Fala! #7: Clarice Lispector

Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar (…) Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu disfarçava como podia (…) Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo (…) Agora estou bem certo de que não fui eu que teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”

“O Crime do Professor de Matemática”

Quincy para sempre

Para quem acha que Netflix é apenas entretenimento, aí vai a contradição: o documentário Quincy, sobre um dos maiores – senão o maior – produtores musicais de toda a indústria do disco. Seu nome completo: Quincy Delight Jones – ou Quincy Jones, para quem é fã de boa música. Trompetista de finíssimo trato, arranjador maiúsculo, compositor de primeiríssima e produtor de pelo menos dois dos maiores artistas do século XX: Michael Jackson e Frank Sinatra. Quer mais? Foi ele quem encabeçou alguns dos grandes momentos de nossa época: a gravação de We Are the World, em janeiro de 1985. Sob sua regência, 45 cantores e cantores entoaram um hino cujo objetivo era arrecadar fundos para o combate à fome na África.

E o outro momento? O show de inauguração do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, talvez o mais emblemático e atual ícone do movimento negro nas Américas. Quincy Jones, à frente do projeto, foi o responsável por arregimentar figuras fundamentais e representativas para a sociedade afro-americana. sem ele, o ex-secretário de estado Colin Powell e a apresentadora e atriz Oprah Winfrey teriam assistido ao evento pela tevê. Isso fica, aliás, claro no documentário. Quincy Jones era um furacão, um líder absoluto para quem os grandes astros não se atreviam a dizer não.

A maioria dos excelentes discos de Quincy Jones não são aqueles em que ele mete a boca no trompete. As pérolas que ele deixou para quem gosta de boa música mostram o que ele conseguia fazer como arranjador e orquestrador. Um dos maiores, em qualquer gênero – o que, aliás, era o que ele apreciava fazer: capaz de misturas tão efervescentes quanto inusitadas, o maestro criava universos que dialogavam com todos os gostos. Da balada ao jazz, do rock ao erudito.

Um exemplo? O disco abaixo, gravado há 53 anos, é uma reunião de temas que, aparentemente, nada têm em comum: da dupla Jagger/ Richards ao grande compositor Burt Bacharach, do clássico Blues in The Night, de Arlen/Mercer, a duas canções do brasileiro Luiz Bonfá (de quem Quincy era fã), passando pelo poderoso jazz de Cannonball Adderley e pelo ultraclássico Mack the Knife, tudo isso está AQUI, brilhando com sua luz acesa. Não deixe de ouvir.

Se puder, assista ao documentário. É nele que se descobre o homem Quincy, tão próximo do artista quanto possível. Fala-se das suas relações familiares, das ex-mulheres (curiosamente, a atriz Nastassja Kinski, mãe de uma de suas filhas, aparece por 2 segundos apenas), do trato com grandes artistas, do namoro com o hip hop, da consciência do que era (e ainda é) ser um negro nos Estados Unidos. Quincy Jones firmou-se por sua arte. É um exemplo que fica para sempre, de um artista que levou às últimas consequências seu talento, sua força e seu objetivo: apresentar a nós o que é a música.

Para Caetano, com amor!

Acabei de ler a biografia de Caetano Veloso: a desautorizada, para a qual ele, o biografado, havia, anteriormente, dado o ok. Após a decisão do STF sobre a censura a biografias, o livro veio a público. Caetano já havia escrito, par lui-même, sua história: Verdade Tropical, que li com avidez, urgência, em 1998. Nem quis ler as modificações, enxertos a meu ver desnecessários, feitas vinte anos depois, quando relançaram a obra. Não me interessa. Fico com o texto original. Dessa vez a coisa muda: não estando o próprio biografado no controle da situação, espera-se que se exponham fatos que não vieram a lume – ainda.

