Mulheres #8: Audrey Hepburn

Quando Audrey Kathleen Hepburn-Ruston morreu, há exatamente 27 anos, num dia 20 de janeiro, fiquei sabendo que ela era belga. Sempre imaginei que fosse norte-americana, daquelas mocinhas do interior, que acabam numa cidade grande e em vez de serem engolidas por ela, dão um nó no cosmopolitismo decadente. Começou a vida como bailarina e assim se manteve até chegar ao teatro. Para o cinema, foi um pulo – e que pulo! Logo na estreia, aos 24 anos, levou a estatueta do Oscar para casa, por ter atuado em A Princesa e o Plebeu, contracenando com o astro Gregory Peck.

Dia desses li que Audrey Hepburn era geniosa, mandona e tratava mal quem a contradissesse. É possível, mas o que deixa transparecer é justamente o contrário. A imagem quebradiça, mesmo com 1 e 70 de altura, é acompanhada pela voz meiga e o olhar de quem se assusta facilmente, de quem acorda sobressaltada. Pode ser que tudo seja o contrário do que se afirme, afinal o que seria de Hollywood sem isso? Assisti a Sabrina outro dia. Engoliu Bogart, cantando La Vie en Rose, durante o passeio de carro. O filme é ótimo, clássico de Billy Wilder, o gênio do cinema que, dizem, babava por ela.

 

Quem se interessa por Audrey Hepburn deve estar questionando: e Bonequinha de Luxo, cujo título original é Breakfast at Tiffany’s? Bem, primeiramente a personagem não é bissexual, como no livro homônimo de Truman Capote, base da película. Provavelmente os católicos e judeus frequentadores de cinema, e formadores de opinião, não compreendessem bem a questão. Depois: o papel da personagem central, a prostituta Holly Golightly, era destinado a Marilyn Monroe, mas acabou na pele e nas mãos de uma morena com menos sex appeal, mas que sugeria – mais uma vez – exatamente o contrário.

Dizem que nunca existiu uma mulher como Gilda, eternizada pela belíssima Rita Hayworth (em breve, neste blogue). É possível, mas nessa lista de mulheres incomparáveis faz-se necessário incluir o nome de Audrey Hepburn. Sem ser voluptuosa e calipígia, tinha a anatomia das mulheres que acabam de desabrochar. Sem falar no olhar que sugeria proteção e arrebatamento, timidez e desejo. Dependendo da situação, tudo isso. Duvida? Assista a My Fair Lady e depois conversamos. É uma das melhores comédias musicais já produzidas. Se você não gosta do gênero, assista pelo menos por conta da atriz principal. Ela sempre foi um ótimo motivo de se ir ao cinema.

Audrey morreu durante o sono. Estava fraca por conta de um câncer raro que lhe devorou o abdômen. Morreu antes de completar 64 anos, acompanhada pelos filhos e pelos amigos, que sempre lhe foram fiéis. Nunca deixou de representar o que se tornou em vida e nas telas: um ícone de beleza e de talento. Para alguns críticos, foi a mais talentosa de todas as atrizes, pela versatilidade, pela presença em cena, e pelo amor que a câmera sentia por ela. Fica para sempre – e justamente por ficar, está neste blogue, retomando a série Mulheres, que já teve Marilyn Monroe, Ornella Muti, Nastassja Kinski, Raquel Welch, Ava Gardner, Romy Schneider, Monica Bellucci.

A próxima será a brasileira Sonia Braga.

 

Bonfá, in memoriam

Devo dizer, primeiramente, que esta postagem deveria ter ido ao ar ontem, 12 de janeiro. Ao que interessa, agora: qual o compositor brasileiro gravado por Elvis Presley? Se você me permitiu a metonímia e arriscou Tom Jobim ou Sergio Mendes, dois paparicados pelo mercado norte-americano, esqueça. Você só acerta se pronunciar Luiz Bonfá. Sim, ele mesmo, que em companhia de um dentista chamado Randy Starr, compôs Almost in Love, primeira faixa do disco homônimo do Rei do Rock. Se quiser, pode ouvi-la AQUI. É uma boa surpresa ouvir Elvis cantando Bossa Nova. Mas por que uma postagem sobre Luiz Bonfá? Primeiro porque ele é um dos maiores músicos que o Brasil produziu. Segundo: há 19 anos, num 12 de janeiro, a música empobreceu. O termo é piegas? Acho que sim, mas não há outro. A música do século passado – e não somente aquela feita em nosso país – perdeu um de seus grandes nomes.

