Gil, o roqueiro

O rock, como se sabe, instaura-se em nossa vida durante a adolescência. Poucos são os casos em que um indivíduo maduro, após ter experimentado gêneros musicais variados, tenha desembocado no rock como descoberta e como predileção. Não conheço alguém que tenha feito esse caminho. Deve haver alguém neste mundo, mas ignoro-o. Embora não seja meu gênero preferido – já disse isso em alguma postagem -, tenho apreço por algumas bandas e por alguns intérpretes. Elvis, Joe Cocker e Roger Daltrey moram em meu coração. The Who, Stones, Allman Brothers, Pink Floyd e Lynyrd Skynyrd estarão no meu funeral – metonimicamente falando. Hendrix e Rick Wakeman também. Sim, Rick Wakeman. Pode caçoar. Sou fã.

Sou fã também de Gilberto Gil, que em meados dos anos 1960, nutriu-se de rock a ponto de nos proporcionar um movimento que muito tinha do citado gênero: o Tropicalismo. Fã confesso de Jimi Hendrix, Gil percebeu que as poucas saídas – ou entradas – para a música brasileira era o rock. Foi entusiasta dOs Mutantes, a grande banda progressiva brasileira. Não conheço nada melhor, ao menos não entre brasileiros. Dia desses, conversando com um amigo, um autêntico detrator do rock, ouvi-o afirmar que não reconhece qualidade nas letras das canções roqueiras. Para ele é um festival de bobagens que acaba corroborando a ideia de que rock é coisa para adolescentes. Citou Titãs, Paralamas, Cazuza, Ultraje a Rigor, Blitz, Plebe Rude, Legião Urbana, Lobão, Camisa de Vênus. Desafiou-me a encontrar algo que se pudesse classificar, em termos textuais, como satisfatoriamente adulto. A expressão foi dele.

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De imediato, não encontrei. Lembrei-me, então, de Roque Santeiro, o rock, tema de Gil que compõe o magistral disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985. É uma aula de como se faz uma canção em homenagem a um gênero. É um rock para o rock, metalinguístico, positivo, questionador. Além das escancaradas referências ao BRock, que ganhava força e se estabelecia na cena musical brasileira, Gil explica por que se deve abrir o coração para o rock, símbolo da juventude, do questionamento, da insatisfação, do desejo incontido, da força poderosa. E com uma letra absolutamente bem armada, carregada de ironias, jogos de palavras, metáforas precisas. Sim, é uma beleza. Ouça e veja, AQUI. Dê um desconto, claro, para os costumes vestuários de 33 anos atrás. Mas ouça!

Resultado de imagem para brock rock brasileiroLi o livro BRock – o rock brasileiro dos anos 80, de Arthur Dapieve. Vale a leitura, embora eu o tenha considerado, quando li, indulgente demais. É um panorama, tão vasto quanto possível, de um movimento que devolveu à juventude o vigor que, num certo sentido, ela havia perdido. Resolvi, antes de escrever este texto, passar os olhos no livro, que li há 18 anos. Realmente meu amigo tem razão: textualmente falando, o mundo adulto passa longe. Mas isso o desmerece? E quanto a Gil? Bem, creio que o papo é outro. Gil homenageou, como eu disse, todo o movimento. Acreditou nele. Claro que não podia prever os desastres que se tornariam Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão, mas isso é outra história. O rock não merece que se discuta esse pormenor.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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