Fala! #2: José Lezama Lima

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“Se ao final de sua vida, um escritor acredita ter esclarecido ou aumentado o fluxo criador de sua época – ou, mais simplesmente, de seus amigos – sentirá como se sua obra houvesse produzido um acréscimo, um desenvolvimento, e essa é sua principal utilidade. Fazer parte de um estilo, somando a ele, levando-o a sua plenitude, propicia sentir as mutações e a eternidade girando incessantemente em seu mais secreto ordenamento.” (José Lezama Lima)

Manara, Bardot

Junte Milo Manara a qualquer símbolo sexual feminino – do cinema, do esporte, da tevê – e é possível que tal símbolo seja eternizado. E quando se junta Milo Manara a um símbolo que, per si, já é eterno, já habita imaginários há décadas e para sempre habitará? Pois essa combinação existe – e está à venda. A quantia não é tão acessível quanto se possa imaginar, mas um símbolo sexual – no caso, um mito em estado puro – é, grosso modo, inacessível. E quer mito sexual mais inacessível do que Brigitte Bardot, a francesa que rivalizou com as estrelas de Hollywood e que explodiu em glamour, sensualidade e tesão?

 

Alguém dirá que a importância de Milo Manara para os quadrinhos – principalmente os eróticos – equivale à de Brigitte no cinema. Concordo. Até porque ela, mito da liberação sexual, deve ter sido a inspiração para muitos artistas plásticos (escultores, pintores, desenhistas). Manara não fugiu à regra, afinal ele foi um dos pioneiros dessa mesma liberação numa outra seara, até então povoada de super-heróis, detetives e muita aventura. Sim, um de meus seis ou sete leitores poderá afirmar que desenhar Brigitte como mito sexual não é difícil. Sinceramente? concordo – em parte. A questão é: como desenhar feito Manara?

As curvas, as silhuetas vertiginosas, o desejo implícito (nela e naqueles que a vislumbraram), a beleza graciosa das formas, a aura adolescente, a insolência da juventude – algo que só pode ser rivalizado por Marilyn Monroe, recentemente citada neste blogue. Brigitte Bardot relutou em ceder sua imagem para os desenhos. Está em outra, há décadas. Tornou-se ativista pró-animais, denunciando os horrores impetrados a eles, desde sua caça desregulada ao tráfico frequente. É só checar suas companhias nas ilustrações abaixo.

Brigitte Bardot não tem mais a beleza que possuía – mas quem tem, após tanto tempo? Manara faz gerações de admiradores esquecer que o tempo é inexorável.

Aí abaixo está o homem que criou a mulher. Não é Deus, mas quase. E se você não se contenta com Brigitte Bardot e quiser conhecer mais mulheres que esse senhor desenhou, clique AQUI.

 

 

Os amigos de Herman Leonard

Herman Leonard é o maior fotógrafo do jazz. Ponto. Essa afirmação será confirmada por si só, nesta postagem. Não há, penso, necessidade de palavras que possam definir a sensibilidade + talento + oportunidade de capturar as imagens que este senhor capturou durante anos acompanhando grandes nomes do gênero. É o gênio da raça, o apogeu, o mestre absoluto – e olhe que tinha rivais de peso, como Jim Marshall, Bob Willoughby e William Claxton, três bambas que souberam definir, em imagens, a época e a estampa jazzística. Leonard, entretanto, fez mais: transformou ícones da música em criaturas humanas dotadas da mesma fragilidade que o mais ordinário dos homens.

Billy Holiday retratada por Herman Leonard

Billie Holiday

Há algo de melancólico na foto de Billie Holiday. Parece estar à espera do momento certo para adentrar a melodia, com sua voz de pouco alcance, mas absolutamente inesquecível. Não está em ação, mas Herman Leonard conseguiu, a meu ver, dar um tom ao momento. Billie observa, de uma forma aparentemente triste, a ação que virá. Abaixo, Dizzy Gillespie, uma das mais significativas figuras do jazz, num solo que parecemos ouvir. A fotografia é de 1948. Dizzy foi outro que Leonard acompanhou por décadas, captando o que ele possuía de mais peculiar – além, evidentemente, da música.

