O merlhor do Jazz #9: saxofonistas

Quem são os maiores saxofonistas do jazz? Fácil, diriam alguns, já que o cânone está aí, passado a limpo pela história e sedimentando verdades inabaláveis. Não vou ficar citando características ou dando informações – básicas ou não – sobre os senhores cujos vídeos são expostos abaixo. São os componentes do meu top 5, e creio que muitos concordarão comigo. As discordâncias devem ser pontuais, imagino. Ah, vou colocar os vídeos na ordem das minhas preferências.

1. Sonny Rollins: Oleo.

2. John Coltrane: Alabama

3. Charlie Parker: I’ve Got Rhythm

4. Lester Young: Pennies from Heaven

5. Dexter Gordon: Lady Bird

Está bem, dirão aqueles que por aqui passarem. E perguntarão por Wayne Shorter, Art Pepper, Stan Getz, Eric Dolphy, Gerry Mulligan, Lee Konitz? Pois é: são grandes saxofonistas, grandes intérpretes de músicas próprias ou alheias, mas não entram no grupo dos cinco. Confesso que Benny Carter, Ben Webster, Coleman Hawkins, Gene Ammons e Booker Ervin disputaram o lugar de Dexter Gordon – e nem sei exatamente por que o californiano levou a melhor.

Deixar de fora Johnny Griffin, Hank Mobleysobre quem já escrevi -, Johnny Hodges e Sonny Stitt doeu-me o coração. Creio que o critério tenha sido tanto técnico quanto afetivo. Foram os primeiros saxofonistas que ouvi, com a atenção adulta, com o critério mais aguçado. Voltei ao início dos anos 1980 para retirar de lá as lembranças de quando iniciei os primeiros passos no jazz, sob orientação de Marco Antônio Grijó, meu querido primo. É possível que ele discorde dessa minha lista. Assim é a vida.

Caso vc, que esteja – por acidente ou não – lendo esta postagem, fique à vontade para expor seu top 5. Será um prazer comparar.

Bing: ausência de 43 anos

Quem é o maior cantor popular norte-americano? Eu diria Sinatra, meu xará. Além de ser tecnicamente perfeito, é meu preferido – o que faz com que meu julgamento seja, evidentemente, questionável. Sinceramente? Acho que poucos questionarão. Bem, há outros que mereceriam o posto: Johnny Hartman, Louis Armstrong, Nat King Cole, Sammy Davis, Jr., Tony Bennett. Há, entretanto, um outro que, para muitos, é o maior de todos, inclusive para o próprio Sinatra: Bing Crosby.

Calma: deixei os vocalistas rock de fora, até porque o rock é um gênero que não exige que o cantor seja realmente grande coisa. Claro: exceção para um dos maiores cantores em qualquer gênero: Elvis Presley. Mas por que estou fazendo toda essa introdução? Porque hoje, 14 de outubro, faz 43 anos que o mundo perdeu Bing Crosby. Há alguns meses adquiri, em vinil, a caixa com 4 discos desse extraordinário cantor: Bing Crosby and Friends. Ei-la:

É uma grande festa. Uma compilação de grandes gravações em duetos e trios. Gente do quilate de Rosemary Clooney, Nat King Cole, Peggy Lee, Judy Garland, Maurice Chevalier e mais um punhado de craques – o filho Gary Crosby incluído. Há uma gravação de Surry with the Fringe on Top, com Hellen O’Connel que é uma beleza. Ah, claro, nem tudo é dueto. Crosby canta How are Things in Glocca Morra e That Old gang of Mine sozinho. Duas pérolas.

E se você tem dúvidas quanto a comparações com aqueles senhores citados no primeiro parágrafo, ouça e veja ISTO. Faz parte de uma das melhores comédias musicais já feitas, Robin Hood de Chicago. Estão lá Frank Sinatra, Sammy Davis e Dean Martin, todos contracenando com Bing Crosby. Ainda prefiro meu xará, mas o protagonista desta postagem – preciso confessar – é melhor. A propósito: com Louis Armstrong, Bing Crosby faz um dueto que ninguém deveria desconhecer. Se puder, aproveite!

