34 anos sem Buñuel

No filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, há algumas cenas em que a personagem Gil Pender, vivida por Owen Wilson, encontra o cineasta Luis Buñuel. Se você viu o filme, sabe que a personagem retorna, sem qualquer explicação – ainda bem! – no tempo parisiense (anos 1920) e lá mantém contato com o que se chama a Geração Perdida: vários artistas estrangeiros que foram viver na capital francesa (Hemingway, Picasso, Scott Fitzgerald, Matisse, Dalí, Gertrude Stein, T. S. Eliot, Cole Porter). Numa das cenas dos citados encontros com Buñuel, Gil Pender lhe dá a ideia para um de seus grandes filmes: O Anjo Exterminador, um clássico do Surrealismo, um soco no estômago da aristocracia ocidental.  Mas por que estou falando em Luis Buñuel?

Porque hoje faz 34 anos que esse gênio do cinema morreu – e porque O Anjo Exterminador é, dentre outras obras-primas desse senhor, meu filme preferido. AQUI, um trecho. Buñuel não é uma unanimidade – ao menos não para mim. Em bom vernáculo: não aprecio todos os seus filmes (a que assisti), mas isso é irrelevante, porque se está diante de um diretor que não segue qualquer padrão, a não ser aquela estética que ele se atribui numa determinada película, num específico momento. Talvez esse seja seu grande patrimônio, essa multiplicidade de formas, essa versatilidade de conteúdos.

Dia desses, curtindo o recesso escolar, revi Tristana e A Bela da Tarde, numa tacada, em devedêConfesso que Catherine Deneuve foi o grande motivo de eu estar diante da tevê, tentando me lembrar de como reagi a meu début diante desses filmes, de como isso foi algo epifânico porque me fez querer assistir a tudo o que o espanhol havia produzido, sem exceção. Daí, ao me deparar com a obra-prima, com o absurdo/possível do filme O Anjo Exterminador, com toda a simbologia religiosa do cordeiro a ser sacrificado, com a condição frágil de uma aristocracia em apuros, com o desespero pela sobrevivência (algo que equaliza os homens), com a ebulição instintiva que precisa apenas de um empurrãozinho para se manifestar, tornei-me aquilo que chamam popularmente de fã.

Li Meu Último Suspiro, sua autobiografia, logo que foi editado no Brasil, pela Nova Fronteira, nos anos 1980. Um livro divertido, embora o leitor que aprecie (e tenha visto) alguns filmes de Buñuel compreenda melhor o que ele afirma e o que pensa – principalmente sobre si mesmo. Creio que a ideia de um último suspiro seja algo reflexivo, que se volta para quem expira. Uma pena realmente que Luis Buñuel tenha feito isso conosco. E com o cinema, principalmente.

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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