O que se quer da Arte?

Lembro-me bem de, na metade – ou um pouquinho mais – dos anos 80, século passado, ter tido acesso às histórias de Paulette, a gostosíssima personagem criada e desenhada por dois Georges – Wolinski e Pichard. Paulette é anatomicamente imperfeita, algo que faz dela uma personagem quase corriqueira, uma prima distante, uma vizinha ocasional. Não poderia, nem de longe, ser uma mulher comum, já que despertou, quando criada, no início dos anos 1970, em terras francesas, repúdio por parte dos bem-comportados e dos moralistas duvidosos. Isso sem falar em sua aparência um tanto gótica e, justamente por isso, tão atraente.

Os tempos eram outros – em tese. Sim, porque foi justamente a involução, o retrocesso, a intolerância radical e a fúria homicida que apagaram das páginas a deliciosa Paulette. Fizeram pior, muito pior: mataram gente inocente cujo papel, na vida e no quotidiano, era fazer arte – e da melhor qualidade. Georges Pichard já não estava entre nós: morrera em 2003, levando seu traço imortalizado, sua capacidade inequívoca de, sinestesicamente, desenhar o sabor feminino. George Wolinski, por seu turno, foi, junto com outros componentes da Charlie Hebdo, vítima de uma ação que me repugna e revolta. Quem não se lembra, há 4 anos?

Paulette serve como metonímia: quantos personagens, a partir de agora, tornam-se malditos porque expressam liberdade, erotismo, tesão? O futuro da arte erótica no país mostra-se numa situação pouco confortável. Aponta-se para perseguições, censuras, truculências, hidrofobias. Em nome de uma moralidade tão questionável quanto frágil, preconceituam-se as atividades artísticas como inimigas da família, vilãs dos bons costumes e adversárias do bem-viver. À arte cabe, também, a transgressão. Não é seu único papel, mas questionar o status quo e as mesquinhas e quebradiças tradições é uma de suas funções. Atiçar o pensamento é seu mote.

Lembrei-me do episódio do Queermuseu, há 1 ano. Houve quem se posicionasse favorável à exposição, e tal apoio foi fundamentado em opiniões que, a meu ver, devem ser levadas em conta. A arte existe porque existe subjetividade. É justamente através da visão pessoal que se identifica o processo artístico, bem como seu valor. Houve, entretanto, uma forma distinta de ver a exposição – e essa forma precisa ser respeitada. O que não se pode respeitar (e, sim, repudiar) é a maneira como se deu o processo dialético: com violência, autoritarismo, força. O mesmo que levou, considerando as proporções, ao extermínio de Paulette. No fim das contas, é a arte levando a pior.

Fica a pergunta: e agora? Para muita gente, o poder público federal legitimará a violência contra artes e artistas que se mostrarem avessos àquilo que eles chamam de bons costumes. Não acredito muito nessa possibilidade. De qualquer forma, vão calar artistas, professores, intelectuais, pensadores, estudiosos? Gostaria muito de obter a resposta para minha pergunta: o que se quer da arte? Sabe responder, Paulette?

Carlos, o sobrenatural

No ano em que nasci, 1962, o mexicano Carlos Fuentes escreveu duas obras-primas. Uma delas, o romance A Morte de Artemio Cruz, nasceu no ano anterior, mas foi publicado em setembro do ano seguinte. A outra, a novela de título Aura, foi escrita e publicada no mês de meu nascimento, abril. O México, que produziu Juan Rulfo, Juan José Arreola e Octavio Paz – só para citar os titãs -, trouxe ao mundo também Carlos Fuentes, o mais prolífico deles. Para muitos, o mais criativo. E Aura, texto em questão, está entre seus melhores trabalhos.

Por que falo de Fuentes? Porque, se vivo, esse extraordinário escritor estaria, em breve – 12 de novembro -, completando 90 anos. E falo de Aura porque, como disse anteriormente, tem a minha idade. Só isso já seria mote suficiente para dar as caras neste blogue. A edição que possuo, e que adquiri há uns 30 anos, tem essa capa ao lado. A história, per si, é um grande diálogo com o sobrenatural, com o mundo dos espíritos, além de um enredo em que o amor assume o comando. Aquilo que poderia ser banal em minhas mãos (e de muitos escritores tarimbados) torna-se genial nas mãos de Carlos Fuentes.