Caetano acha que o livro é mal escrito. E sobre algumas passagens o compositor baiano tem razão. É carregado de clichês, há erros gramaticais, praticamente não tem qualidade literária – mas eis a questão: não é essa a proposta do livro, a meu ver. Os autores – Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco – não me pareceram preocupados em fazer literatura, mas em contar a história de um indivíduo que, para dizer o mínimo, é o ídolo deles. E nesse ponto, detalhar os acontecimentos, explicar atitudes, expor novidades, tudo isso, marcado por um garimpo criterioso e aparentemente honesto, faz com que a leitura do livro seja considerada essencial. Ao menos a quem se interessa pela vida de um dos ícones da MPB.

Meu último livro foi uma biografia: Os Mamíferos -crônica biográfica de uma banda insular. Senti na pele o que é trabalhar com fonte primária, usando as ferramentas disponíveis (jornais, revistas, depoimentos). Havia muito pouco material sobre meus biografados. Os biógrafos de Caetano, no entanto, tinham, diante de si, uma história sedimentada, um artista sacralizado pelo tempo e pela memória, sem contar as inúmeras publicações acerca do protagonista do livro. E o resultado, em termos de pesquisa, é assombroso. É justo parabenizar!

O Caetano Veloso que mais me interessa vive entre 1965 e 1980. Das participações nos festivais à liberdade criativa da Abertura Política, passando pela polêmica do Tropicalismo, pelos shows com Chico, com Bethânia, com os Doces Bárbaros, com a Banda Black Rio, pela inquietude criativa, pelos relacionamentos amorosos – que tanto influenciaram suas composições -, pelos conflitos com a imprensa, pelo cinema, pela caretice em relação às drogas, pelo autoexílio londrino, pelos festivais internacionais de rock (de um deles ele participou), tudo isso está lá, e muito mais, como um documento que serve para compreender quem é Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Sem qualquer indulgência, transpirando honestidade, o livro é definitivo. Pode falar mal, Caetano, mas os autores fizeram uma declaração de amor a você!

Carlos Latuff aos 50

Carlos Latuff faz 50 anos, hoje. Pode ser que você, leitor, não saiba de quem estou falando. É possível – mas não provável. Para que não haja dúvidas, lá vai o resumo: Carlos Latuff é um chargista, um desenhista de primeira linha, mas se engana quem pensa que é um artista da forma. Não é. Latuff preocupa-se muito mais com o conteúdo do que com o apuro gráfico em si. A beleza dos traços e a composição cromática são elementos secundários, mas não prescindíveis.

Ativista político, Latuff golpeia de forma inclemente (as duras ironias são sua arma mais poderosa) o poder autoritário, a política injusta, as sociedades totalitárias, a violência, os mecanismos de controle, a mídia manipuladora – enfim, é um inimigo do establishment. Eis um exemplo que, para mim, é definitivo, numa charge de 10 anos atrás:

Eu não conhecia seu trabalho. Tive contato há pouco mais de 10 anos, quando, correndo a internet, deparei-me com uma charge que denunciava os horrores que Israel impõe ao povo palestino. Aliás, essa é a grande causa de Carlos Latuff, e que, de imediato, adquiriu minha simpatia. Embora eu não seja um antissionista, gravito sempre para o lado do mais fraco – no caso, os palestinos.

Muitos de seus desenhos e charges correm o mundo. E muitos deles, marcados pelo tom doméstico, fazem-nos ver a duríssima realidade em que nos encontramos. O quadro abaixo não faz referência direta a uma pessoa – mas é algo bem brasileiro. O homem negro, crucificado, longe de representar Jesus, é o homem comum da periferia, vítima da polícia truculenta, cruel e sem limites. Há uma polêmica acerca desse quadro.

Não pense, entretanto, que ele seja um artista a serviço desse ou daquele partido, dessa ou daquela ideologia. Em tempos atuais, é comum que se pense assim, de forma polarizada. Parece-me, ao que posso perceber acompanhando seu trabalho, que sua preocupação maior é o humanismo. Denunciar as atrocidades que o homem submete a outro homem é, em seu trabalho, o ponto nevrálgico, a obsessão maior. Fez várias charges contra o presidente eleito. Uma delas, excelente, é também uma crítica a seus seguidores:

Antes de qualquer conclusão precipitada, entretanto, observe a charge abaixo, de 2012:

Se você não o conhecia, este post fez-lhe um serviço social. A partir de agora, é com você. Aproveite, porque há muito o que aproveitar! Há muito mais de Carlos Latuff por aí.