21 anos sem João

A morte de João Cabral de Melo Neto chegou à maioridade. Há 21 anos morria aquele que, em minha opinião nem sempre levada a sério, é o maior poeta brasileiro de todas as épocas. Deixa Gregório, Castro Alves, Bilac, Augusto dos Anjos, Vinícius, Cecília e Drummond para trás,  empatados em 2º lugar. Enfim, é opinião. Não vou tecer comentários sobre ele porque, para muitos, qualquer frase acerca desse enormíssimo poeta poderia ganhar ares didáticos. Este blogue não é para isso. Então, vão aí 3 poemas escolhidos, dentre tantos extraordinariamente bem escritos. Escolhi-os baseando-me (repito) no gosto pessoal. Coincidentemente, estão todos contidos no livro A Educação Pela Pedra, de 1966.

A propósito: deixei de fora Morte e Vida Severina. Além de longo, e por isso seria complicado reproduzi-lo aqui, seria covardia com qualquer outro poema – do próprio João, inclusive. O primeiro: solidariedade, coletivismo. O segundo: realidades que se contrapõem. O terceiro: uma aula improvável de metalinguagem. Ave, João!

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.”

(Tecendo a Manhã)

“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma”.

(A Educação pela Pedra)

“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.”

(Catar Feijão)

Geddy deve ter razão

Meu querido amigo – admirador e conhecedor profundo do rock – Alfonso Favalessa, professor da área exata, enviou-me uma mensagem na qual Geddy Lee, baixista e líder da banda canadense Rush, afirma, com todos os fonemas, que Who’s Next, álbum de 1971 da banda The Who, é o melhor disco de rock de todos os tempos. Você encontra a entrevista AQUI. Eu não sou daqueles especialistas no rock cujas opiniões definem o gênero. Longe disso. Meu amigo Favalessa é.

Já escrevi sobre o Who aqui, neste blogue. Foi lá no começo, em 2017. Repito um dado que considero fundamental: Keith Moon e John Entwistle são, a meu ver, o maior baterista e o maior baixista do rock. Sim, respectivamente. E digo mais: Pete Townshend é o melhor compositor que há, no gênero. Melhor que Dylan, melhor que as duplas Lennon/McCartney e Jagger/Richards. Claro que é opinião pessoal, e minha opinião vem com um aval poderoso: Geddy Lee concorda comigo. Isso está na entrevista também.

Sei que é difícil dizer qual o melhor disco de rock que existe. Além da infinidade de grandes discos, muitos deles concentram-se em determinadas épocas, e sob determinadas perspectivas culturais. Como comprovar que Chuck Berry é melhor que Tony Iomi? Ao comparar essas duas lendas, claro, a subjetividade prevalecerá. Aproveitei para (re)ouvir Who’s Next. Sinceramente? Não há canção ruim. Ao contrário: com exceção da curtinha Love Ain’t for Keeping, todas – rigorosamente todas! – são obras-primas.

The Who | Who's Next Cover | Relaxing

Tenho Who’s Next em vinil e em cedê, que traz faixas adicionais, gravadas naquele mesmo ano, mas não durante a enxurrada de gravações que deram origem ao disco original. Naked Eye, Pure and Easy e Water são ótimas, mas a razão de não terem entrado na seleção em vinil é óbvia. Não estavam no mesmo nível. Geddy Lee deve saber disso, assim como Favalessa. Ouvindo mais uma vez – como agora faço – fico na dúvida quanto a meu julgamento. Mas qual, você pergunta. Até o momento, eu considerava Abbey Road, dos Beatles, e Electric Ladyland, de Hendrix, os melhores discos de rock que conheci. Acho melhor reavaliar. Obrigado, Geddy!

A propósito: se você quer saber as histórias acerca do álbum, clique AQUI.