Dizzy Gillespie. Icono del jazz

Dizzy Gillespie

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Ella Fitzgerald

Essa senhora acima, a Primeira Dama do Jazz, era sua preferida. Herman Leonard acompanhou-a durante várias apresentações pelos EUA e pelo mundo, de 1949 até 1987. A foto exposta, feita em Paris, em 1960, é a expressão do que o jazz pode provocar em quem o produz. A percepção do momento oportuno, do êxtase, do suor que brota e que escorre pela face: tudo isso exala felicidade na captura daquilo que se chama performance e que será eternizado pelo instantâneo. Quem mais poderia ter feito isso? O mesmo se pode dizer da foto abaixo, no Downbeat Club, em 1948. Na plateia, maravilhados com Ella e com sua voz, estão Duke Ellington, à frente, e, mais atrás, Benny Goodman. E o que dizer do ponto luminoso entre o pescoço e o ombro dElla?

Dexter Gordon

Acima, a foto mais famosa feita por Herman Leonard. Dexter Gordon, um dos gigantes do sax tenor, à espera de que o show tenha início, no Royal Roost Club, em Nova Iorque. Dexter parece parado no ar, a fumaça do cigarro envolvendo-o. Atrás, o baterista Kenny Clarke. O próprio Leonard afirmou que a fumaça fazia parte da atmosfera do momento e dramatizava o instantâneo, o momento eternizado. É uma foto sensacional, de 1948. Em 1953 – abaixo -, o encontro entre o saxofonista Sonny Stitt e o sempre ótimo trompetista Dizzy Gillespie, alguns anos antes do histórico disco que reuniu os dois + o extraordinário saxofonista Sonny Rollins. Stitt, olhar absorvido, é o que há de melhor na foto.

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Sonny Stitt, Dizzy Gillespie

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Duke Ellington, Billy Strayhorn

Coleman Hawkins

Hawkins foi uma escola, uma tendência que trouxe à superfície um grande número de não menos grandes seguidores. O citado Sonny Rollins foi um deles. Esse close parece expressar a seriedade e a dedicação com que o enormíssimo sax tenor executava seu instrumento. Claro: não é prerrogativa sua. Muitos foram tão dedicados quanto ele, mas somente o velho Coleman teve o privilégio desse registro tão autêntico, tão verdadeiro. O mesmo se pode dizer de outro grande músico – o trompetista Fats Navarro (de quem sou fã). A fumaça, tão cara ao ambiente jazzístico, parece brotar das válvulas do instrumento, proporcionando a fusão entre imagem e som. Esta é outra foto seminal.

Fats Navarro, NYC, New York, 1948

Fats Navarro

Herman Leonard morreu em 2010, de causa não revelada. Um serviço: AQUI é possível visualizar inúmeras de suas fotos. O tema, claro, é o jazz e quem o produziu.

Campeão peso médio do sax

Imagino-me numa armadilha: escolher quem foi o melhor saxofonista com quem Miles Davis trabalhou. Charlie Parker seria a resposta óbvia: o próprio Miles diz isso em sua biografia, mas com Bird a coisa se deu ao avesso do que quero perguntar. Ou seja: Miles foi sideman de Parker. Quero saber quem foi o melhor saxofonista dos muitos sidemen do grande trompetista. A lista é boa: John Coltrane, Wayne Shorter, George Coleman, Cannonball Adderlley, Bill Evans, Joe Henderson, Sam Rivers, Eddie Lockjaw Davis, Dave Liebman, Sonny Rollins, Stan Getz, Sonny Stitt, Lee Konitz, Gerry Mulligan. Há mais, mas a memória me falha. Bem, os citados John Coltrane, Sonny Rollins, Stan Getz e Gerry Mulligan não contam. São tão absolutos quanto Miles, criadores únicos, líderes por natureza e dever.

Resultado de imagem para miles davis CARNEGIE HALLE os que “sobram”? Desses, para mim, o que melhor acompanhou Miles, o que melhor fraseou com ele, capturando a genialidade do mestre, foi Hank Mobley, cujo sopro e performance conheci no disco ao lado, ao vivo, selo Columbia. Mas não se engane: Hank só trabalhou com Miles em estúdio num disco – e que disco! -: Someday My Prince Will Come, de 1961. Ao vivo, além do citado exemplo do Carnegie Hall, há outro discaço: In Person: Friday and Saturday Nights at the Blackhawk. Nesses discos é possível ouvir a precisão melódica que fez o crítico Leonard Feather afirmar que Hank Mobley era o campeão peso médio dos sax tenores.

