Mulheres #7: Monica Bellucci

Monica Bellucci é a mais bela atriz do cinema italiano – e ponto. Não é pouco, já que compete com Claudia Cardinale, Gina Lollobrigida, Ornella Muti, Stephania Sandrelli, Monica Vitti, Pier Angeli e Silvana Mangano. A briga é duríssima quando Sophia Loren entra no certame, mas ainda acho que Monica Belluci leva vantagem. É a morenice absoluta, de olhos acesos e perfeitíssima combinação entre nariz, boa e zigomas. Se existe algo em seu rosto que pode beirar a imperfeição, mostre a este cego que escreve.

Vi Monica Bellucci pela primeira vez no ótimo (e triste) Malena, de Giuseppe Tornatore, filme de 2001. Nele, a beleza é algo condenável, é uma maldição que transforma a plástica irresistível em alvo da truculência e do horror. Malena, a personagem vivida por Monica, é a viúva que se torna objeto de desejo de um adolescente. Sua beleza é sobrenatural, tentadora, definitiva. Os homens a cobiçam – e suas esposas dão o troco, mas não neles, e sim na bela cuja beleza os provoca. É um filmaço!

Monica Bellucci nasceu há 54 anos. Continua estonteantemente bonita – o que, teoricamente, para quem foi modelo durante muitos anos, não é tão difícil. Na prática, é. A intimidade com a câmera fotográfica facilitou o contato com o cinema que, em primeira instância, é fotografia. Sem dificuldades para contracenar, teve a primeira oportunidade como uma gostosíssima vampira ronronando para o noivo Drácula, de Stoker-Coppola. Depois disso, Malena e, mais tarde, o terrível e assustador Irreversível, de Gaspar Noé, em que sua beleza é maculada pela violência.

Monica foi Cleópatra, foi a beijoqueira em Matrix Reloaded, foi a Rainha do Espelho nas histórias dos irmãos Grimm. Foi Maria Madalena, a mulher que mais se aproximou de Jesus. O cinema retirou-a do nicho das modelos fotográficas e espalhou sua privilegiadíssima estampa para além das páginas impressas e dos convescotes de moda ao redor do mundo. Quem gosta de cinema e tem bom gosto agradece.

A imagem do Rock

Primeiramente, é necessário registrar que houve 1 vencedor do DESAFIO DO IPSIS.

Vitor Sarmento acertou as 3 perguntas e, portanto, leva o prêmio. O que falta é ele escolher qual, passar o endereço e esperar para gozar o fruto de seu conhecimento. Vamos em frente!

Agora o Rock, com maiúsculas. Você conhece Jim Marshall, Henry Diltz, Brad Elterman, Bob Gruen e Charles Peterson? Não? Pois esses senhores têm um ponto comum: foram capazes, num dado momento, de capturar o que o Rock – novamente maiúsculo – tem de mais apropriado: a atitude. Claro que eu poderia, caso quisesse, substituir os cinco senhores citados por Pennie SmithJerry Schatzberg, Jenny Lens, Danny Clinch e Robert Knight. Quantos mais? Pois esses senhores são artistas que, acompanhando este ou aquele cantor ou banda, puderam, em instantâneos, expressar em imagem o que se representa em música – e aproveitaram para eternizar um momento que nunca se repetirá. É só checar as imagens abaixo (Stones, por Ethan Russell; The Doors, por Yale Joel, e Eddie Van Halen, por Lynn Goldsmith).

Fotografar o rock não é tão difícil, dizem alguns. Os artistas, grosso modo, criam o estardalhaço quando as câmeras se aproximam. Tentam voar, mostram-se desagradáveis, irrompem em caretas, inventam piruetas e perfumarias visuais que são, evidentemente, um banquete para quem quer registrar a imagem. Eis aí um engano: claro que a pose é uma exigência, mas as grandes imagens do rock vêm do fundo – tanto de quem é fotografado quanto de quem se presta ao registro. As duas imagens abaixo, Steven Tyler, em foto de Neil Preston, e Chuck Berry, trabalho de Lynn Goldsmith, comprovam isso.

Elton John, abaixo, faz a acrobacia para os olhos de Terry O’Neill, um dos grandes fotógrafos de moda por 4 décadas. Foi um dos primeiros a registrar o contato entre os Beatles e os Stones quando ainda iniciavam a rivalidade que nunca, de fato, concretizou-se. Especializou-se em sugerir que seus fotografados criassem situações tão insólitas quanto verossímeis. O’Neill era o fotógrafo preferido de Elton, a quem se mostrou em várias situações – desde o estúdio até o recesso da própria intimidade.

Jimi Hendrix e Jim Morrison, heróis trágicos, personas definitivas no rock, fotografados por Michael Ochs. Hendrix faz o V da paz no Civic Auditorium em Bakersfield, California, em outubro do ano emblemático de 1968. Toda a audiência, muda, voltada para ele. No mesmo ano, em Frankfurt, Alemanha, Jim Morrison, desfeito no palco, também sob olhares de quem nada entendia.

O psicodélico Alice Cooper pelos olhos do sempre excelente Bob Gruen: a espada fincada na boneca como uma oferenda ao público que estende a mão. Ano de 1973, no Spectrum, de Filadélfia. O dia era 8 de março; o ano, 1973. Pete Townshend chuta o ar no Isle of Wight Festival, em agosto de 1969. Mais abaixo, o eterno Jimmy Page, o baixista do Pearl Jam Jeff Ament voando alto no Lollapalooza, em Boston, há 26 anos. São instantâneos absolutamente impagáveis, únicos, como só a fotografia pode proporcionar.

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Acima, dois vocalistas aparentemente distintos. Robert Plant, imortal à frente do Led Zeppelin, em foto de Neil Preston, em San Francisco, 1973, e o sempre alucinado Iggy Pop, voz dos Stooges, no Kings Cross Cinema londrino, em 1972, numa foto antológica de Mick Rock. Privilegiados pela proximidade do fato e do ato, esses fotógrafos nos legaram imagens que ficarão para sempre. Talvez vivam mais que o rock em si.

Desafio do IPSIS

O IPSIS LITTERIS (dessa vez em maiúsculas) comemora sua 100ª postagem. Até o momento, após 16 meses de vida, foram mais de 16.600 visualizações e 485 comentários. É muito, se considerar que este blogue não versa sobre maquiagem, fofocas da tevê ou qualquer temática adolescente. Num mundo onde as imagens predominam, este blogue vai na contramão, privilegiando textos. Quem ainda se importa com leitura? Pois é.

Comemorando a tal 100ª postagem, aí vai o DESAFIO DO IPSIS. 3 perguntas. Quem acertar as 3 respostas – é necessário que sejam as 3! – ganhará um dos prêmios abaixo, a escolher: o disco Caravanas, de Chico Buarque, 3 livros de minha autoria, o blu-ray de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Escolha UM deles, mas primeiro acerte as perguntas!

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DESAFIO 1

“Hábil entre os hábeis, Elia Kazan sabe que até a abjeção se pode fazer sedutora, que a mentira e o ódio podem ganhar adesão e alimentar entusiasmo, que todos os arranjos são possíveis, especialmente os piores. A sua inteligência de homem de cinema é tão profunda que da sua confusão moral nada escapa ao encantamento da sua encenação, como se tudo aquilo que ele não pudesse ocultar servisse de matéria a um lirismo salvador.”

Quem disse isso?

DESAFIO 2

O senhor abaixo é um dos bons poetas do continente americano. Artista iconoclasta, fez os beatniks norte-americanos e poetas marginais brasileiros parecerem articuladores adolescentes, com espinhas no rosto. Quem é ele?

DESAFIO 3

A música brasileira deve muito a esses senhores e senhoras abaixo. Dos OITO componentes da foto, identifique pelo menos CINCO.

 

O que se quer da Arte?

Lembro-me bem de, na metade – ou um pouquinho mais – dos anos 80, século passado, ter tido acesso às histórias de Paulette, a gostosíssima personagem criada e desenhada por dois Georges – Wolinski e Pichard. Paulette é anatomicamente imperfeita, algo que faz dela uma personagem quase corriqueira, uma prima distante, uma vizinha ocasional. Não poderia, nem de longe, ser uma mulher comum, já que despertou, quando criada, no início dos anos 1970, em terras francesas, repúdio por parte dos bem-comportados e dos moralistas duvidosos. Isso sem falar em sua aparência um tanto gótica e, justamente por isso, tão atraente.

Os tempos eram outros – em tese. Sim, porque foi justamente a involução, o retrocesso, a intolerância radical e a fúria homicida que apagaram das páginas a deliciosa Paulette. Fizeram pior, muito pior: mataram gente inocente cujo papel, na vida e no quotidiano, era fazer arte – e da melhor qualidade. Georges Pichard já não estava entre nós: morrera em 2003, levando seu traço imortalizado, sua capacidade inequívoca de, sinestesicamente, desenhar o sabor feminino. George Wolinski, por seu turno, foi, junto com outros componentes da Charlie Hebdo, vítima de uma ação que me repugna e revolta. Quem não se lembra, há 4 anos?

Paulette serve como metonímia: quantos personagens, a partir de agora, tornam-se malditos porque expressam liberdade, erotismo, tesão? O futuro da arte erótica no país mostra-se numa situação pouco confortável. Aponta-se para perseguições, censuras, truculências, hidrofobias. Em nome de uma moralidade tão questionável quanto frágil, preconceituam-se as atividades artísticas como inimigas da família, vilãs dos bons costumes e adversárias do bem-viver. À arte cabe, também, a transgressão. Não é seu único papel, mas questionar o status quo e as mesquinhas e quebradiças tradições é uma de suas funções. Atiçar o pensamento é seu mote.

Lembrei-me do episódio do Queermuseu, há 1 ano. Houve quem se posicionasse favorável à exposição, e tal apoio foi fundamentado em opiniões que, a meu ver, devem ser levadas em conta. A arte existe porque existe subjetividade. É justamente através da visão pessoal que se identifica o processo artístico, bem como seu valor. Houve, entretanto, uma forma distinta de ver a exposição – e essa forma precisa ser respeitada. O que não se pode respeitar (e, sim, repudiar) é a maneira como se deu o processo dialético: com violência, autoritarismo, força. O mesmo que levou, considerando as proporções, ao extermínio de Paulette. No fim das contas, é a arte levando a pior.

Fica a pergunta: e agora? Para muita gente, o poder público federal legitimará a violência contra artes e artistas que se mostrarem avessos àquilo que eles chamam de bons costumes. Não acredito muito nessa possibilidade. De qualquer forma, vão calar artistas, professores, intelectuais, pensadores, estudiosos? Gostaria muito de obter a resposta para minha pergunta: o que se quer da arte? Sabe responder, Paulette?

Carlos, o sobrenatural

No ano em que nasci, 1962, o mexicano Carlos Fuentes escreveu duas obras-primas. Uma delas, o romance A Morte de Artemio Cruz, nasceu no ano anterior, mas foi publicado em setembro do ano seguinte. A outra, a novela de título Aura, foi escrita e publicada no mês de meu nascimento, abril. O México, que produziu Juan Rulfo, Juan José Arreola e Octavio Paz – só para citar os titãs -, trouxe ao mundo também Carlos Fuentes, o mais prolífico deles. Para muitos, o mais criativo. E Aura, texto em questão, está entre seus melhores trabalhos.

Por que falo de Fuentes? Porque, se vivo, esse extraordinário escritor estaria, em breve – 12 de novembro -, completando 90 anos. E falo de Aura porque, como disse anteriormente, tem a minha idade. Só isso já seria mote suficiente para dar as caras neste blogue. A edição que possuo, e que adquiri há uns 30 anos, tem essa capa ao lado. A história, per si, é um grande diálogo com o sobrenatural, com o mundo dos espíritos, além de um enredo em que o amor assume o comando. Aquilo que poderia ser banal em minhas mãos (e de muitos escritores tarimbados) torna-se genial nas mãos de Carlos Fuentes.

Narrado em 2ª pessoa do singular, Aura torna-se, justamente por isso, uma conversa – entre narrador e personagem. É uma narrativa barroca, de suspense, carregada de cinematografia – o que, aliás, faz sentido, já que foi filmado, alguns anos depois, com o título A Feiticeira no Amor, de Damiano Damiani. Enfim, volto ao livro: se você é afeito a histórias de suspense/terror e, claro, aprecia, também, a literatura de qualidade, é de Aura que você precisa. Em alguns momentos de tensão narrativa, não se permite ao leitor saber se o que é lido é real ou imaginário. Eis, para mim, o grande patrimônio da novela.

Aura é carregada de simbolismos, que só funcionam se quem lê, munido de informações, consiga dar vida a eles. É a contrapartida do leitor, diante da obra-prima. Há uma anciã devota do catolicismo e de rituais de bruxaria, há uma casa às escuras somente iluminada por velas, há um livro de memórias a ser completado, há um historiador que se confunde com a história – e, claro, há Aura, a bela Aura, personagem que, ao final se mostra surpreendentemente distinta de qualquer interpretação. Mais não falo. Leia, se puder! Vale conhecer Carlos Fuentes e o que ele nos proporciona! Viva México!

 

A morte de um mulherengo

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No começo dos anos 1980, em Vitória, Leonard Cohen foi um artista cultuado por um grupo pequeno de admiradores. Era pequeno justamente porque pouco se falava nesse artista, quase ninguém o conhecia na era pós-disco e havia muita gente que, sabe-se lá por quê, apreciava o medíocre movimento BRock, que trouxe à superfície Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e que tais. Eu tive a sorte de ter colegas que, na faculdade, falavam em Leonard Cohen baixinho, pelos cantos, como se ele fosse uma pérola quebradiça tão frágil que seu nome mal era pronunciado.

Sua voz, ao contrário, era de uma potência tão definitiva quanto pouco usual. O primeiro disco que ouvi, com 19 anos, foi Death of a Ladie’s Man, de 1977, no qual brilham Iodine, a balada Paper Thin Hotel, a espetacular Memories, a narrativa I Left a Woman Waiting, o poderoso country rock Don’t Go Home with Your Hard-On, e, claro, a faixa-título, um poema-conto belo e triste. Na época, só tinha ouvido falar de seus livros – era poeta e romancista – e de como escrevia com a mesma elegância com que tratava os vocábulos numa canção. Embora canadense, toda a sua formação literária pertencia à Inglaterra. A propósito, Death of a Ladie’s Man é também um de seus vários livros de poemas.

Realmente não sei em que seara ele é melhor: se compondo canções ou articulando versos. É, até onde conheço, o único artista que, aventurando-se em dois terrenos, atinge a plenitude criativa em ambos. É neste livro, para mim um clássico, que Leonard Cohen dá sua versão do que é falar poesia. How to Speak Poetry é um achado, um texto que todo poeta responsável deveria ler (falar, no texto, nada mais é do que criar). É a metalinguagem levada ao extremo (tradução minha, livre):

“O poema não é nada a não ser informação. É a constituição do país interior. Se você o declamar e espalhá-lo com nobres intenções, então você não é melhor que os políticos que despreza. Você é apenas alguém sacudindo uma bandeira e fazendo o apelo mais banal de patriotismo emotivo.”

Leonard Cohen morreu há exatamente um ano. Segundo consta, foi vítima de uma queda enquanto dormia. Aos 82 anos, o artista legou-nos 14 discos oficiais, em estúdio; 7 discos ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura: 12 livros, entre poemas e romances, e 3 coletâneas de versos. Não é pouco. Em qualidade, é muito mais do que merecemos.

Darwin, Pedro Xisto, escola

 

A figura acima tem nome: Epithalamium, e foi concebida por Pedro Xisto, poeta pernambucano cujo talento para a visualidade era inequívoco. Foi concretista, aliado dos irmãos Campos, embora não rezasse fanaticamente na cartilha Noigandres. Tenho apenas um de seus livros, Logogramas, encontrado na Livraria São José, sebo carioca da rua do Carmo. Apresentei o poema a meus alunos – aliás, é um exemplo recorrente, que considero necessário à compreensão da estética concretista. Mas por que falo isso? O poema, como é apresentado pelo autor, propõe uma relação entre texto e o mito de Adão e Eva e, de quebra, alude ao formato curvilíneo da serpente como metáfora do mal e da sensualidade.

Chamo a atenção de meus alunos para isso e aproveito, muito despretensiosamente, para perguntar se há criacionistas na sala. Os criacionistas, em sentido amplo, creem que o universo e os seres que nele habitam foram criados por Deus – e ponto final. Respeito-os como respeito aqueles que os contradizem: os evolucionistas. Na verdade, embora tenha sido educado para comungar com a primeira categoria, encaixo-me na segunda. Charles Darwin, para mim, é fundamento.

Li, com certa desagradável surpresa, que o próximo presidente, por meio de seus assessores na área de educação, quer que o Criacionismo seja discutido nas escolas públicas. Quer que seja debatido e ensinado tanto quanto o Evolucionismo o é. Em outras palavras: quer que a escola faça o que a Igreja tem o papel de fazer. Está AQUI, para quem quiser ler. A meu ver, ensinar Criacionismo nas escolas é algo tão grave quanto o contrário: a Igreja querer ensinar física e química aos fiéis. Considero, entretanto, que isso deva ser debatido, de forma responsável, criteriosa. Assim como se ensinam os porquês de vulcões expelirem lava, de aves serem capazes de voar e o que vem a ser a velocidade da luz, deve-se inserir a criança no debate sobre como o ser humano passou a habitar a Terra. Eu disse porquês. Ou seja: apontar fatos incontestáveis, evidências, razões, embasamentos. A fé tem seu importantíssimo lugar – mas não é na escola.

Respeito os criacionistas – como disse, acima -, mas mantenho-me fiel à figuraça aí acima (a barba espessa e o olhar enganosamente vago) e à sua teoria. Não cegamente, porque penso que alguns pontos do que ele escreveu precisam ser repensados, afinal que teoria permanece intocável durante 150 anos? Poucas. Algumas duram até 6 mil anos. A existência de Deus e seu poder criativo, mesmo sem uma comprovação eficaz, é uma delas. Pedro Xisto morreu em 1987. Vivo estivesse, o que diria disso tudo?

Quanto vale sua opinião?

Conta-se nos bastidores da história musical brasileira que, em meados dos anos 60 do século passado, quando os compositores Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo surgiram, e pouco tempo depois os tropicalistas deram o ar da graça, os adeptos do iê-iê-iê – também chamado Jovem Guarda – recolheram-se humildemente a seus aposentos, um tanto envergonhados de ter produzido algumas canções que mereceriam, sem exagero, o esquecimento. Diante do potencial criativo dos senhores citados, Roberto, Erasmo & Cia. iniciaram um processo autocrítico que soou positivo para suas carreiras. Acho louvável a autocrítica; considero importante que o indivíduo (re)avalie sua opinião quando a dialética se instaura na criação.

É saudável e necessário. Hoje não se vê mais isso. Ninguém se envergonha; perdeu-se a noção da humildade; o bom-senso virou a esquina e nunca mais foi visto. Dia desses ouvi uma entrevista na qual um DJ se dizia tão ou mais fundamental para a música atual quanto maestros europeus de nome incompreensível. Palavras dele – por isso estão em itálico. Não sei se rio ou choro. Não há sequer constrangimento. Pagodeiros e cantores sertanejos rivalizam com grandes compositores e zangam-se quando são desprezados pela intelligentsia. Querem o seu quinhão, sua parcela de consideração intelectual, querem ser considerados MPB por serem realmente populares.

Mas quem lhes disse que ser popular implica necessariamente ter qualidade? Aí entra uma questão tão crucial quanto triste: são populares porque há quem legitime essa popularidade. No caso, o consumidor. Sim, ele, o consumidor, também ignora constrangimentos. Falta-lhe a humildade, que esconde sob a desculpa esfarrapadíssima de que gosto não se discute. Claro que se discute. Gosto é ponto de vista. Ponto de vista não se discute? É algo imaculado, intocável? Blindou-se a subjetividade e qualquer crítica ou comentário que a contrariem adquirem status de truculência e desrespeito.

Os críticos, os comentaristas, os articulistas, os estudiosos, os analistas e os teóricos devem, então, ser desprezados em benefício dos papalvos que vociferam é minha opinião – e pronto!? Não considero isso justo. É claro que toda opinião merece respeito, principalmente quando fundamentada, abalizada – mas não merece, necessariamente, concordância. Opiniões que geram debate de ideias têm chances enormíssimas de também gerar conhecimento – algo que, suponho, interessa a todos. Ou deveria interessar. Mas quem se dispõe, de coração aberto e com a humildade necessária, a ser contradito? Essa pergunta não tem somente você, leitor, como alvo, mas dirige-se também a mim, e talvez até principalmente, como uma serôdia autocrítica. Afinal, nunca é tarde.

Sim, meu voto é Haddad, claro!

Perguntaram-me hoje – como se não já soubessem! – em quem eu votarei no 2º turno. Num determinado momento, naquela fração de tempo mínima, que pode nos levar ao desespero ou ao paraíso, cheguei a me sentir ofendido por alguém me questionar isso. A ofensa passou tão rápido quanto veio. Eu sou um homem de ideias. Sou professor há 38 anos, sou escritor publicado desde 1987, com vários livros no currículo, estou secretário de Cultura da capital, sustento minha família com meu saber literário e gramatical, que levo a meus alunos de forma sempre honesta mas nem sempre mui bem recebida (por eles). Isso sem falar na gestão de políticas públicas para a cidade.