Mulheres #7: Monica Bellucci

Monica Bellucci é a mais bela atriz do cinema italiano – e ponto. Não é pouco, já que compete com Claudia Cardinale, Gina Lollobrigida, Ornella Muti, Stephania Sandrelli, Monica Vitti, Pier Angeli e Silvana Mangano. A briga é duríssima quando Sophia Loren entra no certame, mas ainda acho que Monica Belluci leva vantagem. É a morenice absoluta, de olhos acesos e perfeitíssima combinação entre nariz, boa e zigomas. Se existe algo em seu rosto que pode beirar a imperfeição, mostre a este cego que escreve.

Vi Monica Bellucci pela primeira vez no ótimo (e triste) Malena, de Giuseppe Tornatore, filme de 2001. Nele, a beleza é algo condenável, é uma maldição que transforma a plástica irresistível em alvo da truculência e do horror. Malena, a personagem vivida por Monica, é a viúva que se torna objeto de desejo de um adolescente. Sua beleza é sobrenatural, tentadora, definitiva. Os homens a cobiçam – e suas esposas dão o troco, mas não neles, e sim na bela cuja beleza os provoca. É um filmaço!

Monica Bellucci nasceu há 54 anos. Continua estonteantemente bonita – o que, teoricamente, para quem foi modelo durante muitos anos, não é tão difícil. Na prática, é. A intimidade com a câmera fotográfica facilitou o contato com o cinema que, em primeira instância, é fotografia. Sem dificuldades para contracenar, teve a primeira oportunidade como uma gostosíssima vampira ronronando para o noivo Drácula, de Stoker-Coppola. Depois disso, Malena e, mais tarde, o terrível e assustador Irreversível, de Gaspar Noé, em que sua beleza é maculada pela violência.

Monica foi Cleópatra, foi a beijoqueira em Matrix Reloaded, foi a Rainha do Espelho nas histórias dos irmãos Grimm. Foi Maria Madalena, a mulher que mais se aproximou de Jesus. O cinema retirou-a do nicho das modelos fotográficas e espalhou sua privilegiadíssima estampa para além das páginas impressas e dos convescotes de moda ao redor do mundo. Quem gosta de cinema e tem bom gosto agradece.

A imagem do Rock

Primeiramente, é necessário registrar que houve 1 vencedor do DESAFIO DO IPSIS.

Vitor Sarmento acertou as 3 perguntas e, portanto, leva o prêmio. O que falta é ele escolher qual, passar o endereço e esperar para gozar o fruto de seu conhecimento. Vamos em frente!

Agora o Rock, com maiúsculas. Você conhece Jim Marshall, Henry Diltz, Brad Elterman, Bob Gruen e Charles Peterson? Não? Pois esses senhores têm um ponto comum: foram capazes, num dado momento, de capturar o que o Rock – novamente maiúsculo – tem de mais apropriado: a atitude. Claro que eu poderia, caso quisesse, substituir os cinco senhores citados por Pennie SmithJerry Schatzberg, Jenny Lens, Danny Clinch e Robert Knight. Quantos mais? Pois esses senhores são artistas que, acompanhando este ou aquele cantor ou banda, puderam, em instantâneos, expressar em imagem o que se representa em música – e aproveitaram para eternizar um momento que nunca se repetirá. É só checar as imagens abaixo (Stones, por Ethan Russell; The Doors, por Yale Joel, e Eddie Van Halen, por Lynn Goldsmith).

Fotografar o rock não é tão difícil, dizem alguns. Os artistas, grosso modo, criam o estardalhaço quando as câmeras se aproximam. Tentam voar, mostram-se desagradáveis, irrompem em caretas, inventam piruetas e perfumarias visuais que são, evidentemente, um banquete para quem quer registrar a imagem. Eis aí um engano: claro que a pose é uma exigência, mas as grandes imagens do rock vêm do fundo – tanto de quem é fotografado quanto de quem se presta ao registro. As duas imagens abaixo, Steven Tyler, em foto de Neil Preston, e Chuck Berry, trabalho de Lynn Goldsmith, comprovam isso.

