Jean, Ava & o possível sexismo*

Jean Cocteau, o poeta, romancista e dramaturgo francês, disse que a atriz Ava Gardner era “o mais belo animal do mundo”. Referia-se, claro, ao conjunto da obra, o qual nunca viu, por inteiro. Não se pode dizer o mesmo do baixinho ator Mickey Rooney, do clarinetista Artie Shaw, do meu xará Frank Sinatra e de alguns toureiros, sendo um deles o famoso Luis Miguel Dominguín, que dizia abater mulheres e bovinos com a mesma competência. Esses tiveram a sorte que Cocteau não teve – até porque o francês não apreciava as mulheres. A frase, no entanto, é boa, e traz em seu núcleo uma ideia charmosamente machista. Talvez eu seja criticado pelo advérbio, mas vou correr o risco.

Jean Cocteau: The Juggler's Revenge | Exhibition | Peggy Guggenheim Collection

A afirmação de Cocteau, nos dias de hoje, causaria fúria – e não somente de mulheres, mas de todos aqueles que, munidos de um justificado patrulhamento, tornam réu aquele que transgride regras do bem-viver. A bem-viver leia-se respeito. Há algo de tão grave quanto qualquer patrulhamento: o outro lado, travestido de democrático baluarte da liberdade de expressão, chamar a isso mimimi. Não, não é mimimi, não é reclamação barata nem chatice repetitiva. Vestir a pele do outro não é fácil, mas parece-me a melhor maneira de frear os arroubos arbitrários dirigidos a quem, numa situação específica, está vulnerável.

Tenho um programa – podcast e vídeo – intitulado Vitrine Literária. É um programa semanal em que entrevisto atores ligados à arte das letras, sejam eles poetas, escritores, editores, bibliotecários, leitores, críticos etc. Alguns consumidores assíduos já me questionaram por que há mais homens sendo convidados do que mulheres. Respondi, com a honestidade costumeira, que a matemática é simples: há mais homens expondo o trabalho (livros, no caso) do que mulheres, de modo que é mais frequente a participação masculina do que a feminina. Digo isso com certa angústia, porque, em minha modestíssima opinião, mulheres têm mais sensibilidade para a arte do que os homens. São capazes de enxergar nuances da realidade que os homens, por não terem sido treinados para tal tarefa, têm dificuldades para notar. Não, não estou sendo sexista, embora possa parecer. É apenas uma opinião, e sujeita a apedrejamentos de ambos os lados.

A desastrosa vida íntima de Ava Gardner

E qual o motivo? Provavelmente porque – a História mostra isso – as mulheres foram relegadas a um plano secundário. Repelidas, não puderam protagonizar na pintura, na música, na literatura, na escultura etc. Claro que há exceções – ainda bem! Ava Gardner foi uma dessas exceções. Escolhia os próprios filmes, assim como dizia com que diretor preferia trabalhar. Trocava de marido quando enjoava deles, tinha opiniões polêmicas sobre vários temas e era a mulher mais bonita do cinema de sua época. Provavelmente de qualquer época. Se para você, um filme feito antes de 2000 é tão antigo quanto o teorema de Thales, não fará ideia de quem seja Ava Gardner. O Gúgol revolve isso para você (eu também, é só olhar a foto) – e quando resolver, prepare-se: é possível que você assine embaixo da frase de Jean Cocteau.

*Este texto faz parte do novo volume de crônicas, intitulado DOXA, volume 2. Em breve!

Músicos pintores #3: Bob Dylan

Bob Dylan é o grande trovador norte-americano. Ganhou Nobel, fez um punhado de discos, escreveu letras longas que diziam verdades para a juventude, mudou de gênero uma ou duas vezes, fez rock, fez folk, influenciou gerações e escreveu canções imortais. E ainda por cima usou sua música para aventurar-se numa outra área: a pintura. É o nítido caso da Teoria das Correspondências, de Baudelaire. Bob Dylan assumiu essa ideia, e fez a audição conectar-se à visão numa sinestesia mais-que-perfeita. Observe o quadro Closing Time, de 2020.

See Bob Dylan's Cinematic Paintings, Welded Sculptures and More | Smart News| Smithsonian Magazine

Olho para o quadro e vejo a desolação do blues, o after hours decadente, do submundo, a tristeza exposta como se fosse uma obrigação para a arte. Ouço a música sublinhando significativamente a cena: a melancolia da guitarra, o som da bateria espaçado e simples, cheio de lacunas. Uma possível Marilyn, ao alto, observando, de sua cama, a derrocada de um homem enquanto o ambiente vai-se fechando. Abaixo, Manhattan Bridge, Downtown New York, de 2016, a visão pessoal (e de um ângulo improvável) de um dos pontos mais icônicos de Nova Iorque.

Limited edition Bob Dylan painting collection set to go on display in Bath | Bath Echo

Há algo de Edward Hopper nos trabalhos de Bob Dylan. A solidão das personagens é explícita, tendo a degradação do ambiente como testemunha e consequência. Dylan volta no tempo: opta por retratar uma época extemporânea – anos 1950 e a década seguinte -, como forma de expor parte da cultura norte-americana urbana, desolada, sem perspectivas. Álcool, cigarros, tristeza, blues. Hopper foi o primeiro a ir por esse caminho, compreendendo que, para alguma parcela social, não há saída. Apenas desapontamento. O quadro abaixo tem o título de Florida Keys.

Bob Dylan - Art Works - 2021 Retrospectrum - NSF - Magazine

O trovador não se restringe, entretanto, ao universo da consternação. O trabalho Abandoned Drive-In, Yucca Valley é um exemplo de como se pode observar o abandono de forma positiva: cores variadas sob um céu azulado. Dylan pinta desde 1968. É dele a capa do primeiro álbum do grupo The Band, além de Self Portrait, dele próprio. Em 1973 veio a glória pictórica: a editora Knopf publicou Writings and Drawings, contendo as letras das canções de Dylan + várias ilustrações feitas por ele. Eis aí a correspondência: Baudelaire confirmado por Bob Dylan.

In '*Abandoned Drive-In, Yucca Valley,' a sign points to a swap meet; above it, against a backdrop of blue sky, a sign for the 'Sky Drive-in Theater' by the Forward

Vale a pena checar os trabalhos dele na Halcyon Gallery. é só clicar AQUI.

O universo de Sagan

Li e reli, nestes dias pré-Carnaval, para um absoluto deleite, alguns contos de Philip K. Dick, o volume 5 da Caixinha Preta, que contém, inclusive, a pequena obra-prima Nós Recordamos para você por atacado, que rendeu, há algumas décadas, o excelente longa de aventura O Vingador do Futuro. Entretenimento e ciência, numa linguagem compreensível a qualquer pessoa com um mínimo de senso. Imaginei-me tentando escrever ficção científica e, claro, concluo que tropeçaria num item fundamental: o referencial científico, o qual ignoro como um cego ignora as cores. Não se iludam os meus 6 ou 7 leitores: se algum dia vier à superfície algum texto – curto que seja –, de minha autoria, contendo elementos ficcionais e científicos, podem apostar: é plágio, e merecerei tanto o cárcere quanto o desprezo daqueles que, ao menos por enquanto, têm-me em conta. Estamos conversados.

Não sou íntimo do cientificismo, mas reconheço seu absoluto valor – incluindo aí sua capacidade de ilustrar a arte, de reforçá-la, de torná-la veículo para a comunicação e para a educação. Assisti, quase trinta anos após sua exibição de estreia no Brasil, a todos os episódios de Cosmos, o extraordinário documentário estrelado e coproduzido pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan. É acachapante, para dizer o mínimo. Como tentar resumir quase 800 minutos de imagens e texto que transformam a inacessível – ao menos teoricamente – ciência em algo quotidiano? Repito: é difícil, pelo menos para mim. Carl Sagan fez um trabalho social. Mandou às favas a mística de que ciência é coisa para iniciados, cheia de códigos e vocabulários específicos que apenas físicos, astrônomos, biólogos e bioquímicos são capazes de compreender.

Clube de Astronomia exibe episódio de “Cosmos” nesta sexta (12/5) | Instituto de Física

O que me impressionou no documentário foi sua assombrosa atemporalidade, principalmente no que diz respeito à relação homem/planeta, seja ela direcionada ao âmbito ecológico-ambiental, seja ela fincada na questão científica de que é preciso compreender o processo histórico para se chegar a conclusões que hoje facilitam a vida de todos. Embora todo o documentário seja uma apologia à informação, é interessante perceber que Carl Sagan não dedicou capítulos – um só que fosse – à inevitabilidade da internet. Talvez nem ele mesmo pudesse imaginar o que aconteceria dez anos depois. Está tudo lá: desde a história dos grandes homens que fizeram a ciência até as probabilidades quanto à inteligência extraterrestre; dos microrganismos até a mitologia hindu, da biblioteca de Alexandria aos limites da eternidade, passando por teorias e conceitos herméticos como quarta dimensão, anos-luz, velocidades inimagináveis, questões sobre espaço-tempo e diálogos entre cetáceos. Até o Google, muito antes de ser criado, está lá.

Amazon.com.br eBooks Kindle: Cosmos, Sagan, Carl, Druyan, Ann, Geiger, PauloFalo por mim: a ciência seduz quando é bem traduzida, quando se torna comum (nunca banal), quando suas portas e janelas estão tão escancaradas que é possível vislumbrar o que há em seu interior. E qual o óbvio papel dos professores nessa empreitada? Penso que eles existem para tornar a ciência viável, para expor sua sedução e ajudar na sua compreensão. Não há por que distanciá-la do indivíduo ordinário – no bom sentido –, que não domina conceitos e, por triste consequência, ignora conteúdos essenciais. Essa é sua tarefa e – talvez – seu martírio. Quem, a não ser aqueles poucos, interessa-se pela compreensão de funcionamentos, ligações, movimentos, temperaturas, moléculas, vácuo? E quando mostram interesse? São chamados nerds, habitantes de uma outra dimensão. Mas isso é outro papo.

Carl Sagan foi pelo caminho oposto. Cosmos é uma aula saborosa e dinâmica que, mesmo atrasado 30 anos, usufruo como se tudo fosse uma grande novidade. E é provável que seja mesmo.

 

Estrelas do Jazz (da Milestone)

Ron Carter / Sonny Rollins / McCoy Tyner – Milestone Jazzstars In Concert (1979, Vinyl) - DiscogsEscrevo muito sobre jazz, como sabem os seis ou sete leitores deste blogue. Criei, inclusive, uma série O melhor do jazz, que pode ser conferida AQUI. Há 6 anos, escrevi sobre os melhores discos de jazz gravados ao vivo. Sim, claro: é visão pessoal, critério subjetivo. Um dos discos é este à esquerda: The Milestone Jazzstars in concert, um clássico da gravadora Milestone em que brilham 4 ases: Sonny Rollins (saxofone tenor e soprano), Ron Carter (contrabaixo), McCoy Tyner (piano) e Al Foster (bateria).

Em vinil, é álbum duplo, com 9 faixas, gravadas em diferentes locais, já que o grupo fazia um tour pelos EUA, em 1978: ora no Masonic Auditorium, em San Francisco, ora na Universidade de Wisconsin, ora na Universidade Yale. O disco é uma maravilha do pós-bop, um monumento sonoro capitaneado por Sonny Rollins, o mais importante saxofonista vivo, e por McCoy Tyner dando o ritmo, a cadência. É uma das melhores performances que conheço desse extraordinário pianista, que acompanhou Coltrane nos bons dias e criou discos solo absolutamente irretocáveis.

ImagemRon Carter é, para muitos, o maior contrabaixista do jazz. Não sei se é o maior, mas está entre os grandes. Equilibrado, neste disco, varia entre o som mais percussivo e o lirismo das cordas, como na primeira faixa, The Cutting Edge, ou brilhando sozinho, em Willow Weep For Me. Tem no currículo mais de 30 discos como líder e mais de 200 como sideman, incluindo aí os elepês com os brasileiros Eumir Deodato, Hermeto Paschoal, Airto Moreira, Dom Um Romão, Rosa Passos, Miúcha e Tom Jobim.

Al Foster é um subestimado. Criticam-no os puristas que abominam o fusion, gênero em que ele brilhou, ao tocar com Miles Davis. É uma crítica tão injusta quanto desnecessária, porque é só checar as gravações dele com os pianistas Horace Silver e Herbie Hancock para perceber que ele passeia pelo acústico de forma implacavelmente perfeita. É um baterista que administra como poucos uma cozinha onde brilham os três colegas de trabalho, estrelas do jazz. Ouça e me diga se erro.

A propósito: o disco inteiro está AQUI. Desfrute!

João Ubaldo, aos 83

Talvez eu esteja exagerando, mas o romance brasileiro do século XX chegou a seu apogeu com dois autores: João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues. O primeiro aperfeiçoou o regionalismo, saindo do NE e rumando para o sertão mineiro, levando a linguagem – que é a matéria-prima da literatura – a consequências últimas. O outro não tem rivais quando os temas são a perversão humana, a vilania, o pecado, a hipocrisia e o sexo. São dois mestres inquestionáveis, a meu ver. E depois deles? Quem é o grande romancista brasileiro? Quem conseguiu a façanha de manter-se sempre no auge, enquanto escreveu?

