Respostas do Desafio #2

Temos um vencedor do prêmio. Na verdade, vencedora: Gabriela Brown, que acertou as 3 perguntas e pode escolher o prêmio. Além deste veículo, será avisada também por whatsapp. Confesso que não imaginei que as respostas viessem tão rapidamente. Isso é bom.

Eis as respostas oficiais do desafio, que está ENCERRADO.

1) O músico em questão é BOBBY HACKETT. O instrumento é o TROMPETE. Se quiser pesquisar mais sobre a resposta, eis o link: https://en.wikipedia.org/wiki/Talk%3ABobby_Hackett

2) As canções Jorge Maravilha e Gota D’água não sofreram interferência da censura em suas letras. Embora Gota D’água, no texto dramático original homônimo, exponha, na estrofe inicial,

“Já lhe dei meu corpo / não me servia (…)”

foi o próprio autor que optou por, no disco de 1975, intitulado Chico & Bethânia ao vivo, modificar o verso, tornando-o: “Já lhe dei meu corpo / minha alegria (…)”

Jorge Maravilha, escrito por Chico sob pseudônimo de Julinho da Adelaide, não sofreu modificações em sua letra. Mais tarde, chegaram a dizer que a canção havia sido escrita para Amália Lucy, filha do presidente/general Ernesto Geisel. Um erro, inclusive cronológico. Geisel assumiu em 1974, e a canção é de 1973.

3) Pela ordem:

1. Sérgio Augusto 2. Ricky Goodwin 3. Jaguar 4. Ivan Lessa 5. Ziraldo

Desafio do IPSIS #2

IPSIS LITTERIS comemora sua 150ª postagem.

150 postagens sobre música, literatura, cinema, quadrinhos, esporte, política, arte, comportamento – e tudo priorizando o leitor adulto. Em outras palavras, é um blogue pouco lido, mas isso não chega a ser um problema. Vamos em frente assim mesmo, sendo mais ignorado do que reconhecido. Quando este blogue chegou a 100 postagens, propus um desafio, que consistia NISSO. Houve um ganhador, cujo nome é Vítor Sarmento, e que nunca veio buscar o prêmio. Aliás, desapareceu deste blogue, embora eu tenha comunicado a ele, nos comentários, que o sucesso bateu à sua porta. Ao que me consta, hoje, após tanto tempo, o prêmio prescreveu. Talvez não.

Comemorando a tal 150ª postagem, aí vai a segunda edição do DESAFIO DO IPSIS. Três perguntas. Quem acertar as três respostas – é necessário que sejam as três! – ganhará UM (e apenas um) dos prêmios abaixo, a escolher:

1) o blu-ray do filme Vinícius de Moraes, de Miguel Faria Jr, devidamente lacrado e selado.

2) 4 livros: um exemplar do livro Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular (biografia) + um exemplar de Fama Volat (romance) + um exemplar de Todas Elas, Agora (contos) + um exemplar de Licantropo (contos). Todos, evidentemente, de minha autoria. 

                         

3) Um voucher no  valor de 100 reais na loja Amigos do Vinil, situada no Shopping Praia da Costa. Fica em frente à C&A. Caso você, vencedor do desafio, não seja adepto do vinil, há, nessa mesma loja, camisas, livros e cedês à disposição. O voucher vale para tudo.

A imagem pode conter: 1 pessoa, sapatos e área interna

DESAFIO

1) Um músico de jazz, conhecido por ser um gentleman que não destinava a ninguém uma crítica, foi abordado por dois amigos, também músicos, que resolveram lhe perguntar qual sua opinião sobre Hitler. Imaginaram, claro, que tal músico/gentleman não teria como falar de Hitler sem criticá-lo. Equivocaram-se. A resposta, elegantíssima, foi: “Indiscutivelmente, Hitler foi o melhor em sua especialidade”. Qual o nome desse músico e qual o instrumento que ele tocava?