Elton John, abaixo, faz a acrobacia para os olhos de Terry O’Neill, um dos grandes fotógrafos de moda por 4 décadas. Foi um dos primeiros a registrar o contato entre os Beatles e os Stones quando ainda iniciavam a rivalidade que nunca, de fato, concretizou-se. Especializou-se em sugerir que seus fotografados criassem situações tão insólitas quanto verossímeis. O’Neill era o fotógrafo preferido de Elton, a quem se mostrou em várias situações – desde o estúdio até o recesso da própria intimidade.

Jimi Hendrix e Jim Morrison, heróis trágicos, personas definitivas no rock, fotografados por Michael Ochs. Hendrix faz o V da paz no Civic Auditorium em Bakersfield, California, em outubro do ano emblemático de 1968. Toda a audiência, muda, voltada para ele. No mesmo ano, em Frankfurt, Alemanha, Jim Morrison, desfeito no palco, também sob olhares de quem nada entendia.

O psicodélico Alice Cooper pelos olhos do sempre excelente Bob Gruen: a espada fincada na boneca como uma oferenda ao público que estende a mão. Ano de 1973, no Spectrum, de Filadélfia. O dia era 8 de março; o ano, 1973. Pete Townshend chuta o ar no Isle of Wight Festival, em agosto de 1969. Mais abaixo, o eterno Jimmy Page, o baixista do Pearl Jam Jeff Ament voando alto no Lollapalooza, em Boston, há 26 anos. São instantâneos absolutamente impagáveis, únicos, como só a fotografia pode proporcionar.

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Acima, dois vocalistas aparentemente distintos. Robert Plant, imortal à frente do Led Zeppelin, em foto de Neil Preston, em San Francisco, 1973, e o sempre alucinado Iggy Pop, voz dos Stooges, no Kings Cross Cinema londrino, em 1972, numa foto antológica de Mick Rock. Privilegiados pela proximidade do fato e do ato, esses fotógrafos nos legaram imagens que ficarão para sempre. Talvez vivam mais que o rock em si.

Desafio do IPSIS

O IPSIS LITTERIS (dessa vez em maiúsculas) comemora sua 100ª postagem. Até o momento, após 16 meses de vida, foram mais de 16.600 visualizações e 485 comentários. É muito, se considerar que este blogue não versa sobre maquiagem, fofocas da tevê ou qualquer temática adolescente. Num mundo onde as imagens predominam, este blogue vai na contramão, privilegiando textos. Quem ainda se importa com leitura? Pois é.

Comemorando a tal 100ª postagem, aí vai o DESAFIO DO IPSIS. 3 perguntas. Quem acertar as 3 respostas – é necessário que sejam as 3! – ganhará um dos prêmios abaixo, a escolher: o disco Caravanas, de Chico Buarque, 3 livros de minha autoria, o blu-ray de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Escolha UM deles, mas primeiro acerte as perguntas!

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DESAFIO 1

“Hábil entre os hábeis, Elia Kazan sabe que até a abjeção se pode fazer sedutora, que a mentira e o ódio podem ganhar adesão e alimentar entusiasmo, que todos os arranjos são possíveis, especialmente os piores. A sua inteligência de homem de cinema é tão profunda que da sua confusão moral nada escapa ao encantamento da sua encenação, como se tudo aquilo que ele não pudesse ocultar servisse de matéria a um lirismo salvador.”

Quem disse isso?

DESAFIO 2

O senhor abaixo é um dos bons poetas do continente americano. Artista iconoclasta, fez os beatniks norte-americanos e poetas marginais brasileiros parecerem articuladores adolescentes, com espinhas no rosto. Quem é ele?

DESAFIO 3

A música brasileira deve muito a esses senhores e senhoras abaixo. Dos OITO componentes da foto, identifique pelo menos CINCO.

