Filmes (re)vistos #5: Munique

As coincidências, embora muitos apostem o contrário, existem, sim. Ontem eu assisti, pela terceira vez, ao filme Munique, de Steven Spielberg. Fiquei sabendo que, hoje, 5 de setembro, o atentado terrorista que deu origem ao filme comemora – não sei se esse é o termo adequado – 48 anos. O grupo terrorista palestino Munaẓẓamat Aylūl al-Aswad (Setembro Negro) sequestrou e deu cabo de onze atletas israelenses num ataque surpreendente à vila Olímpica de Munique, durante os Jogos Olímpicos de 1972, naquela cidade.

A primeira ministra linha-dura Golda Meir queria a intervenção das forças especiais – o temido Tzahal -, mas os alemães recusaram. O massacre aconteceu sob os olhos de todo o Ocidente e, num certo sentido, mostrou a fragilidade tanto de Israel quanto da polícia alemã. O filme gira em torno da forra: um ex-agente do Mossad, a mais especializada polícia do mundo, sai pelo mundo em busca dos responsáveis pela tragédia. É, enquanto triller policial e trama de suspense, uma obra-prima. Quando Spielberg resolve fazer filmes adultos o resultado é positivo. A Cor Púrpura, A Lista de Schindler e The Post comprovam, isso. Há outros, claro.

O que chama a atenção – ao menos pude ater-me, nessa (re)visão – é que a frieza de pessoas treinadas pelo Mossad não é proporcional a eficácia com que cumprem seu papel nacional. As tensões humanas afetam qualquer um, e sob circunstância previsíveis ou não. A personagem de Eric Bana – ótimo, em cena – vive uma situação pessoal que afetaria qualquer um: é obrigado a abandonar a esposa, grávida, além de mudar a própria identidade. Mesmo fora do Mossad, o orgulho patriótico fala mais alto: algo que só se vê, tão declaradamente, em filmes nos quais os norte-americanos, heróis por natureza, são os protagonistas.

Munique - Filme 2005 - AdoroCinemaA caça aos membros do Setembro Negro, fio que conduz a película, tem um sabor especial. É uma aula de estratégia, de maquinações terroristas, de eficiência policial. Os 5 “caçadores” – entre eles o futuro James Bond Daniel Craig – são inteligentíssimos e talentosos, correndo o mundo (Chipre, Itália, Líbano, Grécia, França), determinados a cumprir uma tarefa que, na verdade, não é deles. É impressionante o diálogo entre o líder do grupo e a chefona Golda Meir. Orgulho e vingança acima de tudo. Um filmaço que apreciei assistir novamente e, por isso, você lê este texto.

Fala! #9: Millôr Fernandes

Dulce Helfer / Agencia RBS

“Quando estou fazendo uma coisa não penso nas que não estou fazendo. E eu, privilégio que reconheço sempre, tenho muito que fazer. Mas minha comunicação maior é mesmo com uma pessoa só, ao vivo. Se conseguir me comunicar da mesma forma, com a mesma intensidade, com um leitor, magnífico. Minha multidão não tem mais de seis pessoas. Meu pavor, meu pesadelo, está expresso na música de Roberto Carlos: ‘Eu quero ter um milhão de amigos”. Que horror!” (Entrevista ao ZH, 1996)

Quem se modifica?

Imagem de Cartaz de Filmes (Movie Posters) por Ferreira | Cartazes ...Assisti há pouco, na tevê fechada, a uma entrevista com Woody Allen na qual ele afirma – dentre outros assuntos – que assistiu ao filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, 3 vezes, até gostar dele. Faço cá uma conta: considerando que Mr. Allen nasceu em 1935, e considerando ainda mais que ele assistiu à famosa película assim que foi lançada, em 1968, é possível dizer que o cineasta novaiorquino já era um homem maduro quando afirmou que a referida obra-prima da ficção-científica não caiu em suas graças. Woody Allen tinha, na ocasião, 33 anos e já havia escrito duas peças teatrais e um filme bem interessante, a comédia O que há, Tigresa?, sem contar os oito anos como comedienne.