Narrado em 2ª pessoa do singular, Aura torna-se, justamente por isso, uma conversa – entre narrador e personagem. É uma narrativa barroca, de suspense, carregada de cinematografia – o que, aliás, faz sentido, já que foi filmado, alguns anos depois, com o título A Feiticeira no Amor, de Damiano Damiani. Enfim, volto ao livro: se você é afeito a histórias de suspense/terror e, claro, aprecia, também, a literatura de qualidade, é de Aura que você precisa. Em alguns momentos de tensão narrativa, não se permite ao leitor saber se o que é lido é real ou imaginário. Eis, para mim, o grande patrimônio da novela.

Aura é carregada de simbolismos, que só funcionam se quem lê, munido de informações, consiga dar vida a eles. É a contrapartida do leitor, diante da obra-prima. Há uma anciã devota do catolicismo e de rituais de bruxaria, há uma casa às escuras somente iluminada por velas, há um livro de memórias a ser completado, há um historiador que se confunde com a história – e, claro, há Aura, a bela Aura, personagem que, ao final se mostra surpreendentemente distinta de qualquer interpretação. Mais não falo. Leia, se puder! Vale conhecer Carlos Fuentes e o que ele nos proporciona! Viva México!

 

A morte de um mulherengo

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No começo dos anos 1980, em Vitória, Leonard Cohen foi um artista cultuado por um grupo pequeno de admiradores. Era pequeno justamente porque pouco se falava nesse artista, quase ninguém o conhecia na era pós-disco e havia muita gente que, sabe-se lá por quê, apreciava o medíocre movimento BRock, que trouxe à superfície Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e que tais. Eu tive a sorte de ter colegas que, na faculdade, falavam em Leonard Cohen baixinho, pelos cantos, como se ele fosse uma pérola quebradiça tão frágil que seu nome mal era pronunciado.

Sua voz, ao contrário, era de uma potência tão definitiva quanto pouco usual. O primeiro disco que ouvi, com 19 anos, foi Death of a Ladie’s Man, de 1977, no qual brilham Iodine, a balada Paper Thin Hotel, a espetacular Memories, a narrativa I Left a Woman Waiting, o poderoso country rock Don’t Go Home with Your Hard-On, e, claro, a faixa-título, um poema-conto belo e triste. Na época, só tinha ouvido falar de seus livros – era poeta e romancista – e de como escrevia com a mesma elegância com que tratava os vocábulos numa canção. Embora canadense, toda a sua formação literária pertencia à Inglaterra. A propósito, Death of a Ladie’s Man é também um de seus vários livros de poemas.

Realmente não sei em que seara ele é melhor: se compondo canções ou articulando versos. É, até onde conheço, o único artista que, aventurando-se em dois terrenos, atinge a plenitude criativa em ambos. É neste livro, para mim um clássico, que Leonard Cohen dá sua versão do que é falar poesia. How to Speak Poetry é um achado, um texto que todo poeta responsável deveria ler (falar, no texto, nada mais é do que criar). É a metalinguagem levada ao extremo (tradução minha, livre):

“O poema não é nada a não ser informação. É a constituição do país interior. Se você o declamar e espalhá-lo com nobres intenções, então você não é melhor que os políticos que despreza. Você é apenas alguém sacudindo uma bandeira e fazendo o apelo mais banal de patriotismo emotivo.”

Leonard Cohen morreu há exatamente um ano. Segundo consta, foi vítima de uma queda enquanto dormia. Aos 82 anos, o artista legou-nos 14 discos oficiais, em estúdio; 7 discos ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura: 12 livros, entre poemas e romances, e 3 coletâneas de versos. Não é pouco. Em qualidade, é muito mais do que merecemos.

