Vonnegut, Rabo, Arte

Já disse algumas vezes: gosto de reler livros, principalmente aqueles que, sei, ajudam-me a criar tramas e a construir personagens. Já adianto que nunca li qualquer livro meu. Escrevi-os, apenas. Mas não é sobre isso que quero falar. Já mencionei um dos meus autores preferidos – e uma de minhas obsessões -: o norte-americano Kurt Vonnegut, Jr. Dediquei a ele postagens aqui, neste blogue. Um de seus livros, traduzido como Barba-Azul, publicado por aqui em 1988, está sendo relido. Veja só que coisa: há 32 anos eu não era o que sou hoje. Exemplo: nessa época eu não era pai – e isso faz uma enormíssima diferença. Tinha mais cabelo, menos abdômen e só conhecia a realidade de 1 casamento. Quer mais? Chega.

Mas aonde quero chegar? Ano passado, o romance Fama Volat – meu último livro, até agora! – foi publicado. A história gira em torno de um duplo homicídio ocorrido na Praia do Canto. Uma das vítimas é uma marchande, de nome Simone Carpeaux. Exponho, dentro de minhas limitações, o mundo da arte plástica (colecionadores, mercado negro, artistas, vaidades, usurpações, comerciantes) conectado a uma trama policial. Mas e o que Vonnegut tem a ver com isso? Barba-Azul, o romance citado, é a autobiografia de Sarkis Karabekian, pintor do Expressionismo Abstrato que resolve contar a história de sua vida.

No livro de Vonnegut, figuras essenciais do movimento como Jackson Pollock e Mark Rothko tornam-se matéria de crítica, assim como o próprio movimento per si. Como a origem do narrador é armênia, o massacre desse povo pelos turcos é pano de fundo da história. O tom humanista de Vonnegut é agudo e certeiro, dá para se aprender muito com ele, desde que o leitor esteja disposto a isso. Sim, merece ser lido e relido. Em tempo: por que a palavra Rabo, no título da postagem? Porque a personagem-narrador Sarkis Karabekian só existe na tradução brasileira. No original, seu nome é Rabo Karabekian. Chegue à óbvia conclusão!

Rabo/Sarkis é caolho, lutou na Segunda Guerra, recebe dinheiro do governo, mora num local chique e tem um celeiro, onde guarda um grande segredo – assim como Barba-azul, que mantinha cadáveres das ex-mulheres num quarto trancado a tantas chaves. É amigo de escritores e resolve contar a história de sua vida baseando-se na ideia de que pintura e literatura são artes irmãs. Vale ler, sim. Reler, então, nem se fala!

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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