Veja só! Apenas um disco em estúdio pode ser parâmetro para considerar um som superlativo? Pode. Claro que é um juízo subjetivo, uma visão particular sobre o desempenho de um artista. Seria muito mais fácil, e possivelmente mais efetivo, se eu avaliasse performances de Wayne Shorter, tenor presente em pelo menos cinco álbuns de estúdio e um ao vivo. O som musculoso de Hank Mobley, herança do hard bop que ele tanto amou e praticou, combinou muito adequadamente com o fraseado cortante de Miles (ao menos no disco ao vivo), algo um tanto distante do jazz modal de um Kind of Blue, por exemplo. É só ouvir AQUI.

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Hank gravou 35 discos como líder – 25 deles (em 16 anos) pela Blue Note, a gravadora que lhe deu liberdade para criar e para escolher os sidemen. Foi um criador quase tão prolífico quanto John Coltrane, e muitos críticos o consideravam tão inovador melodicamente quanto seu ídolo, Sonny Rollins. Esta postagem, entretanto, é para falar de um Hank Mobley específico, sideman de Miles Davis, aquele que foi além de um acompanhante. Para mim, norteou muita coisa que Miles fez, mesmo que durante pouco tempo. Enfim, não há necessidade de extensão temporal para que a genialidade se expresse. AQUI, um apanhado de duas horas e meia de grande som. Do grande Hank Mobley.

 

Elvis, Nixon, comédia

A foto acima foi feita em 21 de dezembro de 1970, na tal da Casa Branca, onde morava Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos. É o indivíduo à esquerda de quem vê, de terno. O outro, evidentemente, é Elvis Presley, o maior vocalista do rock, chamado The King, um dos ícones do século que passou. Esse encontro improvável, quase bizarro, só aconteceu por insistência de Elvis, que queria, sabe-se lá por quê, tornar-se agente federal. Sim, queria uma insígnia – a qual ele nunca usou – para, oficialmente, servir ao seu país, como cana. Esse estranhíssimo encontro gerou a foto acima, fez vender milhões de jornais pelo mundo todo e o que é melhor: rendeu uma das melhores comédias a que assisti nos últimos tempos: Elvis & Nixon.

É claro que pouco se pode afirmar como realmente aconteceram os diálogos entre as duas personagens, de modo que a liberdade criativa fez vir à tona a possibilidade de que tudo tenha acontecido exatamente como se mostrou. Ou seja: há 50% de chances de o filme representar a realidade – o que o torna ainda mais cômico. o Nixon de Kevin Spacey só não rouba o filme porque o Elvis de Michael Shannon é duro na queda – e protagoniza ao menos duas cenas hilárias: ao falar mal dos Beatles (principalmente de Lennon), uma cena rápida, de poucos segundos, e ao expor suas habilidades marciais, com gritos à Bruce Lee. Tanto Elvis Presley quanto Richard Nixon eram malucos, cada um a seu modo, cada um com sua obsessão.

Outra cena (não posso esquecer): Elvis entrando numa lanchonete carregada de simpatizantes dos Black Panthers – e interagindo bem com eles. Uma ironia retumbante num filme repleto delas: a trilha sonora ignora, também retumbantemente, Elvis Presley. Estão lá a banda Credence, os cantores Sister Rosetta Tharpe e Ottis Redding e, claro, quem foi contratado para fazer boa parte da trilha: Ed Shearmur, adorador de rock e de Elvis. Há alguém que não seja? Pois é. Outra ironia: Nixon fora apelidado de Tricky, algo como ardiloso, manipulador. Este Richard Nixon não existe no filme. Ao contrário: mostra-o subserviente à filha de 22 anos – fã de Elvis, claro -, devorador de M&M’s e impotente diante de um indivíduo tão doido quanto indiferente a protocolos.

No filme, Elvis também tem suas fraquezas. É um dependente de Priscilla, a esposa, e de Tom Parker, o “coronel”, seu empresário. Mas são situações sutis, assim como expõe, também sutilmente, a grande amizade entre Elvis e Jerry Schilling, devoto do astro antes de ele ser quem foi. É uma comédia irrepreensível – exceto para aqueles que têm como referência as bobagens de Pânico na TV e pseudoartistas insossos e apelativos como Danilo Gentilli e Rafinha Bastos. Para esses não recomendo o filme. Vão achá-lo uma chatice.