Sendo eu um homem de ideias, tenho de me identificar com quem as possui, mesmo que destoem do que penso e profiro. Em bom vernáculo: para que as ideias de outrem não combinem com as minhas, é necessário, primeiro, que esse outrem tenha ideias. Se não as tem, não admito, em minha humilde prática intelectual, sequer entabular diálogo. Sim, por isso voto em Fernando Haddad, mesmo que em alguns pontos não concordemos. Como aventar a possibilidade de votar em alguém que, sem condições de discutir ideias, puxa uma arma, saca um revólver? Como alguém afirma que vou pelo caminho errado se não ouve meus argumentos, não me permite expressão?

Minha arma sempre foi a linguagem, os códigos, as metáforas, a língua, a literatura, a arte. Aquele que possuir um mínimo de sensibilidade nessa área me é simpático, tem meu voto. Alguns amigos (nenhum deles atuando em minha área) disseram-me que eu, como professor, não deveria revelar meu voto. Em outras palavras: ser professor anula minha cidadania, meu direito à expressão. Posso falar de José de Alencar, de Euclides da Cunha e de orações subordinadas, mas não posso dizer, onde quer que eu esteja, que voto em Fernando Haddad. É isso mesmo? E aqui, no meu blogue, posso?

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Deus aos 78

Nunca escrevi sobre esporte neste blogue que, aliás, é destinado a expressões artísticas e culturais: livros, cinema, fotografia, música, quadrinhos, blablablá. A categoria Mulheres foge à regra – mas é uma boa causa, claro. Resolvi, hoje, falar de esporte e, nessa categoria, escolho o mais popular de todos (e do qual mais gosto, ao lado do boxe e do basquete): o futebol. E dentro do futebol, escolho o que esse esporte produziu de melhor: Pelé, que, amanhã, 23 de outubro, completa 78 anos. Se você não o conhece, aí vai uma foto sem rosto (apenas silhueta), para atiçar sua lembrança:

Fico imaginando, num exercício fantasioso, Pelé com 23 anos, hoje. Creio que não haveria uma combinação tão perfeita entre marketing e produto. Embora eu não seja especialista na coisa, acredito de verdade que, com todo esse aparato midiático (internet, tevês a cabo, aplicativos) e marqueteiro (empresas de material esportivo, principalmente), não haveria um produto, no futebol, que rendesse maior dividendo. Pelé seria mais lendário do que é hoje, um atleta que fica para sempre, incluindo aí o imaginário de pessoas que sequer se interessam por futebol. Um fenômeno absoluto.

Certo, certo: o brasileiro, grosso modo, cospe em seu ídolos. Nelson Rodrigues já vociferava essa verdade inequívoca. Pelé é adorado como um totem eterno na Europa (onde, nos anos 1970, era uma marca que só perdia em popularidade para a Coca Cola), na África, na Ásia e sofre no Brasil um certo ódio contido, quando não explícito. Muitos cobram que ele seja eficiente em outros aspectos como era entre as quatro linhas. Uma injustiça descomunal, já que a vida de Pelé girava em torno de um campo, de uma bola, de um time. Vi-o jogar em fim de carreira. Comecei a me interessar por futebol no início dos anos 1970, quando ele, já com mais de 30, iniciava a aposentadoria.

Estive em sua despedida: no Maracanã, em 1971, num jogo contra a Iugoslávia, num empate com dois gols para cada lado. Lembro-me bem: estádio cheio, e eu sentado na arquibancada cercado pela família de Marco Antônio, lateral direito do Fluminense. Coisas da vida. Enfim, não há nada para ser dito neste texto que outro não o tenha feito. Escreve-se sobre Pelé há 60 anos – desde quando, na Suécia, aos 17 anos, foi eleito lenda. De lá para cá, tornou-se parâmetro de comparação, referência para todo craque que desponta aos quatro cantos. Eu vi Cruijff, Maradona, Van Basten, Messi, Cristiano Ronaldo. Pelé supera todos, com folga, em todos os fundamentos do futebol. Enfim, o resto é história.

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