Barthelme, finalmente?

Em 1984 ganhei um livro intitulado Come Back, Dr. Caligari. Um querido amigo, psiquiatra e escritor (excelente em ambas as atribuições), presenteou-me. Li sem desconfiança, afinal por que um amigo capixaba me presentearia como um grego? As portas se abriram de um lado a outro: Donald Barthelme foi apresentado a mim e eu me apresentei a ele, como se dissesse: de agora em diante, estaremos lado a lado. Até então eu não sabia se havia ou não uma tradução para esta língua periférica, o português. Dois anos depois, na livraria São José, na rua do Carmo, capital carioca, encontrei Vida de Cidade (ilustração à esquerda de quem olha), edição de 1975, da Artenova. Não é grande tradução, mas era o que existia. Sim, até então era único livro de Barthelme traduzido.

Não tive facilidades para ler Come Back, Dr. Caligari. Barthelme está longe de ser um escritor fácil – talvez por isso não tenha muitos leitores, embora seu inglês seja aparentemente claro. A ideia de um livro seu tornar-se best-seller é tão provável quanto um pai conversar com os filhos, após sua morte. Mas eis que é exatamente isso (e muito, muito mais) o que acontece no segundo livro traduzido deste autor extraordinariamente sarcástico, irônico, debochado, crítico e divertidíssimo: O Pai Morto. Um pai, gigantesco como uma criatura rabelaisiana, ditando um manual de convivência (e não somente isso) para os filhos, que o enterrarão. Sofismas, anedotas, ironias, ensinamentos, reflexões – tudo isso temperado por períodos curtos, enxutos, pois não há por que falar mais que o necessário.

Donald Barthelme, ao lado de Joseph Heller, Richard Brautigan, Thomas Pynchon e Kurt Vonnegut, é um mestre do absurdo. A aventura quotidiana não passa de um flash surreal, um emaranhado de situações que se tornam verossímeis porque não somos capazes de racionalizar ao lê-lo. Em um de seus livros, King Kong é anfitrião numa festa sem louras; em outro, os anjos entram em polvorosa por conta da morte de Deus. Num outro, Branca de Neve é uma jovem temperamental, furiosa, enjoadinha. É uma festa da qual participamos independentemente de nossa vontade, títeres desse gênio das palavras.

A tradução de Vida de Cidade não é grande coisa, como eu disse. Já o trabalho em O Pai Morto, mais criterioso, com mais recursos, é um convite tentador àqueles que nunca ouviram falar nesse grande autor, morto há 28 anos. Aos que já leram alguma de suas obras, é mais tentador ainda. Por falar nisso, hoje é dia 25 de julho, Dia Nacional do Escritor. É uma data brasileira, porque o Dia Mundial do Escritor é em outubro, 13. Mas vale assim mesmo, Donald!

 

Arte, romance

Tenho lido bastante sobre arte contemporânea. Meu próximo romance, em andamento, e com o título provisório de Fama Volat, versa sobre o assunto. Mais não falo – até porque a quem interessaria? Pois bem: o livro à esquerda, cujo título se refere a uma específica obra de arte (sim, um tubarão de verdade) e seu valor de mercado, expõe, de forma curiosa e contundente, os motivos que levam uma determinada obra a ser avaliada de forma exponencial – em termos econômicos, evidentemente. Sabe-se, claro, que a unicidade da obra artística – um quadro, uma escultura, um mural etc. – pode ser uma catapulta monetária. Isso não é novidade e também não é suficiente para que tal catapulta faça seu trabalho.

O papel dos marchands, dos colecionadores e da imprensa (essa, inacreditavelmente com menos poder) faz de uma obra uma mina de ouro. Aquilo que muitos nunca considerariam arte é visto como algo que pode ser avaliado em alguns milhões de dólares. Mas como? Quando um artista deixa de ser um artista e se transforma numa marca. Eis a questão. Passa-se a consumir a marca e não o produto. O livro explica para mim o que provavelmente os indivíduos envolvidos nesse meio sabem de salteado: a obra de arte é, acima de tudo, um investimento. Don Thompson, o autor – ele também um colecionador -, expõe o papel quase mafioso dos colecionadores e dos leiloeiros. Não se iluda: é um mundo desconhecido para a maioria das pessoas que lê este texto. Daí o livro ser interessante, como um conto de fadas verossímil – ou mais que isso: verdadeiro.