 

O que se quer da Arte?

Lembro-me bem de, na metade – ou um pouquinho mais – dos anos 80, século passado, ter tido acesso às histórias de Paulette, a gostosíssima personagem criada e desenhada por dois Georges – Wolinski e Pichard. Paulette é anatomicamente imperfeita, algo que faz dela uma personagem quase corriqueira, uma prima distante, uma vizinha ocasional. Não poderia, nem de longe, ser uma mulher comum, já que despertou, quando criada, no início dos anos 1970, em terras francesas, repúdio por parte dos bem-comportados e dos moralistas duvidosos. Isso sem falar em sua aparência um tanto gótica e, justamente por isso, tão atraente.

Os tempos eram outros – em tese. Sim, porque foi justamente a involução, o retrocesso, a intolerância radical e a fúria homicida que apagaram das páginas a deliciosa Paulette. Fizeram pior, muito pior: mataram gente inocente cujo papel, na vida e no quotidiano, era fazer arte – e da melhor qualidade. Georges Pichard já não estava entre nós: morrera em 2003, levando seu traço imortalizado, sua capacidade inequívoca de, sinestesicamente, desenhar o sabor feminino. George Wolinski, por seu turno, foi, junto com outros componentes da Charlie Hebdo, vítima de uma ação que me repugna e revolta. Quem não se lembra, há 4 anos?

Paulette serve como metonímia: quantos personagens, a partir de agora, tornam-se malditos porque expressam liberdade, erotismo, tesão? O futuro da arte erótica no país mostra-se numa situação pouco confortável. Aponta-se para perseguições, censuras, truculências, hidrofobias. Em nome de uma moralidade tão questionável quanto frágil, preconceituam-se as atividades artísticas como inimigas da família, vilãs dos bons costumes e adversárias do bem-viver. À arte cabe, também, a transgressão. Não é seu único papel, mas questionar o status quo e as mesquinhas e quebradiças tradições é uma de suas funções. Atiçar o pensamento é seu mote.

Lembrei-me do episódio do Queermuseu, há 1 ano. Houve quem se posicionasse favorável à exposição, e tal apoio foi fundamentado em opiniões que, a meu ver, devem ser levadas em conta. A arte existe porque existe subjetividade. É justamente através da visão pessoal que se identifica o processo artístico, bem como seu valor. Houve, entretanto, uma forma distinta de ver a exposição – e essa forma precisa ser respeitada. O que não se pode respeitar (e, sim, repudiar) é a maneira como se deu o processo dialético: com violência, autoritarismo, força. O mesmo que levou, considerando as proporções, ao extermínio de Paulette. No fim das contas, é a arte levando a pior.

Fica a pergunta: e agora? Para muita gente, o poder público federal legitimará a violência contra artes e artistas que se mostrarem avessos àquilo que eles chamam de bons costumes. Não acredito muito nessa possibilidade. De qualquer forma, vão calar artistas, professores, intelectuais, pensadores, estudiosos? Gostaria muito de obter a resposta para minha pergunta: o que se quer da arte? Sabe responder, Paulette?

Carlos, o sobrenatural

No ano em que nasci, 1962, o mexicano Carlos Fuentes escreveu duas obras-primas. Uma delas, o romance A Morte de Artemio Cruz, nasceu no ano anterior, mas foi publicado em setembro do ano seguinte. A outra, a novela de título Aura, foi escrita e publicada no mês de meu nascimento, abril. O México, que produziu Juan Rulfo, Juan José Arreola e Octavio Paz – só para citar os titãs -, trouxe ao mundo também Carlos Fuentes, o mais prolífico deles. Para muitos, o mais criativo. E Aura, texto em questão, está entre seus melhores trabalhos.

Por que falo de Fuentes? Porque, se vivo, esse extraordinário escritor estaria, em breve – 12 de novembro -, completando 90 anos. E falo de Aura porque, como disse anteriormente, tem a minha idade. Só isso já seria mote suficiente para dar as caras neste blogue. A edição que possuo, e que adquiri há uns 30 anos, tem essa capa ao lado. A história, per si, é um grande diálogo com o sobrenatural, com o mundo dos espíritos, além de um enredo em que o amor assume o comando. Aquilo que poderia ser banal em minhas mãos (e de muitos escritores tarimbados) torna-se genial nas mãos de Carlos Fuentes.

Narrado em 2ª pessoa do singular, Aura torna-se, justamente por isso, uma conversa – entre narrador e personagem. É uma narrativa barroca, de suspense, carregada de cinematografia – o que, aliás, faz sentido, já que foi filmado, alguns anos depois, com o título A Feiticeira no Amor, de Damiano Damiani. Enfim, volto ao livro: se você é afeito a histórias de suspense/terror e, claro, aprecia, também, a literatura de qualidade, é de Aura que você precisa. Em alguns momentos de tensão narrativa, não se permite ao leitor saber se o que é lido é real ou imaginário. Eis, para mim, o grande patrimônio da novela.

Aura é carregada de simbolismos, que só funcionam se quem lê, munido de informações, consiga dar vida a eles. É a contrapartida do leitor, diante da obra-prima. Há uma anciã devota do catolicismo e de rituais de bruxaria, há uma casa às escuras somente iluminada por velas, há um livro de memórias a ser completado, há um historiador que se confunde com a história – e, claro, há Aura, a bela Aura, personagem que, ao final se mostra surpreendentemente distinta de qualquer interpretação. Mais não falo. Leia, se puder! Vale conhecer Carlos Fuentes e o que ele nos proporciona! Viva México!

 

A morte de um mulherengo

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No começo dos anos 1980, em Vitória, Leonard Cohen foi um artista cultuado por um grupo pequeno de admiradores. Era pequeno justamente porque pouco se falava nesse artista, quase ninguém o conhecia na era pós-disco e havia muita gente que, sabe-se lá por quê, apreciava o medíocre movimento BRock, que trouxe à superfície Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e que tais. Eu tive a sorte de ter colegas que, na faculdade, falavam em Leonard Cohen baixinho, pelos cantos, como se ele fosse uma pérola quebradiça tão frágil que seu nome mal era pronunciado.

Sua voz, ao contrário, era de uma potência tão definitiva quanto pouco usual. O primeiro disco que ouvi, com 19 anos, foi Death of a Ladie’s Man, de 1977, no qual brilham Iodine, a balada Paper Thin Hotel, a espetacular Memories, a narrativa I Left a Woman Waiting, o poderoso country rock Don’t Go Home with Your Hard-On, e, claro, a faixa-título, um poema-conto belo e triste. Na época, só tinha ouvido falar de seus livros – era poeta e romancista – e de como escrevia com a mesma elegância com que tratava os vocábulos numa canção. Embora canadense, toda a sua formação literária pertencia à Inglaterra. A propósito, Death of a Ladie’s Man é também um de seus vários livros de poemas.

Realmente não sei em que seara ele é melhor: se compondo canções ou articulando versos. É, até onde conheço, o único artista que, aventurando-se em dois terrenos, atinge a plenitude criativa em ambos. É neste livro, para mim um clássico, que Leonard Cohen dá sua versão do que é falar poesia. How to Speak Poetry é um achado, um texto que todo poeta responsável deveria ler (falar, no texto, nada mais é do que criar). É a metalinguagem levada ao extremo (tradução minha, livre):

“O poema não é nada a não ser informação. É a constituição do país interior. Se você o declamar e espalhá-lo com nobres intenções, então você não é melhor que os políticos que despreza. Você é apenas alguém sacudindo uma bandeira e fazendo o apelo mais banal de patriotismo emotivo.”

Leonard Cohen morreu há exatamente um ano. Segundo consta, foi vítima de uma queda enquanto dormia. Aos 82 anos, o artista legou-nos 14 discos oficiais, em estúdio; 7 discos ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura: 12 livros, entre poemas e romances, e 3 coletâneas de versos. Não é pouco. Em qualidade, é muito mais do que merecemos.

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