Vilões do Celuloide

Gosto de conversar com intelectuais. Considero-os o topo da cadeia, algo sacrossanto, estão a um passo da iluminação. Não estou sozinho nisso porque eles também se consideram assim. Conheço vários deles, e ligados também a múltiplas áreas. Quando versam sobre algo de que já ouvi falar, limito-me a aprender mais porque assim devem se comportar aqueles que reconhecem o próprio limite – no caso, eu. Há um tipo de intelectual que todos apreciam ser, até porque, para isso, não há necessidade de uma formação específica, nem muitos anos de estudo ou dedicação. Essa rara criatura é o conhecedor de cinema. Não, não falo de estudantes, críticos ou teóricos do assunto. Não é tão simples assim. Refiro-me aos reais conhecedores, àqueles que se esparramam pelas mesas de bar, loquazes, usam sandálias, discursam trechos inteiros de Herr Nietzsche e defendem, com os olhos rútilos, a produção cinematografia paquistanesa. Geralmente, perto deles, sou todo ouvidos. Meia hora de papo e me sinto diante de uma respeitável Pauline Kael regional.

Ouço-os falar de cinema. Todos eles assistiram às películas cruciais à formação cerebral do homem civilizado. Têm conhecimento sobre tomadas, sobre fotografia, sobre linguagem, sabem como adequar a música ao movimento, reconhecem o bom e o mau desempenho deste ou daquele ator, palpitam sobre figurinos e opinam sobre edição. Eu, de minha parte, gosto de ouvir e, como já mencionei, de aprender. Algo, porém, foge à minha compreensão: por que o cinema norte-americano virou o vilão da história? Por que, em roda de intelectuais, é tomado como o resumo da estupidez, da lepra visual? É claro que se tornou moda – há muito – elogiar o cinema indiano, o iraniano, o neozelandês, o europeu. Também é claro que têm eles seu valor. Há quarenta e cinco anos a coisa era assim: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Neorrealismo italiano formavam a trindade intocável do celuloide. Fellini, Glauber e Godard eram populares como Mickey Mouse e Donald Duck. Aos cineastas norte-americanos sobrava o vácuo intelectual.

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Acredito, com todo o respeito que os intelectuais merecem, que há um certo equívoco ao considerar o cinema lá de cima um cinema menor. Penso justamente o oposto. Não consigo vislumbrar nada melhor do que os filmes de Billy Wilder – que era austríaco mas fazia cinema americano como poucos. Alguém viu Farrapo Humano? Crepúsculo dos Deuses? A Montanha dos Sete Abutres? Pacto de Sangue? (Descartei as comédias porque sei o que a intelligentsia pensa delas). Quem, dentre os europeus, filmou melhor que Howard Hawks e John Ford? Falem a verdade. E quanto a Frank Capra, Robert Wise, George Cuckor, John Huston, Orson Welles, Elia Kazan, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Mervin Leroy, Otto Preminger, Raoul Walsh, Samuel Fuller, Fred Zinneman? Isso só citando o primeiro time, porque os reservas também goleavam. E mais: muitos estrangeiros, ainda que despidos do american way, fizeram filmes norte-americaníssimos, como Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Jaques Tourneur e Douglas Sirk.

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Ok, tinham os melhores diretores. Tinham tudo, então? Não. Como qualquer intelectual sabe, se não há uma boa história sendo contada, não há um bom filme. Martin Scorsese – que bem poderia vestir a camisa de titular, assim como Francis Coppola, também itálico – já dizia isso. Tinham também os melhores roteiristas, muitos deles os melhores escritores na época: do sisudo William Faulkner ao obsessivo Dalton Trumbo, passando por Leon Uris, Gore Vidal e Tenessee Williams. Junte um bom barco e um bom timoneiro e não haverá oceano intransponível. E possuíam os melhores fotógrafos, os melhores cinegrafistas, os músicos de excelência, os figurinistas de primeira linha. Tudo isso porque tinham dinheiro? Bem, souberam aproveitar a grana criando uma fábrica de sonhos, que, para muitos – pelo menos para alguns atores e algumas atrizes –, tornou-se uma fábrica de pesadelos, mas isso fica pra depois.