E o tubarão? Seu autor/artista chama-se Damien Hirst e a obra tem um sugestivo título: The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living. Algo como A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo. Um título pra lá de publicitário, instigante, representando um mercado imune a crises econômicas, um mercado que vive da especulação e não do prazer estético que uma obra de arte pode proporcionar. Nenhuma crítica nisso, deixo claro. Cada um se relaciona com a arte como quer (e como pode). Há um documentário interessantíssimo (e boicotado por muitos canais de tevê fechada) intitulado The Mona Lisa Curse. Nele, Robert Hughes, o mais renomado crítico de arte do mundo, critica o citado mercado e surra inclementemente muitos artistas contemporâneos, tão fabricados quanto uma caixa de fósforos. Interessantíssimo mesmo, pode apostar.

O tubarão, como eu disse, é criação de Damien Hirst. Ei-lo, abaixo, com seu tubarão, ao fundo. Só para constar: o bicho foi condicionado numa solução de formol, mas, com o tempo de exposição na galeria, a coisa foi-se deteriorando. Como vendê-lo? Qual a solução? Damien não titubeou: por telefone, fez um anúncio em várias agências de correio do litoral australiano, as quais espalharam cartazes: Precisa-se de Tubarão. Simples. Conseguiu mais alguns exemplares, mas inquietou os críticos, que afirmaram: se não é o tubarão original, a obra passa a ser outra. Sim, leva-se isso a sério.

Carlos Santana, 70

 

O mexicano Carlos Santana faz 70 anos, hoje, dia 20 de julho. A revista Rolling Stone classificou-o entre os 20 melhores guitarristas de todas as épocas. Listas, embora divertidas, são quase sempre discutíveis. Incluo aí as minhas. Colocar, todavia, Keith Richards e George Harrison à frente de Santana ultrapassa a seara da diversão e estabelece seu contrário: é quase melancólico ver este grande músico fincado numa posição que não lhe faz justiça – e abaixo de guitarristas que, a despeito de fazerem bem o dever de casa, não possuem o quilate do mexicano.

Certo, certo. Uma postagem como essa deve servir apenas a um propósito: as congratulações a esse espetacular artista, que a mim foi apresentado através de Abraxas, um discaço cujo exemplar em vinil mantenho na memória e na prateleira. Mas o que faz de Santana um guitarrista tão especial? Creio que cada um tenha seus motivos, mas o que me impressiona em Santana é o mesmo que estatela ao ouvir Miles Davis: a fusão de gêneros e, principalmente, o equilíbrio entre eles. O jazz, o funk, o blues, o rock, os ritmos cubanos, africanos, a herança mexicana – tudo se misturando numa sopa que até os puristas mais ortodoxos são capazes de provar. E gostar, porque tal sopa é saborosíssima.

Mas meu disco preferido não é obra de estúdio – e sim ao vivo, ao lado de Buddy Miles, ex-baterista da banda de Jimi Hendrix. Na cratera do vulcão Diamond Head, no Havaí, durante o Sunshine Festival, em 1972. É um som absoluto, musculoso, lisérgico, com a força sonora que faz jus ao local onde é produzida. É como lava fumegante descendo sobre a cabeça de quem ouve. Não, não estou exagerando. Mas não espere a barulheira nem os exibicionismos do heavy metal. É som de verdade, e com destaque para a pegada funky em Evil Ways, ponto altíssimo de um disco de cumes.

Na web há inúmeros shows completos de Carlos Santana. Se tiver interesse, é só clicar AQUI, AQUI e AQUI. Este último, em companhia de John McLaughlin. Eis a homenagem aos 70 anos desse grande artista.

 

 

 

Brubeck & a Bossa

Os puristas dirão que exagero, mas insisto em uma afirmação há 30 anos: o quarteto de Dave Brubeck (ele próprio, Joe Morello, Gene Wright e Paul Desmond) está entre as grandes formações do gênero em qualquer época. Para muitos, os vários grupos encabeçados por Miles Davis, nas décadas 1950/60, são o que há de melhor. Para outros, o Modern Jazz Quartet sintetiza o que é verdadeiramente o jazz, sem as contaminações de praxe, sem os desvios de rumo. Fala-se em Coltrane, Roach-Brown, Mulligan-Baker. E há, como se sabe, inúmeros outros quartetos e quintetos que tornaram o gênero algo essencial à música como um todo. Mas este texto diz respeito a Dave Brubeck e sua turma, e mais especificamente a um disco, Bossa Nova USA.