Ivan: fundamental, humano

A pergunta que um escritor faz quando um outro escritor se vai: quem vai escrever, agora? Quem usará as palavras como elas eram usadas? Quem possuirá o critério, a ordem, a disposição, a linguagem? São perguntas que, sem uma resposta que as defina com exatidão, ficam em nossa memória durante tempos, épocas. E quando o escritor que se vai é mais que um escritor? É um amigo, um professor, um companheiro que ensina e nisso não se cansa? E, mais ainda: e quando esse amigo, escritor e professor é Ivan Borgo, que me deixou um tanto órfão – eu que já o sou, de pai e mãe, há 22 anos – a ponto de me sentir obrigado (e, dessa forma, melhor) a tentar contar e escrever sobre ele?

Vimo-nos pela última vez há alguns meses, num dos sábados da Logos, a livraria que resiste em Jardim da Penha em particular, e na ilha como um todo. Assim que cheguei – o estardalhaço é minha defesa contra a timidez -, Ivan recebeu-me com a gargalhada que lhe era peculiar. Eis aí a aquiescência: eu poderia ficar a seu lado e consumir suas pequenas vilanias vocabulares, suas apreciações literárias, tão audíveis quanto saborosas. Podia, ali, aprender a ver, nos textos, além do que se pode ver em nua visão. Justo eu, que me orgulho de minha profissão, que me incita a ver sempre além. Aprendi com Ivan muito mais do que aprendi nos livros.

Os sábados não serão mais os mesmos. Serão domingos chuvosos, trovejantes, de péssimo humor. Ou talvez devamos fazer exatamente o contrário: como Ivan se comportaria diante de uma adversidade que, por si só, é inevitável? Acho que, provocado pela intempérie, balançaria seu corpo numa risada. Uma risada daquelas de cinema, de filme sobre mitologia, quando um deus poderoso se mostra rindo das bobagens que a humanidade produz. Ivan era tudo isso: mitológico, sorridente, engraçado.

Sou – recuso-me à perfeição pretérita – amigo de Ivan desde que soube de sua existência, por intermédio de meu falecido pai, seu amigo. Ivan foi aluno de minha avó Emília, a quem não conheci em carne e osso. O que isso quer dizer? Para muitos, nada, mas sempre senti que havia algo de familiar em nossa distância de 33 anos, algo que eu nunca poderia presumir, mais tarde, ser tão fundamental e humano. Aliás, esses são, a meu ver, os adjetivos que definem Ivan Borgo: fundamental e humano. Uma peça essencial a essa engenharia que é vida, e sempre será. Vá em paz, meu amigo!

Marilyn, 55 anos depois

Há 55 anos Marilyn Monroe morreu. Possivelmente o maior ícone feminino do século que passou – e um dos mais relevantes da História. Quem rivaliza com ela? Cleópatra, Lucrecia Borgia, Maria Madalena, Joana D’Arc.? Calma, não falo de relevância política, social, humana. Falo de popularidade, e muita gente pode afirmar que o cinema, sendo ele o habitat de Marilyn, tenha facilitado a difusão de sua imagem. Claro que facilitou – e daí? Continua sendo um ícone incontestável. Não tinha tantos recursos dramáticos, é bem verdade, mas não era esse seu papel. Não se ia ao cinema para ver e avaliar a capacidade dramática de Marilyn Monroe, mas o que ela possuía de transbordante e fundamental: charme, beleza, sensualidade, tesão. Quer saber, sinceramente? Sendo ela quem era, por que se preocupar com atividades secundárias como atuar e decorar falas?

Billy Wilder, diretor com quem trabalhou na melhor comédia de todos os tempos, Quanto Mais Quente Melhor, em 1959, dizia que fazer Marilyn atuar era como extrair um dente. Não devia ser fácil mesmo, já que a moça possivelmente sabia que sua canastrice não interferia nas reações que provocava em qualquer ser humano com quem convivesse – homens e mulheres. Era um vulcão eruptivo 24 horas por dia, e essa afirmação pode ser interpretada tanto positiva quanto negativamente. O craque do beisebol Joe DiMaggio e o escritor Arthur Miller, dois de seus maridos – cada um a seu tempo, evidentemente -, concordavam nesse ponto. Não foram capazes de controlá-la, de lhe colocar moldes. Tentaram amansar seu comportamento e, ainda bem, foram absolutamente incompetentes na empreitada.

