Naipaul, o simples?

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Vou afirmar sem dó: se você, sexto ou sétimo leitor, ainda não leu V. S. Naipaul, leia. É esse senhor aí de cima. Não é badalado, é pouco conhecido, embora tenha tido seu primeiro livro – Os Mímicos – publicado há exatos 30 anos, no Brasil, pela Cia. das Letras. Só para constar: o V é de Vidiadhar e o S, de Surajprasad. A pronúncia é desnecessária: fique com as iniciais. Mas fique mesmo com o conteúdo dos livros, obras que parecem resumir aquele axioma proposto pelo jornalista Telmo Martino: tudo o que é fácil de escrever é difícil de ler – e vice versa. Sim, é o caso desse tobaguense de origem indiana que é Sir, e justamente por isso escreve em inglês.

Resultado de imagem para v s naipaul os mímicosEu li Os Mímicos de uma tacada, logo que saiu. Reli-o no começo deste ano, trinta anos depois. Foi uma experiência boa: nem eu nem o livro somos os mesmos. A cada página relida, uma lembrança de como esse livro me impressionou, seja na forma de sua concepção, seja na temática, implacavelmente comum: o intelectual inseguro, ex-ministro de uma ilha caribenha imaginária, mostra-se estrangeiro envolvido com tudo aquilo que uma cidade grande (Londres) pode oferecer de bom e de ruim – e incluem-se aí as mulheres. Há, claro, um retorno à infância, como etapa essencial ao molde maduro, carregada de humor refinado aliado a doses de melancolia profunda e aparentemente sem muitas consequências. Só aparentemente.

V. S. Naipaul é um mestre, pode apostar. É herdeiro dos grandes escritores ingleses e norte-americanos, em especial William Faulkner e Grahan Greene, os quais, segundo ele, leu com avidez de quem queria se tornar um verdadeiro escritor. Domina os adjetivos como poucos escritores que conheço – e não os teme, como a maioria dos criadores contemporâneos, que enxergam na adjetivação uma falha no enxugamento textual. Naipaul abusa deles com talento e frequência. Escolhi como exemplo o texto Os Mímicos, mas poderia ter-me atido a Guerrilheiros ou Uma Casa para o Sr. Biswas (obra-prima sobre a colonização inglesa em Trinidad e Tobago), dois ótimos romances.

Resultado de imagem para uma casa para sr, biswasLembro-me de, à primeira vista, com o romance às mãos, há 30 anos, ter dito a mim mesmo que Trinidad e Tobago não me interessava como cenário. O que poderia ser dito sobre uma ilhota próxima à Venezuela que não beirasse o excentricismo e a caricatura? Pois fui obrigado a engolir o preconceito logo nas primeiras páginas de Uma Casa para o Sr. Biswas. Embora o texto se passe na capital inglesa, Trinidad está dentro da personagem central, gigantesca e eterna, com todas as suas complexidades de colônia. Um texto cômico, marcado pela compaixão e, acima de tudo, pelas palavras na hora certa, exatas, no lugar adequado. Uma aula de como escrever.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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