12 anos sem Norman Mailer

Numa seara habitada por Truman Capote, Gay Talese, Lillian Ross, Tom Wolfe e Hunter Tompson, destacar-se não era fácil. Pois Norman Mailer não somente se destacou, como foi o melhor do grupo. É o craque máximo do new journalism e um ficcionista de primeira linha, capaz de escrever sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e Os Mortos, clássico) com o mesmo primor estilístico que concedeu à biografia romanceada de Marilyn Monroe. Ou ainda escrevendo sobre uma de suas poucas paixões: o boxe. O livro A Luta, que versa sobre o embate entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, é um primor textual: nada se acrescenta, nada se omite. Fez mais: transformou Picasso em personagem, assim como o fez com o assassino de Kennedy: Lee Harvey Oswald. Em tempo: a obra de Picasso estimulou Mailer a desenhar. AQUI você confirma isso (é só comprar o livro).

O que torna Mailer tão especial? Talvez porque ele consiga algo que muitos escritores tarimbados tentaram, sem êxito: escrever ficção e falar de política ao mesmo tempo. Que eu me lembre, Gore Vidal conseguiu – e só. Provavelmente, após esta postagem ter sido publicada, eu me lembre de outro nome (mas não vou fazer adendos). A Guerra do Vietnam, o feminismo, os conflitos raciais, a relação USA-Cuba, as bandidagens das primárias para presidente, tudo isso era seu assunto, e foi uma espécie de destroçador do american way of life, que ele considerava uma baboseira nociva que precisava sempre ser atacada.

Resultado de imagem para os nus e os mortosNorman não se ateve à literatura, aos livros – ou ao jornalismo. Foi roteirista de cinema, escreveu para teatro e para a televisão, foi ícone contracultural, e despertou o ódio das feministas (e de qualquer pessoa normal) quando uma de suas esposas o acusou de violência: ele a esfaqueou duas vezes (uma estocada no peito e outra nas costas), com uma pen-knife. A propósito: Norman Mailer se casou seis vezes. A esposa esfaqueada chamava-se Adele Morales, pintora de origem peruana, e que morreu 3 anos após o ex-marido.

Hoje faz 12 anos que Norman Mailer morreu. Sinceramente? Acho que ele fez falta como escritor e como jornalista, principalmente durante os anos Obama, com sua dialética refinada e cáustica. Quanto ao governo atual, de Donald Trump, bem, acho que Mailer estaria salivando, pronto para estraçalhar a Casa Branca, demolindo-a, como fez com tudo que merecia demolição.

O melhor do Canadá

Meu sogro e minha sogra ficaram quase um mês no Canadá, a passeio. Pasmos com a eficiência política do país e com a funcionalidade que somente as nações civilizadas proporcionam, voltaram ao Brasil com certo desânimo – aplacado, somente, por conta das inexoráveis saudades dos filhos e, principalmente, das netas. Enfim, não é sobre família que quero falar, mas sobre o que de melhor o Canadá enviou ao mundo: Oscar Peterson e The Band. Claro que haverá quem pergunte: e Joni Mitchell, Neil Young, Alanis Morissette, Michael Bublé? E Justin Bieber? Isso contando só com gente ligada à música, porque Alice Munro, Michael Ondaatje e, claro, um dos meus críticos literários preferidos, Northrop Frye, estão entre os grandes artistas daquele país.

The Band acompanhou Bob Dylan por 2 anos. Só esse dado já qualificaria o grupo formado por Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Garth Hudson (teclados), Richard Manuel (piano) e Levon Helm (bateria), quase todos canadenses (Helm é americano). Conheci o grupo quando, em 1984, ganhei de presente o álbum triplo The Last Waltz, e desde então passei a tentar comprar tudo o que existia do grupo, incluindo o documentário homônimo do Scorsese – que hoje possuo, em devedê. Não, eles não fazem exatamente rock, nem exatamente folk – mas uma mistura muitíssimo bem equilibrada dos dois. Você pode observar em Up On Cripple Creek, logo abaixo.

E Oscar Peterson? Bem, o que posso dizer é que é um dos maiores pianistas do jazz. Para muitos, é seu maior virtuose, a excelência pianística em pessoa, o gênio das teclas. Tenho oito discos dele, e nenhum deles tem sequer uma faixa a qual posso chamar mediana. Acompanhou a Santíssima Trindade do Jazz Vocal: Ella, Billie e Carmen McRae; fez o mesmo com os saxofonistas Charlie Parker, Coleman Hawkins, Lester Young e Stan Getz. Quer mais? Dizzy Gillespie, Freddie Hubbard e Clark Terry disputavam-no a tapas – mas ele sempre preferiu Roy Eldridge. Se você aceita dicas de discos, aí vai: ouça West Side Story, Oscar Peterson Plays Duke Ellington e um dos grandes discos ao vivo que conheço: Live from Chicago.

