2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

Solaris: Andrei & Stanislaw

Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época — e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho — no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo — buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

Seinfeld: 3 livros

Jerry Seinfeld e Larry David, criadores da sitcom Seinfeld, não faziam ideia do sucesso que fariam ao escrever sobre o quotidiano de um comediante de stand-up comedy. Não imaginavam que o programa se tornaria um ícone pop nem que ficariam milionários com o resultado de uma ideia. Aliás, todos os cinco diretamente envolvidos — Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, inclusos — passaram a nadar em dólares, gozando de um prestígio que nenhum outro comediante, nos anos 1990, gozou. Bem, Julia já era bilionária — ou seria, quando o pai, o francês Gérard Louis-Dreyfus morresse. E morreu, em 2016.

Na esteira da sitcom, Jerry Seinfeld — que escrevia os diálogos com Larry David — resolveu reunir muitos dos textos que foram ao ar e publicou O Livro sobre Nada. É a premissa resumida e enganosa do programa: falar sobre o nada. Enganosa porque, de fato, fala-se do cotidiano do próprio Jerry e de seus amigos, um bando de egoístas cujo desprezo pela humanidade se esparramava por 25 minutos semanais. Ninguém prestava ali — e é aí que estava o charme da sitcom. Há passagens engraçadas no livro: quase todas elas já consumidas por quem é fã daquela turma. Eu, por exemplo.

Houve quem levou a sério a série sobre o nada. Houve quem resolveu, por molecagem ou não, olhar para a sitcom e conectá-la a Sócrates, Kierkegaard, Sartre, Platão, Wittgenstein, Aristóteles e Nietzsche. Sim, a fina-flor da filosofia ocidental. E mais: ética, moral, paradoxos, sofisma e virtude são explorados em 14 textos divertidíssimos, mas todos eles levados a sério. E mais: o livro é dedicado a Bob Sacamano. Quem curte a sitcom sabe quem é. Organizado por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, na Pensilvânia, o livro é um achado. É para ser lido devagar, porque faz o leitor lembrar-se de cada situação mencionada. Quem curte ver a filosofia falar sobre o nada vai apreciar. Eu, por exemplo.

Após o voluntário fechamento das portas, Jerry Seinfeld envolveu-se em outros projetos — a animação Bee Movie e o ótimo Comedians in Cars Getting Coffee, sobre o qual já escrevi. AQUI, caso haja interesse. Resolveu também biografar-se em Será que isso presta?: à sua maneira, por meio dos textos para stand-up comedy, de 1975 até meados da segunda década do século XXI. Percebe-se, na leitura, a evolução do comediante, seja em textos curtos ou naqueles que, no máximos, gastam duas páginas. A ideia continua a mesma: o nada, o cotidiano, os costumes. E, claro, o humor. Vai gargalhar? Não creio, mas o livro vai divertir e provocar uma certa nostalgia nos órfãos de Seinfeld. Eu, por exemplo. 

p.s. Escrevi sobre Larry David e a maldição de Seinfeld. AQUI, caso se interesse.

Pedro: poeta & bispo

A segunda vez que ouvi falar de Dom Pedro Maria Casaldáliga foi ao ouvir, assim que veio ao mundo, em 1982, o disco Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento. É um disco de rara beleza, de temática social e cristã, gravado na Igreja de Nossa Senhora dos Homens, em Minas Gerais. É, de fato, uma missa musical, estruturada para ser primordialmente ouvida. Mas não é sobre Milton que quero falar — e sim sobre um dos parceiros (o outro é Pedro Tierra), o bispo católico nascido na Espanha — era catalão — e naturalizado brasileiro, defensor dos direitos humanos, taxado de comunista por invasores de terra, que o juraram de morte.

E quanto à primeira vez? Também com a participação de Milton, no encarte do disco Sentinela, de 1980: um dos melhores discos desse artista extraordinário. Mas repito: Milton, nesta postagem, é secundário. Em primo plano está o bispo, a figura ímpar, o ativista, para muitos o santo (epíteto que sempre descartou, sem qualquer falsa modéstia). Religioso e hábil com as palavras, um herdeiro de Vieira, célebre orador. Casaldáliga, humanista como o padre seiscentista, indignou-se com o tratamento aos povos nativos, originários – antigamente chamados de índios. Dedicou-se, de corpo, alma e palavras, a defendê-los. A eles e aos trabalhadores rurais, que carinhosamente o chamavam de Pedro. Ei-lo:

Evangelizou sem colonizar, porque sabia que eram termos excludentes. Foi um poeta social, para quem as palavras deveriam servir à liberdade, à justiça, à luta. É, nessa seara — assim como Pe. Antônio Vieira, mais uma vez — autor de Versos Adversos, dentre vários textos. Se quiser ler, AQUI você consegue. O prefácio é de um dos meus ídolos literários, o professor Alfredo Bosi. Para muitos, a religião, algo limitador, é incompatível com a arte — elemento libertador. Não sei. Sem a religião, o que seria da obra de Bach, de Vivaldi, de Palestrina? Essa questão fica para depois.