Este disco, a despeito de ser excelente, não traz temas específicos da Bossa Nova, ou aquilo que os norte-americanos chamavam, e ainda chamam, de jazz samba. Pouco, a não ser o título, lembra, de fato, o gênero que consagrou João Gilberto e Antonio Carlos Jobim, e que elevou a música brasileira a patamares nunca imaginados na indústria fonográfica mundial. Com a popularização da BN nos EUA, muitos músicos passaram a cumprir a obrigatoriedade: ao menos um disco deveria ter algo do gênero brasileiro, cool e jazzístico. Não deu outra. Eis um exemplo, embora sem a exatidão do que se fazia no Brasil.

Não sei se quem lê conhece Joe Morello, um dos grandes bateristas do jazz. Um dos pontos altos da Bossa Nova está na sua pegada percussiva, um tanto delicada, mas advinda do samba. Milton Banana era um craque nessa pegada. Edison Machado, outro. Joe Morello, excepcional instrumentista, não domina o suingue peculiar dos bateristas do gênero. BN é coisa doméstica, praticada por quem está acostumado ao samba, um balanço muito especial, típico. É só ouvir a gravação AQUI para perceber. Ele quase consegue, em Vento Fresco, e Coração Sensível mas falta algo. Não só a delicadeza rítmica e a complexidade harmônica fazem a Bossa Nova ganhar vida.

É sempre bom lembrar, entretanto, que o disco em questão é uma obra-prima, com execuções de Paul Desmond que podem estar presentes numa antologia mundial do sax alto. Sem contar o próprio Brubeck, inspirado, reverenciando, a seu modo, o gênero brasileiro. Quanto a Gene Wright, bem, é um sideman desejado por todos. Se tiver tempo, é só seguir os links (The Trolley Song, Theme for June, Irmao Amigo, Cantiga Nova e Lamento). Ouça com atenção, porque o jazz merece. E o quarteto de Brubeck também.

 

 

 

 

 

 

Os Olhos de Ansel Adams

Não sei se meus seis ou sete leitores já ouviram falar de Ansel Adams. Se gostam de fotografias, certamente sim. Por conta da Segunda Guerra, com medo de ataques aéreos que certamente vilipendiariam o patrimônio (natural ou não) norte-americano, o National Park Service convocou o fotógrafo, às pressas, para imortalizar tal patrimônio – algo que ele fez, em momentos interruptos, durante quase 3 anos. Muitas dessas fotos foram feitas nos parques nacionais Grand Canyon, Grand Teton, Kings Canyon, Mesa Verde, Rocky Mountain, Yellowstone, Yosemite, Carlsbad Caverns, Glacier, e Zion. Várias delas registraram Death Valley, Saguaro, e Canyon de Chelly National Monuments.

Snake River, Wyoming, 1941

St. Mary’s Lake, Glacier National Park, Montana, 1942

Going-to-the-Sun Mountain, Glacier National Park, Montana, 1942

Ansel Adams é um patrimônio norte-americano. Foi capaz de ver a riqueza natural de seu país como nenhum outro fotógrafo de sua época, observando a beleza de forma macrocósmica, exuberante, absoluta e, claro, registrando-a quase paradoxalmente – ou seja: em preto-e-branco, dispensando um dos elementos que o ambiente mais usa para embelezar-se: as cores. A fotografia, para Adams, é arte pura e, enquanto arte, precisa da sensibilidade do artista para ser veiculada. Caso contrário, é apenas registro, sem a função poética que apenas os grandes fotógrafos conseguem veicular.

Canyon de Chelly, Arizona, 1941

Kiersage Pinacles, King River Canyon, California

 Mount Moran, Teton National Park, Wyoming, 1941

Grand Canyon National Park, Arizona, 1942

Se você gostou e quer ver mais, é só clicar AQUI. Neste link será possível visualizar não somente o patrimônio natural, mas também as construções dos índios pueblos, feitas à base de pedra, adobe e outros materiais. Ansel Adams retratou-os de ângulos muito específicos, justamente para realçar a particularidade arquitetônica de um povo que ficou apenas na lembrança. Vale dar uma checada.

