Mulheres #5: Ornella Muti, 63

Se você não viu A Garota de Trieste, veja! Ornella Muti, aos 27 anos, no esplendor da beleza! Algo fora deste mundo, um monumento, o máximo em sensualidade. Não, não veja pelo filme – que não é grande coisa! -, mas por Ornella, o grande motivo pelo qual boa parte da juventude italiana dos anos 1970 foi ao cinema. Assisti ao filme, chato como um disco de Daniel, no fim dos anos 1980, e a partir de então busquei nas saudosas locadoras da cidade qualquer filme em que Ornella fizesse participações, seja como estrela, seja como coadjuvante. Mas quem poderia, com uma beleza destas, ser coadjuvante?

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Dia desses, num desses canais por assinatura, dei de cara com Ornella contracenando com Silvester Stallone. Uma comédia de erros sobre gangsterismo: não é grande coisa também, embora seja assinado pelo sempre excelente John Landis, responsável pelos fundamentais Os Irmãos Caras-de-Pau e Um Lobisomem Americano em Londres. A luminosidade essencial da beleza de Ornella, entretanto, foi motivo para eu manter o controle remoto estacionado no canal. Creio que não existe atriz italiana tão bonita. Calma: Sophia Loren é hors concours. Ornella Muti foi a Princesa Aura em Flash Gordon e nos brindou com a prostituta Cass, em Crônica de Um Amor Louco – este, sim, um filmaço! -, ao lado do sortudo Ben Gazzara. Digo sortudo porque ele contracenou com ela também no filme que abriu esta postagem.

Ao recusar o papel de Melina Havelock, bond girl em 007 Somente para seus Olhos, de 1981, o passo para o estrelato não aconteceu. O papel, entregue então a Carole Bouquet, transformou esta última em estrela internacional, embora por pouco tempo. Apesar disso, estrelou, no mesmo ano, Ninguém é Perfeito, uma comédia italiana esplêndida de Pasquale Campanile, em que Ornella faz o papel de um paraquedista alemão que troca de sexo e se torna uma belíssima mulher – ela, no caso. O filme foi um sucesso retumbante não somente na Itália, mas em toda a Europa. Ei-la, contracenando com outro sortudo, Renato Pozzetto.

Ornella Muti envelheceu bem. Está com 63 anos, mantém-se bela e luminosa. Se o vigor da juventude não é expresso por motivos óbvios, aparenta o mesmo frescor dos primeiros anos de cinema, a mesma expressão jovem, límpida. Na comparação com outras belas conterrâneas, deixou Claudia Cardinale, Stephania Sandrelli, Gina Lollobrigida e Silvana Mangano para trás. Quanto a Monica Belluci, o papo é outro. É a próxima da série.

Deus o abençoe, Kurt Vonnegut!

Se vivo, Jack Kevorkian teria feito 90 anos, ontem, 26 de maio. Para quem não se lembra – ou não sabe -, Jack Kevorkian foi aquele patologista norte-americano, de origem armênia, que polemizou em torno da eutanásia. Considerava o suicídio um direito inerente ao homem, principalmente quando a ideia de tirar a própria vida implicava interromper o sofrimento. Ficou conhecido como Dr. Morte e arrebanhou entusiastas nos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil. Al Pacino, astro de Hollywood, interpretou Jack Kevorkian no filme  You Don’t Know Jack, de Barry Levinson, há alguns anos. É um bom filme, mas nada que impressione. É coisa feita para a tevê.

Jack Kevorkian morreu em 2011. Em 1999, o escritor Kurt Vonnegut, um dos meus ídolos literários, escreveu Deus o abençoe, Dr. Kevorkian, um volume de 21 textos curtos escritos quando Vonnegut se transformou em Repórter do Além. Sim, você leu direito. No Brasil, o livro foi publicado oito anos depois – o que é, sempre, uma lástima. Mas, de volta: em 1998, juntamente com o produtor Marty Goldensohn, Vonnegut criou textos que se baseavam na irônica ideia de quase morte em que o próprio autor ia ao Além para entrevistar os mortos. Tudo, evidentemente, facilitado pela habilidade de Dr. Kevorkian – uma sumidade no assunto.

É uma reunião de textos sensacionais, curtinhos e aparentemente despretensiosos, como a entrevista com Adolf Hitler, que sugere ter um monumento em sua homenagem em um terreno próximo ao prédio das Nações Unidas. Abaixo desse monumento, deveria estar gravada a expressão Entschuldigen Sie – algo como Desculpem-me! Que outros são entrevistados? Entre os mais famosos, estão William Shakespeare e dois Isaacs: Newton e Asimov. Na entrevista com o bardo, Vonnegut pergunta-lhe se foi ele mesmo autor de suas peças. A resposta você só obterá se ler o livro.