O escritor João Ubaldo Ribeiro Foto: Leo Aversa

Eu escolho João Ubaldo Ribeiro. Ok, você dirá: ele é muito mais cronista que romancista. O citado Nelson Rodrigues também – mas o que é um romance senão um emaranhado de pequenas narrativas que, juntas, caracterizam uma longa história? Se duvida, leia, ao menos, dois de seus livros: Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto. E olhe que estou deixando de lado a obra-prima Sargento Getúlio que, na verdade, mereceria uma postagem só para ela. A Casa dos budas ditosos é ótimo, mas não tem o vigor literário dos 3 citados neste parágrafo.

VIVA O POVO BRASILEIRO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO, EDITORPermitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.

Livro: O Sorriso do Lagarto - João Ubaldo Ribeiro | Estante VirtualO Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.

Escolhi escrever sobre João Ubaldo Ribeiro porque hoje, 23/1, ele faria 83 anos, caso estivesse vivo. E não está?, alguém pode perguntar.

Machado, Woody & as crianças francesas*

Imagine que um determinado livro, ao ser lido, tenha impactado seu leitor de forma tão impressionante que esse mesmo leitor passe a citá-lo quando lhe perguntam quais as obras de sua preferência. Isso é plenamente possível – eu diria até corriqueiro. Woody Allen, o cineasta norte-americano, confessou ao jornal inglês Guardian que Memórias Póstumas de Brás Cubas, do autor carioca Machado de Assis, foi um dos cinco livros que mais influenciaram sua carreira. Isso também é plenamente possível, já que a obra – o título traduzido, Epitaph of a Small Winner, é muito melhor – é tremendamente bem escrita e, para os moldes da provinciana literatura brasileira da época, de uma inventividade sem precedentes.

O que me causa espécie é o fato de Woody Allen, tão impressionado com o livro citado, não tenha buscado ler outras obras de Machado. Ou, por outra: não há registros de que ele tenha mencionado, por exemplo, Philosopher or Dog?, que é o título inglês do mais bem acabado livro de Machado de Assis, Quincas Borba. Eu me lembro de que, em meados dos anos 80, após ter lido Bem-vindo à Casa dos Macacos, de Kurt Vonnegut, Jr., numa daquelas edições mal traduzidas da Artenova, passei a garimpar, em sebos principalmente, livros desse autor com uma urgência que mal cabia no discurso, já que nem eu mesmo sabia exatamente por que se tornara necessário ler todos os seus livros. Hoje, compreendo que a busca por outros livros de um autor nada mais representa do que a manutenção de um diálogo que se estabeleceu na primeira leitura e que se deseja contínuo, arrastando-se por outras obras até que o leitor, por motivos que dizem respeito somente a ele, queira dar um fim a esse, digamos, bate-papo.

E por falar em diálogo, e também em Machado de Assis, tenho-me incomodado com uma questão, que certamente se liga a Mr. Allen. Simples: creio eu que o cineasta, já que afeito à palavra escrita, tenha-se relacionado com o texto machadiano de forma adulta – ou seja: leu-o com a maturidade necessária a uma compreensão que favorece não somente o leitor, mas também o texto. Em outras palavras: os livros do autor carioca – assim como acontece com vários outros autores – exigem daqueles que os leem um certo costume de boa leitura, uma apreensão criteriosa do texto literário, uma intimidade com textos que desafiem o leitor. Isso não retira, em absoluto, a possibilidade de ler tais textos como passatempo, hobby. Fiquei sabendo, há uns dois anos, que o texto machadiano Conto de Escola havia sido, numa tradução, adotado para crianças francesas de 8 a 10 anos de idade. 

Eis a questão: será que crianças nessa idade, mesmo que bem orientadas por professores tarimbados, têm condições de perceber o pessimismo irônico de Machado e, mais ainda, que a corrupção pode ser fruto circunstancial da infância? Refrescando a lembrança: o personagem central do conto – e também seu narrador – é um menino de nome Pilar, que aceita dinheiro de um colega para fazer-lhe um trabalho escolar, mas que, ao final, por circunstâncias alheias a sua vontade, acaba ficando sem o pagamento. Se possível fosse, o menino manteria consigo a quantia obtida com a venalidade. Não há esperanças para ele. O destino está traçado. Sem contar que a corrupção, no conto, tem um viés sensual que desafia qualquer professor a traduzi-lo para crianças – francesas ou não. 