Aonde quero chegar? Sempre digo a meus alunos que a Arte com A maiúsculo é aquela que, quanto mais amadurecemos intelectual e cronologicamente, mais somos capazes de perceber sua riqueza, de identificar elementos que, anteriormente, haviam-nos passado despercebidos. Ou seja: consumir uma sinfonia de Haydn aos 20 anos é diferente de consumi-la aos 40, desde que o ouvinte, claro, esteja disposto, nessa lacuna de 240 meses, a evoluir intelectualmente. Pode-se dizer, evidentemente, que a obra de Arte modificou-se – ao menos para esse consumidor. Bonito, não?

E quando acontece o contrário? O consumidor evolui e a obra de arte continua a mesma? Por exemplo: aos 17 anos é possível admirar, com todo aquele fervor adolescente, um determinado artista e sua produção, e alguns anos mais tarde, por conta do inevitável amadurecimento, perceber que esse artista continua a produzir conteúdo dirigido a indivíduos entre 12 e 17 anos. Não chega a ser um pecado, afinal pode ser essa a proposta desse artista. Mas qual será a decepção desse consumidor que espera evolução também por parte do ídolo a quem tanto admirava!

Capital Inicial apresenta novo álbum em Vitória

Só para ilustrar: dia desses encontrei um ex-aluno de quem fui professor no primeiro ano da década de 1990. Hoje tem 45, 46 anos, por aí. Num bate-papo amigável, ele trouxe à memória algo que vaticinei, quando ele, à época, dizia-se imenso fã da simpática banda pop Capital Inicial. Segundo ele, eu afirmei que, quando ele chegasse aos 30, o vocalista Dinho Ouro Preto e cia. seriam apenas memória: ele se lembraria de algumas canções, mas elas já não seriam mais parte de sua vida. Perguntei a ele se meu vaticínio se confirmara. Ele disse – senti certo desapontamento em sua resposta – que sim. Pois é. Modificamo-nos, com o tempo. A obra de arte também, a depender de nossa interpretação.

Mulheres #9: Sharon Tate

Sharon Tate foi assassinada, num 9 de agosto, há 51 anos, por um bando de lunáticos chefiados por Charles Manson. Tinha 26 anos e estava para trazer ao mundo seu filho, fruto da união com o cineasta polonês Roman Polanski. Era impressionantemente bela: o frescor da juventude parecia algo que seria natural quando envelhecesse. Não teve tempo de comprovar isso, lamentavelmente.

Lembro-me de ter assistido, na tevê, ao filme A Dança dos Vampiros, uma comédia sofisticada e ao mesmo tempo escrachada não somente ao ser mitológico em si, mas aos filmes de vampiros, de monstros em geral. Sharon Tate, belíssima, iluminava a tevê, a sala, a casa. Segundo Polanski, que se apaixonou implacavelmente por ela – quem não se apaixonaria? -, era o ser humano mais iluminado que ele conheceu, capaz de unir tranquilidade e autoridade numa mesma frase.

Não era uma grande atriz, embora não chegasse a comprometer. É fato também que não teve tempo de mostrar o talento que Polanski imaginava que ela tivesse. Não importa. O Vale das Bonecas é um filme chatíssimo, mas, nos momentos em que Sharon aparece, a película passa a valer a pena. Interessante é que, no original, Valley of Dolls, o termo dolls refere-se a barbitúricos e antidepressivos muito consumidos por gente de Hollywood. Quase todos fazia uso.

Sharon Tate não era careta – mas não era dada a porralouquices. Ao engravidar, parou de consumir a cannabis, além de ter maneirado na bebida. Foi vítima das fake news, quando da sua morte. Jornais culparam-na por sua própria morte, assim como atribuíram a seu círculo de amizades o horror imputado a ele. Até o Times entrou na onda, sem contar os aproveitadores e os titulares das fofocas do cinema. Um tempo depois, tudo se esclareceu. O que se pode fazer – hoje – é assistir a alguns de seus poucos filmes e experimentar sua beleza, sua simpatia, sua luz.