VERSOS ADVERSOSSua poesia é contundente, ao mesmo tempo que lírica. O domínio da palavra é tão evidente quanto a fé que, edificada, alicerça sua visão de fraternidade, amor ao próximo, luta contra a desigualdade e em prol da paz entre os homens. Ele sabe, entretanto, que a paz é consequência do ânimo e da união. Sabia o que estava dizendo, e o dizia de forma simples, sem arroubos sentimentais ou arabescos verbais. Era um poeta em sua essência: vivo para quem metonimicamente o ler. Hoje, 16 de fevereiro, ele faria 97 anos. Ave, Pedro!

Jorge, Oswaldo & minha sogra

Ganhei de minha sogra, boa professora aposentada de literatura e, portanto, apreciadora das belles lettres, os três livros que compõem os diálogos entre Jorge Luis Borges, o enormíssimo ensaísta, contista e poeta argentino, e o jornalista (e também afeito à poesia) Oswaldo Ferrari. Leitura fluente, para quem já é iniciado nas obsessões borgeanas – tempo, labirintos, escrita antiga, literatura inglesa, Buenos Aires, mitologia escandinava, filosofia, o ato de escrever – e para aquele brasileiro curioso e ignorante que não entende como um cegueta manco (e argentino) pode ser um ícone literário de todos os tempos. 

Se completa la trilogía de los diálogos de Borges y Osvaldo Ferrari traducidos al chino

Imagine um programa de rádio em que se fale de literatura, de filosofia, de história, de sonhos, de lendas. Um bate-papo entre dois homens cujo interesse intelectual transgride as preferências superficiais da maioria dos viventes. Pois é. Esses três livros que me foram presenteados pela sogra tratam justamente disso. São conversas que foram, mais tarde, transcritas para o jornal Tiempo Argentino, um espaço dedicado a quem se interessa por aquilo que a maioria dos brasileiros despreza: a leitura. Os argentinos, por sua vez, levam a coisa a sério.

Livro: Sobre a Amizade e Outros Diálogos - Borges / Osvaldo Ferrari | Estante VirtualEstou terminando o volume cuja capa ilustra esta postagem. Altamente recomendável pela beleza linear da conversa, pela versatilidade dos conteúdos e, principalmente, porque figuras como Edgar Alan Poe, Spinoza, Virgílio, Shakespeare, Bertrand Russel, Swedemborg, Francisco de Quevedo e G. K. Chesterton planarem como aves rarae no céu pintado pelo extraordinário argentino. É ler para crer – e se regozijar. Sim, o prazer dessa específica leitura é potencializado. Aposte nisso.

Jorge L. Borges foi um erudito – e dos bons. Um bom erudito é aquele que traduz o saber grandioso, estimulando quem o lê. Não rechaça o ignorante; ao contrário: consegue seduzi-lo a ponto de torná-lo fiel, mas crítico. Os diálogos, para Borges, são a grande descoberta intelectual, legado dos gregos, a partir da amizade entre Sócrates e Platão, o assunto do título. Daí para Holmes e Watson, ou para Sancho e Quixote, é um pulo, um salto olímpico cuja distância não se mede. Conversar, sei disso, é descobrir.

Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

Darwin, Pedro Xisto, escola

 

A figura acima tem nome: Epithalamium, e foi concebida por Pedro Xisto, poeta pernambucano cujo talento para a visualidade era inequívoco. Foi concretista, aliado dos irmãos Campos, embora não rezasse fanaticamente na cartilha Noigandres. Tenho apenas um de seus livros, Logogramas, encontrado na Livraria São José, sebo carioca da rua do Carmo. Apresentei o poema a meus alunos – aliás, é um exemplo recorrente, que considero necessário à compreensão da estética concretista. Mas por que falo isso? O poema, como é apresentado pelo autor, propõe uma relação entre texto e o mito de Adão e Eva e, de quebra, alude ao formato curvilíneo da serpente como metáfora do mal e da sensualidade.

Chamo a atenção de meus alunos para isso e aproveito, muito despretensiosamente, para perguntar se há criacionistas na sala. Os criacionistas, em sentido amplo, creem que o universo e os seres que nele habitam foram criados por Deus – e ponto final. Respeito-os como respeito aqueles que os contradizem: os evolucionistas. Na verdade, embora tenha sido educado para comungar com a primeira categoria, encaixo-me na segunda. Charles Darwin, para mim, é fundamento.