Filmes (re)vistos #5: Munique

As coincidências, embora muitos apostem o contrário, existem, sim. Ontem eu assisti, pela terceira vez, ao filme Munique, de Steven Spielberg. Fiquei sabendo que, hoje, 5 de setembro, o atentado terrorista que deu origem ao filme comemora – não sei se esse é o termo adequado – 48 anos. O grupo terrorista palestino Munaẓẓamat Aylūl al-Aswad (Setembro Negro) sequestrou e deu cabo de onze atletas israelenses num ataque surpreendente à vila Olímpica de Munique, durante os Jogos Olímpicos de 1972, naquela cidade.

A primeira ministra linha-dura Golda Meir queria a intervenção das forças especiais – o temido Tzahal -, mas os alemães recusaram. O massacre aconteceu sob os olhos de todo o Ocidente e, num certo sentido, mostrou a fragilidade tanto de Israel quanto da polícia alemã. O filme gira em torno da forra: um ex-agente do Mossad, a mais especializada polícia do mundo, sai pelo mundo em busca dos responsáveis pela tragédia. É, enquanto triller policial e trama de suspense, uma obra-prima. Quando Spielberg resolve fazer filmes adultos o resultado é positivo. A Cor Púrpura, A Lista de Schindler e The Post comprovam, isso. Há outros, claro.

O que chama a atenção – ao menos pude ater-me, nessa (re)visão – é que a frieza de pessoas treinadas pelo Mossad não é proporcional a eficácia com que cumprem seu papel nacional. As tensões humanas afetam qualquer um, e sob circunstância previsíveis ou não. A personagem de Eric Bana – ótimo, em cena – vive uma situação pessoal que afetaria qualquer um: é obrigado a abandonar a esposa, grávida, além de mudar a própria identidade. Mesmo fora do Mossad, o orgulho patriótico fala mais alto: algo que só se vê, tão declaradamente, em filmes nos quais os norte-americanos, heróis por natureza, são os protagonistas.

Munique - Filme 2005 - AdoroCinemaA caça aos membros do Setembro Negro, fio que conduz a película, tem um sabor especial. É uma aula de estratégia, de maquinações terroristas, de eficiência policial. Os 5 “caçadores” – entre eles o futuro James Bond Daniel Craig – são inteligentíssimos e talentosos, correndo o mundo (Chipre, Itália, Líbano, Grécia, França), determinados a cumprir uma tarefa que, na verdade, não é deles. É impressionante o diálogo entre o líder do grupo e a chefona Golda Meir. Orgulho e vingança acima de tudo. Um filmaço que apreciei assistir novamente e, por isso, você lê este texto.

Fala! #9: Millôr Fernandes

Dulce Helfer / Agencia RBS

“Quando estou fazendo uma coisa não penso nas que não estou fazendo. E eu, privilégio que reconheço sempre, tenho muito que fazer. Mas minha comunicação maior é mesmo com uma pessoa só, ao vivo. Se conseguir me comunicar da mesma forma, com a mesma intensidade, com um leitor, magnífico. Minha multidão não tem mais de seis pessoas. Meu pavor, meu pesadelo, está expresso na música de Roberto Carlos: ‘Eu quero ter um milhão de amigos”. Que horror!” (Entrevista ao ZH, 1996)

Quem se modifica?

Imagem de Cartaz de Filmes (Movie Posters) por Ferreira | Cartazes ...Assisti há pouco, na tevê fechada, a uma entrevista com Woody Allen na qual ele afirma – dentre outros assuntos – que assistiu ao filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, 3 vezes, até gostar dele. Faço cá uma conta: considerando que Mr. Allen nasceu em 1935, e considerando ainda mais que ele assistiu à famosa película assim que foi lançada, em 1968, é possível dizer que o cineasta novaiorquino já era um homem maduro quando afirmou que a referida obra-prima da ficção-científica não caiu em suas graças. Woody Allen tinha, na ocasião, 33 anos e já havia escrito duas peças teatrais e um filme bem interessante, a comédia O que há, Tigresa?, sem contar os oito anos como comedienne.