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Penso – e isso é apenas uma opinião – que não se deve tomar como base o cinemão industrial cujo objetivo é produzir entretenimento e que serve para enriquecer ainda mais os chefões judeus dos grandes estúdios. Há setenta anos também era assim, mas com mais estilo e glamour e mais histórias bem contadas – e com menos propaganda. Mas o que dizer de Woody Allen, David Mamet, Robert Altman, John Landis, Lawrence Kasdan, Ridley Scott, James Ivory, Spike Lee, George Lucas, Steven Spielberg? Muitos desses estão vivos e produzindo, cada um a seu modo, um grande cinema. Muitos chegam a fazer suspirar os estudantes de comunicação, mesmo quando ninguém está olhando. Não entro na seara da animação ou dos documentários, nem na dos talentos revelados pelo Sundance de Mr. Redford, no cinema independente, no underground, nem nessa nova safra de diretores que tentam – com êxito, a meu ver – expor um novo caminho para a ficção do écran, como Tarantino, Sam Mendes e Richard Kelly. Demonizar o cinema norte-americano tornou-se a ordem do dia, mas uma ordem que se estende por pelo menos cinco décadas. E olhe que os verdadeiros demônios dessa história – os produtores, os doughmen – nem entraram neste texto.

Gil, o roqueiro

O rock, como se sabe, instaura-se em nossa vida durante a adolescência. Poucos são os casos em que um indivíduo maduro, após ter experimentado gêneros musicais variados, tenha desembocado no rock como descoberta e como predileção. Não conheço alguém que tenha feito esse caminho. Deve haver alguém neste mundo, mas ignoro-o. Embora não seja meu gênero preferido – já disse isso em alguma postagem -, tenho apreço por algumas bandas e por alguns intérpretes. Elvis, Joe Cocker e Roger Daltrey moram em meu coração. The Who, Stones, Allman Brothers, Pink Floyd e Lynyrd Skynyrd estarão no meu funeral – metonimicamente falando. Hendrix e Rick Wakeman também. Sim, Rick Wakeman. Pode caçoar. Sou fã.

Sou fã também de Gilberto Gil, que em meados dos anos 1960, nutriu-se de rock a ponto de nos proporcionar um movimento que muito tinha do citado gênero: o Tropicalismo. Fã confesso de Jimi Hendrix, Gil percebeu que as poucas saídas – ou entradas – para a música brasileira era o rock. Foi entusiasta dOs Mutantes, a grande banda progressiva brasileira. Não conheço nada melhor, ao menos não entre brasileiros. Dia desses, conversando com um amigo, um autêntico detrator do rock, ouvi-o afirmar que não reconhece qualidade nas letras das canções roqueiras. Para ele é um festival de bobagens que acaba corroborando a ideia de que rock é coisa para adolescentes. Citou Titãs, Paralamas, Cazuza, Ultraje a Rigor, Blitz, Plebe Rude, Legião Urbana, Lobão, Camisa de Vênus. Desafiou-me a encontrar algo que se pudesse classificar, em termos textuais, como satisfatoriamente adulto. A expressão foi dele.

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De imediato, não encontrei. Lembrei-me, então, de Roque Santeiro, o rock, tema de Gil que compõe o magistral disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985. É uma aula de como se faz uma canção em homenagem a um gênero. É um rock para o rock, metalinguístico, positivo, questionador. Além das escancaradas referências ao BRock, que ganhava força e se estabelecia na cena musical brasileira, Gil explica por que se deve abrir o coração para o rock, símbolo da juventude, do questionamento, da insatisfação, do desejo incontido, da força poderosa. E com uma letra absolutamente bem armada, carregada de ironias, jogos de palavras, metáforas precisas. Sim, é uma beleza. Ouça e veja, AQUI. Dê um desconto, claro, para os costumes vestuários de 33 anos atrás. Mas ouça!

Resultado de imagem para brock rock brasileiroLi o livro BRock – o rock brasileiro dos anos 80, de Arthur Dapieve. Vale a leitura, embora eu o tenha considerado, quando li, indulgente demais. É um panorama, tão vasto quanto possível, de um movimento que devolveu à juventude o vigor que, num certo sentido, ela havia perdido. Resolvi, antes de escrever este texto, passar os olhos no livro, que li há 18 anos. Realmente meu amigo tem razão: textualmente falando, o mundo adulto passa longe. Mas isso o desmerece? E quanto a Gil? Bem, creio que o papo é outro. Gil homenageou, como eu disse, todo o movimento. Acreditou nele. Claro que não podia prever os desastres que se tornariam Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão, mas isso é outra história. O rock não merece que se discuta esse pormenor.

