Sarah: a mais completa, em 3 discos

Mais um pouco sobre jazz. Já comentei, aqui mesmo neste espaço, que a Santíssima Trindade do vocal feminino, no gênero, é composta por Ella Fitzgerald, Carmen McRae e Sarah Vaughan. A maioria discorda: dizem que Billie Holiday é mais cantora que Carmen, tem mais charme, mais carisma e é mais afinada. Quanto ao carisma e ao charme, eu não discuto, porque são avaliações pessoalíssimas. Mas parece-me difícil avaliar quem, entre as 4 citadas, é a mais afinada. Eu não sei. Acho que empatam. Deixando de lado, contudo, as comparações (mas contraditoriamente as mantendo), dedico esta postagem àquela que considero a mais completa: Sarah Vaughan, que nos deixou num dia 3 de abril, há 30 anos.

Sarah Vaughan, Birdland, NYC by Herman Leonard on artnet

Difícil dizer qual o melhor disco de Sarah Vaughan. Oficialmente, ela gravou 50 álbuns em estúdio e 8 álbuns ao vivo. Existe pelo menos o dobro disso quando se fala em gravações piratas. Há, contudo, 3 discos que ouço regularmente: Sarah Vaughan, de 1954, acompanhada pelo genial Clifford Brown, no qual brilham faixas como April in Paris, Lover Man e Body and Soul, sem falar na clássica They Can’t Take That Away From Me. AQUI você ouve o disco inteiro. Sarah é a mais versátil: vai da balada marcada por intensos vibratos ao diálogo seco e direto com o trompete de Brown. Atenção especial a April in Paris e Lover Man. Sarah faz de tudo com a voz. Ouça e concordará comigo, tenho certeza.

Sarah Vaughan - Clifford Brown - Sarah Vaughan With Clifford Brown ...

Junte os dois mais completos em suas áreas e você terá um disco irrepreensível. Duke Ellington é o maior compositor do jazz, e Sarah Vaughan, em dois discos, resolveu mostrar ao mundo por que ele deve ser ouvido. Sempre. Coloque no disco Frank Foster e Zoot Sims (sax), J. J. Johnson (trombone) Grady Tate (bateria), Joe Pass (guitarra) e Frank Wess (flauta) e você vai achar que não precisa mais ouvir nada nesta vida. Um grande disco, em dois volumes. Escolhi o primeiro porque nele há Sophisticated Lady, Lush Life e In a Sentimental Mood. Clique nos temas e aprecie. A propósito: Duke não está ao piano. Jimmy Rowles e Mike Wofford revesam. É um disco lento, para ser ouvido com atenção. Ao menos é assim, comigo.

Sarah Vaughan - Duke Ellington Song Book One (1982, Vinyl) | Discogs

O terceiro e último é um primor de gravação, e mostra Sarah Vaughan à vontade com a música brasileira. Há mais 3 discos em que ela expressa seu encanto pela Bossa Nova e pela MPB: O Som Brasileiro de Sarah Vaughan, de 1978, I Love Brazil, de 1979, e Brazilian Romance, de 1987, com Milton Nascimento. Por que escolhi Copacabana? Porque há a gravação de Double Rainbow, a qual conhecemos como Chovendo na Roseira. Só ela já vale a escolha. E ainda há Dindi, e Gentle Rain, em gravações que considero definitivas. Em tempo: Helio Delmiro e Wilson das Neves abrilhantam o escrete que a acompanha, formado ainda pelo baterista Grady Tate e pelo baixista Andy Simpkins. Discaço!

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Eric aos 75

Era o ano de 1979 e eu iniciara minha coleção de Gigantes do Jazz, que a Abril Cultural tinha acabado de lançar. Os discos e os encartes eram comprados em bancas de jornal e eu ainda não conhecia bem o jazz, embora reconhecesse minha inclinação para o gênero. Sem contar a inestimável influência de meu querido primo, e também baterista, Marco Antônio Grijó. Sem ele, talvez, o jazz tivesse passado despercebido por mim. Mas aonde quero chegar? A série Gigantes do Jazz apresentou-me Ella Fitzgerald, que por sua vez me apresentou Sunshine of Your Love. Sim, eu cometia a heresia de, aos 17 anos, desconhecer Eric Clapton. Ouvia falar, mas, sabe Deus por quê, não acompanhava sua produção.

A gravação de Ella conta com a participação da orquestra do pianista e leader Tommy Flanagan. É uma gravação de 1969, com 4’25”. Notável, extraordinária. Ella Fitzgerald tem brilho eterno. E quanto a Eric Clapton? A referida canção foi apresentada ao mundo pelo supergrupo Cream, do qual Eric era o guitarrista, em 1968. Os outros componentes, ambos definitivos em seus instrumentos, eram Ginger Baker (bateria) e Jack Bruce (contrabaixo). Quem escreveu, entretanto, a canção? Foi escrita a 6 mãos: Clapton, Jack Bruce e o poeta Pete Brown, que também era roqueiro, mas era bom mesmo com as palavras. Pois não é que o jazz me levou ao hardrock do Cream e, felizmente, apresentou-me Eric Clapton? Então, hoje, dia 30 de março, aniversário deste que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, vai meu presente e minha homenagem:

Assim como sou grato a meu primo, pelo jazz, sou grato a Ella, por Eric. Acho que é assim mesmo que a vida é. E, de preferência, ouvindo Eric Clapton e o Brilho do Sol do seu Amor.

p. .s : Se alguém se interessar pela versão citada de Ella Fitzgerald, é só clicar AQUI.

Na contramão: jazz e Netflix

Em tempos de Covid-19 e isolamento, trabalho remotamente – seja como professor, seja como gestor cultural. Vamos em frente. Há, porém, a diversão: brincar com as filhas, cozinhar, ouvir música, ler e assistir a filmes no Netflix. Já mencionei neste blogue, quando falei sobre um documentário sobre o grande Quincy Jones. Está AQUI, disponível, para quem curte música, de forma geral, e jazz, em particular. Quincy é um dos maiores músicos do mundo.

Mas por que citei Netflix e, de quebra, dei a entender que vou, mais uma vez, falar de jazz? Porque nesta semana em que estamos assisti a dois documentários sobre dois dos maiores nomes do jazz: Miles Davis e John Coltrane. Mesmo não sendo um ouvinte do gênero, tenho certeza de que você já ouviu esses dois nomes. Para algumas pessoas, nunca ter ouvido falar neles é como ignorar que existiram, por exemplo, Shakespeare, Mozart, Dante Alighieri. Pode até ser exagero, mas sem esses monumentos – porque é isso que realmente são -, o jazz teria menos vida. Sua biografia não seria tão grandiosa.

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Sobre Miles: o documentário Miles Davis: Birth of the Cool, de Stanley Nelson, é uma beleza estrutural. Se mostra o óbvio (Miles mudou o jazz pelo menos 3 vezes), apresenta-nos um Miles frágil em alguns momentos, principalmente quando ele mesmo não acreditava em sua própria capacidade de reerguer-se, devastado pela heroína e sem fôlego para tocar seu instrumento. Mostra a relação de Miles com as mulheres – não era tão durão com elas quanto se dizia -, com o boxe, com os carrões, com a fama e, claro, com os músicos que sob sua égide formaram pelo menos dois dos melhores grandes quintetos de todo o jazz. Coltrane estava no primeiro. Miles fica como a grande ponta-de-lança do jazz, o inovador. Sem ele, o jazz ficava mais morno.

Uma curiosidade: há um disco de Miles Davis chamado Birth of the Cool, uma obra-prima que inaugura justamente a tendência cool. Miles acompanhado de oito músicos e gravado entre 1949 e 1950. Um discaço com gente do calibre de Max Roach, Gerry Mulligan, Lee Konitz, John Lewis e J. J. Johnson. Esse disco é solenemente ignorado no filme. Não pergunte por quê.

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Sobre Coltrane: o documentário Chasing Trane: The John Coltrane Documentary, de John Scheinfeld, é outra maravilha que precisa ser checada por quem gosta de jazz. John Coltrane é, para muitos, o maior sax tenor do gênero. Deve ser mesmo. O filme mostra como o artista vai-se formando, passando, inclusive, pelo Miles Davis Quintet, depois formando seu próprio time (com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones), até entregar-se às drogas e delas desvencilhar-se por amor à música.

Encontrou sua voz e aprimorou-a, conectando-a ao amor ao próximo e ao louvor a Deus – não, nada a ver com gospel song ou fanatismos religiosos. É algo que extrapola isso. Ouça A Love Supreme e você entenderá. É um retrato emocionado de quem soube emocionar através da música, de quem soube dialogar usando todas as vozes possíveis para tornar este mundo um lugar melhor. Não é fácil traduzir em palavras. Acho melhor você ouvir. O documentário mostra a trajetória desse gênio em apenas 22 anos de jazz. Morreu aos 40, imortalizado.

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Café da manhã, Campeão!

Li, não sei quantas vezes – creio que umas oito ou nove! – o livro Breakfast of Champions, de Kurt Vonnegut, Jr. No Brasil, saiu com o título de Almoço dos Campeões, numa edição que possuo, da finada editora Artenova, de 1973. Comprei na antiga (também finada) Livraria Capixaba, que ficava na Nestor Gomes, em 1981. É o melhor livro de Vonnegut – e quem fala aqui é um leitor voraz desse autor. De sua autoria, só não li a novela Sun Moon Star, os livros de contos Look at the Birdie, Palm Sunday e Canary in a Cathouse, a não-ficção Is This Isnt’t Nice, What Is?: Advice to the Young e as peças teatrais Between Time and Timbuktu, Fortitude e Happy Birthday, Wanda June! O resto (os outros 32 livros) está aqui, na lembrança da ótima leitura.

Kurt Vonnegut é uma de minhas obsessões literárias – assim como Julio Cortázar, Nelson Rodrigues, Murilo Rubião, Alejo Carpentier, Cabrera Infante, J. D. Salinger e Norman Mailer Na poesia, Alexandre O’Neill e João Cabral. Alguém já me criticou, afirmando que só leio autores do século XX. Errado. Se o verbo fosse preferir, eu concordaria, porque Balzac, Twain, Verga, Flaubert e Machado moram no meu coração. O papo, contudo, é sobre Vonnegut, cujo livro citado – meu preferido – foi recomprado numa livraria de aeroporto, com uma nova capa. Aquela, da Artenova, que ainda possuo – e que traz um outro título -, é assim:

A outra, comprada enquanto esperava o voo, e com a releitura iniciada, é esta:

Ok, ok: quem leu o livro compreendeu que usei um recurso que o próprio Vonnegut usou. Palavras e imagens criando um universo carregado de ironia, metalinguagem, narrativa aparentemente simples e dois enredos, que acabam por se comunicar por conta da ficção científica. Mais do que isso não digo. Retomando a ideia da narrativa aparentemente simples. Alguém disse – creio que tenha sido o jornalista Telmo Martino – que tudo o que é fácil de ler é difícil de escrever (e vice-versa). Vonnegut talvez seja a prova disso. Seus parágrafos parecem ter sido escritos sem a pretensão intelectual tão comum a escritores. É tão simples que chega a parecer que um escritor comum pode escrever aquilo. Esqueça. Se você é escritor, esteja certo: você não pode!

Café da Manhã dos Campeões é uma delícia de ser lido – e uma delícia ainda maior de ser relido. As personagens têm a caracterização necessária à curiosidade do leitor, e suas ações, todas elas aparentemente corriqueiras, trazem particularidades ora divertidas, ora apavorantes, como por exemplo o milionário bipolar dotado de ecolalia, ou o escritor de ficção científica cujos livros nunca foram lidos por ninguém – exceto pelo milionário bipolar dotado de ecolalia. O encontro entre os dois é de uma tristeza capaz de gerar riso. Relendo, lembrei-me de algumas passagens que me levaram a adiantar as páginas para encontrá-las. Que erro! Reler um livro de Kurt Vonnegut é surpreender-se com aquilo que pensou ter lido. Vou confirmar isso mais uma vez daqui a 10 anos.

O autor, numa foto de 1972, enquanto escrevia Breakfast of Champions.

O melhor do jazz #7: os grandes temas

Um grande tema é imortalizado pela história. Um grande tema de jazz é imortalizado pelas performances que os grandes nomes do gênero impuseram a uma determinada canção ou música. Algumas ficaram para sempre, no panteão da Música com agá maiúsculo, juntando no mesmo balaio tudo o que se produziu. Cada um, evidentemente, tem uma música favorita, independentemente do gênero. No jazz, à parte aquilo que os críticos chamam de canônico, resolvi fazer minha lista. A subjetividade falou alto. Sempre fala.

Take Five: minha gravação preferida reúne o pai do tema, Paul Desmond, e o líder do quarteto que a imortalizou, Dave Brubeck.  Para quem não sabe, o título refere-se ao compasso 5/4, pouco usado no jazz. A gravação que escolho traz o enormíssimo sax barítono Gerry Mulligan, o contrabaixista Jack Six e o extraordinário baterista Alan Dawson (veja do que ele é capaz a partir de 9:39 de música). Claro que há quem prefira Joe Morello, um dos melhores de todos os tempos, mas Dawson tem seu lugar. Eis a gravação:

Round Midnight é provavelmente o tema mais conhecido do jazz. Já foi gravada por grandes músicos e grandes cantoras (Cassandra Wilson, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Amy Winehouse, Betty Carter, Sarah Vaughan e mais um arsenal de vozes potentes). Pianistas como Keith Jarret, Bud Powell, Michel Legrand, Billy Taylor e o incomparável Bill Evans já se aventuraram nos acordes dessa maravilha sonora. A gravação escolhida é realizada com o pai do tema, Thelonious Monk, em companhia de Dizzy Gillespie (trompete), Kai Winding(trombone), Sonny Stitt(sax tenor), Al McKibbon(baixo) e Art Blakey(bateria). Aproveite!

Caravan ficou famosa entre a garotada por conta do ótimo filme Wiplash, de Damien Chazelle. Art Blakey e seus mensageiros do jazz, entretanto, já haviam transformado o tema de Duke Ellington em algo supremo. Devo dizer, apenas como registro, que este disco abaixo foi o meu primeiro cedê de jazz, comprado em 1990. O disco todo é bom, mas a gravação de Caravan conta com o trompete espetacular de Freddie Hubbard, com Wayne Shorter no sax tenor, Cedar Walton no piano e um dos meus baixistas preferidos, Reggie Workman. Outro registro: a gravação é do ano em que nasci.

Ishan Jones era um sujeito um tanto inexpressivo no jazz – até compor a melodia de There is no Greater Love. Quando Marty Simes adicionou a letra, o tema se tornou um sucesso estrondoso, um clássico. A gravação que escolhi traz dois gigantes do sax tenor: Gene Ammons e Sonny Stitt. O sopro musculoso de Ammons encontra a sutileza dos solos de Stitt. É uma maravilha, temperada pelo ótimo John Houston, no piano; Buster Williams no baixo, e contando com a bateria sempre competente de George Brown. Gravação de 1961, mas a canção é bem mais velha: 1936. Só para constar: há uma citação brasileira no meio da música.

Bem, Miles Davis dizia que aprendeu a tocar baladas escutando Coleman Hawkins. Body & Soul, executada por Coleman Hawkins, era uma de suas músicas favoritas. Minha também, principalmente esta gravação de 1939, como Gene Rodgers, no piano, e o professor William Smith, no baixo, famosos justamente por estarem nessa gravação histórica. Para mim, um dos momentos altos do jazz em todos os tempos.

Ave, Haroldinho!

No início deste último fevereiro, ainda curtindo o que me restava de férias, estive na cidade portuguesa do Porto, local agradável, com muita história para contar e cultura para esbanjar. Desde muito alimentava o desejo de ir à famosa livraria Lello & Irmão, um espaço localizado numa ladeira, com porta central estreita e um valor histórico absolutamente imensurável. Tenho um dicionário enciclopédico, em 3 volumes, dessa editora, adquirido por meu pai em 1967. Guardo com tanto carinho quanto zelo. Mas não é exatamente sobre o vigor intelectual de uma livraria histórica que quero falar.

