
Leio que Unstuck in Time, documentário de Robert Weide sobre a vida e a obra de Kurt Vonnegut, está em fase de pós-produção. Vonnegut é um dos meus ídolos literários, uma de minhas obsessões no que se refere à criação, às palavras. Lembro-me de caçar seus livros como aves rarae em sebos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Isso logo após ter conseguido, como que por milagre, edições mal traduzidas – feitas pela antiga Artenova, quem se lembra? – compradas na antiga Livraria Capixaba, sita à Nestor Gomes. Foram bons tempos, em que se podia garimpar obras de autores pouco conhecidos sem ser bombardeado por best-sellers destinados ao público adolescente. Hoje a internet ajuda muito.
Minto se disser que li todos os seus livros. Faltam-me dois: Happy Birthday, Wanda June, comédia escrita em 1971, e Canary in a Cathouse, livro de contos escrito 10 anos antes. Os outros? Ao todo 31, lidos e relidos (ao menos alguns) com o mesmo prazer de uma primeira vez, com o mesmo pasmo e satisfação diante de um parágrafo ou página que eu levaria algumas encarnações para conseguir escrever. Sempre achei Vonnegut necessário, essencial, principalmente àqueles que apreciam o humanismo expresso em palavras, sem qualquer blefe aparente, sem a demagogia fácil, que pode brotar por diversas razões – todas elas escusas. Vonnegut foi um humanista dentro e fora das páginas: praticou o respeito pelo semelhante, embora o cineasta Robert Weide tenha revelado facetas cruéis de um escritor que, sendo humanista, ainda é humano. Era também ateu, membro de uma organização como a AHA, a Associação Humanista Americana, cujo lema é Bondade sem um deus. É sério.
Muitos de seus livros trazem a marca humanista, sejam eles marcados por um desbragado senso de humor, sejam eles estruturados a partir de uma ironia dolorosa diante da realidade. Uma ironia que não faz rir, ao menos não na frente dos outros. É provável que seu humanismo tenha se consolidado a partir de duas experiências: ter sido soldado durante a Segunda Guerra e ter adotado os três sobrinhos, filhos da irmã e cunhado falecidos no mesmo ano. O próprio Vonnegut afirmava que as experiências pessoais são a melhor matéria literária. Seus textos podem – e devem – ser lidos baseados na crença de que o ser humano, por pior que seja, ainda vale a pena.
Pode até ser que você, sexto ou sétimo leitor, não me pergunte, mas vou citar os livros de Vonnegut de que mais gosto. Vale para preencher a postagem, assim como vale para um possível curioso que leve a sério o que digo. Leia Almoço dos Campeões, Bem Vindo à Casa dos Macacos, Bode Vermelho, Cama de Gato, Galápagos e, claro, Matadouro 5. São clássicos, embora eu considere clássica praticamente toda a obra desse senhor. Todos esses livros citados podem ser encontrados em traduções satisfatórias, mas se você lê na língua de Vonnegut a coisa fica melhor, tenha certeza. Aliás, não é só o documentário que abriu a postagem que revela o namoro entre Vonnegut e o cinema. Matadouro 5 e Almoço dos Campeões vieram às telas. Há muitos outros, os quais não vi. Gostaria de ter visto o filme baseado em seu romance Pastelão – ou Solitário Nunca Mais (tradução). Jerry Lewis trabalha nele.
Kurt Vonnegut morreu há dez anos, de complicações cerebrais por conta de uma queda. Estava com 84 anos. Alguns de seus livros, publicados postumamente, são a prova de que ele viverá para sempre – ao menos para quem aprecia literatura de verdade.
Fala, Grijó!
Fui seu aluno no Nacional centro, tem muito tempo. Lembro que vc já falava deste autor naquela época. Vc disse que as traduções dele são legais, mas também mencionou traduções ruins. Não entendi.
Fui ver na Estante virtual o que tem dele. https://www.estantevirtual.com.br/autor/kurt-vonnegut
Qual vc recomenda. Só um.
Fraterno abraço!
Falei, João, que as traduções da Artenova, editora que não existe mais, eram ruins. As outras, dos livros citados, são boas.
Mas bom mesmo é ler Vonnegut no original.
Recomendo Matadouro 5, livro que o tornou famoso. Clássico mesmo.
Abraço.
Que bom, um blogue para lermos sobre literatura. Bem vindo. E me vi animada a conhecer a obra de Kurt Vonnegut. Obrigada, Grijó
Literatura também, Manuela. E quem agradece a ilustríssima presença sou eu.
Venha sempre.
Vou conferir.
Professor vc já ouviu falar um J. D. Salinger?
Claro. Salinger é outro ídolo, embora tenha produzido menos.
Foi um autor contracultural, como Vonnegut, ídolo da juventude norte-americana antenada.