É divertido. Vonnegut faz parecer fácil escrever – e qualquer um envolvido em literatura, como escritor ou leitor, sabe que não é. Já escrevi, neste blogue, sobre o Vonnegut humanista. Neste livro – e isso não deixa de ser uma ironia! -, a morte serve para nos fazer celebrar a vida. Um exemplo é a entrevista com Peter Pellegrino, o primeiro norte-americano a cruzar os Alpes num balão de ar quente. Ao saber que Kurt Vonnegut estava vivo ao entrevistá-lo, disse: “Pelo amor de Deus, homem, arranje um tanque de propano e um balão enquanto ainda é tempo, ou nunca saberá como é o Céu!” Boa, não?

Se seu inglês está em dia, você pode ter o privilégio de ouvir o próprio Vonnegut e algumas entrevistas. É só CLICAR AQUI.

 

 

Fala! #6: Philip Roth

A incômoda verdade de Philip Roth - Estado da Arte

“A religião era uma mentira que ele identificava ainda bem jovem, e todas as religiões pareciam-lhe insuportáveis, todas as superstições religiosas eram bobagens sem sentido, uma criancice; não suportava aquela total falta de maturidade – aquele vocabulário infantil, aquela santimônia e aqueles carneiros, os ávidos fiéis. Para ele, nada de conversa fiada a respeito da morte e Deus, nem fantasias obsoletas sobre o céu. A única coisa que havia era o corpo, nascido para viver e morrer conforme o que fora estabelecido pelos corpos que viveram e morreram antes.”

Homem Comum

Ginastera, o Grande

Recebi um mail de um leitor deste blogue. Um dos seis ou sete. Reclamou que tenho dado pouca atenção a “um espaço tão criativo”. As aspas existem porque são palavras dele; não minhas, embora eu as tenha recebido de ouvidos, olhos e braços abertos. Tenho tido pouco tempo, e também pouco assunto que a mim interesse expor neste espaço. Hoje pela manhã, ao contrário, veio-me o desejo incontido de escrever sobre Alberto Ginastera, o grande compositor argentino. Mais do que grande – enormíssimo. Provavelmente o maior de todos, embora seja bem menos conhecido que Piazzolla, por exemplo. É natural. Tom Jobim, genial, é mais conhecido que nosso maior compositor, Villa-Lobos. Mas quero falar de Ginastera, este senhor aí abaixo, com o gato.

Ouvi, pela manhã, toda a sua produção para piano e violoncelo, através do norte-americano Mark Kosower, no cello, e da coreana Jee-Won Oh, uma pianista de primeira. Não é música fácil, melodiosa, que nos faz assobiar quando dela lembramos. Sendo Ginastera um compositor formado no século XX, não fugiu aos arroubos modernos e às rupturas tão necessárias quanto costumeiras. Talvez aí resida a dificuldade em tornar-se popular aos ouvidos menos exigentes. Foi um nacionalista que soube criar além do que se propunha: beber na fonte do folclore nativo, da cultura doméstica. É querido por muitos intérpretes internacionais justamente por isso.

Resultado de imagem para ginastera naxosHá quem queira comparar Alberto Ginastera com Heitor Villa-Lobos. Não entro nessa. Tinham visões de mundo diferentes – e concebiam sua arte também de forma distinta. Ginastera era um obsessivo, um preciosista. Villa era mais displicente. Um gênio absoluto, que abominava revisar a própria obra antes de publicá-la. Paro por aqui. O disco em questão, cuja capa está aí ao lado, traz doze faixas. Atenção especialíssima para Cinco Canciones Populares Argentinas: um primor, acentuado pela habilidade sem equívocos dos dois músicos, excepcionalmente bem sintonizados. O Gato, por exemplo, é de aplaudir durante meia hora, sem intervalos. E olhe que tem pouco mais de 2 minutos de duração. Ah, você se curvará diante de Wayno Karnavalito, uma homenagem ao maestro suíço Paul Sacher.

Ginastera fez bonito. Tem muita coisa de valor: em particular Popol Vuh – A criação do mundo vista pelos maias. Uma obra-prima sem rivais ou paralelos na América Latina. Vale conferir AQUI. Essa mesma gravadora, com sede em Hong Kong, traz até nós quase toda a obra do argentino, de modo que está acessível a quem se interessar. Alberto Ginastera vale a pena. AQUI, o Concerto para Violino e Orquestra, que veio ao mundo exatamente no dia em que completei 1 ano de vida.