O vídeo abaixo, com mais de 80 minutos de jazz no ponto mais alto, mostra Oscar Peterson em plena forma, expondo aos escandinavos o que há de melhor no gênero. Shows na Suécia, na Dinamarca e na Finlândia, entre 1963 e 1965. E um escrete acompanhando-o: Ray Brown, no baixo; Ed Thigpen: na bateria; Roy Eldridge no trompete, e Clark Terry, tocando trompete, flugelhorn. Quando tiver tempo, veja o vídeo todo, e entenda por que devemos tanto ao Canadá.

Pres aos 110

Se vivo, Lester Young, um dos mais importantes saxofonistas do jazz, estaria fazendo 110 anos. Pres, apelido criado por Billie Holiday, sua querida amiga, dá o tom do que ele era: President, numa hierarquia em que os sax-tenores eram grandiosos e absolutamente irrepreensíveis em suas performances. Lester Young talvez tenha sido o mais elegante e menos agressivo, em contraposição a outro titã da época e do sax-tenor: Coleman Hawkins. Estou ouvindo, neste instante em que escrevo, o primeiro disco dessa fera que comprei: The Jazz Giants, álbum da Verve cheio de estrelas: Roy Eldridge (trompete), Vic Dickenson (trombone), Teddy Wilson (piano), Freddie Green (guitarra), Gene Ramey (baixo) e Jo Jones (bateria). a gravação é de janeiro de 1956.

Imagem relacionada

AQUI você ouve a primeira faixa do disco, I Guess I’ll have to Change My Plan.

E AQUI, a melhor faixa do disco, Gigantic Blues.

É isso, Presidente!

Resultado de imagem para lester young

Donald & Joaquim Maria

Resultado de imagem para barthelmeConsta que o notável escritor norte-americano Donald Barthelme leu Epitaph of a Small Winner, do não menos notável Machado de Assis. Para quem ignora, Epitaph of a Small Winner é conhecido por nós, brasileiros, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, o mais ousado dos romances do autor carioca. Consta que a partir de então foi aos contos, e leu vários deles, envolvendo-se cada vez mais com a narrativa do brasileiro. Li vários livros de Barthelme, e identifico pouca coisa em comum com Machado de Assis. Exceto, claro, pelo que vou escrever.

Escrevi sobre Barthelme nos primórdios deste blogue, há dois anos. Falei sobre O Pai Morto, uma novela deliciosamente sarcástica sobre a função paterna e de como ela deve ser questionada. Não sei exatamente por que figuras como Barthelme, o mexicano Juan José Arreola e o hippie Richard Brautigan são solenemente ignorados pela editoras brasileiras. Já escrevi sobre isso também. Mas não é sobre eles que quero falar. Ontem, dia 23 de julho, fez 30 anos que Donald Barthelme deixou este mundo. Não, não é uma metáfora. Ele morreu mesmo. Mantém-se vivo, entretanto, para aqueles leitores que creem na estranha fusão entre autor e obra.

Barthelme nasceu 23 anos depois de Machado de Assis ter morrido. Conheceu sua obra em 1972, quando o autor carioca era um defunto de 64 anos, e Barthelme, já escritor maduro aos 41, tinha publicado Come Back, Dr. Calligari, Unspeakable Practices, Unnatural Acts, City Life e o ótimo romance Snow White. Em outras palavras: se há alguma influência machadiana em suas obras, ela aparece nos livros seguintes – e mais principalmente em O Pai Morto, afinal o dito cujo, sendo carregado pelos filhos para o próprio enterro, passa a questionar se deve ou não continuar neste mundo. Isso sem falar no inabalável poder de quem está morto.

Poder, eu disse? Sim, já que aos mortos tudo é possível. Pelo menos é o que nos aponta o narrador das próprias memórias, Brás Cubas – ou o Small Winner, que despertou a curiosidade de Barthelme e que, possivelmente, inspirou-lhe a história de O Pai Morto. Se não, tudo bem. Para efeito de postagem – a minha! -, afirmo que sim. E enquanto afirmo, vou rezando (gerúndio adequado) para que os outros livros de Donald sejam traduzidos para a língua de Joaquim Maria. Quem sabe o que será do futuro?

Bueno, Contracultura, Cassidy

Eduardo Bueno é um jornalista que sabe escrever, sabe ir além do texto jornalístico e de suas regras de como fazer o leitor entender – muitas vezes o óbvio.  Ir além do texto jornalístico, para mim, é aproximar-se da literatura. Não espere, claro, que eu o compare a Tom Wolfe, a Truman Capote ou ao meu preferido, Gay Talese, craques do new journalism. Se é para iniciar esta postagem com alguma comparação, aproxime Eduardo Bueno de Ruy Castro, de Fernando Moraes. Devo dizer que esse não é o propósito deste texto.