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Não sei se vocês sabem – eu não sabia! -, mas J. K. Rowling, a milionária escritora inglesa mãe de Harry Potter, viveu um tempo em Portugal – mais especificamente na cidade do Porto, onde se localiza a Lello. Segundo se diz, era frequentadora do espaço e levou parte da estrutura da livraria para o universo mágico de Haroldinho. Sob sugestão de minha filha mais velha, li um dos livros da saga. Isso faz quase 20 anos. Não é grande literatura, mas diverte – e muito – o público adolescente. Divertiu-me também. Eis a questão. O que Haroldinho e sua turma fizeram pela Lello & Irmão? Já vou dizer.

Conversando com um sociólogo de 60 anos, nascido e criado no Porto, a Lello & Irmão estava mal das pernas. A maioria das livrarias do mundo está nessa condição. Contou-me que se comentava na cidade sobre o fechamento do histórico estabelecimento. Os intelectuais, professores e artistas preocupavam-se com o que consideravam vilipêndio cultural. Pois é. As pessoas não compravam mais livros, a livraria mantinha clientes, mas esses já não compravam o suficiente para mantê-la de pé. Veio então a notícia de que J. K. Rowling usara a Lello & Irmão como inspiração para a imaginária Flourish and Blotts, onde os pequenos feiticeiros compram suas específicas literaturas.

A coisa explodiu. A Lello passou a ser visitada por gente de todas as idades, principalmente por aqueles que consideram o Youtube e as redes sociais muito mais funcionais do que os livros. A garotada era compradora? Não, mas queria pisar as famosas escadas da livraria, mencionadas nos romances de Haroldinho. O que fizeram os gestores da Lello & Irmão? Estabeleceram um bilhete de acesso no valor de 5 euros. Caso alguém compre um livro, o valor é descontado nessa compra. Boa sacada!

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No fim das contas, o feiticeiro Haroldinho fez um bem aos livros, fez bem à Lello & Irmão, e de quebra se tornou personagem desta postagem. Quem poderia dizer que essa fase da vida, tão mal vista pelos intelectuais mas cobiçada pelo mercado de entretenimento, seria capaz de catapultar a importância de uma livraria de 114 anos? Pois é. Haroldinho pode ajudar, não importa onde esteja. Se você ainda não conhece a Lello & Irmão, comece por AQUI.

O Melhor do Jazz#6: Big Bands

The Essential Frank Sinatra with the Tommy Dorsey Orchestra (2CD)A orquestra de Tommy Dorsey pode não ser a melhor em muitos itens, mas possuía Frank Sinatra – e isso já a credenciaria como eterna. Durante pouco menos de 3 anos, Sinatra e Dorsey criaram uma parceria que trouxe à superfície clássicos como Polka Dots and Moonbeams, I’ll Never Smile Again e Stardust. E muito mais, claro. Dorsey era um trombonista de mão cheia que, conhecendo profundamente o ofício, mantinha curta a rédea dos músicos, concedendo a alguns poucos o privilégio do improviso. Frank Sinatra não teve vida fácil, mas esse The Essential é algo que não pode faltar numa discoteca decente.

Resultado de imagem para count basie groovemakerJunte Count Basie e Quincy Jones e você obterá a solução de qualquer problema. Hipérboles à parte, esse discaço da orquestra do Conde conta com a participação luxuosa dos saxofones de Frank Foster e Frank Wess, da guitarra de Freddie Green e da bateria de Sonny Paine. E mais 13 músicos, além de Basie, ao piano. É som de primeira, suingado, com uma atenção especial para os temas finais – de Quincy -: Lullaby for Jolie (Jolie Ann) e Kansas City Wrinkles. A faixa título você ouve AQUI.

Não bastasse ser o maior compositor do jazz, Duke Ellington era também um extraordinário arranjador e conduzia sua orquestra de Resultado de imagem para duke ellington recollections of big band eramaneira empresarial. Contratava músicos, negociava contratos, cobrava multas, lidava com os grandes managers do ramo. E tinha uma das melhores big bands de todos os tempos. Duke tem, pelo menos, oito discos antológicos no gênero, mas este é um primor de repertório: Rhapsody In Blue, One O’Clock Jump, Sentimental Journey, Tuxedo Junction, I’m Gettin’ Sentimental Over You, Cherokee e Minnie The Moocher, que abre o disco. Há outras 17 para você se deliciar – e todas trazem, entre outros, os saxofones de Johnny Hodges e Paul Gonsalves.