Não sabe quem é Luiz Bonfá? Vamos lá. Frank Sinatra e Tony Bennett, dois dos maiores cantores populares do século XX, gravaram canções suas. A superstar Barbra Streisand dizia que Gentle Rain era uma de suas canções favoritas. Diana Krall concorda. Os saxofonistas Wayne Shorter, Paul Desmond, Stan Getz e Dexter Gordon, quatro gigantes do citado gênero, consideram Bonfá um gênio. Sem falar os craques do instrumento que tocava – o violão: John McLaughlin, Al Di Meola, Joe Pass e George Benson. Listei esses gringos para satisfazer aqueles que só consideram bom músico quem faz sucesso nos EUA.

O que chama a atenção em Luiz Bonfá é que ele foi um dos compositores que tornaram a Bossa Nova respeitada e depois foi além dela. Dois dos meus discos preferidos – dos oito que possuo – são Introspection e Jacarandá. O título do primeiro já diz tudo: o artista e o violão, uma obra-prima inclassificável, que pode ser conferida AQUI. O segundo, considerado clássico, traz os arranjos do pupilo de Bonfá, Eumir Deodato. É uma reunião de grandes músicos: além do próprio, Eumir Deodato (piano, teclados), Stanley Clarke (baixo), Idris Muhammad (bateria), Airto Moreira (percussão),  Ray Barretto (conga), Randy Brecker (trompete e flugelhorn) e muito mais gente (só nas cordas, são 22 músicos).

Das 10 composições do disco, 8 são de Luiz Bofá, incluindo a citada Gentle Rain. E mais: Apache Talk, Don Quixote e Jacarandá são, certamente, músicas que você, leitor, ouvirá no Céu, se para lá vc se dirigir. Se já ouve Bonfá em vida, o passaporte para lá é praticamente garantido. Se quiser ouvir TODO O DISCO, é só clicar. É nele, nessa obra-prima inquestionável, que se percebem com clareza as inventividades harmônicas desse que é um grandes ao violão no mundo. Ah, sim, antes que eu me esqueça: é natural que muitos brasileiros ignorem que foi Luiz Bonfá. Os americanos, ao contrário dos conterrâneos do violonista, mantiveram-no em terras ianques por anos. Para eles, Bonfá é um nativo.

 

Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

Leitura para as férias (autopropaganda com sinopse)

Resultado de imagem para fama volat francisco grijóConhece FAMA VOLAT, romance policial cujo cenário é Vitória, ES?

Não? Pois você pode conhecer a partir DAQUI.

Ou DAQUI.

Sinopse? Aí vai: duas mulheres – uma delas, marchande – são assassinadas no apartamento em que passam férias, em Vitória. O detetive encarregado do caso encontra ligações entre o duplo homicídio e o tráfico internacional de obras de arte. Descobre também a possível existência da Fama Volat, uma organização internacional que comercializa itens únicos ligados a várias artes (da pintura à música, dos livros aos filmes raros etc.). Sim, uma organização internacional cujas ramificações estão nas grandes cidades – mas também nas pequenas, como Vitória. Há crimes, há empresários, advogados, colecionadores, detetives. E há você, leitor, para testemunhar tudo. Boa leitura!

Se você já leu e quiser deixar um comentário – seja elogio ou crítica -, será muito bem vindo. Agradeço!

Em breve, em E-BOOK, a versão em INGLÊS.

 

 

Oito Vozes num disco essencial

O ano de 1978 trouxe ao mundo da música brasileira alguns discos que se tornaram antológicos: Chico Buarque, do próprio; Todos os Sentidos, Belchior; Álibi, Maria Bethânia; Mico de Circo, Luiz Melodia; Clube da Esquina 2, Milton Nascimento; Transversal do Tempo, Elis Regina; Muito, Caetano Veloso; Ao Vivo em Montreux, Gilberto Gil; Camaleão, Edu Lobo; O Poeta e o Violão, Toquinho & Vinicius. Citei os que considero o primeiro time da chamada Música Popular Brasileira. Tudo isso para falar de um disco que poderia estar nessa lista, mas que, de fato, é a estrela da postagem (e o qual estou ouvindo neste momento): Cobra de Vidro, cantado a oito vozes. Sim, você leu direito. As canções do disco (ao vivo, já que é o registro de um show) são distribuídas em dois grupos vocais: os sempre excelentes MPB 4 e Quarteto em Cy. Ei-los, numa capa de pouca nitidez:

