Joukery-pawkery: uma antecipação

Um bilionário capixaba é encontrado morto no banco do motorista de seu carro de luxo. A causa mortis, segundo o legista, é infarto do miocárdio, mas o delegado Anselmo Rosa-Torres suspeita de que a fratellanza Fama Volat esteja envolvida. Qual a conexão entre essa morte e o Joukery-pawkery? E, afinal, o que significa essa expressão?

Joukery-pawkery é um jogo de tabuleiro criado por Agatha Christie, a famosa escritora inglesa de livros policiais, de suspense e de mistério. Consta que no dia 21 de abril, dia em que a rainha Elizabeth II, a monarca inglesa, comemorava aniversário, Dame Christie ia até o palácio de Buckingham, devidamente escoltada pelo nobre motorista, e lá as duas mais famosas mulheres da Inglaterra jogavam essa maravilha lúdica, o Joukery-pawkery.  Também segundo consta, foi o encontro anual por 15 anos. Após a morte da escritora, em 1976, esse jogo de tabuleiro desapareceu.

Reaparece em 2019, por força e poder da Fama Volat, a centenária e mundial organização clandestina que comercializa objetos raros e, principalmente, obras de arte (pintura e escultura). Sua exposição gera a trama que inclui crimes contra a vida, vilipêndios, corrupção, canalhices. Há também advogados, uma viúva poderosa, um filho ambicioso, um armênio falsificador, uma jornalista sensual. E polícia e bandido, claro. É ler para crer.

Fama Volat é o título de meu romance de 2019, cuja capa está ao lado, e que você encontra AQUI. A editora, Cândida, lançou também meu livro de crônicas, Doxa. Pois é: voltei ao tema, voltei ao cenário doméstico (Vitória), a Anselmo Rosa-Torres — antes investigador; agora delegado. Joukery-pawkery é, sim, uma continuação de Fama Volat, mas pode ser lido de forma independente. Esse novo livro, de cunho policial, será lançado em agosto, 2024, mas fica aí a palinha, e fica também a esperança de que o leitor aproveite da melhor forma.

200 anos da Vênus

A Vênus de Milo é – provavelmente! -, ao lado de David, Moisés e Pietá, todas do gênio Michelangelo, a obra escultural mais famosa que há. Michelangelo era escultural até no nome: Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Uma beleza, um monolito vocabular. A Vênus bate O Pensador, de Rodin, a Vitória de Samotrácia, o Lincoln, de Chester. Não se sabe ao certo quem produziu a Venus de Milo, mas afirmam os estudiosos que ela brotou das mãos engenhosas de Ἀλέξανδρος . Em bom português, Alexandre de Antioquia, escultor daquele período de pouco mais de 450 anos chamado helenístico. O tal Alexandre não fez muita coisa mais. A Vênus é esta mocinha aí embaixo, conhecidíssima:

The Venus de Milo: an inspiring piece of art - Rumor Ex Mundis ...

Difícil ignorá-la. Já foi estampa de camisa, peça publicitária, enredo literário, souvenir, peça de xadrez, modelo para pintores aprendizes, talismãs, anedotas (sobre roer unhas), já virou brinco, pingente, chaveiro. É realmente uma peça popular que, há 200 anos, encanta quem resolve pagar 17 euros para apreciar os quase 73 mil m² do Museu do Louvre, em Paris. Isso, claro, antes do vírus. Sim, 200 anos que foi descoberta (num dia 8 de abril), mas é provável que, como muitas mulheres – e muitos homens também -, esconda a verdadeira idade: a Vênus tem 2000 anos a mais.

Vi essa moça no Louvre, em 1994. Tem 2 metros de altura e certamente não perdeu a pose nesses 26 anos. É imponente, marmórea, esbranquiçada, necessita de cuidados e é, por isso, paparicada ao extremo. Pareceu-me, quando nos vimos pela primeira e única vez, ignorar a presença de quem quer que seja, mantendo-se Vênus, deusa da beleza, intocada mas nem por isso deixando de despertar desejos (alguns obscuros, imagino) em quem, diante dela, resolve fitá-la. É uma experiência necessária. Ah, só para constar: Milo é um local; na verdade uma ilha vulcânica situada no arquipélago de Cíclades, no Mar Egeu. Não, não estive lá. Não conheço a Grécia, mas a internet conhece.

As formas de Brecheret (antes do recesso)

Victor Brecheret é o único escultor de quem se fala quando a Semana de Arte Moderna vem à superfície, seja em conversas frugais, seja em debates acadêmicos. É um nome de peso, um artista fenomenal um tanto eclipsado pelos pintores Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, todos eles titãs do Modernismo brasileiro. Brecheret não participou da semana de corpo presente. Morava na Europa, onde adquiriu boa parte do que sabia, embora o país em que sempre desejou ter nascido fosse aquele que habitou na infância e adolescência: Brasil – especificamente são Paulo, onde se situa parte de sua nobre obra, como o Monumento às Bandeiras, de 1953:

                                                              

Só a obra citada já valeria para deixar gravado seu nome na arte brasileira. Não sendo um homem religioso, Victor Brecheret foi capaz de criar esculturas que representassem justamente aquilo que a Igreja tem de mais valioso: sua simbologia histórica que, na maioria dos casos, serve como antessala para a religiosidade e para a fé. Santa Ceia, de 1935, é uma peça de raríssima beleza, assim como Anunciação, de 1943 (três figuras abaixo) e a ilustração seguinte, Sóror Dolorosa, de 1920. Brecheret era italiano e, por isso, trazia a herança familiar católica, que embutiu em algumas peças.

 

 

Minha preferida: Portadora de Perfume, acima. Um exercício formal de 1924 que, segundo especialistas, não é nem de longe fácil de criar. Com mais de 3 metros de altura, é um dos monumentos mais belos de São Paulo. Claro: é opinião pessoal. Geometricamente bem articulado, o movimento de perna esquerda e braço direito parece expor uma coreografia que é centrada no equilíbrio do pote de perfume  no ombro direito. É uma beleza, assim como é bela uma outra mulher, Musa Impassível, de 1923, em homenagem a Francisca Júlia, único nome feminino importante do Parnasianismo brasileiro. Aliás, esse monumento ilustrou, por 80 anos, o túmulo da poeta.

 

 

E como nem de religiosidade vive o homem, eis duas peças que, numa avaliação rápida, podem ser consideradas profanas: Fauno, de 1942, hoje encontrada próxima ao Masp, no parque Trianon, e Ídolo, de 1919. Dois trabalhos de excelência de um artista que nasceu em 15 de dezembro, há 124 anos. Sem ele, provavelmente a escultura brasileira não teria conhecido as nuances do Modernismo. Não teria absorvido as tendências das vanguardas que a Europa criara nem seria a representação de uma sociedade que se distanciava do conservadorismo e flertava com o progresso industrial. Victor Brecheret, para muitos, é o maior escultor brasileiro de todas as épocas – mesmo sendo italiano.

Ei-lo, trabalhando: