Merquior, o necessário

Diogo Mainardi, ex-colunista da Veja, falastrão do Manhattan Connection e membro fundador de O Antagonista, tem dois grandes desejos. Na verdade, três. O primeiro deles é ser levado a sério. O segundo é abrir seu corpo para que o fantasma de Paulo Francis entre e dele nunca mais saia. E o terceiro – mais recôndito e bem guardado – é ser considerado o novo José Guilherme Merquior. É mais ou menos como Arnaldo Antunes querer ser Cummings ou Carla Perez querer ser Isadora Duncan. Não é possível: não neste mundo. Mas citei José Guilherme Merquior por um motivo pessoal. Procurando material sobre a modernidade literária, assunto que tem me interessado nos últimos tempos, fiquei diante de um artigo seu, publicado no livro Elixir do Apocalipse, de 1983, em que ele discorre sobre o assunto com propriedade impressionante, além de ser didático como um avô que se preocupa com o neto preferido que começa a compreender o mundo.

Merquior era de direita, mas se dizia um liberal social. Atacou Freud, Marx, Lênin e outros ícones ocidentais. Em âmbito doméstico, chamou Caetano Veloso de sub-intelectual de miolo mole, afirmou – e isso dá uma boa discussão – que os compositores de MPB estão a léguas da nobreza criativa literária. Não eram (e não são) artistas da palavra, mas entretenimento puro. Era um polemista de mão cheia – e de cérebro mais cheio ainda. Era temido e respeitado, mas, sendo um intelectual incompatível com as esquerdas, era destratado pelos socialistas e afins, ou seja, seus méritos intelectuais – enormíssimos em erudição e conhecimento – tornavam-se infelizmente secundários.

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Se sabia escrever? Magnificamente bem, embora sempre me pareceu ter um certo desprezo pelo leitor comum. A cada página, parecia dizer que o leitor precisava preparar-se mais, ler alguns determinados autores e livros que pudessem facilitar um encontro com o livro que se lia. Escrevia para aqueles leitores que tinham o fôlego necessário para mergulhos profundos. Em muitos casos tive dificuldade em compreender claramente o que ele dizia, ao menos de imediato. Forcei-me a reler e reler, buscando uma interpretação que melhor conviesse a minhas convicções, a meu modo de enfrentar a realidade. Escreveu variado: de literatura a política, passando por filosofia, antropologia, história, economia. Numa entrevista para a Folha, há 31 anos, decretou a morte do Marxismo. Deveria ser lido por todos – em qualquer lado que esteja.

Um dos melhores livros de história da Literatura Brasileira que conheço é De Anchieta a Euclides, publicado em 1977. Foi esse livro que me ensinou a enxergar a grandiosidade dos narradores machadianos. Foi o primeiro a me apresentar Os Sertões como um clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil. Mostrou-me que os artifícios retóricos de Pe. Antonio Vieira são sua contradição porque baseados numa razão crítica. E por aí vai. Houve uma época em que eu, militante de esquerda, abandonei José Guilherme Merquior. Ou melhor dizendo: imaginei que o abandonara. Engano. Ele continuava expondo os problemas e me ajudando a solucioná-los. Sou grato. E se você, leitor, não o conhece, está perdendo de ouvir a voz de um mestre. Abandone Diogo Mainardi. Esse não faz falta.

 

8 opiniões sobre “Merquior, o necessário”

  • 22 de setembro de 2018 em 11:39
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    Olá, amigo!
    Há quantas não me deparava com qualquer alusão a Merquior. Engavetado mesmo, mas admito nunca dado atenção. Seu artigo me levou a ler aqui agora o discurso de posse dele na ABL. Em número e grau com você. Agora, Mainardi… também tenho dúvidas se até o buraco negro interessa sugar algo ali. E nesse campo sempre dicotômico da política brasileira, cabe sim aos sensatos e corajosos passear pelo lado oposto do seu gosto e por que não do seu gozo/ não gozo, apenas também para revistar aqui o Lacan. Como adotamos a paixão pelas discursividades prossigamos com o embate“ o diabo está no meio”.
    Adorei o texto. Obrigada.

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    • 22 de setembro de 2018 em 14:23
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      Não tenho qualquer problema em elogiar um intelectual de direita, assim como detrataria um de esquerda. Desde que ambos, na minha avaliação, mereçam os afagos e os tabefes.
      Vc adorou o texto. Eu, o comentário.
      Valeu, querida!!! Apareça mais!

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  • 22 de setembro de 2018 em 14:58
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    Querido Grijó,

    Gosto especialmente de um ensaio de Merchior sobre a fase mais filosófica de Drummond.

    Merchior faz parte do panteão de pensadores à direita de probidade intelectual. Uma pena que hoje o mainstream direitista esteja dominado por Mainardi, Olavo de Carvalho, e outros.

    Merchior protagonizou intensos debates com Leandro Konder, Marilena Chauí, sempre com maestria, com erudição filosófica.

    Há um livro de Merchior sobre Michel Foucault que não pode ser desprezado. Foi lançado nos Estados Unidos. Suas críticas são válidas. Eu, que gosto de Foucault, reconheço os apontamentos de Merchior.

    Suas afirmações sobre a emepebê são polêmicas, mas advém de um crítico sério. Não são regradas a ressentimento tal qual um Lobão. Aliás, Bruno Tolentino possui uma visão parecida. Que acha de Tolentino, Grijó?

    Um abraço.

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    • 22 de setembro de 2018 em 15:18
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      Não li o texto sobre Foucault. Sei que existe, mas prefiro Merquior dissertando sobre arte e literatura.
      Conheço o livro dele sobre Drummond, a tradução, já que foi escrito em francês. Tive um professor que usava e abusava do livro – o que, aliás, é mérito.
      Drummond não é fácil, e tornou-se mais complexo pelas palavras de Merquior, creio. Enriqueceu.
      Tolentino é uma figura. Bateu em Caetano tb. Sobrou até para Chico, seu amigo, e Gil.
      Não o levo muito a sério (não como levo o JGM), mas gosto de um livro dele, de poemas, “As Horas de Katharina”.

      Lobão não é somente ressentido.
      Pertence a uma época em que a prioridade era fazer canções para adolescentes cujo objetivo era dançar e pular em shows. Não havia necessidade de textos elaborados e reflexões mais profundas. Quem eram os ídolos? Roger, do Ultraje, Renato Russo, Herbert Vianna, Nazi e outras – a meu ver – inutilidades.

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  • 22 de setembro de 2018 em 18:02
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    Boa noite, mestre! Nunca havia sido apresentado a Merquior e não vou desperdiçar a oportunidade. Aparenta ser um pensador que procuro recentemente, que diversifica a gama de opiniões que me cercam. Valeu pelo post, Grijó! Abraço.

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  • 23 de setembro de 2018 em 14:37
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    Fala, Grijó.

    Fui seu aluno anos atrás e acomanhei assiduamente seu blog na fase inicial.
    Chego aqui, novamente, tempos depois, por intermédio de Pedro Demenech, grande amigo.
    Estou há uma hora lendo seus últimos textos. Uma alegria.

    Li trabalhos avulsos de Merquior, no passado, graças a outros posts seus. Seria muito bacana se houvessem edições mais recentes, e fáceis de encontrar, das obras dele.

    Aproveitarei o ensejo para comentar também seu texto com as listas de livros. Achei muito bacana.

    Forte abraço, mestre.

    Diego.

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