 

 

Fala! #1: Juan José Arreola

“‘Diverti-me como uma louca!’, disse Mona Lisa com sua voz de falsete, e diante dela, reverenciosos, os imbecis se extasiaram num coro de rãs boquiabertas. Seu riso dominava os salões do palácio como o jorro solitário duma fonte insensata. (Aquela noite em que as águas da amargura me penetraram até os ossos.) ‘Diverti-me como uma louca!’ Eu assistia à reunião como representante do espírito e a cada momento recebia parabéns, apertos de mão, oferecimentos de caviar e cigarros, previa a exibição das minhas credenciais. (Na verdade eu tinha ido somente para ver a Mona Lisa). ‘Que é que você está pintando agora?’ Os monstros de brocardo e pedraria pervagavam no aquário de fumaça, de mirto venenoso e gorjeios. Cego de raiva e fazendo com que minhas lanternas de fósforos brilhassem na sombra, pensei atrair Mona Lisa para as grandes profundidades. Mas ela só sabia morder anzóis superficiais (…)”

Cocktail Party, Juan José Arreola

 

Tommy, The Who

No próximo 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock, algo estabelecido há 32 anos. Ótimo. A relevância do rock é inequívoca, embora muita gente – incluindo eu – acredite que seja música adolescente feita para adolescentes. O rock não se estabelece na alma adulta – ou seja, não conheço adultos que, em sua maturidade, tenham ouvido o gênero pela primeira vez e tenham absorvido sua estética e seu propósito. Pode ser que algum de meus seis ou sete leitores conheça. O rock nos pega lá na adolescência, quando estamos mais suscetíveis à rebeldia, ao estardalhaço, à contestação. Embora não seja meu gênero de preferência, tenho apreço por alguns artistas e, evidentemente, por algumas bandas. Elvis Presley, Joe Cocker, Jimi Hendrix, Allman Brothers e The Who estão no panteão, no primeiríssimo time. Claro, claro: a subjetividade estabelecendo as normas desta postagem.

Para homenagear este dia tão importante, trago AQUI o documentário The Who: Sensation: the story of the who’s tommy. Sim, em minúsculas, mesmo sendo o álbum em questão uma das obras-primas do rock em qualquer época. Para quem é fã, é um documento e tanto. É a chance de compreender por que algumas canções do disco nasceram desta ou daquela forma. Tenho todas as versões possíveis de Tommy: a orquestrada, a trilha do filme, o álbum original de estúdio e a releitura da peça da Broadway. Pergunto-me quase sempre: será que existiu algum baterista mais técnico e mais nevrálgico do que Keith Moon? Algum baixista de rock rivaliza com John Entwistle? E quanto às inventividades textuais e musicais de Pete Townshend? Sinceramente? Não vejo nada que se assemelhe. Sim, repito: é apenas uma opinião.

Ouvi Tommy pela primeira vez em 1976, quando veio a público a trilha do filme – ao qual assisti, no finado Cine Paz, no mesmo ano. Eu tinha quatorze anos, e não entendi a profundidade messiânica da personagem, nem os delírios e exageros de Ken Russell, o diretor. Mas a música ficou naquele adolescente que dava os primeiros passos no rock, ouvindo Dark Side of The Moon e The Six wives of Henry VIII, de Rick Wakeman, discos emprestados de um querido primo três anos mais velho. Ah, sim, como esquecer a beleza fulminante de Ann-Magret, mãe da personagem central, o menino cego, surdo e mudo Tommy? Mas o que interessa aqui é o álbum. Tommy é uma ópera-rock: a primeira que existiu enquanto conceito e prática. A grandiosidade operística está lá, marcada pela eletrificação dos instrumentos e pela abordagem dramática.

A tendência de um documentário como esse é ser elogioso, condescendente. Não é o caso. Pormenores da vida pessoal de Townshend – principalmente a infância, tortuosa, vítima de abusos – são expostos de tal sorte que torna-se possível compreender por que alguns temas foram direcionados a John Entwistle, co-autor quando o chefão se sentia emocionalmente incapacitado. Há histórias saborosas, irônicas, tristes, sobre algumas das canções. É só checar – assim como não se pode perder a fala de Keith Moon a alguns segundos do fim. Justo ele, que só aparece falando no início e no fim do documentário. Assista ao filme: as palavras, aqui, são um tanto desnecessárias.