Aonde quero chegar? Sempre digo a meus alunos que a Arte com A maiúsculo é aquela que, quanto mais amadurecemos intelectual e cronologicamente, mais somos capazes de perceber sua riqueza, de identificar elementos que, anteriormente, haviam-nos passado despercebidos. Ou seja: consumir uma sinfonia de Haydn aos 20 anos é diferente de consumi-la aos 40, desde que o ouvinte, claro, esteja disposto, nessa lacuna de 240 meses, a evoluir intelectualmente. Pode-se dizer, evidentemente, que a obra de Arte modificou-se – ao menos para esse consumidor. Bonito, não?

E quando acontece o contrário? O consumidor evolui e a obra de arte continua a mesma? Por exemplo: aos 17 anos é possível admirar, com todo aquele fervor adolescente, um determinado artista e sua produção, e alguns anos mais tarde, por conta do inevitável amadurecimento, perceber que esse artista continua a produzir conteúdo dirigido a indivíduos entre 12 e 17 anos. Não chega a ser um pecado, afinal pode ser essa a proposta desse artista. Mas qual será a decepção desse consumidor que espera evolução também por parte do ídolo a quem tanto admirava!

Capital Inicial apresenta novo álbum em Vitória

Só para ilustrar: dia desses encontrei um ex-aluno de quem fui professor no primeiro ano da década de 1990. Hoje tem 45, 46 anos, por aí. Num bate-papo amigável, ele trouxe à memória algo que vaticinei, quando ele, à época, dizia-se imenso fã da simpática banda pop Capital Inicial. Segundo ele, eu afirmei que, quando ele chegasse aos 30, o vocalista Dinho Ouro Preto e cia. seriam apenas memória: ele se lembraria de algumas canções, mas elas já não seriam mais parte de sua vida. Perguntei a ele se meu vaticínio se confirmara. Ele disse – senti certo desapontamento em sua resposta – que sim. Pois é. Modificamo-nos, com o tempo. A obra de arte também, a depender de nossa interpretação.

Mulheres #9: Sharon Tate

Sharon Tate foi assassinada, num 9 de agosto, há 51 anos, por um bando de lunáticos chefiados por Charles Manson. Tinha 26 anos e estava para trazer ao mundo seu filho, fruto da união com o cineasta polonês Roman Polanski. Era impressionantemente bela: o frescor da juventude parecia algo que seria natural quando envelhecesse. Não teve tempo de comprovar isso, lamentavelmente.

Lembro-me de ter assistido, na tevê, ao filme A Dança dos Vampiros, uma comédia sofisticada e ao mesmo tempo escrachada não somente ao ser mitológico em si, mas aos filmes de vampiros, de monstros em geral. Sharon Tate, belíssima, iluminava a tevê, a sala, a casa. Segundo Polanski, que se apaixonou implacavelmente por ela – quem não se apaixonaria? -, era o ser humano mais iluminado que ele conheceu, capaz de unir tranquilidade e autoridade numa mesma frase.

Não era uma grande atriz, embora não chegasse a comprometer. É fato também que não teve tempo de mostrar o talento que Polanski imaginava que ela tivesse. Não importa. O Vale das Bonecas é um filme chatíssimo, mas, nos momentos em que Sharon aparece, a película passa a valer a pena. Interessante é que, no original, Valley of Dolls, o termo dolls refere-se a barbitúricos e antidepressivos muito consumidos por gente de Hollywood. Quase todos fazia uso.

Sharon Tate não era careta – mas não era dada a porralouquices. Ao engravidar, parou de consumir a cannabis, além de ter maneirado na bebida. Foi vítima das fake news, quando da sua morte. Jornais culparam-na por sua própria morte, assim como atribuíram a seu círculo de amizades o horror imputado a ele. Até o Times entrou na onda, sem contar os aproveitadores e os titulares das fofocas do cinema. Um tempo depois, tudo se esclareceu. O que se pode fazer – hoje – é assistir a alguns de seus poucos filmes e experimentar sua beleza, sua simpatia, sua luz.

1 2 3 18
Page 1 of 18