Darwin, Pedro Xisto, escola

 

A figura acima tem nome: Epithalamium, e foi concebida por Pedro Xisto, poeta pernambucano cujo talento para a visualidade era inequívoco. Foi concretista, aliado dos irmãos Campos, embora não rezasse fanaticamente na cartilha Noigandres. Tenho apenas um de seus livros, Logogramas, encontrado na Livraria São José, sebo carioca da rua do Carmo. Apresentei o poema a meus alunos – aliás, é um exemplo recorrente, que considero necessário à compreensão da estética concretista. Mas por que falo isso? O poema, como é apresentado pelo autor, propõe uma relação entre texto e o mito de Adão e Eva e, de quebra, alude ao formato curvilíneo da serpente como metáfora do mal e da sensualidade.

Chamo a atenção de meus alunos para isso e aproveito, muito despretensiosamente, para perguntar se há criacionistas na sala. Os criacionistas, em sentido amplo, creem que o universo e os seres que nele habitam foram criados por Deus – e ponto final. Respeito-os como respeito aqueles que os contradizem: os evolucionistas. Na verdade, embora tenha sido educado para comungar com a primeira categoria, encaixo-me na segunda. Charles Darwin, para mim, é fundamento.

Li, com certa desagradável surpresa, que o próximo presidente, por meio de seus assessores na área de educação, quer que o Criacionismo seja discutido nas escolas públicas. Quer que seja debatido e ensinado tanto quanto o Evolucionismo o é. Em outras palavras: quer que a escola faça o que a Igreja tem o papel de fazer. Está AQUI, para quem quiser ler. A meu ver, ensinar Criacionismo nas escolas é algo tão grave quanto o contrário: a Igreja querer ensinar física e química aos fiéis. Considero, entretanto, que isso deva ser debatido, de forma responsável, criteriosa. Assim como se ensinam os porquês de vulcões expelirem lava, de aves serem capazes de voar e o que vem a ser a velocidade da luz, deve-se inserir a criança no debate sobre como o ser humano passou a habitar a Terra. Eu disse porquês. Ou seja: apontar fatos incontestáveis, evidências, razões, embasamentos. A fé tem seu importantíssimo lugar – mas não é na escola.

Respeito os criacionistas – como disse, acima -, mas mantenho-me fiel à figuraça aí acima (a barba espessa e o olhar enganosamente vago) e à sua teoria. Não cegamente, porque penso que alguns pontos do que ele escreveu precisam ser repensados, afinal que teoria permanece intocável durante 150 anos? Poucas. Algumas duram até 6 mil anos. A existência de Deus e seu poder criativo, mesmo sem uma comprovação eficaz, é uma delas. Pedro Xisto morreu em 1987. Vivo estivesse, o que diria disso tudo?

Quanto vale sua opinião?

Conta-se nos bastidores da história musical brasileira que, em meados dos anos 60 do século passado, quando os compositores Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo surgiram, e pouco tempo depois os tropicalistas deram o ar da graça, os adeptos do iê-iê-iê – também chamado Jovem Guarda – recolheram-se humildemente a seus aposentos, um tanto envergonhados de ter produzido algumas canções que mereceriam, sem exagero, o esquecimento. Diante do potencial criativo dos senhores citados, Roberto, Erasmo & Cia. iniciaram um processo autocrítico que soou positivo para suas carreiras. Acho louvável a autocrítica; considero importante que o indivíduo (re)avalie sua opinião quando a dialética se instaura na criação.

É saudável e necessário. Hoje não se vê mais isso. Ninguém se envergonha; perdeu-se a noção da humildade; o bom-senso virou a esquina e nunca mais foi visto. Dia desses ouvi uma entrevista na qual um DJ se dizia tão ou mais fundamental para a música atual quanto maestros europeus de nome incompreensível. Palavras dele – por isso estão em itálico. Não sei se rio ou choro. Não há sequer constrangimento. Pagodeiros e cantores sertanejos rivalizam com grandes compositores e zangam-se quando são desprezados pela intelligentsia. Querem o seu quinhão, sua parcela de consideração intelectual, querem ser considerados MPB por serem realmente populares.