Kurt Vonnegut, o humanista

Leio que Unstuck in Time, documentário de Robert Weide sobre a vida e a obra de Kurt Vonnegut, está em fase de pós-produção. Vonnegut é um dos meus ídolos literários, uma de minhas obsessões no que se refere à criação, às palavras. Lembro-me de caçar seus livros como aves rarae em sebos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Isso logo após ter conseguido, como que por milagre, edições mal traduzidas – feitas pela antiga Artenova, quem se lembra? – compradas na antiga Livraria Capixaba, sita à Nestor Gomes. Foram bons tempos, em que se podia garimpar obras de autores pouco conhecidos sem ser bombardeado por best-sellers destinados ao público adolescente. Hoje a internet ajuda muito.

Minto se disser que li todos os seus livros. Faltam-me dois: Happy Birthday, Wanda June, comédia escrita em 1971, e Canary in a Cathouse, livro de contos escrito 10 anos antes. Os outros? Ao todo 31, lidos e relidos (ao menos alguns) com o mesmo prazer de uma primeira vez, com o mesmo pasmo e satisfação diante de um parágrafo ou página que eu levaria algumas encarnações para conseguir escrever. Sempre achei Vonnegut necessário, essencial, principalmente àqueles que apreciam o humanismo expresso em palavras, sem qualquer blefe aparente, sem a demagogia fácil, que pode brotar por diversas razões – todas elas escusas. Vonnegut foi um humanista dentro e fora das páginas: praticou o respeito pelo semelhante, embora o cineasta Robert Weide tenha revelado facetas cruéis de um escritor que, sendo humanista, ainda é humano. Era também ateu, membro de uma organização como a AHA, a Associação Humanista Americana, cujo lema é Bondade sem um deus. É sério.

Muitos de seus livros trazem a marca humanista, sejam eles marcados por um desbragado senso de humor, sejam eles estruturados a partir de uma ironia dolorosa diante da realidade. Uma ironia que não faz rir, ao menos não na frente dos outros. É provável que seu humanismo tenha se consolidado a partir de duas experiências: ter sido soldado durante a Segunda Guerra e ter adotado os três sobrinhos, filhos da irmã e cunhado falecidos no mesmo ano. O próprio Vonnegut afirmava que as experiências pessoais são a melhor matéria literária. Seus textos podem – e devem – ser lidos baseados na crença de que o ser humano, por pior que seja, ainda vale a pena.

Pode até ser que você, sexto ou sétimo leitor, não me pergunte, mas vou citar os livros de Vonnegut de que mais gosto. Vale para preencher a postagem, assim como vale para um possível curioso que leve a sério o que digo. Leia Almoço dos Campeões, Bem Vindo à Casa dos MacacosBode Vermelho, Cama de GatoGalápagos e, claro, Matadouro 5. São clássicos, embora eu considere clássica praticamente toda a obra desse senhor. Todos esses livros citados podem ser encontrados em traduções satisfatórias, mas se você lê na língua de Vonnegut a coisa fica melhor, tenha certeza. Aliás, não é só o documentário que abriu a postagem que revela o namoro entre Vonnegut e o cinema. Matadouro 5 e Almoço dos Campeões vieram às telas. Há muitos outros, os quais não vi. Gostaria de ter visto o filme baseado em seu romance Pastelão – ou Solitário Nunca Mais (tradução). Jerry Lewis trabalha nele.

Kurt Vonnegut morreu há dez anos, de complicações cerebrais por conta de uma queda. Estava com 84 anos. Alguns de seus livros, publicados postumamente, são a prova de que ele viverá para sempre – ao menos para quem aprecia literatura de verdade.

 

 

 

 

 

 

Art & os Mensageiros

Alguém já disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. A frase é boa, mas limita a arte a um sentido específico – o que é, grosso modo, uma inequívoca injustiça. Nos primórdios do Ipsis, escrevi muito sobre jazz, meu gênero preferido, meu prazer obrigatório. Claro: aprecio a emepebê, o rock, o blues, o samba. Chego a reconhecer que a música clássica é o que de melhor há nessa arte, mas nada me toca tanto, musicalmente (e sem trocadilhos), como o jazz. Conversando certa vez com um amigo, disse-me ele que quem gosta de jazz é intelectual. Isso não é verdade. Intelectual apenas diz que gosta, e afirma isso entre goles de gim, marlboro entre os dedos, meio-sorriso treinado.