2) Chico Buarque de Holanda é um dos grandes compositores da MPB. Para muitos, o maior. Durante muito tempo, principalmente entre 1968 e 1975, sofreu ataques frontais da censura, o que, em muitos casos, obrigou-o a modificar letras de algumas canções. Na lista a seguir, duas canções NÃO sofreram modificações (por conta dos censores) em seus versos. Quais? O Meu Amor, Tanto Mar, Jorge Maravilha, Bárbara, Vence na Vida Quem Diz Sim, Gota D’Água.

3) A ilustração/foto abaixo apresenta a famosa entrevista de alguns integrantes do famoso tabloide O Pasquim com o jornalista Carlos Castelo Branco, identificado com o número 6. Identifique os senhores marcados com os números 1, 2, 3, 4 e 5.

Não, não é fácil. A validade para as respostas do desafio vigora até dia 11/05/2020. Ou seja: quem quiser responder terá 7 dias para fazê-lo.

O Grande Musical

🥇 Voir film Amor, Sublime Amor 1961 en Streaming - Dublado e ...Se você se der o trabalho de, ao entrar neste blogue, olhar, à direita, encontrará um widget nomeado filme do mês. Neste 1º de maio, dia do trabalhador, em vez de escolher filmes como Novecento, de Bertolluci, ou A Classe Operária vai ao Paraíso, de Elio Petri, ou ainda Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman, preferi colocar West Side Story, dirigido por Robert Wise. Para mim, o melhor musical já feito. Pois é: nada tem a ver com a data tão significativa. Mas vou adiante: quem ainda assiste a musicais?

Fiz essa pergunta a alguns amigos. A maioria não só não assiste a musicais como não gosta deles. Alguns se lembraram de Grease, mas foi só. Questionei: e Hair, O Baile, Moulin Rouge? Não somos tão velhos, disseram. Eu, ao longo de minhas centenas de anos, cheguei a escrever sobre um ótimo musical: Robin Hood de Chicago. Além de ótimas cenas hilárias, conta com 3 dos mais importantes cantores populares dos Estados Unidos: Sammy Davis, Jr, Frank Sinatra e Bing Crosby. Pode conferir, AQUI. E quanto a West Side Story, que, por aqui, foi traduzido como Amor Sublime Amor? Resumindo: Romeu e Julieta no século XX; duas gangues rivais na Upper West Side de NY dos anos 1960: os Sharks, porto-riquenhos como os Capuleti, e os Jets, anglo-saxões como os Montecchi

A história de amor proibido você conhece. A tragédia que se anuncia também. Como o extraordinário musical que é, as coreografias são, por isso, tão extraordinárias quanto. Duas delas merecem estar no panteão das grandes imagens de Hollywood. A cena de abertura tem nove minutos. Sim, você precisa gostar muito de musicais. E deste blogue também. Confira, se tiver paciência!

E, claro, a minha preferida, America, em que o grupo de imigrantes de Porto Rico se divide entre atacar e defender o american way of life, bem como vencer as dificuldades de ser estrangeiro num país que olha somente e sempre para si mesmo. A mulher de roxo, sensualíssima, chama-se Rita Moreno e, no apogeu de sua beleza balzaquiana, tornou-se inesquecível. Ao menos para mim. No filme ela é Anita, namorada de Bernardo, interpretado por George Shakiris (terno preto e camisa lilás). Uma cena bem-humorada, uma crítica aos EUA, um espetáculo visual. Tem 4 minutos e meio: metade da cena anterior. O filme ganhou 10 Oscars. Não sei se isso quer dizer muito, para você. Disto eu sei: essas duas cenas escolhidas significam muito para mim.

Filmes (re)vistos #4: Encontrando Forrester, 2001

Imagine um filme que abre mão de seu fundamento – a imagem – para homenagear uma prima próxima, que lhe sustenta e protege. Essa prima, muitas vezes rabugenta, vive dizendo que o primo tropeçou aqui e ali, que não devia ter feito algo, que foi ingênuo quando deveria ser malicioso. Sim, a prima é a literatura. Mas antes que se pergunte, saiba que não estou falando de filmes que se baseiam em textos literários, mas sim de filmes que têm a literatura como trama, enredo, motivo. Encontrando Forrester, um dos bons filmes a que assisti – e que ontem revi, in quarentena -, é uma dessas películas.