Mas quem lhes disse que ser popular implica necessariamente ter qualidade? Aí entra uma questão tão crucial quanto triste: são populares porque há quem legitime essa popularidade. No caso, o consumidor. Sim, ele, o consumidor, também ignora constrangimentos. Falta-lhe a humildade, que esconde sob a desculpa esfarrapadíssima de que gosto não se discute. Claro que se discute. Gosto é ponto de vista. Ponto de vista não se discute? É algo imaculado, intocável? Blindou-se a subjetividade e qualquer crítica ou comentário que a contrariem adquirem status de truculência e desrespeito.

Os críticos, os comentaristas, os articulistas, os estudiosos, os analistas e os teóricos devem, então, ser desprezados em benefício dos papalvos que vociferam é minha opinião – e pronto!? Não considero isso justo. É claro que toda opinião merece respeito, principalmente quando fundamentada, abalizada – mas não merece, necessariamente, concordância. Opiniões que geram debate de ideias têm chances enormíssimas de também gerar conhecimento – algo que, suponho, interessa a todos. Ou deveria interessar. Mas quem se dispõe, de coração aberto e com a humildade necessária, a ser contradito? Essa pergunta não tem somente você, leitor, como alvo, mas dirige-se também a mim, e talvez até principalmente, como uma serôdia autocrítica. Afinal, nunca é tarde.

Sim, meu voto é Haddad, claro!

Perguntaram-me hoje – como se não já soubessem! – em quem eu votarei no 2º turno. Num determinado momento, naquela fração de tempo mínima, que pode nos levar ao desespero ou ao paraíso, cheguei a me sentir ofendido por alguém me questionar isso. A ofensa passou tão rápido quanto veio. Eu sou um homem de ideias. Sou professor há 38 anos, sou escritor publicado desde 1987, com vários livros no currículo, estou secretário de Cultura da capital, sustento minha família com meu saber literário e gramatical, que levo a meus alunos de forma sempre honesta mas nem sempre mui bem recebida (por eles). Isso sem falar na gestão de políticas públicas para a cidade.

Sendo eu um homem de ideias, tenho de me identificar com quem as possui, mesmo que destoem do que penso e profiro. Em bom vernáculo: para que as ideias de outrem não combinem com as minhas, é necessário, primeiro, que esse outrem tenha ideias. Se não as tem, não admito, em minha humilde prática intelectual, sequer entabular diálogo. Sim, por isso voto em Fernando Haddad, mesmo que em alguns pontos não concordemos. Como aventar a possibilidade de votar em alguém que, sem condições de discutir ideias, puxa uma arma, saca um revólver? Como alguém afirma que vou pelo caminho errado se não ouve meus argumentos, não me permite expressão?

Minha arma sempre foi a linguagem, os códigos, as metáforas, a língua, a literatura, a arte. Aquele que possuir um mínimo de sensibilidade nessa área me é simpático, tem meu voto. Alguns amigos (nenhum deles atuando em minha área) disseram-me que eu, como professor, não deveria revelar meu voto. Em outras palavras: ser professor anula minha cidadania, meu direito à expressão. Posso falar de José de Alencar, de Euclides da Cunha e de orações subordinadas, mas não posso dizer, onde quer que eu esteja, que voto em Fernando Haddad. É isso mesmo? E aqui, no meu blogue, posso?

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Deus aos 78

Nunca escrevi sobre esporte neste blogue que, aliás, é destinado a expressões artísticas e culturais: livros, cinema, fotografia, música, quadrinhos, blablablá. A categoria Mulheres foge à regra – mas é uma boa causa, claro. Resolvi, hoje, falar de esporte e, nessa categoria, escolho o mais popular de todos (e do qual mais gosto, ao lado do boxe e do basquete): o futebol. E dentro do futebol, escolho o que esse esporte produziu de melhor: Pelé, que, amanhã, 23 de outubro, completa 78 anos. Se você não o conhece, aí vai uma foto sem rosto (apenas silhueta), para atiçar sua lembrança:

Fico imaginando, num exercício fantasioso, Pelé com 23 anos, hoje. Creio que não haveria uma combinação tão perfeita entre marketing e produto. Embora eu não seja especialista na coisa, acredito de verdade que, com todo esse aparato midiático (internet, tevês a cabo, aplicativos) e marqueteiro (empresas de material esportivo, principalmente), não haveria um produto, no futebol, que rendesse maior dividendo. Pelé seria mais lendário do que é hoje, um atleta que fica para sempre, incluindo aí o imaginário de pessoas que sequer se interessam por futebol. Um fenômeno absoluto.

Certo, certo: o brasileiro, grosso modo, cospe em seu ídolos. Nelson Rodrigues já vociferava essa verdade inequívoca. Pelé é adorado como um totem eterno na Europa (onde, nos anos 1970, era uma marca que só perdia em popularidade para a Coca Cola), na África, na Ásia e sofre no Brasil um certo ódio contido, quando não explícito. Muitos cobram que ele seja eficiente em outros aspectos como era entre as quatro linhas. Uma injustiça descomunal, já que a vida de Pelé girava em torno de um campo, de uma bola, de um time. Vi-o jogar em fim de carreira. Comecei a me interessar por futebol no início dos anos 1970, quando ele, já com mais de 30, iniciava a aposentadoria.

Estive em sua despedida: no Maracanã, em 1971, num jogo contra a Iugoslávia, num empate com dois gols para cada lado. Lembro-me bem: estádio cheio, e eu sentado na arquibancada cercado pela família de Marco Antônio, lateral direito do Fluminense. Coisas da vida. Enfim, não há nada para ser dito neste texto que outro não o tenha feito. Escreve-se sobre Pelé há 60 anos – desde quando, na Suécia, aos 17 anos, foi eleito lenda. De lá para cá, tornou-se parâmetro de comparação, referência para todo craque que desponta aos quatro cantos. Eu vi Cruijff, Maradona, Van Basten, Messi, Cristiano Ronaldo. Pelé supera todos, com folga, em todos os fundamentos do futebol. Enfim, o resto é história.

Quem ouve Jazz?

O jazz está quase virando clichê – e isso é bom ou ruim? Escrever sobre jazz é algo que sempre me trouxe uma inequívoca satisfação, comparável somente ao saborear auditivamente algo do gênero, de preferência o piano, o saxofone, o trompete, a grande orquestra. Em segundo lugar porque essa iniciativa seria impensável há trinta anos, já que poucos eram os estudantes que se interessavam por um solo de Sonny Rollins ou pelas acrobacias cerebrais de Earl Hines. Aliás, não havia muito interesse porque o desconhecimento grassava. Lembro-me de no início dos anos 1980, eu e alguns amigos às voltas com os bolachões e com os divertidíssimos blindfold tests, que consistiam em ouvir um determinado tema no jazz e tentar descobrir, sem qualquer informação adicional, quem o executava.

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Hoje qualquer garoto gosta de jazz – ou pelo menos diz que gosta. Há uma certa aura intelectual no apreciador do gênero. Rock, hip hop e samba são para os amadores e para os adolescentes, afirmam alguns. Música clássica é para os esnobes, dizem outros – que também chegam a afirmar que música gospel é para desinformados que acham que qualquer baladinha que louva a Deus tem o valor do que produzia Mahalia Jackson. Jazz – afirmam quase todos – é música para os inteligentes, para aqueles que se nutrem de harmonias complexas e melodias improváveis, para aqueles que não veem a música como passatempo, como entretenimento nem como tecido de fundo para o namorico ou para a balada.

Alguns de meus seis ou sete leitores provavelmente irão considerar o parágrafo acima preconceituoso. Talvez nem caiba nos dias de hoje, já que a internet, as propagandas de tevê, alguns (poucos, é verdade) programas de rádio e os diversos festivais de jazz pelo Ocidente transformaram a arte de John Coltrane, Charlie Parker e Bill Evans em ingredientes capazes de compor um balaio no qual cabem Odair José, Dietrich Fischer-Dieskau e John Lennon. Não sei se chega a ser lamentável, porque o jazz passa a ser ouvido por uma fatia da população que até então o ignorava.

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Eu fico feliz em saber que muitos de meus alunos conhecem Miles Davis e que curtem o som das orquestras mais afinadas – de Stan Kenton a Duke Ellington. Isso é bom, mas seria melhor ainda que o jazz tivesse mídia, que fosse popularizado, que virasse atração no fim do programa de Fátima Bernardes. Calma, puristas! O que estou dizendo é que se o jazz chegar a aparecer na grade curricular dos programas populares de tevê poderá ser um indício de que as coisas vão pelo caminho certo, e que a difusão do gênero reflete um avanço. Já imaginaram Carmen McRae ter tanto espaço na mídia quanto Anitta? Ou Thelonious Monk e Dizzy Gillespie serem tão conhecidos pelo grande público quanto Alexandre Pires e Xande de Pilares?

Há um problema nisso tudo, penso. Será que o ouvinte de jazz quer essa popularização? Imagina ele que tal condição pode prejudicar a qualidade do produto? Não creio. Acho mesmo é que o consumidor de jazz quer continuar periférico – e aprecia isso. Não quer ouvir o que o populacho ouve, considera-se habitante de outra esfera, consumindo caviar quando a maioria come pastéis na esquina. É ou não uma forma de sentir-se superior? Uma pena, porque quem perde é o jazz.

Vem dançar, Pierre Dulaine!

Tenho trabalhado – por opção – mais do que mereço. Sobra-me pouco tempo para uma atividade absolutamente essencial a um escritor: escrever. Enquanto me aventuro na pesquisa para andamento de um novo romance, uso algumas pausas para assistir a filmes – de preferência na companhia familiar. Aliás, vou mencionar família neste texto. É só esperar. Antes, porém, falo de Antonio Banderas, o ator espanhol. Mas por que falo nele, se, até onde sei, ele não é meu parente?

Banderas estrelou um filme intitulado Vem Dançar (Take the Lead, no original), uma espécie de Ao Mestre com Amor – clássico dos anos 60, com Sidney Poitier – com as agruras do hip hop. Antonio Banderas é um  professor de dança de salão que quer ensinar a garotos de uma escola pública algo que para eles inexiste: vida inteligente fora do rap e da dança hip hop. Não é um grande filme, mas chamou-me a atenção uma das cenas iniciais, que revela o encontro do professor (a personagem chama-se Pierre Dulaine) com a alunada. Nela, Banderas liga um aparelho de som e dele sai a extraordinária voz de Sarah Vaughan cantando They Can’t Take That Away from Me, dos irmãos Gershwin, um clássico do jazz interpretado de forma grandiosa, sublime.

Os garotos protestam com a arrogância veemente da adolescência, como se a canção fosse, na verdade, um discurso de Joseph Goebbels. É uma cena grotesca: os alunos ameaçam deixar a sala de aula, e só se mantêm nela quando o professor desliga o aparelho. Não querem saber de Sarah Vaughan. Ignoram quem são Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Rosemary Clooney, Dinah Washington, Julie London. Não se interessam por Harold Arlen, pelos irmãos Gershwin, por Cole Porter, Irving Berlin, grandes nomes da canção em qualquer época. Querem contato, de fato, com os rappers que, de forma contundente ou não, num discurso verdadeiro ou convenientemente ensaiado, falam sobre periferia, sobre diferenças raciais, sobre os dissabores da condição em que vivem. Isso não se discute. O que me incomoda – e incomodou também o professor dançarino – é  rejeitarem aquilo que não conhecem.

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Qual a função, então, de um professor – de dança ou de qualquer outra disciplina? Criticar seu aluno por ele desconhecer o que tem qualidade e, assim, aumentar a distância entre ele e seu pupilo? Não creio que seja essa a saída. Sempre acreditei que a obrigação de um professor – de qualquer área, mas aqueles que ministram aulas na seara de Humanidades têm mais chances de realizar isso – é apresentar ao aluno alternativas que permitam as escolhas, que proporcionem a eles a oportunidade de conhecer as opções. Apresentar música, literatura, cinema, arte em geral, de boa qualidade, é tarefa obrigatória.