Para muita gente esse disco de Benny Goodman é o melhor no gênero. O lendário show no Carnegie Hall, em 1938, em que o grande clarinetista se fez acompanhar por um escrete: Harry James e Buck Clayton nos trompetes; Johnny Hodges, sax alto; Lionel Hampton, vibrafone; Teddy Wilson e Count Basie, pianos; Freddie Green na guitarra. E Gene Krupa, o grande, na bateria. O cedê duplo traz 25 músicas nas quais o swing do bandleader mostrou aos americanos que o jazz era para ser dançado – mas também para ser ouvido. Um senhor disco, que pode ser ouvido, completinho, AQUI.

Meu pai dizia que o maior bandleader que já existiu se chamava Glenn Miller – que não está na minha lista. Dizia também que Lionel Hampton era o único capaz de emocionar como o velho Glenn. Lionel está na minha lista, e com um disco ao vivo de encher os ouvidos: Newport Uproar! É um grande disco de apenas 9 músicas, nas quais brilha, além do vibrafonista (que no disco também toca piano), um dos meus bateristas preferidos no jazz: Alan Dawson. Bem, Illinois Jacquet, no sax, e George Duvivier, no baixo, abrilhantam esse disco de pérolas pouco conhecidas. Destaque para Flying Home, que você ouve AQUI.

Da série O MELHOR DO JAZZ:

OS QUARTETOS

OS DUETOS

VOCAIS

ÁLBUNS DE ESTÚDIO

ÁLBUNS AO VIVO.

 

Mulheres #8: Audrey Hepburn

Quando Audrey Kathleen Hepburn-Ruston morreu, há exatamente 27 anos, num dia 20 de janeiro, fiquei sabendo que ela era belga. Sempre imaginei que fosse norte-americana, daquelas mocinhas do interior, que acabam numa cidade grande e em vez de serem engolidas por ela, dão um nó no cosmopolitismo decadente. Começou a vida como bailarina e assim se manteve até chegar ao teatro. Para o cinema, foi um pulo – e que pulo! Logo na estreia, aos 24 anos, levou a estatueta do Oscar para casa, por ter atuado em A Princesa e o Plebeu, contracenando com o astro Gregory Peck.

Dia desses li que Audrey Hepburn era geniosa, mandona e tratava mal quem a contradissesse. É possível, mas o que deixa transparecer é justamente o contrário. A imagem quebradiça, mesmo com 1 e 70 de altura, é acompanhada pela voz meiga e o olhar de quem se assusta facilmente, de quem acorda sobressaltada. Pode ser que tudo seja o contrário do que se afirme, afinal o que seria de Hollywood sem isso? Assisti a Sabrina outro dia. Engoliu Bogart, cantando La Vie en Rose, durante o passeio de carro. O filme é ótimo, clássico de Billy Wilder, o gênio do cinema que, dizem, babava por ela.

 

Quem se interessa por Audrey Hepburn deve estar questionando: e Bonequinha de Luxo, cujo título original é Breakfast at Tiffany’s? Bem, primeiramente a personagem não é bissexual, como no livro homônimo de Truman Capote, base da película. Provavelmente os católicos e judeus frequentadores de cinema, e formadores de opinião, não compreendessem bem a questão. Depois: o papel da personagem central, a prostituta Holly Golightly, era destinado a Marilyn Monroe, mas acabou na pele e nas mãos de uma morena com menos sex appeal, mas que sugeria – mais uma vez – exatamente o contrário.

Dizem que nunca existiu uma mulher como Gilda, eternizada pela belíssima Rita Hayworth (em breve, neste blogue). É possível, mas nessa lista de mulheres incomparáveis faz-se necessário incluir o nome de Audrey Hepburn. Sem ser voluptuosa e calipígia, tinha a anatomia das mulheres que acabam de desabrochar. Sem falar no olhar que sugeria proteção e arrebatamento, timidez e desejo. Dependendo da situação, tudo isso. Duvida? Assista a My Fair Lady e depois conversamos. É uma das melhores comédias musicais já produzidas. Se você não gosta do gênero, assista pelo menos por conta da atriz principal. Ela sempre foi um ótimo motivo de se ir ao cinema.