Agora imagine a amizade entre dois homens marcados por enormes diferenças as quais se anulam por conta de um elemento que os une: a literatura. Um é brilhante escritor de um livro só, interpretado por Sean Connery. O outro é um prodígio tanto da execução literária quanto da crítica (Jamal Wallace, interpretado por Robert Brown), um gênio que dirige a genialidade para o texto, seja criando-o, seja avaliando seus pormenores. Adicione aí dois ingredientes quase irônicos: o garoto genial divide seu amor entre a literatura e o basquetebol. O escritor descobre o amor por aquilo que faz através do garoto. Não, não é nada simples, embora pareça.

Há dois outros personagens no filme: o professor racista e inseguro – e justamente por isso pedante e legalista – interpretado com brilhantismo por F. Murray Abraham, e a própria literatura, personificada.  Há uma ideia, errada a meu ver, de que o diretor, Gus Van Sant, repetiu a fórmula mestre/pupilo, já retratada em outra película também sua, Gênio Indomável. Por que considero erro? Porque em Encontrando Forrester, os papeis se invertem, e aquele que deveria ser o mestre – e ensinar, portanto -, torna-se pupilo, e compreende isso, no desfecho do filme, diante de um público que abominava, formado por críticos, professores e alunos – ou seja, leitores.

Encontrando Forrester - Filme 2000 - AdoroCinema

Revi o filme com aquele prazer que apenas a literatura e o cinema, combinados, proporcionam. Torci mais uma vez para que o professor racista fosse punido, para que o cativo escritor retomasse sua carreira, e para que o rapaz, para quem a literatura tem um poder libertador, finalmente entrasse no mundo das letras como escritor. Se você, que está lendo este texto, não assistiu ao filme, relaxe. Eu não contei, de fato, o final.

Vonnegut, Rabo, Arte

Já disse algumas vezes: gosto de reler livros, principalmente aqueles que, sei, ajudam-me a criar tramas e a construir personagens. Já adianto que nunca li qualquer livro meu. Escrevi-os, apenas. Mas não é sobre isso que quero falar. Já mencionei um dos meus autores preferidos – e uma de minhas obsessões -: o norte-americano Kurt Vonnegut, Jr. Dediquei a ele postagens aqui, neste blogue. Um de seus livros, traduzido como Barba-Azul, publicado por aqui em 1988, está sendo relido. Veja só que coisa: há 32 anos eu não era o que sou hoje. Exemplo: nessa época eu não era pai – e isso faz uma enormíssima diferença. Tinha mais cabelo, menos abdômen e só conhecia a realidade de 1 casamento. Quer mais? Chega.

Mas aonde quero chegar? Ano passado, o romance Fama Volat – meu último livro, até agora! – foi publicado. A história gira em torno de um duplo homicídio ocorrido na Praia do Canto. Uma das vítimas é uma marchande, de nome Simone Carpeaux. Exponho, dentro de minhas limitações, o mundo da arte plástica (colecionadores, mercado negro, artistas, vaidades, usurpações, comerciantes) conectado a uma trama policial. Mas e o que Vonnegut tem a ver com isso? Barba-Azul, o romance citado, é a autobiografia de Sarkis Karabekian, pintor do Expressionismo Abstrato que resolve contar a história de sua vida.

No livro de Vonnegut, figuras essenciais do movimento como Jackson Pollock e Mark Rothko tornam-se matéria de crítica, assim como o próprio movimento per si. Como a origem do narrador é armênia, o massacre desse povo pelos turcos é pano de fundo da história. O tom humanista de Vonnegut é agudo e certeiro, dá para se aprender muito com ele, desde que o leitor esteja disposto a isso. Sim, merece ser lido e relido. Em tempo: por que a palavra Rabo, no título da postagem? Porque a personagem-narrador Sarkis Karabekian só existe na tradução brasileira. No original, seu nome é Rabo Karabekian. Chegue à óbvia conclusão!