Sinceramente? Sempre cri que um professor precisa habitar um mundo diferente daquele que seu aluno frequenta, embora deva reconhecer os cacoetes, as características e as contradições desse mundo, que não lhe é – e nem deve ser – alheio. Um professor, penso eu, pode (e deve) saber que existem, por exemplo, Thaíde, Ludmilla, Emicida e outras criaturas, mas é fundamental que conheça (e reconheça) a importância de Villa-Lobos, de Pixinguinha, de Lamartine Babo, de Chico Buarque. E apresentar esses artistas, de forma honesta e bem fundamentada, é seu ofício. E a família, onde entra? Bem, é ela que vai dar o primeiro passo. Sem ela, sem seu aval e cumplicidade, não há professor que possa, verdadeiramente, efetivar qualquer mudança. Vá em frente, Pierre Dulaine!

A melhor noite de 67

Nos últimos dias tenho falado a meus alunos sobre Tropicalismo, o movimento musical cujas características e personagens já foram abordados em questões do ENEM. Há pouco mais de um ano, aqui mesmo, neste blogue, escrevi sobre o assunto. Retomo-o, afirmando – e digo isso a meus alunos – que não se chega ao Tropicalismo sem passar pela Bossa Nova, pelo samba, pela Jovem Guarda, pelo rock e pela Antropofagia de Oswald de Andrade. E, claro, pelos festivais da canção, que apresentaram, em fins dos anos 1960, o que de melhor se produzia (e produziu) em termos de canção. Foram os festivais que nos proporcionaram conhecer Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil – e um sem-número de outros compositores que, hoje, habitam o panteão da música popular nacional. Abaixo, Caetano canta Alegria Alegria, acompanhado pelos Beat Boys.

Recomendo a eles que assistam ao documentário Uma Noite em 67. É possível assistir a ele, na íntegra, AQUI. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, esse doc, de 2010, traz imagens inéditas não somente de cenas de palco, mas há algumas pérolas brotando dos bastidores do evento. Isso sem contar nos comentários, quase 50 anos depois, de gente que, de uma forma ou de outra, esteve envolvido no processo. Jurados, maestros, críticos e, claro, os compositores e cantores que se apresentaram nessa noite tão absolutamente singular. E ainda há a cena completa de Sérgio Ricardo quebrando o violão e arremessando-o para a plateia.

O livro é ainda melhor: traz as entrevistas completas com aqueles que estiveram no Teatro Paramount, local do Festival da Record, capitaneado por Paulo Machado de Carvalho (um dos entrevistados do livro). Aliás, é ele quem revela ter ido buscar Gilberto Gil no hotel, já que o compositor baiano recusava-se, dominado pelo pavor de um palco de festival, a apresentar sua obra-prima Domingo no Parque, que abocanhou o segundo prêmio e ainda serviu de embrião para o movimento tropicalista. Outro embrião é Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Também revelou que Roberto Carlos (que não é entrevistado no livro) pediu para nunca mais participar de festivais.

O livro é tão saboroso quanto necessário. É um relatório, uma súmula do que foi o maior dos festivais. Depoimentos de Nelson Motta, Júlio Medaglia, Chico de Assis e Ferreira Gullar abrilhantam as páginas. É o documento de uma época em que os compositores tinham realmente que possuir talento para eternizar-se, e os 5 primeiros colocados (Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, em ordem decrescente) tinham isso de sobra. Eram os melhores naquele tempo e continuam os melhores atualmente, 51 anos depois. Quem pode lhes substituir?

Dirceu, que era baterista, toca berimbau. Gilberto Gil canta Domingo no Parque.

Roberto Carlos canta o samba Maria, Carnaval e Cinzas

Chico Buarque e sua Roda-Viva, acompanhado pelo MPB4

Marília Medalha, ao microfone, acompanhando Edu Lobo, ao violão. A campeã Ponteio é aclamada.

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