O melhor do jazz #8: pianistas

O mundo preocupado com pandemia e você falando em jazz, Grijó? Pois é. Serve como alento – meu, principalmente. Mas vamos lá: dando continuidade à série O Melhor do Jazz:

Quem é o melhor pianista do gênero? Posso enumerar um grupo de 20 e eu mesmo ficar na dúvida de quem é melhor do que quem. Exemplo? Bud Powell é melhor do que Thelonious Monk? Art Tatum tem mais valor musical do que Earl Hines? Quem emociona mais? Bill Evans, Oscar Peterson, Herbie Hancock, Sonny Clark ou Ahmad Jamal? Quem é mais técnico que Duke Ellington? Quem difundiu mais o gênero do que Dave Brubeck? E McCoy Tyner, Horace Silver, Lennie Tristano, Erroll Garner, Tommy Flanagan, Hank Jones, John Lewis, Bobby Timmons? Vou deixar de fora Red Garland, Count Basie, Wynton Kelly, Ray Bryant, Phineas Newborn, Elmo Hope, Joe Albany? E só estou citando aqueles de quem me lembro imediatamente, sem consultar Gúgol ou arredores. Esqueci uma penca, tenho certeza.

Vou, entretanto, arriscar escolher 5, não mais que 5. Como já disse em outras postagens da série, aqui, neste blogue, qualquer lista sofre do mal que carregamos desde que nascemos: a subjetividade. Sem ela, enumerar os melhores (ou piores) cairia por terra, e a diversão (listas nada mais são do que isso) não teria qualquer valor. Vou revelar meu top 5 e indicar um disco do escolhido. Só vale gravação de estúdio.

Bill Evans – On Green Dolphin Street (1959/1975) | Um Disco Por DiaBill Evans é meu número 1. O disco é On Green Dolphin Street, de 1975, com dois craques do Miles Davis Quintet, Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones, bateria. AQUI você ouve tudo, faixa por faixa, na versão LP. A grande maioria dos críticos concorda comigo. Bill é o número 1 em quase todas as opiniões.

The Earl Hines Trio - Here Comes Earl "Fatha" Hines (1982, Vinyl ...Earl Hines é um dos gênios do piano em qualquer gênero. Here Comes Earl “Fatha” Hines é o nome do disco escolhido, de 1966, e que se pode ouvir, faixa a faixa, AQUI. Acompanhado de duas feras: Elvin Jones (bateria) e Richard Davis (contrabaixo). Difícil, muito difícil não colocá-lo como o primeirão da lista.

Bloomsbury Popular Music - Earl Hines

This Here Is Bobby Timmons - Wikipedia

Bobby Timmons é o terceiro lugar. O disco é This Here is Bobby Timmons, que veio ao mundo em 14 de janeiro, há 60 anos. Conheci-o ouvindo Cannonball Adderley, naquele discaço com o irmão, Nat, à corneta. Bobby é gênio. AQUI você pode ouvi-lo, faixa a faixa, e perceber que não há melhor swing nos teclados do jazz. Dê especial atenção a This Here, Dat There e Moanin’. Três clássicos.

ryu on Twitter: "#NowPlaying Bobby Timmons - Bags' Groove/from the ...

Brilliant Corners : Thelonious Monk: Amazon.fr: MusiqueThelonious Monk não precisa ser apresentado a ninguém. É o quarto lugar na minha lista. Um revolucionário que tocava com dedos esticados e balançando incansavelmente as pernas. O disco escolhido é Brilliant Corners, de 1957. As presenças de Sonny Rollins, no sax tenor, e de Clark Terry, no trompete, contam muito para a escolha. Ouça AQUI. Atenção para Pannonnica e I Surrender, Dear.

Thelonious Monk, Hackensack, NJ, 1957 | Francis Wolff

Dave Brubeck - Time Further Out - Amazon.com MusicDave Brubeck foi o pianista que me levou ao jazz. Time Further Out não foi, entretanto, o primeiro disco desse grande pianista que conheci – mas é, em estúdio, o melhor que conheço. E traz o quarteto original: Paul Desmond, no sax alto; Joe Morello, na bateria, e Gene Wright, no contrabaixo. AQUI, a maravilha, publicada em 1961.

Dave Brubeck: A Life in Time, Meaty and more - Happy's Weekend Reading

Imagens do Tri (saudosismo aos 8 anos)

Creio que escrever sobre futebol – e ainda mais comemorar algo relativo a ele – esteja um pouco fora da ordem do dia. É provável e possível. Pandemia, desgoverno, racismo e fake news são assuntos mais atuais. Deixo temporariamente de lado para ilustrar os 50 anos do tricampeonato mundial no México – na verdade, a primeira Copa do Mundo de que me lembro, quando tinha oito anos. A partir de então, acompanhei todas as outras, mas torci pela seleção brasileira nos torneios de 1974, 1978. Depois, nunca mais. Qualquer dia conto os motivos, se houver interesse.