Li, há pouco mais de dois meses, Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, do dito cujo. Uma reunião de textos – quase todos ótimos – sobre um tema que me interessa: contracultura. Escrevi sobre isso na biografia Os Mamíferos…, mas não é sobre mim que quero falar. Contracultura não é tema explorado há pouco tempo. Contracultura é, evidentemente, algo tão antigo quanto a cultura per si. O Iluminismo foi contracultural, bem como o Modernismo, catapultado pelas vanguardas que a Europa gerou. Enfim! Eduardo Bueno reúne textos que publicou entre 1984 e 2010, e mais um texto inédito, intitulado Quatro Mil Dólares e uma Ponta.

A maioria dos leitores de Bueno – aos menos aqueles que conheço – tiveram contato com ele pelos livros publicados pela Estação Brasil. Livros de História escritos por um jornalista – quer algo mais contracultural? Ao contrário deles, cheguei a Bueno através do livro Alma Beat, no qual se encontravam textos de outros simpatizantes do movimento, como Claudio Willer (tradutor de Lautreamont) e Antonio Bivar. Todos bons de traço, mas Eduardo Bueno era mais rock and roll, mais ácido, e tão divertido quanto esclarecedor. Eu tinha 22 anos, já era professor e pude ver o quanto eu não sabia – e quanto era necessário aprender!

Voltando ao livro: de todos os textos (16, ao todo), sem contar as crônicas, o que mais me chamou a atenção foi Visões e Revisões de Jack & Neal, escrito e publicado há 10 anos, no qual Bueno apresenta o tom de beatitude que exsudava da figura de Neal Cassady, um dos heróis da geração beat. É nesse texto que Bueno parece se emocionar, parece entregar-se ao que o movimento tinha de mais verdadeiro e honesto, mais inquieto e pujante. Há muito mais a dizer, mas um blogue precisa economizar as palavras, ou não será lido. Ok, não precisa perder seu tempo, mas ganhe de outro lado: leia o livro de Eduardo Bueno. É uma viagem de ida da qual não é necessário voltar.

Ben Webster aos 110

Vivo estivesse, Ben Webster faria, neste 27 de março, 110 anos. Ao ouvi-lo pela primeira vez, no coração dos anos 1980, achei que exagerava nos vibratos. Tudo bem, era um disco de baladas, duplo, da Verve, intitulado – claro! – Ballads. A capa está abaixo, e traz a ilustração de um sapo ao saxofone. Ben tinha esse apelido, Frog. Voltando ao disco (o qual, depois, revi sobre ele minha opiniões): gravações quase definitivas de Willow Weep for Me, Come Rain or Come Shine, Blue Moon, Teach Me Tonight, My Funny ValentineSophisticated Lady e minha preferida: There’s No Greater Love. Só baladas clássicas, em cujas execuções Ben Webster se faz acompanhar por um escrete.

Resultado de imagem para ben webster ballads

Só para se ter uma ideia: Hank Jones, Thad Wilson e Billy Strayhorn aos pianos. Só a presença desses três senhores já vale o ingresso. Mas há mais: as baterias estupendas de Louis Bellson e de Jo Jones e o contrabaixo de Ray Brown. Se na época impliquei com os vibratos – que, percebo hoje, aveludam a melodia -, minha opinião era nada mais que a ingênua apreensão de um músico que habita o panteão dos grandes sax tenores do jazz. Hoje, felizmente, posso ouvir esse disco tão magnífico quanto essencial (possuo em vinil e em cedê) a quem aprecia o jazz. Felizes 110 anos, Ben! (numa foto de Jan Persson):

Imagem relacionada

Bach, Brandenburgo

Hoje, dia 21 de março, é dia de Bach – ou melhor, há 334 anos, nascia uma das maiores – senão a maior – personalidades artísticas de todas as épocas: Johann Sebastian Bach. Para mim, maior que Shakespeare, Cervantes, Michelangelo, Dante, Nijinsky, Rembrandt. Sim, é bobagem comparar, mas diverte. Em homenagem ao Kantor, aí vai o que, para muitos, é sua maior obra: os Concertos de Brandenburgo, escritas em 1721 para o Margrave de Brandenburgo, que, segundo consta, sequer agradeceu a generosidade. Não sei, mas deve ser o som celestial, aquele que se ouvirá ao lado do Criador. É música criativa, contrapontística – barroca em sua essência -, viva e alegre, multi-instrumental. Extraordinária, resumindo.

1 2 3 13
Page 1 of 13