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Justiça? (uma provável continuação à postagem anterior)

Num certo sentido, esta postagem continua a anterior. Pois bem: mostrei a meus alunos, usando a internet – mais particularmente o Youtube -, o encontro entre Gilberto Gil (de novo) e Chico Buarque durante o evento musical Phono 73. Já escrevi sobre tal evento. Nesse encontro, os compositores, vítimas da censura, tentam entoar a emblemática canção Cálice, mas os microfones são desligados. Demonstração de força e truculência por parte de quem não dialogava. Enfim, não é exatamente sobre isso que quero falar. Poucos sabem que o compositor baiano divide com Chico os louros da criação dessa canção. E mais que isso: Gil compôs a melodia, o refrão e duas estrofes; a Chico coube o resto – ou seja, duas estrofes. Avaliando em termos quantitativos, Cálice pertence mais a Gil que ao trovador carioca. Sei que esse tipo de discussão é estéril, a nada leva, já que o mais importante é a obra etc, etc, mas não seria mais justo que isso ficasse claro a quem pudesse interessar?

Outro exemplo? Pixinguinha compôs a melodia de Rosa em 1917 – só a melodia. O texto, a letra, foi composto por Otávio de Souza, um suburbano mecânico do Méier, bairro carioca, de quem pouquíssima gente ouviu falar. Quase todos pensam que Rosa pertence unicamente a Pixinguinha – o que revela uma grande injustiça, principalmente porque se observa que, embora a melodia seja de uma inventividade impressionante, o texto chama a atenção por sua aura kitsch e inovadora – algo entre o parnaso e a pós-modernidade. É de uma deliciosa cafonice, um banquete verborrágico sensacional!

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Postei sobre essas injustiças ao falar sobre Milton Nascimento, e de como as fundamentais participações textuais de Fernando Brant e Ronaldo Bastos foram eclipsadas pelo tempo. Milton, extraordinário intérprete e melodista inquestionável, acaba, por tabela, tornando-se também o letrista, mesmo sem ter posto sequer um fonema no processo. Mais ou menos a mesma coisa acontece com a parceria Chico/Gil, na consagrada Cálice. Assisti a uma entrevista com Milton, num talk show. O apresentador elogiou-lhe a sensibilidade com as palavras em Saudades dos Aviões da PanAir, cuja autoria é de Fernando Brant. Não teria sido justo Milton retificar o elogio, dirigindo-o a quem realmente merece?

Não sou beócio. Compreendo que a figura do cantor sobrepõe-se à do compositor – a não ser que ambos sejam a mesma pessoa. Quando não, o protagonismo natural é do crooner, do sujeito que, à frente, do grupo, solta a voz, dá a cara para os tapas. Mesmo assim, arriscando-se, deve sempre estar ciente de que sem a composição seu trabalho seria tão fértil quanto um prato de porcelana. Eu sou autor – não de canções, mas de histórias. Sei o quanto é importante o reconhecimento da autoria, embora meu amigo Arthur Barcelos* – comentarista inteligente e arguto deste blogue – afirme que a juventude não está nem aí para tal pormenor. Uma pena. Quem perde é o artista, sem o qual, evidentemente, a obra de arte não existiria.

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*Ver os comentários na postagem anterior.

About the author

Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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