Seinfeld versus Friends

Rendi-me à Netflix. Vale menos do que se propaga, mas, ainda assim, merece uma checada. A parte boa: além de algumas boas séries (a maioria sugerida por meus alunos), há Seinfeld.  Sim, ele mesmo, com os deliciosos microcapítulos de Comedians in Cars Getting Coffee e Jerry Before Seinfeld. Só isso já valeria ficar em frente à tevê. Vasculhando mais, encontrei a série Friends, completinha, sem pôr nem tirar. Mas por que falo isso? Eu explico.

Não sei quem disse que, daqui a 100 anos, os americanos serão reconhecidos por 3 elementos básicos: a sua Constituição, sintética e eficaz, o jazz e os filmes de faroeste. Eu diria 4: as sitcoms, as comédias de costumes de 25 minutos que, de uma forma inequívoca, demonstram o que os ianques pensam e como agem. É claro que todo o mundo conhece Friends, que a cada episódio fazia um balanço do dia-a-dia de seis amigos – homens e mulheres, em igual número – na atribulada New York dos anos 90. Das piadas de Chandler à beleza refulgente de Rachel, os amigos faziam rir – ainda fazem, em reprises – com seu humor ligeiro e em alguns momentos piegas.

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O sucesso de Friends não residia somente no seu timaço de vistosos atores/competentes humoristas, mas principalmente nas resoluções alto-astral de cada episódio. Assistindo a Friends, aprende-se sobre solidariedade, sobre lealdade, carinho, confraternização e amizade – tão caros nos dias de hoje, e mais raros ainda em cidades grandes, onde reina o pessimismo e onde o egoísmo é carta marcada. É algo cristão. O título é apropriadíssimo: nada é tão importante quanto os laços que nos unem a pessoas de origens distintas que invadem nossa vida e fazem dela algo mais fácil de suportar. Eram doces, todos eles – cada um a seu modo. Muitas vezes a taxa de glicose superava o limite tolerável, mas a desmiolada Phoebe e o medíocre ator Joey (com sua charmosa burrice) seguravam o barco – e não deixavam que ele afundasse. Seinfeld, a meu ver, trabalhava na contramão, e talvez esse seja seu mais precioso segredo.

Jerry Seinfeld fazia o papel de si mesmo, um judeu com cara de passarinho. Nem bonito nem atlético, o meia-idade Jerome era o exemplo do politicamente incorreto. Daí seu charme transgressor e sua empatia com um público que desejava muito silenciosamente que o mundo acabasse. Vivia num cubículo e frequentava um coffee-shop decadente, ponto de encontro de um grupo tão heterogêneo quanto engraçado. Jerry era um humorista bem-resolvido, mas não tão bem-sucedido, seus pais eram neuróticos, muitas vezes chatos, e ele os amava mais quando estavam na Flórida, a milhares de quilômetros. Tinha 3 amigos tão politicamente incorretos quanto ele: o baixo, calvo e complexado George Costanza; a pequena, inquieta e interesseira Elaine Benes, e o incompreensivelmente alucinado Cosmo Kramer.

Quem lhes cruzasse o caminho era invariavelmente chicoteado pela mordacidade das piadas cáusticas, pela falta de solidariedade, pelo desprezo por aquilo a que nós chamamos raça humana. Ninguém era poupado, nem eles mesmos. Com frequência, George sentia-se satisfeito por ver Jerry em apuros. Os deboches direcionados a Elaine eram constantes. Kramer não era levado a sério: suas idéias mirabolantes e sua capacidade de raciocínio confundiam a todos – os espectadores inclusos. Mas a incorreção política desses 4 cavaleiros do fim-do-mundo constituía seu patrimônio maior porque nos fazia rir daquilo que estávamos – e sempre estaremos – impossibilitados de fazer: não obedecer a essa neurose carregada de regras – muitas delas idiotas – que invade o Ocidente e faz de nossa sociedade um grupo de caretas. Infelizmente – ao menos por enquanto -, os capítulos de Seinfeld não estão disponíveis na Netflix.

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Muita gente vai dizer que não se pode comparar Friends com Seinfeld. Pode ser. Mas convém lembrar que ambos conheceram a estratosfera do sucesso nas comédias de costumes, e fizeram o mundo rir. Têm, portanto, algo em comum, inclusive o fato de que sobrevivem apenas na memória e nos revivals. E, no caso de Friends, na Netflix. E como se diz por aí, se há algo em comum, a comparação é inevitável. Ok, evitemos. Então fale você. Se você tem canal por assinatura, dê uma checada nos 2 sitcoms e diga a verdade: em qual você preferiria estar?