Sem Laurindo há 25 anos

Pois a vida é feita de coincidências: ontem pela manhã, resolvi ouvir um disco que não punha para rodar há alguns anos. Isso acontece com frequência. O título remete às incumbências dos artistas que o protagonizam: Sammy Davis, Jr. e Laurindo Almeida. Este último é o motivo desta postagem porque há 25 anos esse grande violonista deixou o mundo menos sonoro. O disco é uma maravilha, uma aula de como se deve cantar – quando se está instrumentalizado para isso – e outra de como o violão pode (e deve) tornar a vida mais feliz. Qualquer vida.

Não me lembro exatamente quando ouvi o violão de Laurindo Almeida pela primeira vez. Lembro-me, entretanto, que meu querido amigo Pedro Nunes, escritor tarimbado e grande conhecedor da música, emprestou-me Guitar from Ipanema, lá no início dos anos 1990. Esse disco, todavia, será obrigado a esperar. Em frente, então: Sammy Davis, Jr. é um dos maiores cantores americanos. Esqueça sua habilidade ao sapateado e o fato de ser um showman. O que conta, aqui, é voz, timbre, afinação, alcance. Em alguns momentos, provoca inveja em Sinatra, Crosby e Bennett.

E Laurindo, a estrela do post? Engana-se quem pensou que sua tarefa foi acompanhar o superstar do vozeirão. Laurindo Almeida deu o andamento, mostrou o caminho que deveria ser seguido. E mais: deu pitacos essenciais nos arranjos de George Rhodes (que trabalhava para o cantor), comprovando que a voz de Sammy Davis, acostumada a pesadas orquestras e aos contornos sensuais do swing, deveria mostrar-se mais terna (quase tímida) num disco essencialmente jazzístico. Sim, é jazz. E da melhor qualidade.

Se você, que está lendo, ignora o instrumentista de quem falo, saiba que há poucos pecados maiores. Aí vai por quê: Laurindo tocou com Villa-Lobos e Pixinguinha. Só isso já o imortalizaria, mas não ficou por aí: foi para os EUA e se tornou um ícone, porque é naquele país que ele produz para valer. Tocou com o Modern Jazz Quartet, com Ray Brown e com Stan Getz. Com o saxofonista Bud Shank ele botou a Bossa Nova no cardápio dos gringos, mas não estacionou no gênero, embora haja parentesco entre a BN e o jazz. O disco com Sammy Davis prova isso. Se quiser ouvir tudo, clique AQUI.

Caso não, experimente ao menos The Shadow of Your Smile, Speak Low e Where is Love? Seu pecado será atenuado. Boa audição!

Dia do Pulo, ontem

Ontem foi dia 20 de julho e, para quem não sabe, nessa data se comemora o Dia Mundial do Pulo. Isso mesmo que você leu: pulo, substantivo do verbo pular. Sim, galgar, transpor, saltar e assim por diante. A maluquice – o nome original é World Jump Day – foi criada por um alemão chamado Torsten Lauschmann, que afirmava que se 600 milhões de pessoas pulassem, simultaneamente, a órbita deste planeta seria alterada e, dessa forma, poderia influenciar no aquecimento global – que desapareceria como se não houvesse existido. Não, não faz sentido, mas e daí? Isso foi em 2006.

Pois não é que 47 anos antes, já se considerava o pulo algo libertário, que transcendia qualquer limite razoável e que deveria ser praticado por todos algumas vezes por semana? Quem pensava assim? Philippe Halsman, fotógrafo nascido na Letônia, e que, em 1959, lançou Jump Book: essa, sim, uma deliciosa bobagem. Tive essa raridade (a edição do ano de lançamento) em mãos, num sebo em Lisboa, mas não tive a coragem de desembolsar 440 euros pelo item.

Durante seis anos, Philippe Halsman convenceu atores, políticos, escritores, comediantes, pintores, músicos – todos eles (quase 200 celebridades) convencidos ao clique enquanto se projetavam para o alto e, inevitavelmente, por conta da gravidade, retornavam a seu lugar de origem. Durante o pulo, eram clicados. Caso da dupla Dean Martin e Jerry Lewis. E mais: além das extraordinárias fotografias – algumas delas improváveis! – há um ensaio escrito pelo fotógrafo intitulado “Jumpology” (algo como Pulologia), no qual afirma que o pulo faz a máscara social cair, mostrando a verdadeira face das pessoas. 

Acima, o físico J. Robert Oppenheimer, o homem da bomba atômica. Abaixo, Fred Astaire, que dançava melhor do que pulava.

