Sem Laurindo há 25 anos

Pois a vida é feita de coincidências: ontem pela manhã, resolvi ouvir um disco que não punha para rodar há alguns anos. Isso acontece com frequência. O título remete às incumbências dos artistas que o protagonizam: Sammy Davis, Jr. e Laurindo Almeida. Este último é o motivo desta postagem porque há 25 anos esse grande violonista deixou o mundo menos sonoro. O disco é uma maravilha, uma aula de como se deve cantar – quando se está instrumentalizado para isso – e outra de como o violão pode (e deve) tornar a vida mais feliz. Qualquer vida.

Não me lembro exatamente quando ouvi o violão de Laurindo Almeida pela primeira vez. Lembro-me, entretanto, que meu querido amigo Pedro Nunes, escritor tarimbado e grande conhecedor da música, emprestou-me Guitar from Ipanema, lá no início dos anos 1990. Esse disco, todavia, será obrigado a esperar. Em frente, então: Sammy Davis, Jr. é um dos maiores cantores americanos. Esqueça sua habilidade ao sapateado e o fato de ser um showman. O que conta, aqui, é voz, timbre, afinação, alcance. Em alguns momentos, provoca inveja em Sinatra, Crosby e Bennett.

E Laurindo, a estrela do post? Engana-se quem pensou que sua tarefa foi acompanhar o superstar do vozeirão. Laurindo Almeida deu o andamento, mostrou o caminho que deveria ser seguido. E mais: deu pitacos essenciais nos arranjos de George Rhodes (que trabalhava para o cantor), comprovando que a voz de Sammy Davis, acostumada a pesadas orquestras e aos contornos sensuais do swing, deveria mostrar-se mais terna (quase tímida) num disco essencialmente jazzístico. Sim, é jazz. E da melhor qualidade.

Se você, que está lendo, ignora o instrumentista de quem falo, saiba que há poucos pecados maiores. Aí vai por quê: Laurindo tocou com Villa-Lobos e Pixinguinha. Só isso já o imortalizaria, mas não ficou por aí: foi para os EUA e se tornou um ícone, porque é naquele país que ele produz para valer. Tocou com o Modern Jazz Quartet, com Ray Brown e com Stan Getz. Com o saxofonista Bud Shank ele botou a Bossa Nova no cardápio dos gringos, mas não estacionou no gênero, embora haja parentesco entre a BN e o jazz. O disco com Sammy Davis prova isso. Se quiser ouvir tudo, clique AQUI.

Caso não, experimente ao menos The Shadow of Your Smile, Speak Low e Where is Love? Seu pecado será atenuado. Boa audição!

About the author

Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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