Uma curiosidade pessoal: o show Cobra de Vidro estreou no dia em que completei 16 anos, 13 de abril de 1978. Ok, esse dado em nada acrescenta a postagem, mas fica o registro. Para quem não sabe: o MPB 4 é o melhor grupo vocal brasileiro, e sobrevive neste mundo de boçalidade musical(?) porque alguns ainda insistem em ouvir o que eles têm a dizer. Eu sou um deles. Para quem não sabe (ou não se lembra): foram eles que acompanharam, em 1967, Chico Buarque na canção Roda Viva, clássico dos festivais. O Quarteto em Cy, formado originalmente por 4 irmãs cujos nomes tinham Cy como primeira sílaba, neste disco corrompe a formação: apresentam-se Cyva, Cynara, Soninha e Dorinha. Quanto aos homens, a formação é a original: Magro, Ruy, Aquiles e Miltinho.

O que sempre me chamou a atenção no MPB 4, além do entrosamento absolutamente perfeito em arranjos vocais mais perfeitos ainda, foi o repertório. A tonalidade política – a preocupação em marcar uma posição de confronto com as injustiças e com as desigualdades – aliada a um senso estético e artístico de primeira linha eram os ingredientes que fizeram o grupo cair em graça na minha geração. Nesse disco/show, temas como Me Gustan Los Estudiantes, O Cio da Terra, Nada Será Como Antes e Oriente trazem essa marca, a meu ver essencial à época. Hoje, também. O Quarteto em Cy é uma delícia de se ouvir. Quatro mulheres basicamente sopranos que, penso eu, seriam capazes de criar qualquer atmosfera vocal. Lirismo + musicalidade + consciência de que a música serve a propósitos que ultrapassam a estética.

Se puder, ouça. Não tenho o cedê, mas o vinil guardo com o coração e os ouvidos. Há outros discos reunindo os dois grupos, nos quais cantam canções de Chico & Tom, de Ivan Lins & Djavan e algumas coletâneas que as gravadoras criam para tirar um troco. Mas, quer saber? Todas elas valem a pena. Para mim, entretanto, o melhor disco deles é Cobra de Vidro, um show essencial de música que, hoje, a garotada chama de velha – no pior sentido que essa expressão possa ter. O consolo? Eles amadurecerão (espero!). A propósito: AQUI você ouve o disco, maduro, adulto, na íntegra.

Jesus, humor e pernas que regeneram

Assisti ao filme A Primeira Tentação de Cristo, do grupo humorístico Porta dos Fundos. Eu já havia assistido a Se beber, não Ceie, do mesmo time. Este último não é grande coisa: algumas das piadas são previsíveis (algo que é mortal para o gênero) e Fábio Porchat é bem chatinho – ao menos no papel de Jesus entupido de goró. NA Primeira Tentação… ele está ótimo, não somente como homossexual , mas principalmente como Satanás: o que, para muita gente, é a mesma coisa. Mas não é exatamente sobre o filme que quero falar, e sim sobre a reação de muitos religiosos sobre algo cujo objetivo é apenas fazer rir, penso eu.

Um amigo narrou-me o fato: numa de suas madrugadas, insone, deparou-se com um televangelista de chapéu de cowboy, que, calmamente, afirmava a seu público uma propriedade que até hoje não vi num mamífero. Ele dizia que, quando marinheiro, fora vítima de um naufrágio, e, à deriva, no mar, um tubarão havia-lhe devorado uma das pernas. Deus, em sua misericórdia, fez a perna crescer de novo. Ainda segundo meu amigo, o tal pastor falava e uma turba de fiéis dava-lhe atenção como se estivesse diante do Nazareno em pessoa. Indignei-me com este absurdo: o uso da fé sobre pessoas que lamentavelmente não têm instrução necessária para saber a diferença entre um homem e um anelídeo. O que fez meu amigo? Em vez de atirar pedras no pastor ou na sua igreja, mudou de canal. Mas, e se pudesse atirar?