Ler Machado de forma superficial é um pecado de escala estratosférica. Por outro lado, é sempre bom saber que um escritor de sua envergadura aproxima-se de leitores infantis. Desmistifica-se, então, a ideia de que a literatura brasileira do século XIX é inacessível à garotada. Mas o que pergunto é se a coisa funciona. Aquele sutil questionamento sobre moralidade, as nuances que proporcionam breves confusões ao leitor, as obliquidades, o camuflado deboche às instituições – haverá uma tradução francesa capaz de captar essa atmosfera? Pode até ser, mas crianças de 10 anos serão capazes de isso perceber? Se não, quem perde, de fato nessa história, é o texto.

*Publicado, originalmente, em A Gazeta (jornal local), em julho de 2011.

 

Elvin Jones e a garotada

Arrepio-me quando ouço alguém afirmar que somente o que foi feito “em minha época” tem valor. É a balela dos maus saudosistas, dos serôdios inconformados – e muito frequentemente de pessoas que, sabe-se lá o motivo, repulsam as novidades. Já fiz isso, e talvez um mea culpa se faça necessário. Isso é papo para divã, para confessionário, não para este blogue nem para esta postagem, que é dedicada a um dos maiores bateristas do jazz: Elvin Jones.

Pois é: Mr. Jones tocou com gente tão importante quanto ele: o contrabaixista e orquestrador Charles Mingus, com os saxofonistas Sonny Rollins e Stan Getz, com Miles Davis e com os extraordinários pianistas Bill Evans e Bud Powell. E muito mais gente boa. Claro, claro: fez parte do mitológico quarteto de John Coltrane, no qual brilhou em My Favorite Things, Olé e A Love Supreme, e com quem gravou 20 discos. Clique nos títulos para ouvir o disco completo, mas preste atenção ao que Elvin Jones faz. Prestou? Pois é.

 

E eis que o propósito desta postagem se expõe: o disco Young Blood faz jus ao título. Elvin Jones, já consagrado, resolveu arregimentar novos talentos no jazz: o saxofonista Joshua Redman e Javon Jackson tinham, respectivamente, 31 anos e 26 anos; o trompetista Nicholas Payton, com 19 anos; e a exceção checa: George Mraz, aos 47 anos. Elvin Jones tinha, então, 64: era o idoso que atacava os couros como um adolescente inquieto, pleno de energia e inventividade. É só conferir especificamente em Ding-A-Ling-A-Ding, a faixa 4 do disco. É de cair de joelhos e rezar.

Juntar-se a sangue jovem funciona não somente como uma oxigenação no próprio trabalho, injetando ideias novas, concepções mais arrojadas e valores contemporâneos. Serve também para aprender, porque a juventude, mesmo em alguns casos sem a intenção, pode ensinar. Elvin Jones mostrou-se homem de coração aberto, capaz de abrir os portões a todos os que, também de coração aberto, baterem-lhe as portas. O disco inteiro você pode ouvir AQUI, com a devida atenção – sendo jovem ou não.

Cinema ou sardinha, Guillermo?

Guillermo Cabrera Infante y la censura

Escrevi sobre livros de Guillermo Cabrera Infante, um dos meus ídolos literários. Dois deles: Fumaça Pura e Mea Cuba, volumes cuja (re)leitura me enche de prazer e – se me permitem a pieguice – enchem meu coração de alegria. Cabrera Infante é fã de cinema, e o compreende de forma bastante singular, e essa singularidade é expressa em palavras que se transformam em crônicas bem humoradas, por vezes mordazes, que emitem luz sobre a arte que tanto aprecia a luminosidade. No início de 2023, adquiri os três volumes de artigos sobre filmes: Cinema ou sardinha. Em espanhol os volumes concentram-se num só.

Cinema ou sardinha - parte 2: Vias, bem vivas: Volume 2 | Amazon.com.brCabrera Infante tem aquilo que todo escritor deseja ter: maturidade irônica. E é justamente munido dessa ferramenta que ele escreve – parece conversar com o leitor, entre charutos e doses de bourbon – sobre Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, Vincente Minnelli, sobre seus filmes e como eles conseguiram referenciar uma época e muitos costumes. Sim, o cinema é, claro, a grande personagem do livro, reverenciada por um autor que desde a infância se mostrou cinéfilo apaixonado, febril. O título, aliás, é uma grande brincadeira. Pode-se viver sem sardinha, mas não sem cinema.