Rabo/Sarkis é caolho, lutou na Segunda Guerra, recebe dinheiro do governo, mora num local chique e tem um celeiro, onde guarda um grande segredo – assim como Barba-azul, que mantinha cadáveres das ex-mulheres num quarto trancado a tantas chaves. É amigo de escritores e resolve contar a história de sua vida baseando-se na ideia de que pintura e literatura são artes irmãs. Vale ler, sim. Reler, então, nem se fala!

Roberto, Erasmo e O Bofe

Hoje é dia 19 de abril e o cantor e compositor Roberto Carlos faz 79 anos. Na estrada desde 1961, esse conhecidíssimo senhor já não tem a potência de antes, mas consegue disputar público com duplas sertanejas, padres cantores e funkeiros iletrados. Mantém inatacada a fidelidade de seu público, praticamente não faz shows e tem a seu dispor um grupo de músicos de primeiríssima linha. Não sou fã, mas respeito o trabalho do distinto. E, mesmo não sendo fã, tenho alguns discos em que o talento dele é posto à prova. E passa de ano, com louvor.

Como este blogue, todavia, não suporta os clichês, resolvi falar de um disco especial: a trilha sonora de O Bofe, que não apresenta a voz afinada de Roberto Carlos. Por quê? Porque todas as canções são interpretadas por outras cantores: Jaques Wu, Osmar Milito, Elza Soares, Os Vips, Nelson Motta e mais alguns menos votados. É um disco bem feito, suingado, há algo de soul nele, há algo de rock – tudo misturado, claro. Aquilo que os críticos chamam de música romântica, marca registrada de Roberto, não predomina. Ah, não consta da discografia da dupla Roberto/Erasmo. Isso faz dele ainda mais especial. Se quiser ouvir o disco, CLIQUE AQUI.

Em frente ao coqueiro verde

Não há canção ruim neste elepê, e não falo apenas de gosto pessoal. Letras bem armadas, irônicas, ligeiras, debochadas. Os arranjos? São simplesmente elaborados por Waltel Branco, que trabalhou com Tim Maia, Marcos Valle, Flora Purim, Rosa Passos. Acha pouco? Então lá vai: Chico Hamilton, Dizzy Gillespie, Henry Mancini, Sergio Mendes e João Gilberto, além de ser um dos responsáveis pela trilha de A Pantera Cor de Rosa. Está bom, não? E quem produziu o disco foi Eustáquio Sena, que ficou conhecido como produtor do mais importante – segundo a crítica especializada – disco de música brasileira: Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Eustáquio canta a faixa Perdido no Mundo.

Ficheiro:O bofe - nacional.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Tenho pouca recordação da telenovela. Lembro-me de Ziembinski vestido de mulher e de Claudio Marzo barbudão. A trilha vim a conhecer uns quinze anos depois, quando, já mais amadurecido, deixei de falar que telenovela é alienação e que suas trilhas sonoras prestam-se unicamente a vender bobagens que vão povoar lares incultos. E passei também a reconhecer o talento de Roberto Carlos, antes relegado a cafona, ultrapassado, chato. Merece os parabéns, também pelo aniversário.

Abril, 13 (o cabotinismo)

Sabe o que o psicanalista Jacques Lacan, o filósofo e crítico literário Georg Lukács, o dramaturgo Samuel Becket, o poeta Seamus Heaney, o cantor Al Green, o compositor e cantor Sérgio Sampaio, o campeão de xadrez Garry Kasparov, o guitarrista Hillel Slovak e eu temos em comum? A data de nascimento: o décimo terceiro dia de abril. Sim, completo 58 anos hoje.

Como mando e desmando neste espaço, dedico a mim o conteúdo – especificamente a meus livros, e mais especificamente ainda aos 3 que ainda estão em circulação, sendo vendidos em livrarias (sim, ainda existem) e, principalmente, pela internet. Clicando nas capas abaixo, o leitor (sim, ainda existe) obterá informações escolhidas sobre as obras. Sim, sou cabotino.