Li, com certa desagradável surpresa, que o próximo presidente, por meio de seus assessores na área de educação, quer que o Criacionismo seja discutido nas escolas públicas. Quer que seja debatido e ensinado tanto quanto o Evolucionismo o é. Em outras palavras: quer que a escola faça o que a Igreja tem o papel de fazer. Está AQUI, para quem quiser ler. A meu ver, ensinar Criacionismo nas escolas é algo tão grave quanto o contrário: a Igreja querer ensinar física e química aos fiéis. Considero, entretanto, que isso deva ser debatido, de forma responsável, criteriosa. Assim como se ensinam os porquês de vulcões expelirem lava, de aves serem capazes de voar e o que vem a ser a velocidade da luz, deve-se inserir a criança no debate sobre como o ser humano passou a habitar a Terra. Eu disse porquês. Ou seja: apontar fatos incontestáveis, evidências, razões, embasamentos. A fé tem seu importantíssimo lugar – mas não é na escola.

Respeito os criacionistas – como disse, acima -, mas mantenho-me fiel à figuraça aí acima (a barba espessa e o olhar enganosamente vago) e à sua teoria. Não cegamente, porque penso que alguns pontos do que ele escreveu precisam ser repensados, afinal que teoria permanece intocável durante 150 anos? Poucas. Algumas duram até 6 mil anos. A existência de Deus e seu poder criativo, mesmo sem uma comprovação eficaz, é uma delas. Pedro Xisto morreu em 1987. Vivo estivesse, o que diria disso tudo?

Merquior, o necessário

Diogo Mainardi, ex-colunista da Veja, falastrão do Manhattan Connection e membro fundador de O Antagonista, tem dois grandes desejos. Na verdade, três. O primeiro deles é ser levado a sério. O segundo é abrir seu corpo para que o fantasma de Paulo Francis entre e dele nunca mais saia. E o terceiro – mais recôndito e bem guardado – é ser considerado o novo José Guilherme Merquior. É mais ou menos como Arnaldo Antunes querer ser Cummings ou Carla Perez querer ser Isadora Duncan. Não é possível: não neste mundo. Mas citei José Guilherme Merquior por um motivo pessoal. Procurando material sobre a modernidade literária, assunto que tem me interessado nos últimos tempos, fiquei diante de um artigo seu, publicado no livro Elixir do Apocalipse, de 1983, em que ele discorre sobre o assunto com propriedade impressionante, além de ser didático como um avô que se preocupa com o neto preferido que começa a compreender o mundo.

Merquior era de direita, mas se dizia um liberal social. Atacou Freud, Marx, Lênin e outros ícones ocidentais. Em âmbito doméstico, chamou Caetano Veloso de sub-intelectual de miolo mole, afirmou – e isso dá uma boa discussão – que os compositores de MPB estão a léguas da nobreza criativa literária. Não eram (e não são) artistas da palavra, mas entretenimento puro. Era um polemista de mão cheia – e de cérebro mais cheio ainda. Era temido e respeitado, mas, sendo um intelectual incompatível com as esquerdas, era destratado pelos socialistas e afins, ou seja, seus méritos intelectuais – enormíssimos em erudição e conhecimento – tornavam-se infelizmente secundários.

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Se sabia escrever? Magnificamente bem, embora sempre me pareceu ter um certo desprezo pelo leitor comum. A cada página, parecia dizer que o leitor precisava preparar-se mais, ler alguns determinados autores e livros que pudessem facilitar um encontro com o livro que se lia. Escrevia para aqueles leitores que tinham o fôlego necessário para mergulhos profundos. Em muitos casos tive dificuldade em compreender claramente o que ele dizia, ao menos de imediato. Forcei-me a reler e reler, buscando uma interpretação que melhor conviesse a minhas convicções, a meu modo de enfrentar a realidade. Escreveu variado: de literatura a política, passando por filosofia, antropologia, história, economia. Numa entrevista para a Folha, há 31 anos, decretou a morte do Marxismo. Deveria ser lido por todos – em qualquer lado que esteja.

Um dos melhores livros de história da Literatura Brasileira que conheço é De Anchieta a Euclides, publicado em 1977. Foi esse livro que me ensinou a enxergar a grandiosidade dos narradores machadianos. Foi o primeiro a me apresentar Os Sertões como um clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil. Mostrou-me que os artifícios retóricos de Pe. Antonio Vieira são sua contradição porque baseados numa razão crítica. E por aí vai. Houve uma época em que eu, militante de esquerda, abandonei José Guilherme Merquior. Ou melhor dizendo: imaginei que o abandonara. Engano. Ele continuava expondo os problemas e me ajudando a solucioná-los. Sou grato. E se você, leitor, não o conhece, está perdendo de ouvir a voz de um mestre. Abandone Diogo Mainardi. Esse não faz falta.

 

Filmes (re)vistos #3: O Dia em que a Terra Parou, 1951

Resultado de imagem para o dia em que a terra parou robert wiseO norte-americano Robert Wise montou Citzen Kane, o clássico de Orson Welles, apreciado pelos cinéfilos. Assinou Punhos de Campeão, um aclamado filme sobre o boxe. Poderia ter morrido feliz e realizado, mas optou por fazer de Julie Andrews uma noviça que cantava My Favourite Things – tema que John Coltrane imortalizaria, mas isso é outra história – em volta de um grupo de lourinhos suíços que temiam o pai de coração gelado. Alguns anos antes havia concebido, em parceria com Jerome Robbins, o grande musical West Side Story, cujo título português, Amor Sublime Amor, é sua única falha. Wise – que era realmente sábio – foi além. Além do sideral, do visto ao nu do olho, e concebeu duas pedras lapidadas da ficção científica. Uma delas, menos luminosa, é O Enigma de Andrômeda, a que assisti por volta de 73, no extinto Cine Odeon. Aos onze anos não tive a compreensão exata do filme, claro. Vi depois, em VHS, já com trinta e poucos, tela menor e cheio de boas lembranças. A outra pedra luminosa é, em modesta visão, o mais perfeito filme de ficção científica já feito: O Dia em que a Terra Parou, feito em 1951, onze anos antes do nascimento de muitos dos que leem esse testemunho – eu incluído. Mas é preciso justificar por que acho isso.

Em tempos de continuações de Star Wars e deliciosas bobagens como Guardiões das Galáxias, o filmaço O Dia em que a Terra Parou parece-me muitíssimo superior. Não apenas pela história bem articulada, mas principalmente pela ideia de que o ser humano é incompatível com aquilo que ele tanto proclama e a que ele muito diz visar: o pacifismo. Aos fatos vamos: Klaatu é um alien, um mensageiro, um representante de vários povos que se preocupam com outras civilizações. Ele é avançado – conhece mecânica celestial, filosofia, e sabe lidar com os humanos. Todos os aliens avançados – e sempre o são, claro – têm como preocupação maior o desprezo com que os humanos abusam do próprio ambiente e da própria condição. Klaatu desce, evidentemente, em solo americano e diz que vem em paz. Os humanos, por medo, agridem-no. Trancafiado num hospital, busca, em vão, uma reunião com os líderes políticos que comandam o planeta. Impossível – ou, pelo menos, difícil, afirma de forma arrogante um braço direito governamental ianque.

Klaatu foge, forma humana adquirida, para viver entre nós. Sabe que cientistas lhe darão ouvidos, e que serão eles – ou, na verdade, apenas um, de aparência einsteiniana – os locutores do desafio: reunir os humanos, ou seus líderes, sejam eles ligados à ciência ou à política. Hospedado numa pensão como Mr. Carpenter, faz amizade com o menino Bobby, enternece-se com sua mãe, viúva recente, a quem dá mostras de seu poder: em determinado dia, dentro de um elevador, e munido de informações científicas incompreensíveis a nós, faz parar a energia do planeta – toda ela, em todo canto, total e absoluta. É o dia em que a Terra para, para continuar a mesma, depois – como se nada houvesse acontecido.

Após essa demonstração de poder, e somente assim se faz ouvido, vê-se diante de humanos ouvintes. Sua missão é clara: ele representa uma comunidade intergalática que se preocupa com o fato de os terráqueos desenvolverem armas e tecnologia que podem prejudicar toda a galáxia. Diante de uma platéia que finge ouvir mensagens de paz, mas que, em verdade, não levará a sério toda a problemática que assola a humanidade, ele, Klaatu, o mensageiro, deixa claro que estaremos sendo observados. Ei-lo:

Os anos 1950, a Guerra Fria, a Europa reconstruída – tudo isso colaborando para que se criassem histórias sobre o desconhecido, sobre forasteiros intergaláticos, sobre possíveis ameaças interplanetárias. Wise foi por outro caminho: contou-nos uma história de paz que, aparentada com a boa ameaça, é, em termos absolutíssimos, necessária. Talvez quisesse dizer que a possibilidade da destruição gera o pacifismo, como querem alguns. Isso é balela. Cria o medo mútuo, mas não a paz. Talvez Wise tenha criado um libelo – suave, irônico – contra a autodestruição do homem, contra a corrida armamentista, contra o poder, em resumo. É, para mim, a obra-prima da ficção científica no cinema. Talvez Solaris, de Andrei Tarkovski, seja páreo. E, recentemente, Interestelar, de Christopher Nolan, que tem tudo para se tornar clássico.