117 Melhores Ideias de Jump! em 2020 | Fotos, Preto e branco ...

Eis a ideia de improbabilidade: o então presidente norte-americano Richard Nixon e o duque e a duquesa de Windsor. O poder e a aristocracia pegos no pulo.

E que tal mulheres em pleno ar? Kim Novak, Marilyn Monroe, Grace Kelly (em companhia do autor/fotógrafo).

E, para finalizar, com chave dourada: Dalí Atomicus.

Quer mais? Clique AQUI.

2 livros sobre Cinema

Dia desses, conversando com um querido amigo, historiador de fundamentação sólida, falamos sobre a importância de Ennio Morricone para o cinema norte-americano. Uma contribuição fundamental, explosiva, um ingrediente essencial que se consolidou a partir de sua obra-prima, Era uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone, com Claudia Cardinale que, em simbiose com o tema central da película, faz o ingresso valer a pena. Isso sem falar no casamento absolutamente insolúvel – daqueles que nem a morte separa – entre o ambiente que se constrói com a chegada da ferrovia e as tensões que ela provoca nas personagens. Obras-primas: trilha e filme. Mas não é sobre Ennio Morricone que quero falar.

Há alguns anos li – e justamente por conta da provocação de meu amigo historiador, resolvi reler – O Gênio do Sistema – a Era dos Estúdios em Hollywood, de Thomas Schatz. Na primeira leitura, a surpresa: essa ideia de que, nos áureos tempos da cinema norte-americano quem dava as cartas era o diretor é de um romantismo que beira a ingenuidade. Quem mandava, de fato, eram os chefões dos estúdios. Davam pitacos na música, no roteiro (às vezes reescreviam tudo), escolhiam atores e atrizes, norteavam a publicidade e, caso fosse necessário, até iriam para trás das câmeras.

Figuras como David Selznick, Jack Warner, Louis B. Mayer, Darryl Zanuck e Samuel Goldwyn são avaliadas, esmiuçadas, descritas a fundo. A prepotência, proporcional ao poder, era a palavra chave, e implicava que nenhum diretor escapava daquele sistema, que, engrenado, dava as cartas no entretenimento mundial. E olhe que estamos falando de diretores como Raoul Walsh, John Huston, John Ford, Alfred Hitchcock e George Cuckor – todos eles pesos-pesados na indústria. Sim, abaixavam a cabeça porque quem mandava, no fim das contas, não eram eles. A narrativa de Schatz é fluida, coisa de quem conhece o ramo com profundidade e ensina sobre ele, afinal é professor do assunto na Universidade do Texas em Austin.

Se você obtiver o livro – hoje, somente em sebos, porque ele foi editado em 1991 e, até onde sei, não teve reedição -, não deixe de ler. Claro: estou considerando que haja interesse em compreender como Hollywood se comporta hoje em dia, após o advento da tevê, do cinema digital e das plataformas de streaming. O início de tudo está lá, entre as décadas de 1930, e 1950. Há um outro livro, que aborda o sistema em sua decadência, a partir dos anos 1960, cujo título é Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sex-Drogas-e-Rock’n’roll salvou Hollywood. Esse eu estou lendo. Seu autor é Peter Biskind e em breve falo sobre ele. Ele, claro, é o livro que, a propósito, não está esgotado.

Seinfeld, Café, Carros

Jerry Seinfeld é judeu – e como bom judeu, sabe fazer negócio. Calma: isso é elogio, porque, além de judeu, ele é norte-americano. Quer elogio maior para alguém que combina esses dois ingredientes? Como co-autor, co-produtor e ator da série que levava seu nome, e que foi sucesso durante 9 temporadas, ganhou quase 500 milhões de dólares, a ponto de recusar 1/5 desse montante para fazer a décima temporada. Sabe como acumular grana – e é bom lembrar que isso não é pecado, a não ser que haja ilicitude, imoralidade e violência no processo.