As mulheres não estão ausentes: o volume 2, cuja capa ilustra a postagem, é marcado por crônicas que homenageiam Marilyn, Rita Hayworth, Anita Loos, Mae West, Barbara Stanwyck, Gloria Swanson, Ava Gardner. Até Sharon Stone e Melanie Griffith entraram no rol. E homens célebres como William Holden, Orson Welles, Fellini, Chaplin, Cary Grant e James Mason. É uma festa. E tudo isso escrito com a pena infantiana – ou seja, veloz, mordaz, sacana, trocadilhesca e tão literária que causa inveja: ao menos em mim. Vai causar inveja a você, também. Se você que lê aprecia cinema, não pode deixar de ler a trilogia.

Cinema Ou Sardinha - Parte 1 Pompas Fúnebres - SBSE para quem torce o nariz para o cinema americano, há diversão fora do eixo: Guillermo Cabrera Infante escreve sobre Almodóvar, Fritz Lang, Kiarostami, Kurosawa. Escreve sobre grandes diretores e, claro, grandes filmes feitos por eles, sobre filmes B, sobre o faroeste, os filmes em preto e branco e por aí vai. Tudo sob a ótica de um erudito que sabe ser popular – e vice-versa. Li vários livros sobre cinema – da crônica ao romance, passando por biografias e análises fílmicas -, mas nada me divertiu tanto quanto, diante da erudição e do conhecimento de Cabrera Infante, perceber que o cinema sobrevive e para sempre viverá. Vale ler para crer.

 

Os Mamíferos revisitados

Inovar só tem relevância se a inovação tiver real valor. Falei o óbvio. Experimentalismos no vácuo valem quase nada – exceto, talvez, para seu autor, que imagina ter descoberto a importância do oxigênio. Sei que, após 1922 – quando Joyce decepou de vez o romance moderno -, não se fez nada de novo em literatura. Retomar, reinventar, reciclar: três verbos cujo prefixo expressa que o ineditismo passou longe. Por que falo isso, entretanto? Vou explicar. Em 2016 lancei um livro biográfico intitulado Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular. 337 páginas contando a história de 3 artistas e de seus entornos.

TBT: o início do rock no ES e a história da banda Os Mamíferos, nas décadas de 60 e 70A capa está aí, ao lado. Nela, os componentes do time: Mário Ruy (guitarra), Afonso Abreu (líder e contrabaixo) e Marco Antônio Grijó (bateria). Um trio, na verdade – que, em muitos casos, acrescia-se de um vocalista tão talentoso quanto polêmico: Aprígio Lyrio. Falei em inovação, no primeiro parágrafo. Fui específico ao afirmar que nada é novo em literatura. E na música? Creio que esse vaticínio se repita, mas é preciso levantar, no caso dOs Mamíferos, algumas bolas. Duas delas são inquestionáveis porque se baseiam na cronologia. Vou explicar também.

Caetano Veloso e Gilberto Gil são pilares da música popular brasileira. Ao lado de Chico Buarque, formam a Santíssima Trindade da MPB. A dupla baiana criou o Tropicalismo, estética que retomou a Antropofagia de Oswald de Andrade e passou a valorizar o Brasil conectando-o ao resto do mundo. Um dos elementos do movimento foi a fusão de gêneros, ritmos, melodias. Pois é: foram louvados a partir de 1967, quando tudo começou. E não é que Os Mamíferos, esse trio capixaba, já havia feito isso quase dois anos antes?

Filme sobre Os Mamíferos terá sessão especial e gratuita na Serra - Século Diário

Quer mais? Miles Davis oficializou o fusion através de um disco extraordinário cujo título é Bitches Brew, em 1969. Nele, o essencial jazzista estabeleceu a união entre o jazz e o rock, criando um mundo novo para os ouvintes de ambos os gêneros. Sim, sim. Os Mamíferos já faziam isso, afinal o trio, antes de se dedicar ao rock, já nadava pela maré do jazz há muito tempo. Para eles, a fusão foi natural. Falo sobre isso no livro, embora evite polêmicas. Elas são desnecessárias, principalmente quando o mais importante na música – e na arte! – é seu conteúdo, é aquilo que ele provoca em quem o consome. Saravá, Mamíferos!

*A foto, de 1969, mostra Mário Ruy (à esquerda, na guitarra); Marco Antônio Grijó (bateria) e Afonso Abreu, no baixo elétrico. Som de primeiríssima. Seria bom se vc tivesse ouvido, Miles!

Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

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