A produtora do Porta dos Fundos foi vítima da violência e da intolerância: coquetéis molotov foram lançados contra seus aposentos. Muita gente se sentiu ofendida – e com razão, se se levar em conta que sentir-se ofendido é algo subjetivo. Cada um sabe como lidar com a própria fé, seja elevando-a ao patamar de prioridade, seja mantendo com ela uma relação, digamos, mais amena, com menos fervor. Sentir-se ofendido dá direito à forra? Em minha opinião, sim, mas não posso afirmar que a produtora do Porta dos Fundos tenha dirigido o média metragem a um determinado grupo, ou a uma pessoa específica. Por exemplo, ao pastor da perna regenerada. Duvido! De modo que o mais eficaz protesto contra o filme é não assistir a ele. Pode-se, por exemplo, cancelar a assinatura da Netflix. Alguns têm dito que o fizeram.

Há coisa pior na tevê do que fazer piada sobre a fé. Fazer uso dela para enganar o próximo – principalmente quando esse próximo é desprovido de senso crítico – é algo que, a mim, parece ser mais nocivo. A simonia, uma prática medieval que consiste em comercializar a fé, deve ser avaliada como algo atualíssimo, na ordem do dia. Há muito mais gente honesta que desonesta no meio religioso – disso não tenho dúvidas, mas como se portar diante de um líder religioso que consegue, por meio da fé, vender seus produtos e, após a venda, garantir ao comprador um cantinho no Paraíso?

De volta ao filme: minha pergunta é simples: por que um Jesus gay ofende tanto? Um Jesus fornicador, agiota, bandalho, corrupto, bêbado seria menos deletério? O problema não é o humor em si, não é a piada, mas a questão sexual: um Jesus gay ofende mais – ponto final. Sexualizar a Santidade é perigoso. E contra essa postura – perdoem-me o trocadilho – até os deuses lutam em vão. Ainda penso que o debate é necessário, não necessariamente para que se chegue a uma conclusão, mas para que se possa pensar criticamente num assunto que quase sempre está imune à dialética. Eu, católico, achei o filme engraçado, boas tiradas, diálogos ligeiros. Enfim, há gosto para tudo. Intolerância também.

Chico, Rubem: os bons tempos não voltam

Chico e Rubem não são os mesmos. O Chico de quem falo é o Buarque, carioca e compositor, possivelmente o maior nome da MPB nos últimos 50 anos. Sem exagero. O Rubem a quem me refiro é o Fonseca, ás do conto e do romance, foi a referência desses gêneros, no Brasil, por 30 anos. Como eu disse, Chico e Rubem não são mais os mesmos. Perderam o fôlego, não são – hoje – nem sombra do que foram, embora se mantenham entre os melhores em suas áreas. Continuam grandes, mas não são mais os maiores. Antes que eu me esqueça: continuo consumindo o que produzem, exceto, devo admitir, os romances escritos pelo meu xará. Não consegui ler Estorvo. Benjamin deu trabalho, mas terminei – com a sensação de que não deveria ter lido. Leite Derramado é chato de doer. Em contrapartida: os textos para teatro – Ópera do Malandro, Gota D’Água e Calabar – são ótimos.

O que Chico Buarque produziu de melhor (na canção) concentra-se nos anos 1970. Construção, Meus Caros Amigos, Chico Buarque (o disco da samambaia) e Ópera do Malandro são álbuns irrefutáveis. E eu diria té que o disco de 1981 – Almanaque – rivaliza com os títulos citados. Depois disso, só se salva O Grande Circo Místico, mas aí já é obra em parceria – com Edu Lobo, outro gênio. Já li gente dizendo que os anos de chumbo ajudaram Chico a criar. Isso é bobagem. Chico não criou porque havia repressão e censura, mas apesar delas. A questão que se pode levantar é que o nível criativo já não é o mesmo há, pelo menos, 30 anos. Nenhum outro disco dele, entre 1983 e 2018, tem o vigor criativo dos discos setentistas, com suas canções inesquecíveis e essenciais. NESTA LISTA você pode entender o que digo. Claro: é opinião pessoal.

