Vinde a nós as criancinhas!

Em 1993, Maria Bethânia lançou um disco intitulado As Canções que Você fez pra Mim, com músicas da dupla Roberto Carlos & Erasmo. Estourou a banca, e oxigenou a carreira da cantora, que vinha de um fracasso comercial chamado Olho d’Água, editado um ano antes. Roberto Carlos, numa entrevista à época, agradeceu a Bethânia por ter sido “escolhido” por ela, e louvou sua generosidade, elogiou-a, fez apologias. Na verdade – penso eu – deveria ser o contrário: a cantora baiana deveria agradecer-lhe (e ela deve tê-lo feito). Tivesse ela escolhido repertório de outro artista, amargaria um possível novo fracasso. Mas Roberto Carlos é aposta certeira. Pergunte aos Titãs.

Mas por que estou falando isso? Já explico. Fui, há alguns anos, a um show gratuito de Gilberto Gil, de quem sou fã declarado. Gil abriu o evento com A Novidade, composição em parceria com Torquato Neto. A Novidade é uma pequena obra-prima em que se expõem os dois lados da moeda: a sereia que é bela mas é devorada pelos esfaimados. A metáfora e a antítese, lado a lado. E por falar em lado, algumas adolescentes, próximas a mim, uivaram de prazer quando a banda de Gil iniciou os primeiros acordes da composição. Reconheceram-na e afirmaram, entre si e entre gritinhos quase lascivos, que Gil estava cantando uma música dos Paralamas. Sim, do grupo Paralamas do Sucesso. A melodia pode ser, mas o texto é todo Gil.

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De início, indignei-me menos pelo equívoco (previsível) das mocinhas, mas muito mais por constatar o que para mim é a real antítese: pelo ponto de vista da garotada, ao gravar a canção, a banda Paralamas do Sucesso faz mais por Gil do que Gil pela banda. Sem a gravação, a maioria do público adolescente – em cuja playlist Gilberto Gil não deve constar – não teria acesso a alguns dos nomes fundamentais da música brasileira. Ou seja: Gilberto Gil deve agradecer aos Paralamas – e não o contrário. Mais ou menos o que Bethânia deveria ter feito com Roberto Carlos. (Será que passou pela cabeça raspada de Herbert Vianna agradecer a Gil por turbinar, com a gravação de A Novidade, seu pífio repertório? Duvido.)

Vamos lá: nos últimos 50 anos, o primeiro time de compositores da MPB é composto por Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Francis Hime, Paulinho da Viola, a dupla Toquinho & Vinícius e Antonio Carlos Jobim e Belchior. Aos olhos de boa parte da juventude – que já ouviu falar deles mas que não consome sua música -, são considerados a ala geriátrica da canção brasileira. Não frequentam a agenda da MTV nem dividem palco com Faustão, Raul Gil, Hebe Camargo, Sergio Groisman, Luciano Huck ou Gugu Liberato. Em bom vernáculo: são enaltecidos por aquela faixa etária na qual a indústria fonográfica menos investe: o mercado adulto.

Conquistar consumidores adolescentes – que lotam shows e se preocupam pouco com a qualidade musical do produto que consomem – é uma das metas fundamentais da indústria do disco. Quem pode discordar? Olhe (e ouça) em volta e você verá (e ouvirá) que o investimento nessa faixa de mercado é absurdamente superior àquilo que se investe em qualquer outro grupo social. Perfeitamente compreensível: shows oferecidos à garotada são muito mais fáceis de se produzir, e a audiência é garantida. Só por curiosidade, busquei na web a música Vamos Fugir, de Gilberto Gil, que foi gravada pela banda pop Skank. A versão de Gil (das muitas que há) tem, até o momento em que escrevo, 46 mil visualizações. É esta AQUI. A do Skank bate sem dó: 5,5 milhões de visualizações. Pode não significar muito, mas é um sintoma, e é bom que Gil agradeça também ao Skank, porque a gurizada vai perceber, logo abaixo do título da composição, que Samuel Rosa nada tem a ver com a letra. Ou estou sendo otimista demais e a garotada nem se preocupa com autorias?

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Francisco Grijó

Francisco Grijó, capixaba, escritor, professor de Literatura Brasileira, atual secretário de Cultura de Vitória (ES)

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