Os contos, selecionados do original The Portable Dorothy Parker, foram, inicialmente, publicados em periódicos novaiorquinos como Esquire Vanity Fair, e são a verdadeira e definitiva mostra de que humor rima com tragédia – ou, no mínimo, com dor. Sim, muitos dos contos têm desfecho triste. Mas é possível rir deles.

Dorothy Parker morreu faz 50 anos. Era temida em seu tempo, assim como seria hoje, e desferia os golpes a quem lhe viesse primeiro na telha: de dondocas narcisistas a atrizes celebradas; de governantes a poderosos donos de jornal. Claro que, em troca, ganhava inimigos que poderiam prejudicá-la, e muitos o fizeram. Mas posso ouvi-la dizer, num inglês ferino: “ganho um inimigo sem perder uma boa piada!” Ganhou inimigos e ganhou muito dinheiro, mas a vida sem regras fez a grana evaporar. Morreu pobre e, sem a ajuda de poucos amigos, teria sido esquecida.

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Boa parte desta postagem foi originalmente transcrita num reply à minha ex-aluna de modos contidos e gosto inquestionável. Nesse mesmo reply fiz alusão a outros grandes humoristas de timbre literário – ou grandes escritores de timbre humorístico. Gente como Mark Twain e Kurt Vonnegut, sobre quem já escrevi, neste blogue, e que, certamente, deve algo a Dorothy Parker, mesmo que nunca tenha dito isso. E é claro que qualquer comparação com Clarice Lispector é desnecessária. Serve apenas como provocação àqueles que veneram sua questionável literatura. O único ponto em comum, além de serem do mesmo sexo, é a produção escrita. O resto, bem, perguntei-lhe: o resto interessa?

p.s. Dorothy Parker vivia cercada de gente que pensava como ela: todos dispostos a falar mal de quem quer que fosse. Reuniam-se nos fins de tarde na famosa Mesa Redonda do Algonquin Hotel para deliciarem-se com o veneno que destilavam. AQUI  é possível encontrar muita coisa sobre isso. Vale ler.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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