 

Blue Note, capas

By Francisco Grijó / 25 de Fevereiro de 2018

Em janeiro de 1956, Francis Wolff, executivo da mitológica gravadora Blue Note, conheceu Reid Miles, um artista comercial fã de música clássica. A empatia foi imediata e, após uns drinques e uma proposta financeira bastante razoável, Reid se tornou o designer das capas da gravadora – algo que durou 11 longos anos. Alfred Lion, fundador da Blue Note, e Francis Wolff , fotógrafo, diziam o que queriam numa capa e deixavam que Miles desse vida visual ao que imaginavam (incluindo aí as fotografias do próprio Wolff). O resultado foi um sem-número de magníficas capas que se tornaram, além da excelente música que ilustravam, um caso à parte. Se você tem uns dólares para gastar, pode comprar The Cover Art of Blue Note, uma coleção, em dois volumes, do que Reid Miles produziu.  São quase 400 capas. Se você não tem esses dólares, aproveite esta postagem e estes exemplos abaixo:

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Reid Miles tinha pedigree: passou pelo Chouinard Art Institute de Los Angeles., onde desenvolveu técnicas de design tão inovadoras quanto ricas em significado. No começo dos anos 1950, foi contratado pela revista Esquire, e a partir de então Francis Wolff resolveu contratá-lo pára desenvolver as capas dos lps de 12 polegadas. Deu no que deu: as capas da Blue Note são o que de melhor existe na cover art jazzística. Eu arriscaria dizer que são as melhores capas de qualquer gênero, mas há quem discorde disso.

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Eis aí um problema que o cedê não resolve. Pode até purificar a música, mas não consegue fazer justiça às capas. As dimensões reduzidas impedem que se vislumbre a genialidade de Reid Miles em sua amplitude. Nem tudo, todavia, está perdido: nos últimos anos, muito desse material foi reeditado em vinil – em seu formato clássico e original, o que permite à garotada interessada em jazz aproveitar toda a beleza da arte produzida por Reid Miles e por seus seguidores. Sim, eles existem. Mas isso é papo para depois.

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Filmes (re)vistos #2: Clube dos Cafajestes

Críticos de cinema não gostam muito de comédias, embora reconheçam que Quanto mais Quente Melhor, de Billy Wilder, seja um dos grandes filmes já feitos. Como não sou crítico, eu gosto – e muito. E mais ainda dos filmes de John Landis, quando este se propõe fazer rir sem sequer passar perto dos recursos do slapstick, ou pastelão. John Landis fez, só para início de conversa, Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers, 1980) e Clube dos Cafajestes (National Lampoon’s Animal House, 1978). Poderia se aposentar com a certeza de dever cumprido. Ambos são protagonizados por John Belushi, o ator iconoclasta e anárquico que aporrinhava todo diretor com quem trabalhava. Com Landis, John Belushi comportou-se porque tinha um rival: o próprio Landis.

Escolho um para rever e comentar: Clube dos Cafajestes parece ser uma comédia para adolescentes – e é. Mas não para adolescentes que ouvem Jota Quest e passam horas e horas nas academias e de joelhos rezando para Youtubers sem graça e sem cérebro. Se você é um deles, esqueça. Tem de ouvir o Velvet Underground e gostar de dormir até tarde.

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O filme é sacana, despudorado, politicamente incorreto, debochado e esmaga sob o chinelo a própria adolescência que se preocupa em ser exemplo para a família. Daí se perceber que no filme ninguém presta – nem os estudantes certinhos que, em sua maioria, são rancorosos e egoístas. Belushi fala pouco – suas gags são físicas, seja no corpo, seja no rosto de sobrancelhas móveis como lagartixas. Donald Sutherland – um professor de literatura chatíssimo que fuma baseados diários – está impagável. A Festa da Toga – no fim da postagem, como aperitivo –, em que ninguém é de ninguém, é um dos grandes pontos altos de um filme feito para as alturas. Mas o bacana na película é o clima de guerra entre as fraternidades – o que já é uma contradição em termos. De um lado, os ajustados Ômegas; de outro, aqueles para quem eu torço: os Deltas. É o fraque contra o farrapo, e, no final, o farrapo sai ganhando – e, para sedimentar a vitória, destrói o desfile oficial da cidade.

