Quem é Miles Davis?

Assisti a Miles Ahead, o filme que Don Cheadle fez sobre Miles Davis. Descarte a possibilidade de ser uma película biográfica. Não é, definitivamente, embora se utilize de elementos da vida do trompetista. Soaria estranho não utilizar. A narrativa não é linear (como muitos solos de jazz), misturando alucinações, lembranças, possibilidades, registros reais. Miles merece um filme assim – pouco convencional, carregado de controvérsia, fúria, tensão. Miles Ahead é, principal e originalmente, o disco que o músico fez com Gil Evans em 1957, pleno de sopros (5 trompetes, 4 trombones, 3 french horn, 3 clarinetes, 1 sax alto, 1 tuba) + piano, contrabaixo, bateria, sem contar a condução e arranjos de Gil Evans. Miles vai de flugelhorn. Um discaço, uma revolução, um passo adiante. AQUI está, por inteiro, 60 anos depois.

A vida de Miles Davis – fatos, composições, feitos e controvérsias – está muito bem delineada em So What – The Life of Miles Davis, de John Szwed, professor e antropólogo de Yale. Quando o livro saiu, li-o avidamente, principalmente porque era apontado como um livro esclarecedor sobre a vida do músico: seu envolvimento político, os entreveros conjugais, as relações com os músicos, a pauleira contra produtores, o envolvimento com as drogas, a ligação com o boxe, o confronto com o racismo e muito mais. Muita coisa que havia sido dita sobre Miles, segundo o autor, era, naturalmente, envolta em dúvidas. Era necessário buscar o preenchimento de algumas lacunas e isso se traduzia num trabalho minucioso que ele propôs fazer – e fez.

O autor mesmo se convence de que a música de Miles associa-se diretamente ao que ele vivia; não se podiam separar os acontecimentos de sua vida e o que era produzido (e retratado) em harmonia e melodia. Afirma que as diferentes fases musicais de Miles são reflexo da forma como o artista levava a vida, uma constante revolução prática comportamental, que tinha como objetivo compreender a si mesmo como indivíduo e como músico. Faz comentários – nada breves – sobre a vida pessoal de Miles e não cita, num só momento, espancamentos ou qualquer outra forma de violência contra as mulheres, nem contra a musa do Existencialismo, Juliette Grecco, a não ser uma cusparada que Miles dirigiu a ela (e Miles confirma isso, numa entrevista) numa tarde parisiense. Era misógino, sem dúvidas, mas não há – segundo o autor, repito – comprovações sobre tal comportamento violento.

Ele mesmo questiona a veracidade de algumas afirmações sobre o trompetista. O livro também é muitíssimo interessante por trazer uma visão (às vezes desfavorável) alheia sobre o grande músico: James Baldwin, Norman Mailer, Jack Kerouac e alguns outros que escreveram sobre Miles. Numa das passagens do livro, John Szwed faz uma afirmação interessantíssima: “E daí? Miles Davis foi o som de seu trompete!” Se houver interesse: o livro saiu em 2003, pela Simon & Schuster, e tem quinhentas páginas. A Siciliano, soube eu, ia traduzir, mas recuou. É melhor esperar e rezar para que tomem coragem e traduzam. Em tempo: em 1991, a editora Campus lançou Miles Davis – a autobiografia. Até onde sei, está esgotadíssimo. Veja como estão cobrando caro por isso.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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