Mas o que quero dizer é que, após o sucesso mastodôntico da sitcom Seinfeld, o gênio acumulador da comédia voltou aos palcos de stand-up (onde começou a carreira), produziu um desenho animado divertido, chamado Bee Movie, e resolveu inovar via internet: desde 2013, está à frente de Comedians in Cars Getting Coffee, um esquete de poucos minutos nos quais o comediante convida (quase sempre) outro comediante para, claro, fazer-nos rir. E para rirem juntos, afinal também são filhos de Deus.

Um amigo assistiu – por minha insistência – e me disse não ter achado graça. Comentou, citando outros judeus norte-americanos, que Jerry Lewis, Mel Brooks e Gene Wilder eram muito mais engraçados. Talvez até sejam, mas qual deles teve ousadia similar a criar um programa de humor neste formato inusitado, usando carros e cafeterias como ambientes para a comédia? E mais: uma comédia composta por apenas três personagens que, em última análise, ali estão para divertir um ao outro (uma das personagens é, claro, o automóvel). Nós somos os sortudos espectadores dessa conversa.

Jerry Seinfeld ama os carros. Tem uma coleção de valor incalculável, na qual sobressaem seus 47 porsches. Não sei se gosta tanto de café, mas os fãs da sitcom devem se lembrar de que um dos cenários preferidos do grupo era uma cafeteria, onde as 4 personagens (ele, George, Kramer e Elaine) se encontravam para fazer o show sobre nada. As temporadas de Comedians in Cars Getting Coffee estão disponíveis na Netflix. A propósito: na ilustração abaixo, no interior de um Corvette Sting Ray 1963, a companhia do comediante não é exatamente um humorista, mas, pelo jeito, a piada deve ter sido boa.

Jerry Seinfeld Says Netflix's Comedians in Cars Getting Coffee ...

O melhor Nabokov

Livro Fogo Pálido Vladimir Nabokov - R$ 20,00 em Mercado LivreQuando se chega pela primeira vez a este espaço, observa-se que, à direita de quem olha, há um widget intitulado Livro do Mês. Escolha pessoal, claro, já que mando e desmando neste blogue. Vamos em frente!

O melhor livro de Vladimir Nabokov se chama Fogo Pálido: uma obra-prima sem tirar nem pôr. É daqueles livros que os escritores apreciariam ter escrito. Algo como Nostromo, de Joseph Conrad, ou A Sagração da Primavera, de Alejo Carpentier. Li os dois, em épocas diferentes, creio que num espaço de 5 ou 6 anos entre um e outro. Já não sei mais. O que sei é que relerei. Mas quero falar de Nabokov, um dos meus ídolos. E de Fogo Pálido, um dos seus livros essenciais. Antes que alguém pergunte sobre Lolita, tenho a dizer que é um ótimo livro, mas se fosse enumerar, não estaria entre os melhores do autor russo.

Para começar, Fogo Pálido é um romance policial – evidentemente fora dos padrões norte-americanos, e também distante da intelectualidade do roman policier. Foge ao padrão por alguns pontos: a metalinguagem, a erudição e ambiente acadêmico. Imagine um poema de 999 versos, escritos por um professor, John Shade. Imagine agora um outro professor, Charles Kinbote,  que, usando o poema e analisando-o verso a verso, conte uma história de poder, espionagem, duplicidade sexual e morte situada no reino de Zembla que, claro, é tão fictício quanto o poema, quanto a análise e seus próceres.

É um festim narrativo, cheio de idas e vindas, de turbulências políticas, de virulências e uma certa charmosa patifaria – tudo isso marcado pela inteligência narrativa, pelos jogos de palavras, pelos trocadilhos e pela tradução magnífica de dois craques do ofício: Sérgio Duarte e Jório Dauster. Durante a leitura – eu escrevia Histórias curtas para Mariana M, quando o li -, imaginei que previra o final, mesmo com algumas armadilhas às quais me acostumei ao ler Nabokov. Errei feio, ainda bem! Não sei se o leitor entende isso.

Vladimir Nabokov morreu no dia 2 de julho, em 1977, quando eu tinha quinze anos – e ele, setenta e oito. Fogo Pálido foi publicado, pela primeira vez, no ano em que nasci, 1962. Li vários de seus livros. Gostei de todos, mas Fogo Pálido merece atenção especial. Vou, inclusive, reler.