Resultado de imagem para meus caros amigos chico buarque

E quanto a Rubem Fonseca? Para muitos, ele é melhor no conto, esse gênero que, segundo Cortázar, vence o leitor por nocaute. Para mim, foi romancista de primeiríssima linha, se considerar dois livros: A Grande Arte e Bufo & Spallanzani. Depois disso, as narrativas longas perderam o viço, a linguagem repetiu-se, bem como as obsessões, as imagens violentas e as perversões tornaram-se clichês. O Doente Moliére quase foi uma exceção, mas perdeu-se ao tentar reproduzir, com ironia, um ambiente que somente os europeus conseguem vislumbrar. Foi craque nos contos quando trouxe à superfície O Cobrador, A Coleira do Cão, Os Prisioneiros e Feliz Ano Novo. Sinceramente? Nem meus ídolos Dalton Trevisan e Murilo Rubião rivalizavam.

Fonseca trouxe a crueza da realidade para a literatura contemporânea, e arrisco dizer que nenhum outro autor brasileiro sabia retratar linguagens distintas tão bem: do mecânico ao médico, passando passando pelo traficante, pelo advogado, pelo empresário, pelo garçom, pela prostituta, pela modelo, pelos grã-finos, pélos executivos, pelos atletas. Acho que ninguém fez melhor – até os dias de hoje. É sempre bom lembrar que, como Chico Buarque, Rubem Fonseca teve seu ápice: da metade dos anos 1970 até a metade da década seguinte. Depois disso, escreveu livros irregulares, alguns até interessantes ( Diário de um Fescenino, Agosto e A Confraria dos Espadas), mas nada que causasse surpresa. Os livros recentes, entre 2011 e 2018 – cinco, ao todo -, revelam um autor que não se reinventa. Isso, entretanto, não é um problema. O problema é repetir-se, e um leitor-fã, como eu, percebe isso.

Que fique claro, ao final de tudo (e repetindo): continuo a ler os livros de Rubem Fonseca e a ouvir as canções de Chico Buarque. Sou devoto, mesmo que crítico.

12 anos sem Norman Mailer

Numa seara habitada por Truman Capote, Gay Talese, Lillian Ross, Tom Wolfe e Hunter Tompson, destacar-se não era fácil. Pois Norman Mailer não somente se destacou, como foi o melhor do grupo. É o craque máximo do new journalism e um ficcionista de primeira linha, capaz de escrever sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e Os Mortos, clássico) com o mesmo primor estilístico que concedeu à biografia romanceada de Marilyn Monroe. Ou ainda escrevendo sobre uma de suas poucas paixões: o boxe. O livro A Luta, que versa sobre o embate entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, é um primor textual: nada se acrescenta, nada se omite. Fez mais: transformou Picasso em personagem, assim como o fez com o assassino de Kennedy: Lee Harvey Oswald. Em tempo: a obra de Picasso estimulou Mailer a desenhar. AQUI você confirma isso (é só comprar o livro).

O que torna Mailer tão especial? Talvez porque ele consiga algo que muitos escritores tarimbados tentaram, sem êxito: escrever ficção e falar de política ao mesmo tempo. Que eu me lembre, Gore Vidal conseguiu – e só. Provavelmente, após esta postagem ter sido publicada, eu me lembre de outro nome (mas não vou fazer adendos). A Guerra do Vietnam, o feminismo, os conflitos raciais, a relação USA-Cuba, as bandidagens das primárias para presidente, tudo isso era seu assunto, e foi uma espécie de destroçador do american way of life, que ele considerava uma baboseira nociva que precisava sempre ser atacada.

Resultado de imagem para os nus e os mortosNorman não se ateve à literatura, aos livros – ou ao jornalismo. Foi roteirista de cinema, escreveu para teatro e para a televisão, foi ícone contracultural, e despertou o ódio das feministas (e de qualquer pessoa normal) quando uma de suas esposas o acusou de violência: ele a esfaqueou duas vezes (uma estocada no peito e outra nas costas), com uma pen-knife. A propósito: Norman Mailer se casou seis vezes. A esposa esfaqueada chamava-se Adele Morales, pintora de origem peruana, e que morreu 3 anos após o ex-marido.