Mas eis o que eu queria dizer: as imagens da Copa no México são repetidas à exaustão. Poucos desconhecem os lances mais emblemáticos, como este, abaixo:

Sim, é o drible de corpo que Pelé impôs ao goleiro uruguaio, na semifinal. Ladislao Mazurkiewicz, filho de poloneses, era um dos melhores arqueiros do mundo. Foi humilhado pelo jogador mais ofensivo do futebol, mas contou com a sorte. A bola, ao final da jogada, não entrou. Não sei se você – que está lendo – sabe, mas essa jogada inspirou um romance intitulado O Drible, do mineiro Sérgio Rodrigues. Vale ler.

Outra imagem, também repetida: o cabeceio do mesmo Pelé, contra o gol inglês, defendido espetacularmente pelo melhor goleiro da época, Gordon Banks. O interessante é que por 50 anos deu-se, justificadamente, muito valor à defesa, tida como a mais difícil das copas, daí eu privilegiar o instantâneo do cabeceio, da impulsão.

Pois é. Gerson, o melhor meia que vi jogar, fez apenas 1 gol naquela copa – e justamente na final, contra a Itália. Um chute poderoso, de canhota, que venceu o goleiro Albertosi. Ok, ok: o time da Itália estava cansado, afinal participara, poucos dias antes, do chamado Jogo do Século, ao vencer, na semifinal, a Alemanha por 5 a 4. Sinceramente? Se a Itália tivesse dormido uma semana, mesmo descansada não venceria o Brasil. Eis o chute de Gerson, visto num ângulo pouco difundido:

Agora imagine um centroavante que só tenha feito 2 gols: ambos contra o Peru, partida em que o Brasil venceu por 4 a 2. Pois é: Tostão, camisa 9, era ponta-de-lança no grande Cruzeiro do início dos anos 1970. Fez vários gols nas Eliminatórias, e no México, além dos gols citados, foi fundamental nos jogos contra o Uruguai e contra a Inglaterra. Um gênio absoluto no gramado.

A Copa de 1970 foi meu début. A partir de então, passei a apreciar o futebol, acompanhei a Copa de 1974, com 12 anos e lendo exemplares da revista Placar. Assisti à potência argentina em 1978 até chegar em 1982 quando, por questões políticas, passei a torcer contra. Uma bobagem que fica para a próxima, coisa de universitário de 20 anos que considerava futebol alienação. Repito: bobagem. Por quanto, eis mais algumas imagens:

Sim, há 50 anos.

Cinco vezes Preto

Cinco exemplos, todos eles referências pessoais, sobre o que se discute, além da Covid-19. E tão importante quanto.

Strange Fruit, canção que Billie Holiday imortalizou, nesta gravação ao vivo, de 1959. Para quem não sabe, é uma das canções emblemáticas da luta contra o racismo nos EUA. As “frutas estranhas” são os corpos dos negros pendurados nas árvores, vítimas da perseguição e do ódio brancos.

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Adivinhe quem vem para jantar?, filme de 1967, do craque Stanley Kramer. A branca de classe média apresenta o namorado aos pais, figuras conservadoras da elite branca americana. Katherine Hepburn, a mãe, revela, com o olhar, todo o conflito entre a felicidade da filha e a marca elitizada do caucasiano.

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Colored Spade, do filme Hair, de 1979, interpretado pela personagem Hud, vivido por Dorsey Wright. A forma como o branco norte-americano vê o negro é expressa de modo irônico, potente, às vezes intencionalmente amedrontador. Uma cena inesquecível. Soul puro!

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Nina Simone, a grande artista/ativista, em seu melhor papel: escancarando, musicalmente, a falta – que é o maior patrimônio da negritude norte-americana. Mas ainda há esperança. A gravação é de 1968, um ano emblemático, terrível para os direitos civis nos negros daquele país. A letra de Ain’t Got No, I Got Life você encontra AQUI.

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O livro Tenda dos Milagres é, provavelmente, o melhor exemplo de discussão acerca de racismo escrito por Jorge Amado, um contador de histórias que teve o racismo como base para vários romances. Um intelectual negro de nome sincrético (Pedro Archanjo Ojuobá) é perseguido em seu trabalho – a academia – por ter a cor da pele daqueles que não poderiam, sob qualquer hipótese, fazer das ideias seu modo de vida. Um livro para ser lido e relido, e para apresentar às novas gerações que as coisas continuam na mesma. Mas é preciso mudar.

Livro: Tendas dos Milagres - Jorge Amado | Estante Virtual