Bonfá, in memoriam

Devo dizer, primeiramente, que esta postagem deveria ter ido ao ar ontem, 12 de janeiro. Ao que interessa, agora: qual o compositor brasileiro gravado por Elvis Presley? Se você me permitiu a metonímia e arriscou Tom Jobim ou Sergio Mendes, dois paparicados pelo mercado norte-americano, esqueça. Você só acerta se pronunciar Luiz Bonfá. Sim, ele mesmo, que em companhia de um dentista chamado Randy Starr, compôs Almost in Love, primeira faixa do disco homônimo do Rei do Rock. Se quiser, pode ouvi-la AQUI. É uma boa surpresa ouvir Elvis cantando Bossa Nova. Mas por que uma postagem sobre Luiz Bonfá? Primeiro porque ele é um dos maiores músicos que o Brasil produziu. Segundo: há 19 anos, num 12 de janeiro, a música empobreceu. O termo é piegas? Acho que sim, mas não há outro. A música do século passado – e não somente aquela feita em nosso país – perdeu um de seus grandes nomes.

Não sabe quem é Luiz Bonfá? Vamos lá. Frank Sinatra e Tony Bennett, dois dos maiores cantores populares do século XX, gravaram canções suas. A superstar Barbra Streisand dizia que Gentle Rain era uma de suas canções favoritas. Diana Krall concorda. Os saxofonistas Wayne Shorter, Paul Desmond, Stan Getz e Dexter Gordon, quatro gigantes do citado gênero, consideram Bonfá um gênio. Sem falar os craques do instrumento que tocava – o violão: John McLaughlin, Al Di Meola, Joe Pass e George Benson. Listei esses gringos para satisfazer aqueles que só consideram bom músico quem faz sucesso nos EUA.

O que chama a atenção em Luiz Bonfá é que ele foi um dos compositores que tornaram a Bossa Nova respeitada e depois foi além dela. Dois dos meus discos preferidos – dos oito que possuo – são Introspection e Jacarandá. O título do primeiro já diz tudo: o artista e o violão, uma obra-prima inclassificável, que pode ser conferida AQUI. O segundo, considerado clássico, traz os arranjos do pupilo de Bonfá, Eumir Deodato. É uma reunião de grandes músicos: além do próprio, Eumir Deodato (piano, teclados), Stanley Clarke (baixo), Idris Muhammad (bateria), Airto Moreira (percussão),  Ray Barretto (conga), Randy Brecker (trompete e flugelhorn) e muito mais gente (só nas cordas, são 22 músicos).

Das 10 composições do disco, 8 são de Luiz Bofá, incluindo a citada Gentle Rain. E mais: Apache Talk, Don Quixote e Jacarandá são, certamente, músicas que você, leitor, ouvirá no Céu, se para lá vc se dirigir. Se já ouve Bonfá em vida, o passaporte para lá é praticamente garantido. Se quiser ouvir TODO O DISCO, é só clicar. É nele, nessa obra-prima inquestionável, que se percebem com clareza as inventividades harmônicas desse que é um grandes ao violão no mundo. Ah, sim, antes que eu me esqueça: é natural que muitos brasileiros ignorem que foi Luiz Bonfá. Os americanos, ao contrário dos conterrâneos do violonista, mantiveram-no em terras ianques por anos. Para eles, Bonfá é um nativo.

 

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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