 

Livros, lista (além do Brasil)

Hoje é dia primeiro de Maio, dia do trabalhador. É data mundial, aclamada, respeitada, sentida. É dia também da Literatura Brasileira, escolhida por conta do nascimento do primeiro grande contador de histórias que o Brasil produziu: o cearense José de Alencar, autor de textos em que índios heroicos, damas sensuais e regionalismos exagerados funcionavam como grandes patrimônios da brasilidade. Alencar não era fácil: foi o melhor em sua especialidade. Tivesse escrito em francês seria um Alexandre Dumas, fils. Mas não é sobre José de Alencar que quero falar – e sim sobre esse dia tão caro, e ao mesmo tempo ignorado, aos escritores, como eu. Homenageando o dia (e indo além da produção brasileira), resolvi, até como proposta lúdica, expor aquilo que alguns – apenas por curiosidade, creio – esperam de mim: uma lista dos melhores livros que li.

  1. Don Quixote, Miguel de Cervantes
  2. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
  3. Todos Os Fogos O Fogo, Julio Cortázar
  4. Fogo Pálido, Vladimir Nabokov
  5. Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll
  6. Havana para Um Infante Defunto, G. Cabrera Infante
  7. História Universal da Infâmia, J. L. Borges
  8. Pedro Páramo, Juan Rulfo
  9. Almoço dos Campeões, Kurt Vonnegut, Jr.
  10. Crime e Castigo, F. Dostoievski
  11. Retrato do Artista quando Jovem, James Joyce
  12. Os Nus e Os Mortos, Norman Mailer
  13. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
  14. A Harpa e A Sombra, Alejo Carpentier
  15. Nostromo, Joseph Conrad

Nenhum brasileiro?, perguntará o leitor mais ufanista, querendo fuzuê, afinal o dia é da Literatura Brasileira, com maiúsculas mesmo. Nenhum – nem Machado de Assis, que, entre os conterrâneos, é o melhor. Ao competir com os gringos de sua época, leva grande surra. Claro que é apenas uma opinião, sujeita a debates e a tabefes. A lista traz, como se pode observar, cinco autores de língua inglesa (deixei de fora Conrad e Nabokov, que escreveram suas obras-primas em inglês). Seis em língua espanhola (incluo aí o cubanês de Carpentier), um em língua alemã e outro russo – esse, sim, escrevendo como um eslavo. Como se pode perceber, deixei de fora a lírica e o drama. A lista se resume a narrativas – daí Shakespeare ter ficado no limbo.

Listas servem para divertir – principalmente para divertir aquele que as cria. Limitei-me a quinze títulos: o que me força a deixar de fora autores fundamentais que, num rol mais elástico, estariam presentes. É muita gente que não cabe na festa. Mas e quanto ao ufanista do parágrafo anterior? Pensando nele, e imaginando-o emburrado como uma criança contradita, crio um outro inventário, doméstico dessa vez, para amenizar a fúria alheia – sem contar que esse é, de fato, o propósito da postagem. Que não se imagine, por favor, uma lista que brote da autoridade de um professor da área. Pode esquecer isso: não sou nem nunca fui autoridade. Quem aqui fala é o leitor! Sim, isso serve como álibi.

  1. Quincas Borba, Machado de  Assis
  2. A Lua vem da Ásia, Campos de Carvalho
  3. Os Dragões, Murilo Rubião
  4. A Grande Arte, Rubem Fonseca
  5. O Casamento, Nelson Rodrigues
  6. Avalovara, Osman Lins
  7. Senhora, José de Alencar. 
  8. Tenda dos Milagres, Jorge Amado
  9. Os Doze Trabalhos de Hércules, Monteiro Lobato
  10. Transístor, Murilo Mendes
  11. Primeiras Estórias, Guimarães Rosa
  12. Sermões, Pe. Antonio Vieira
  13. Livro das Horas, Nélida Piñon
  14. João Ternura, Aníbal Machado
  15. São Bernardo, G. Ramos

E Oswald, Zé Lins, Clarice, Hilda Hilst, Cony, João do Rio? E Grande Sertão, Brás Cubas, Gabriela, Policarpo Quaresma?  E Os Sertões, considerado pelos críticos a obra mais importante? E tantos outros, esquecidos ou deixados para trás? Essas e outras perguntas não são respondidas tão facilmente – a não ser, claro, pela simples escolha de quem cria a lista. Eu, no caso. Sem contar que os  patrulheiros do politicamente correto vão me acusar – sei que injustamente! – de misoginia. Uma mulher, apenas? Bem, pelo menos o substantivo lista é feminino.