Dizem que se envolveu com homens errados, algo que lhe trouxe consequências tenebrosas: desde perseguição e tortura psicológica a frustrações de ordem sexual e afetiva. A imprensa, como acontece a qualquer estrela, esperava pelo deslize, e amplificava-o de tal sorte que não havia como questionar a veracidade do exagero. Marilyn Monroe sofreu com isso, e não soube se defender. Não havia, também, quem a defendesse, quem fosse capaz de enxergar o ser humano frágil vestido com a carapaça da deusa imortal, bela como se desenhada.

55 anos depois, Marilyn Monroe continua por aí. Comenta-se sobre ela como se ainda estivesse entre aqueles que nem a conheceram, que não assistiram a seus filmes, que não sabem que o pecado mora ao lado, que ignoram a preferência dos homens pelas louras ou que nunca ouviram dizer que os diamantes são os melhores amigos das mulheres. Marilyn ficou para sempre, no imaginário, na fantasia, nos filmes que se repetem à exaustão – não à exaustão daqueles que compreendem o que significam o mito e sua perpetuação. 55 anos depois, mesmo tendo minha idade (meu nascimento se deu quatro meses antes de sua morte), Marilyn Monroe continua sendo quem nunca deixou de ser.

Mais ausentes: Arreola, Brautigan

Juan José Arreoladeu as caras por aqui, no Ipsis. Mas por que retorno a ele? Pelo mesmo motivo que me fez escrever sobre Donald Barthelme, há poucos dias: a ignorância das editoras brasileiras em relação a alguns autores essenciais. Essenciais a quem? Eis a questão. É difícil afirmar que um determinado autor é mais representativo do que outro, exceto quando é uma assertiva óbvia. Tolstoi é mais importante que Rubem Fonseca? Sim. E assim por diante. Mas não é esse o ponto. A questão reside na dúvida: por que Juan José Arreola, assim como Barthelme (e outros), é praticamente autor inédito no Brasil?

O advérbio em itálico se faz necessário, já que em 1969 veio a público a edição de Confabulário Total, uma reunião de seus contos até 1961. Depois disso, até onde sei, somente em 2015, uma edição menorizada desta obra-prima chega aos olhos dos brasileiros. Arreola, mexicano, tão importante quanto os conterrâneos ilustres e justificadamente badalados Juan Rulfo e Carlos Fuentes, não escreveu muito literatura – e nem precisava mais. Já havia escrito o suficiente para eternizá-lo. Tem uma novela (La Feria, 1963) e Palíndroma, 1971. Não li nenhum dos dois – ainda. Os livros Bestiário, Confabulário, Vária Invenção e Prosódia estão – ainda bem! – em Confabulário Total, o que faz deste livro uma avis rara.

Outra figura ausente nas traduções para o português é Richard Brautigan, ícone contracultural, escritor de primeira – mas não de fácil leitura (não foi, para mim). Para não dizer que nada existe dele editado no Brasil, há uma edição de Pescar Truta na América feita pelo saudoso José J. Veiga, ed. Marco Zero, 1991. Diferentemente da prosa de Arreola, algo poético e que beira o real-maravilhoso, a prosa de Brautigan assemelha-se a um pesadelo, um emaranhado de imagens conectadas de forma aparentemente aleatória, mas só aparentemente. É uma aventura intelectual e emotiva lê-lo. Um convite a tirar os pés do chão e sair num voo cego, como ele mesmo faz. Não, meu sétimo leitor, não estou exagerando. Tenho dele A Confederate General from Big Sur, Dreaming of Babylon e o ótimo The Hawkline Monster, um faroeste contemporâneo. Quer saber? Já pensei em me aventurar na tradução, mas desisti. Não me sinto apto.

Richard Brautigan suicidou-se aos 49 anos. Não aguentou a mudança de temperatura: se nos anos 1960 foi aclamado como um deus literário por uma juventude transgressora e pacifista, na metade da década seguinte experimentou o ostracismo, foi deixado de lado, viu a fama expirar. Entupiu-se de álcool e, vivendo sozinho, após uma série de casamentos fracassados, atirou contra a própria cabeça. Foi encontrado um mês depois, o corpo decomposto, algo bastante contraditório com sua prosa, quase zen budista, alegre, adolescente (no bom sentido), mas seca como um parágrafo de Hemingway. É uma ausência sentida, em todos os sentidos. Ei-lo:

 

 