Audrey morreu durante o sono. Estava fraca por conta de um câncer raro que lhe devorou o abdômen. Morreu antes de completar 64 anos, acompanhada pelos filhos e pelos amigos, que sempre lhe foram fiéis. Nunca deixou de representar o que se tornou em vida e nas telas: um ícone de beleza e de talento. Para alguns críticos, foi a mais talentosa de todas as atrizes, pela versatilidade, pela presença em cena, e pelo amor que a câmera sentia por ela. Fica para sempre – e justamente por ficar, está neste blogue, retomando a série Mulheres, que já teve Marilyn Monroe, Ornella Muti, Nastassja Kinski, Raquel Welch, Ava Gardner, Romy Schneider, Monica Bellucci.

A próxima será a brasileira Sonia Braga.

 

Bonfá, in memoriam

Devo dizer, primeiramente, que esta postagem deveria ter ido ao ar ontem, 12 de janeiro. Ao que interessa, agora: qual o compositor brasileiro gravado por Elvis Presley? Se você me permitiu a metonímia e arriscou Tom Jobim ou Sergio Mendes, dois paparicados pelo mercado norte-americano, esqueça. Você só acerta se pronunciar Luiz Bonfá. Sim, ele mesmo, que em companhia de um dentista chamado Randy Starr, compôs Almost in Love, primeira faixa do disco homônimo do Rei do Rock. Se quiser, pode ouvi-la AQUI. É uma boa surpresa ouvir Elvis cantando Bossa Nova. Mas por que uma postagem sobre Luiz Bonfá? Primeiro porque ele é um dos maiores músicos que o Brasil produziu. Segundo: há 19 anos, num 12 de janeiro, a música empobreceu. O termo é piegas? Acho que sim, mas não há outro. A música do século passado – e não somente aquela feita em nosso país – perdeu um de seus grandes nomes.

Não sabe quem é Luiz Bonfá? Vamos lá. Frank Sinatra e Tony Bennett, dois dos maiores cantores populares do século XX, gravaram canções suas. A superstar Barbra Streisand dizia que Gentle Rain era uma de suas canções favoritas. Diana Krall concorda. Os saxofonistas Wayne Shorter, Paul Desmond, Stan Getz e Dexter Gordon, quatro gigantes do citado gênero, consideram Bonfá um gênio. Sem falar os craques do instrumento que tocava – o violão: John McLaughlin, Al Di Meola, Joe Pass e George Benson. Listei esses gringos para satisfazer aqueles que só consideram bom músico quem faz sucesso nos EUA.

O que chama a atenção em Luiz Bonfá é que ele foi um dos compositores que tornaram a Bossa Nova respeitada e depois foi além dela. Dois dos meus discos preferidos – dos oito que possuo – são Introspection e Jacarandá. O título do primeiro já diz tudo: o artista e o violão, uma obra-prima inclassificável, que pode ser conferida AQUI. O segundo, considerado clássico, traz os arranjos do pupilo de Bonfá, Eumir Deodato. É uma reunião de grandes músicos: além do próprio, Eumir Deodato (piano, teclados), Stanley Clarke (baixo), Idris Muhammad (bateria), Airto Moreira (percussão),  Ray Barretto (conga), Randy Brecker (trompete e flugelhorn) e muito mais gente (só nas cordas, são 22 músicos).

Das 10 composições do disco, 8 são de Luiz Bofá, incluindo a citada Gentle Rain. E mais: Apache Talk, Don Quixote e Jacarandá são, certamente, músicas que você, leitor, ouvirá no Céu, se para lá vc se dirigir. Se já ouve Bonfá em vida, o passaporte para lá é praticamente garantido. Se quiser ouvir TODO O DISCO, é só clicar. É nele, nessa obra-prima inquestionável, que se percebem com clareza as inventividades harmônicas desse que é um grandes ao violão no mundo. Ah, sim, antes que eu me esqueça: é natural que muitos brasileiros ignorem que foi Luiz Bonfá. Os americanos, ao contrário dos conterrâneos do violonista, mantiveram-no em terras ianques por anos. Para eles, Bonfá é um nativo.

 

Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

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