Hoje faz 12 anos que Norman Mailer morreu. Sinceramente? Acho que ele fez falta como escritor e como jornalista, principalmente durante os anos Obama, com sua dialética refinada e cáustica. Quanto ao governo atual, de Donald Trump, bem, acho que Mailer estaria salivando, pronto para estraçalhar a Casa Branca, demolindo-a, como fez com tudo que merecia demolição.

O melhor do Canadá

Meu sogro e minha sogra ficaram quase um mês no Canadá, a passeio. Pasmos com a eficiência política do país e com a funcionalidade que somente as nações civilizadas proporcionam, voltaram ao Brasil com certo desânimo – aplacado, somente, por conta das inexoráveis saudades dos filhos e, principalmente, das netas. Enfim, não é sobre família que quero falar, mas sobre o que de melhor o Canadá enviou ao mundo: Oscar Peterson e The Band. Claro que haverá quem pergunte: e Joni Mitchell, Neil Young, Alanis Morissette, Michael Bublé? E Justin Bieber? Isso contando só com gente ligada à música, porque Alice Munro, Michael Ondaatje e, claro, um dos meus críticos literários preferidos, Northrop Frye, estão entre os grandes artistas daquele país.

The Band acompanhou Bob Dylan por 2 anos. Só esse dado já qualificaria o grupo formado por Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Garth Hudson (teclados), Richard Manuel (piano) e Levon Helm (bateria), quase todos canadenses (Helm é americano). Conheci o grupo quando, em 1984, ganhei de presente o álbum triplo The Last Waltz, e desde então passei a tentar comprar tudo o que existia do grupo, incluindo o documentário homônimo do Scorsese – que hoje possuo, em devedê. Não, eles não fazem exatamente rock, nem exatamente folk – mas uma mistura muitíssimo bem equilibrada dos dois. Você pode observar em Up On Cripple Creek, logo abaixo.

E Oscar Peterson? Bem, o que posso dizer é que é um dos maiores pianistas do jazz. Para muitos, é seu maior virtuose, a excelência pianística em pessoa, o gênio das teclas. Tenho oito discos dele, e nenhum deles tem sequer uma faixa a qual posso chamar mediana. Acompanhou a Santíssima Trindade do Jazz Vocal: Ella, Billie e Carmen McRae; fez o mesmo com os saxofonistas Charlie Parker, Coleman Hawkins, Lester Young e Stan Getz. Quer mais? Dizzy Gillespie, Freddie Hubbard e Clark Terry disputavam-no a tapas – mas ele sempre preferiu Roy Eldridge. Se você aceita dicas de discos, aí vai: ouça West Side Story, Oscar Peterson Plays Duke Ellington e um dos grandes discos ao vivo que conheço: Live from Chicago.

O vídeo abaixo, com mais de 80 minutos de jazz no ponto mais alto, mostra Oscar Peterson em plena forma, expondo aos escandinavos o que há de melhor no gênero. Shows na Suécia, na Dinamarca e na Finlândia, entre 1963 e 1965. E um escrete acompanhando-o: Ray Brown, no baixo; Ed Thigpen: na bateria; Roy Eldridge no trompete, e Clark Terry, tocando trompete, flugelhorn. Quando tiver tempo, veja o vídeo todo, e entenda por que devemos tanto ao Canadá.

Pres aos 110

Se vivo, Lester Young, um dos mais importantes saxofonistas do jazz, estaria fazendo 110 anos. Pres, apelido criado por Billie Holiday, sua querida amiga, dá o tom do que ele era: President, numa hierarquia em que os sax-tenores eram grandiosos e absolutamente irrepreensíveis em suas performances. Lester Young talvez tenha sido o mais elegante e menos agressivo, em contraposição a outro titã da época e do sax-tenor: Coleman Hawkins. Estou ouvindo, neste instante em que escrevo, o primeiro disco dessa fera que comprei: The Jazz Giants, álbum da Verve cheio de estrelas: Roy Eldridge (trompete), Vic Dickenson (trombone), Teddy Wilson (piano), Freddie Green (guitarra), Gene Ramey (baixo) e Jo Jones (bateria). a gravação é de janeiro de 1956.

Imagem relacionada

AQUI você ouve a primeira faixa do disco, I Guess I’ll have to Change My Plan.

E AQUI, a melhor faixa do disco, Gigantic Blues.

É isso, Presidente!

Resultado de imagem para lester young

1 2 3 14
Page 1 of 14