2016, biografia
2013, contos
2019, romance

Quer informações sobre meus outros livros? Clique em O CHEFÃO, lá em cima, à direita. Ou AQUI. Dá na mesma.

200 anos da Vênus

A Vênus de Milo é – provavelmente! -, ao lado de David, Moisés e Pietá, todas do gênio Michelangelo, a obra escultural mais famosa que há. Michelangelo era escultural até no nome: Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Uma beleza, um monolito vocabular. A Vênus bate O Pensador, de Rodin, a Vitória de Samotrácia, o Lincoln, de Chester. Não se sabe ao certo quem produziu a Venus de Milo, mas afirmam os estudiosos que ela brotou das mãos engenhosas de Ἀλέξανδρος . Em bom português, Alexandre de Antioquia, escultor daquele período de pouco mais de 450 anos chamado helenístico. O tal Alexandre não fez muita coisa mais. A Vênus é esta mocinha aí embaixo, conhecidíssima:

The Venus de Milo: an inspiring piece of art - Rumor Ex Mundis ...

Difícil ignorá-la. Já foi estampa de camisa, peça publicitária, enredo literário, souvenir, peça de xadrez, modelo para pintores aprendizes, talismãs, anedotas (sobre roer unhas), já virou brinco, pingente, chaveiro. É realmente uma peça popular que, há 200 anos, encanta quem resolve pagar 17 euros para apreciar os quase 73 mil m² do Museu do Louvre, em Paris. Isso, claro, antes do vírus. Sim, 200 anos que foi descoberta (num dia 8 de abril), mas é provável que, como muitas mulheres – e muitos homens também -, esconda a verdadeira idade: a Vênus tem 2000 anos a mais.

Vi essa moça no Louvre, em 1994. Tem 2 metros de altura e certamente não perdeu a pose nesses 26 anos. É imponente, marmórea, esbranquiçada, necessita de cuidados e é, por isso, paparicada ao extremo. Pareceu-me, quando nos vimos pela primeira e única vez, ignorar a presença de quem quer que seja, mantendo-se Vênus, deusa da beleza, intocada mas nem por isso deixando de despertar desejos (alguns obscuros, imagino) em quem, diante dela, resolve fitá-la. É uma experiência necessária. Ah, só para constar: Milo é um local; na verdade uma ilha vulcânica situada no arquipélago de Cíclades, no Mar Egeu. Não, não estive lá. Não conheço a Grécia, mas a internet conhece.

Sarah: a mais completa, em 3 discos

Mais um pouco sobre jazz. Já comentei, aqui mesmo neste espaço, que a Santíssima Trindade do vocal feminino, no gênero, é composta por Ella Fitzgerald, Carmen McRae e Sarah Vaughan. A maioria discorda: dizem que Billie Holiday é mais cantora que Carmen, tem mais charme, mais carisma e é mais afinada. Quanto ao carisma e ao charme, eu não discuto, porque são avaliações pessoalíssimas. Mas parece-me difícil avaliar quem, entre as 4 citadas, é a mais afinada. Eu não sei. Acho que empatam. Deixando de lado, contudo, as comparações (mas contraditoriamente as mantendo), dedico esta postagem àquela que considero a mais completa: Sarah Vaughan, que nos deixou num dia 3 de abril, há 30 anos.

Sarah Vaughan, Birdland, NYC by Herman Leonard on artnet

Difícil dizer qual o melhor disco de Sarah Vaughan. Oficialmente, ela gravou 50 álbuns em estúdio e 8 álbuns ao vivo. Existe pelo menos o dobro disso quando se fala em gravações piratas. Há, contudo, 3 discos que ouço regularmente: Sarah Vaughan, de 1954, acompanhada pelo genial Clifford Brown, no qual brilham faixas como April in Paris, Lover Man e Body and Soul, sem falar na clássica They Can’t Take That Away From Me. AQUI você ouve o disco inteiro. Sarah é a mais versátil: vai da balada marcada por intensos vibratos ao diálogo seco e direto com o trompete de Brown. Atenção especial a April in Paris e Lover Man. Sarah faz de tudo com a voz. Ouça e concordará comigo, tenho certeza.