Li os 4 livros dele.
Sou fã desse cidadão. Nunca li nada em inglês do Vonnegut. Mas estou disposto a resolver isso. Bem, meus livros favoritos são: Cama de Gato, Galápagos, Sereia de Titãs, Barba Azul e Café da manhã dos campeões.
O cara foi pura influência para grandes escritores como Chuck Palahniuk, Murakami, Joseph Heller, Will Self, Nick Hornby, entre tantos outros.
No Brasil, Mutarelli sofre uma forte influência e Xico Sá quase sempre cita o nosso amigo. O Bidê ou Balde, banda gaúcha fez um álbum tripo em homenagem a Kurt Vonnegut, é a trilogia Kilgore Trio( Adeus, Segunda-feira Triste, Eles São Assim. E Assim Por Diante e Gilgongo! ou, a Última Transmissão da Rádio Ducher)
abraços.
Heller é um dos grandes também.
Não curto o Mutarelli. Acho forçado, artificial, pouco genuíno (ainda busco isso nos autores sem consagração), mas a simpatia dele por Vonnegut o absolve.
E achei o cheiro do Ralo melhor em filme. Enfim, é uma opinião, apenas.
Vou checar essa banda. Trologia Kilgore Trio? Boa.
Valeu.
Abraço.
Confesso que só li o “Matadouro 5” (gostei muito da mistura de mordacidade e ternura que o livro traz), e que tenho o “Almoço dos Campeões” na biblioteca.
Hora de correr atrás e tirar essa diferença.
“Almoço dos Campeões” é divertidíssimo. Leia, sim.
O encontro entre criador e personagem é algo para estrelar compêndios milenares de literatura.
Matadouro 5 é a obra-prima, definitiva, insuperável.
Grijó,
Tenho procurado, com frequência, “Almoço dos Campeões”. Entretanto, encontrei-o unicamente editado pela “Artenova”.
A tradução é ruim a ponto de não valer a pena a leitura??
Obrigado. Abraço.
Ulysses, pode encarar.
Não é uma tradução ruim. A inadequação está apenas no fato de ser uma tradução anterior à última reforma ortográfica.
Mas dá pra ler, sim.
Se é uma edição da capa alaranjada, é esse que eu tenho também.
Abração.
Pingback: Revson Sobreira
Provavelmente.
nunca li este autor, mas percebo que o senhor tem uma preferencia pelos americanos, estou certo?
eu já prefiro os latinoamericanos, como García Marquez e Jorge Luis borges.
Já escreveu sobre eles?
Blog muito bom, parabéns!
Caro Grijó,
O poeta H. Dobal (Hindemburgo Dobal) traduziu, pela Artenova, O Espião Americano (1971) e A Felicidade Rosewater (1973). Dobal era poeta (e dos bons, embora pouco conhecido); lia e traduzia muito bem em inglês, até onde sei, mas nunca cotejei as traduções dele com o original de Vonnegut.
Além da ortografia, que mudou, o que você considera mal traduzido nessas versões de Dobal?
Abraço!
Ranieri
O problema maior aparecia nas traduções assinadas por Ed Art que, na verdade, era a abreviação de Editora Artenova. Essas, sim, nada tinham de criteriosas. As do Dobal – fui verificar agora, que vc falou – eram melhores, embora eu só possua a de “God Bless You, Mr. Rosewater”. Nem me lembro muito bem dela, mas vou checar. “A Felicidade” é dureza, não?
Nunca li nada do Dubal, além das traduções.
“Pastelão ou Solitário Nunca mais” tem como tradutor esse fictício Ed. Arten. Mas, pelo que vi, a maioria das traduções da Artenova tinha bons tradutores. Até Clarice Lispector traduzia pra eles!
Caro, Grijó
Pesquisei aqui, rapidamente. Esse pseudônimo, Ed. Artens, certamente, era usado pela editora para driblar a censura e poupar o tradutor de alguma punição. Vi uma tese aqui que diz que a Artenova teve 18 livros censurados por conteúdo pornográfico ou político. Vá entender isso numa época em que os cinemas do Brasil passavam pornochanchadas a torto e a direito!
abraço!
r
É possível, já que toda e qualquer editora era monitorada. Nem sempre com efeitos desastrosos.
O dono da Artenova, Álvaro Pacheco, era ligado a Sarney. Eram amigos muito próximos.
Acho difícil ter sido perseguido como foram alguns editores mais, digamos, progressistas.
Já no tocante à pornografia…
Eis uma questão interessante, Ranieri. Parece-me que a indulgência aos filmes não é dirigida à literatura.
Há algo de “sublime” nos livros que não pode ser conspurcado por linguagem chula ou por temática erótico-pornográfica.
Sade botou isso abaixo.
É algo para se pensar e escrever sobre.