O melhor do jazz #8: pianistas

O mundo preocupado com pandemia e você falando em jazz, Grijó? Pois é. Serve como alento – meu, principalmente. Mas vamos lá: dando continuidade à série O Melhor do Jazz:

Quem é o melhor pianista do gênero? Posso enumerar um grupo de 20 e eu mesmo ficar na dúvida de quem é melhor do que quem. Exemplo? Bud Powell é melhor do que Thelonious Monk? Art Tatum tem mais valor musical do que Earl Hines? Quem emociona mais? Bill Evans, Oscar Peterson, Herbie Hancock, Sonny Clark ou Ahmad Jamal? Quem é mais técnico que Duke Ellington? Quem difundiu mais o gênero do que Dave Brubeck? E McCoy Tyner, Horace Silver, Lennie Tristano, Erroll Garner, Tommy Flanagan, Hank Jones, John Lewis, Bobby Timmons? Vou deixar de fora Red Garland, Count Basie, Wynton Kelly, Ray Bryant, Phineas Newborn, Elmo Hope, Joe Albany? E só estou citando aqueles de quem me lembro imediatamente, sem consultar Gúgol ou arredores. Esqueci uma penca, tenho certeza.

Vou, entretanto, arriscar escolher 5, não mais que 5. Como já disse em outras postagens da série, aqui, neste blogue, qualquer lista sofre do mal que carregamos desde que nascemos: a subjetividade. Sem ela, enumerar os melhores (ou piores) cairia por terra, e a diversão (listas nada mais são do que isso) não teria qualquer valor. Vou revelar meu top 5 e indicar um disco do escolhido. Só vale gravação de estúdio.

Bill Evans – On Green Dolphin Street (1959/1975) | Um Disco Por DiaBill Evans é meu número 1. O disco é On Green Dolphin Street, de 1975, com dois craques do Miles Davis Quintet, Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones, bateria. AQUI você ouve tudo, faixa por faixa, na versão LP. A grande maioria dos críticos concorda comigo. Bill é o número 1 em quase todas as opiniões.

The Earl Hines Trio - Here Comes Earl "Fatha" Hines (1982, Vinyl ...Earl Hines é um dos gênios do piano em qualquer gênero. Here Comes Earl “Fatha” Hines é o nome do disco escolhido, de 1966, e que se pode ouvir, faixa a faixa, AQUI. Acompanhado de duas feras: Elvin Jones (bateria) e Richard Davis (contrabaixo). Difícil, muito difícil não colocá-lo como o primeirão da lista.

Bloomsbury Popular Music - Earl Hines

This Here Is Bobby Timmons - Wikipedia

Bobby Timmons é o terceiro lugar. O disco é This Here is Bobby Timmons, que veio ao mundo em 14 de janeiro, há 60 anos. Conheci-o ouvindo Cannonball Adderley, naquele discaço com o irmão, Nat, à corneta. Bobby é gênio. AQUI você pode ouvi-lo, faixa a faixa, e perceber que não há melhor swing nos teclados do jazz. Dê especial atenção a This Here, Dat There e Moanin’. Três clássicos.

ryu on Twitter: "#NowPlaying Bobby Timmons - Bags' Groove/from the ...

Brilliant Corners : Thelonious Monk: Amazon.fr: MusiqueThelonious Monk não precisa ser apresentado a ninguém. É o quarto lugar na minha lista. Um revolucionário que tocava com dedos esticados e balançando incansavelmente as pernas. O disco escolhido é Brilliant Corners, de 1957. As presenças de Sonny Rollins, no sax tenor, e de Clark Terry, no trompete, contam muito para a escolha. Ouça AQUI. Atenção para Pannonnica e I Surrender, Dear.

Thelonious Monk, Hackensack, NJ, 1957 | Francis Wolff

Dave Brubeck - Time Further Out - Amazon.com MusicDave Brubeck foi o pianista que me levou ao jazz. Time Further Out não foi, entretanto, o primeiro disco desse grande pianista que conheci – mas é, em estúdio, o melhor que conheço. E traz o quarteto original: Paul Desmond, no sax alto; Joe Morello, na bateria, e Gene Wright, no contrabaixo. AQUI, a maravilha, publicada em 1961.

Dave Brubeck: A Life in Time, Meaty and more - Happy's Weekend Reading

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