P. Q. P. Bach, um site

Há uma anedota que se mantém durante algumas gerações de interessados em música erudita (ou clássica). Seguinte: Beethoven , o Grande, morre e, evidentemente, vai para o céu. Lá, diante de São Pedro, o Porteiro Celestial, o velho Ludwig lhe pergunta sobre Bach, Johann Sebastian, esse mesmo, o mais importante compositor da música. São Pedro, num dia de maus fígados, diz-lhe, um tanto rabugento, para procurar por si mesmo. Beethoven perscruta o céu durante horas, procura o Mestre em cada canto, em cada alameda, escadaria, rua, estabelecimento. Não encontra. Pronto para desistir, enxerga, ao longe, J. S. Bach, a quem tanto queria conhecer, montando serelepe uma bicicleta, rindo como um livre e leve pré-adolescente despreocupado. Beethoven, emocionado, aos pulos, grita a São Pedro: “Veja! Lá está Bach! Achei-o, achei-o!” O Porteiro, entretanto, adverte-o: “Fique quieto, rapaz, ssshhhh! Aquele é Deus! O problema é que Ele pensa que é Bach!”

Pois bem, a anedota não é ruim, penso eu, e denota bem a importância do velho Kantor, a maior personalidade da Arte. Não, não vou repetir o que já se disse – e ainda se diz e muito se dirá – sobre esse senhor que, ontem, fez 267 anos de morto. Na verdade, essa postagem vai além disso. É uma divulgação dirigida a quem aprecia música erudita. Ou clássica, como querem muitos. Não sei se algum de meus poucos leitores têm interesse no assunto. Se têm, aí vai a grande dica: NESTE SITE é possível ter contato com a excelente música – sem contar as postagens, carregadas de ironia e informação precisa, fundamental. O próprio nome do site já é um achado. Frequento-o faz alguns anos. Vale checar. Divirtam-se!

34 anos sem Buñuel

No filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, há algumas cenas em que a personagem Gil Pender, vivida por Owen Wilson, encontra o cineasta Luis Buñuel. Se você viu o filme, sabe que a personagem retorna, sem qualquer explicação – ainda bem! – no tempo parisiense (anos 1920) e lá mantém contato com o que se chama a Geração Perdida: vários artistas estrangeiros que foram viver na capital francesa (Hemingway, Picasso, Scott Fitzgerald, Matisse, Dalí, Gertrude Stein, T. S. Eliot, Cole Porter). Numa das cenas dos citados encontros com Buñuel, Gil Pender lhe dá a ideia para um de seus grandes filmes: O Anjo Exterminador, um clássico do Surrealismo, um soco no estômago da aristocracia ocidental.  Mas por que estou falando em Luis Buñuel?

Porque hoje faz 34 anos que esse gênio do cinema morreu – e porque O Anjo Exterminador é, dentre outras obras-primas desse senhor, meu filme preferido. AQUI, um trecho. Buñuel não é uma unanimidade – ao menos não para mim. Em bom vernáculo: não aprecio todos os seus filmes (a que assisti), mas isso é irrelevante, porque se está diante de um diretor que não segue qualquer padrão, a não ser aquela estética que ele se atribui numa determinada película, num específico momento. Talvez esse seja seu grande patrimônio, essa multiplicidade de formas, essa versatilidade de conteúdos.

Dia desses, curtindo o recesso escolar, revi Tristana e A Bela da Tarde, numa tacada, em devedêConfesso que Catherine Deneuve foi o grande motivo de eu estar diante da tevê, tentando me lembrar de como reagi a meu début diante desses filmes, de como isso foi algo epifânico porque me fez querer assistir a tudo o que o espanhol havia produzido, sem exceção. Daí, ao me deparar com a obra-prima, com o absurdo/possível do filme O Anjo Exterminador, com toda a simbologia religiosa do cordeiro a ser sacrificado, com a condição frágil de uma aristocracia em apuros, com o desespero pela sobrevivência (algo que equaliza os homens), com a ebulição instintiva que precisa apenas de um empurrãozinho para se manifestar, tornei-me aquilo que chamam popularmente de fã.

Li Meu Último Suspiro, sua autobiografia, logo que foi editado no Brasil, pela Nova Fronteira, nos anos 1980. Um livro divertido, embora o leitor que aprecie (e tenha visto) alguns filmes de Buñuel compreenda melhor o que ele afirma e o que pensa – principalmente sobre si mesmo. Creio que a ideia de um último suspiro seja algo reflexivo, que se volta para quem expira. Uma pena realmente que Luis Buñuel tenha feito isso conosco. E com o cinema, principalmente.

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