Clube dos Cafajestes não pode passar na Sessão da Tarde. Há cenas consideradas desaconselháveis para menores – por isso ele é reprisado, de vez em quando, nesses corujões da Globo, durante as madrugadas insones. Não está na Netflix. Se estiver, não consegui achar. Se você dorme até tarde, é porque fica acordado durante toda a noite. Ou faça como eu: tenha o filme em casa, em blu-ray, recém comprado – é muito melhor. A propósito: se você não sabe quem é John Belushi, apresento-lhe:

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AQUI, um aperitivo.

Fala! #5: Juan Carlos Onetti

Assim que eu contar a elas que estamos chegando vão começar a conversar, a pintar-se, lembram do seu ofício, estão ficando mais feias e velhas, fazem cara de mocinha, baixam os olhos para examinar as mãos. São três e não demorei quinze dias. Barthé tem mais do que merece, ele e toda a cidade, embora talvez riam ao vê-las e continuem rindo durante dias ou semanas. Já não têm quinze anos e estão vestidas de jeito a esfriar o ânimo de um fauno. Mas são gente, são boas, são alegres e sabem trabalhar.

Junta-Cadáveres

O Melhor do Jazz #5: os quartetos

O melhor quarteto de jazz é, na verdade, um quinteto. É opinião pessoal e a mantenho há quantos anos? Uns 30. O quinteto de Miles Davis (com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones). Alguns dos discos são obras primas, daquelas obrigatórias em qualquer lista. A classificação, entretanto, nesta postagem, relaciona-se a quartetos, não necessariamente à formação sax, piano, bateria, contrabaixo. Pode haver variações.

Imagem relacionadaA Love Supreme é das melhores coisas que o jazz produziu. É o máximo de John Coltrane, tanto espiritual e comercial quanto artístico. É seu ponto culminante, um olhar para si mesmo tendo Deus como guia. Não, não é obra gospel. É uma jornada musical de 33 minutos com a melhor formação possível em quarteto: McCoy Tyner, piano; Jimmy Garrison, contrabaixo; Elvin Jones, bateria. Todos eles magistrais, literalmente mestres em seus instrumentos. Um disco notável, dividido em quatro partes que, juntas, formam um totem musical: Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. AQUI, o disco completo.

Tenor Madness é o único disco em que Sonny Rollins e John Coltrane se encontram – e mesmo assim em apenas uma faixa – a que dá título ao disco. Consta que Rollins havia contratado a sessão rítmica de Coltrane para o disco (Garland, Chambers e Joe Jones) e, já no estúdio, soube que o amigo havia ficado no carro, dormindo. Mandou chamá-lo e, sem que houvessem ensaiado, gravaram a faixa-título. Verdade ou não, é o que se conta – e tenho certeza de que é uma situação plenamente possível. O disco é um espetáculo, em especial Tenor Madness, com 12 minutos, e Paul’s Pal, uma homenagem de Rollins a Chambers. AQUI o disco inteirinho. E o mais interessante: você pode ouvir o mais bem acabado casamento entre harmonia (Coltrane) e melodia (Rollins).

Imagem relacionadaQuando listei os meus preferidos discos ao vivo, sofri por deixar European Concert, do  Modern Jazz Quartet, de fora. É um disco sublime, em que John Lewis, o pianista mais elegante do jazz e líder do grupo, está inspiradíssimo. O contrabaixo (Percy Heath), o vibrafone (Milt Jackson) e a bateria (Connie Kay) não ficam atrás. É, dos que conheço, o melhor disco desse escrete. Os diálogos entre vibrafone e piano – os contrapontos harmônicos de Lewis são sensacionais! – são coisas para serem ouvidas no Céu, quando minha hora chegar. Destaque para Django (clássico do grupo), ‘Round Midnight, I Remember Clifford e I’ll Remember April. Uma beleza. Aliás, 15. AQUI você comprova o que digo.