A ilustração à esquerda refere-se ao primeiro cedê de jazz que comprei, em 1992. Art Blakey é um dos gigantes da bateria – em qualquer gênero. Só não digo que é o melhor porque comparações, embora divertidas, têm origem em subjetividades questionáveis. Esse papo fica para depois. Art Blakey chefia os mensageiros do jazz, grupo que se propõe justamente ao epíteto que possui: levam o jazz aonde ele não está, e chegar para ficar. Neste disco, Freddie Hubbard (trompete), Wayne Shorter (sax tenor), Curtis Fuller (trombone), Cedar Walton (piano) e Reggie Workman (contrabaixo) levam ao extremo o que se chama virtuosismo. Talvez seja essa a melhor formação do grupo. E olhe que em outros tempos, Horace Silver, Hank Mobley, Johnny Griffin, Lee Morgan, Wynton Marsalis e Bobby Timmons (só para citar alguns, mais conhecidos) compuseram a trupe.

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Não sei se você, que lê, assistiu ao filme Whiplash, de Damien Chazelle. Se não, deveria ter visto. É um filme sobre jazz e sobre os limites de um jazzista em formação. Ok, é cheio de imprecisões, concordo, mas isso é secundário. No filme o tema Caravan, que dá nome ao disco em questão, é o mote para que um baterista compreenda que a execução musical sempre pode ser mais acurada, melhor. Aliás, a prova ficcional disso está no filme. Quer a prova real? É só ouvir o disco para perceber que não há limites para Art Blakey. Se puder ouvir essa gravação, tente manter o queixo no lugar a partir de 8:25, quando um solo de pouco mais de um minuto vem à tona, mas parece ter horas.

Caravan é um tema feito a quatro mãos: o trombonista portorriquenho Juan Tizol encontrou a genialidade do pianista Duke Ellington, possivelmente o maior compositor do jazz. Caravan é um clássico. No filme de Chazelle, o protagonista, um baterista de talento enormíssimo, tem como ídolo um outro gigante do instrumento: Buddy Rich. Sinceramente? Prefiro Art Blakey, que, além de ser um músico de primeira, é também um mensageiro. O Jazz, com maiúsculas mesmo, deve a ele.

De volta, mais uma vez

Pois é: o Ipsis Litteris está de volta, após alguns anos desativado, não por vontade de seu chefe e gestor, mas por conta e risco de um hacker que, sabe-se lá por quê, resolveu vilipendiar meu quintal. Não vou lamentar mais. De lá para cá o Ipsis Litteris não se modificou muito. Continua a veicular a opinião pessoal de seu dono – no caso, eu – sobre cinema, literatura, música, quadrinhos, fotografia, arte em geral. É muito assunto: uma vastidão que, se bem articulada, tornará este blogue um local cujo acesso será satisfatório para ambas as partes. É o que eu espero.

Nunca desconsiderei uma verdade: o maior patrimônio de um blogue é a qualidade dos comentários sobre ele (ou sobre a postagem). Sempre tive isso em alta conta. Sem trocadilhos, foram quase 12 mil comentários em 7 anos de vida útil – o que equivale a mais de 1.700 comentários/ano. Isso é muito em se tratando de um blogue que não versa sobre maquiagem, alimentação low carb, ginástica localizada, vídeos adolescentes ou hip hop. Gosto dos comentários. Aprendo com eles, principalmente quando, honestos, propõem-se a colaborar para que a informação não descambe para a banalidade, para as inequívocas bobagens. Nestes quatro anos em que estive distante do Ipsis, publiquei dois livros, que se tornam brindes aqui, nO Pensador Selvagem. São eles Todas Elas, Agora (volume de contos) e Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular (biografia). Ei-los em capa:

  

Em breve estarão nas mãos (e nos olhos) dos leitores. Escrever continua a ser um ato de amor – e de sobrevivência. Mas é preciso divertir, evidentemente. Um dos motivos que levam o Ipsis Litteris a essa ressurreição é a poderosa aliança entre amor, entretenimento e sobrevivência. Não, não me perguntem como consigo aliar tais substantivos, como os torno íntimos, quase xifópagos. Não sei explicar, mas talvez a literatura, per si, saiba. Perguntemos a ela. Espero que ao menos aqueles que conheceram os bons tempos do Ipsis Litteris estejam felizes com sua volta. Eu estou – e espero continuar.

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