Sarah Vaughan - Clifford Brown - Sarah Vaughan With Clifford Brown ...

Junte os dois mais completos em suas áreas e você terá um disco irrepreensível. Duke Ellington é o maior compositor do jazz, e Sarah Vaughan, em dois discos, resolveu mostrar ao mundo por que ele deve ser ouvido. Sempre. Coloque no disco Frank Foster e Zoot Sims (sax), J. J. Johnson (trombone) Grady Tate (bateria), Joe Pass (guitarra) e Frank Wess (flauta) e você vai achar que não precisa mais ouvir nada nesta vida. Um grande disco, em dois volumes. Escolhi o primeiro porque nele há Sophisticated Lady, Lush Life e In a Sentimental Mood. Clique nos temas e aprecie. A propósito: Duke não está ao piano. Jimmy Rowles e Mike Wofford revesam. É um disco lento, para ser ouvido com atenção. Ao menos é assim, comigo.

Sarah Vaughan - Duke Ellington Song Book One (1982, Vinyl) | Discogs

O terceiro e último é um primor de gravação, e mostra Sarah Vaughan à vontade com a música brasileira. Há mais 3 discos em que ela expressa seu encanto pela Bossa Nova e pela MPB: O Som Brasileiro de Sarah Vaughan, de 1978, I Love Brazil, de 1979, e Brazilian Romance, de 1987, com Milton Nascimento. Por que escolhi Copacabana? Porque há a gravação de Double Rainbow, a qual conhecemos como Chovendo na Roseira. Só ela já vale a escolha. E ainda há Dindi, e Gentle Rain, em gravações que considero definitivas. Em tempo: Helio Delmiro e Wilson das Neves abrilhantam o escrete que a acompanha, formado ainda pelo baterista Grady Tate e pelo baixista Andy Simpkins. Discaço!

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Eric aos 75

Era o ano de 1979 e eu iniciara minha coleção de Gigantes do Jazz, que a Abril Cultural tinha acabado de lançar. Os discos e os encartes eram comprados em bancas de jornal e eu ainda não conhecia bem o jazz, embora reconhecesse minha inclinação para o gênero. Sem contar a inestimável influência de meu querido primo, e também baterista, Marco Antônio Grijó. Sem ele, talvez, o jazz tivesse passado despercebido por mim. Mas aonde quero chegar? A série Gigantes do Jazz apresentou-me Ella Fitzgerald, que por sua vez me apresentou Sunshine of Your Love. Sim, eu cometia a heresia de, aos 17 anos, desconhecer Eric Clapton. Ouvia falar, mas, sabe Deus por quê, não acompanhava sua produção.

A gravação de Ella conta com a participação da orquestra do pianista e leader Tommy Flanagan. É uma gravação de 1969, com 4’25”. Notável, extraordinária. Ella Fitzgerald tem brilho eterno. E quanto a Eric Clapton? A referida canção foi apresentada ao mundo pelo supergrupo Cream, do qual Eric era o guitarrista, em 1968. Os outros componentes, ambos definitivos em seus instrumentos, eram Ginger Baker (bateria) e Jack Bruce (contrabaixo). Quem escreveu, entretanto, a canção? Foi escrita a 6 mãos: Clapton, Jack Bruce e o poeta Pete Brown, que também era roqueiro, mas era bom mesmo com as palavras. Pois não é que o jazz me levou ao hardrock do Cream e, felizmente, apresentou-me Eric Clapton? Então, hoje, dia 30 de março, aniversário deste que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, vai meu presente e minha homenagem:

Assim como sou grato a meu primo, pelo jazz, sou grato a Ella, por Eric. Acho que é assim mesmo que a vida é. E, de preferência, ouvindo Eric Clapton e o Brilho do Sol do seu Amor.

p. .s : Se alguém se interessar pela versão citada de Ella Fitzgerald, é só clicar AQUI.

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