Dave Brubeck é um patrimônio do jazz. E seu quarteto também, mesmo que tenha havido variações em seus personagens. A formação básica, fundamental, traz Paul Desmond, no sax alto; Joe Morello, na bateria, e Gene Wright, no contrabaixo. Todos geniais. Agora ponha esses senhores para tocar a música do maior de todos os compositores norte-americanos, Cole Porter. Tudo bem: são apenas oito faixas, o que é um pecado deixar de lado ao menos 20 composições importantes desse gênio da música. Por outro lado, estão presentes Love For Sale, Night and Day, What is This Thing Called Love, I Get a Kick Out of You e Just One of Those Things. Não, não é pouco. Dave Brubeck é um dos principais pianistas do jazz. Paul Desmond é o mais cool dos saxofonistas. Para muita gente, Joe Morello é um deus. E Gene Wright é uma fera domada apenas pelo piano do mestre. AQUI, esse discaço.

Chico Hamilton e Carson Smith são duas figuras conhecidas no mundo do jazz. O primeiro é um baterista de primeira; o baixista, competente e sério, é daqueles profissionais com quem todos apreciariam tocar. Pois esses dois + o sax barítono Gerry Mulligan e o trompetista Chet Baker, criaram um quarteto (sem piano) que está entre as grandes formações do jazz. As gravações de The Lady is a Tramp, Moonlight in Vermont e My Funny Valentine são definitivas. Mulligan é o melhor em seu instrumento. Chet é Chet – e ponto.

 

Filmes (re)vistos #1: Anti-heroi Americano

Gosto de rever filmes, assim como aprecio reler livros, ouvir a mesma faixa do disco repetidas vezes etc. Comentei, há algumas postagens, sobre Quino, o extraordinário cartunista argentino. Também escrevi sobre Milo Manara. Em outras palavras, também admiro os quadrinhos e, no caso deste texto específico, admiro quando os quadrinhos se ligam ao cinema. Não, nada de Marvel ou DC, embora não chegue a desgostar de algumas películas que trazem Batman, X-Men, Superman & O Justiceiro. Como você poderá perceber, vou ao outro extremo para falar de um filme que considero dos melhores que vi nos últimos anos, e que revejo tanto quanto possível: American Splendor, que aqui no Brasil ganhou o título de Anti-herói Americano, criação conjunta dos diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman.

É bom saber: American Splendor é uma revista, um comic book que se fundamenta exclusivamente em fatos quotidianos, na cidade de Cleveland, Ohio. Os autores dessa revista-crônica são o legendário e maldito Robert Crumb e um tal Harvey Pekar, o anti-herói protagonista da película, um judeu depressivo unha-de-fome e amante do jazz que trabalha como arquivista – e por isso é frustrado. Não gosta do que faz e foi abandonado pela esposa que, ao deixar o lar em que viviam, disse não aguentar a vida plebeia. Resolve criar uma revista a partir de um fato solitário: ao organizar arquivos de óbitos, vê-se diante da ficha de um homem que trabalhara durante toda a vida num emprego como o dele. A partir de então, resolve criar uma revista, que se torna famosa e vende como chicletes, mas Pekar continua na mesma, até envolver-se com uma mulher tão esquisita quanto ele, que vê em todos os seres humanos sintomas neuróticos.

Só essa premissa, a meu ver, já valeria uma checada no filme, mas há mais: Harvey Pekar, com a fama, chega a sentar-se por algumas vezes na cadeira diante de David Letterman (sim, o do talk-show que o Jô Soares copiava) – até que os dois se desentendem e esse é o ponto alto do filme. Hilário e o mesmo tempo triste. Tudo isso realmente aconteceu. Pekar existe de verdade – e aparece no filme ao lado do ator que o interpreta, Paul Giamatti. Dessa forma, o filme desemboca na metalinguagem, bem arrumada, irônica, mordaz, por vezes muito engraçada. Giamatti é da safra daqueles atores que se sustentam pela força dramática apenas, e não pela estampa – aliás, ele é feio como um olho roxo e suas caretas expressam sua dor e seu desprezo pelo mundo que, reciprocamente, também o despreza.

O filme se constrói em película e em desenho, como se um fosse continuidade do outro – aliás, é exatamente isso o quem acontece. A técnica vem dos quadrinhos, o enquadramento flui como num gibi no qual não existem páginas viradas. Sempre se volta a elas, pois assim funcionam as boas histórias. Tudo bem: o leitor dirá que isso não é novidade. Não é mesmo. Caso o que importasse aqui, nesta postagem, fosse trazer algo novo a quem quer que leia, qual o propósito de rever um filme? Paradoxalmente, quanto mais o revejo, mais elementos novos observo. Talvez seja esse o real esplendor.

AQUI você vê um trailer do filme.

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