Bella & Alfredo: os mestres em ação

Sendo eu professor – e de Literatura –, faz sentido eu preferir comentar sobre essa espécie tão, digamos, desprezada. Eu explico o motivo do peremptório adjetivo: como a leitura tem-se tornado algo secundário, é também natural que a literatura pegue carona nesse desprezo. E alguns dos vetores literários (no caso, professores) são, grosso modo, vistos como indivíduos que falam para surdos — ou, pelo menos, para a massa desinteressada em quem foi Guimarães Rosa ou o que vem a ser uma hipérbole. A da linguagem; não a da geometria — que fique claro. Voltemos aos professores. Já ouviram falar de Alfredo Bosi? E de Bella Jozef? Não? Então, prepare-se. A propósito: são estes dois abaixo:

Alfredo Bosi é meu ídolo — desde que assisti, no início dos anos 1980 (eu, estudante de Letras e tentando me firmar como professor), a uma palestra de sua lavra, na USP. O tema, se minha memória não me faz tropeçar, era sobre a narrativa de Brás Cubas, a revolução machadiana. A clareza com que expunha seu ponto de vista e a facilidade em dissecar as ironias do velho escritor causaram-me um grande impacto. Foi uma epifania: se eu tinha dúvidas sobre levar adiante a profissão, a coisa se dissipou como fumaça infértil. A partir dali, quis ler tudo o que ele produzira — e num certo sentido, obtive êxito. Leio seus livros até hoje, e me divirto como se a leitura fosse inédita.

Terminei a releitura de alguns estudos de seu Céu, Inferno. Obra essencial, subintitulada Ensaios de Crítica Literária e Ideológica. Se você espera uma linguagem carregada de hermetismos, inversões gramaticais e referências obscuras que dificultam a compreensão do leitor médio — eu, no caso —, esqueça. Alfredo Bosi é de uma clareza invejável, dono e senhor de um estilo que privilegia a comunicação direta aos interessados no assunto. Os ensaios sobre Giovanni Verga e Luigi Pirandello são absolutos. Machado, João Cabral, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda estão lá, entre tantos outros.

1986 – Página: 110 – O Sebo Cultural – Venda de livros, cd's e lp's novos e usadosE quanto a Bella Jozef? Conhecida e reconhecida como uma autoridade em literatura ibero-americana, em A máscara e o enigma, publicado há 40 anos pela Francisco Alves, a autora vai além. Aborda os temas crítica, modernidade, semiologia, cultura de massas, arte (em geral) e vanguarda. É uma fera na análise precisa, arguta, de observações que injetam discussão ampla em ensaios curtíssimos. É um volume necessário a quem se interessa por literatura e pelas vertentes que dela brotem — isso sem falar das várias abordagens que tendem a ampliar o significado literário. Livro essencial, sim, a professores e a estudiosos do tema. Afinal, espera-se, continuem leitores.

O clássico História da Literatura Hispano-Americana, e os essenciais O Espaço Reconquistado e Romance Hispano-Americano são obras de interesse específico — isso é inegável. Como apreciar a literatura, de modo geral, sem levar a conta a expressiva originalidade de uma literatura feita na América Espanhola? Para muitos críticos — Bella incluída —, não há nada melhor nos últimos 150 anos. É possível que tenham razão, mas, no fim e ao cabo, cada um lê como quer, e como pode.

Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

De tropicalista inspirado, Caetano chega aos 70 abraçando contradições ...

Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.

Massaud & Machado

Discurso de recepção pelo Acadêmico Erwin Theodor RosenthalMassaud Moisés é figura obrigatória em qualquer curso de Letras, e merece — deve, na verdade — ser lido por professores, por estudantes e por quem se interessa por literatura. É um craque nas palavras, principalmente quando escreve sobre algum objeto definido: um escritor escolhido, uma obra de destaque, um gênero específico. É autor de livros seminais, como A Literatura Brasileira através dos textos, A Criação Literária e o essencialíssimo Dicionário de termos literários. Ao lado de Alfredo Bosi e Antônio Cândido, forma a tríade masculina da teoria literária brasileira.

Machado de Assis, bem, não há necessidade de que eu o apresente. O que realmente é necessário é mostrar quando essas duas figuras se encontram. Em Machado de Assis: Ficção e Utopia, um encontra o outro, e da maneira mais elegante possível. O adjetivo em itálico justifica-se, porque a linguagem de Massaud Moisés é de uma clareza tão absoluta que suas reflexões acerca do enormíssimo Machado tornam-se elegantes. É bom de se ler justamente por isso – além de, no meu caso, aprender um bocado.

Machado de Assis: Ficção e Utopia | Amazon.com.brOs ensaios contidos no livro não são inéditos. Foram publicados desde 1958 em revistas, suplementos literários — muitos deles no Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, na década de 1990. Recomendo a leitura de todos os 14 ensaios, mas um deles – justamente o que intitula a coletânea — é tão precioso quanto fundamental. Partindo de Brás Cubas, o notável professor traz uma ideia inédita: como o escritor-chave do Realismo brasileiro pode ser um utopista? Lá pelas tantas, ele nos diz: “Mirando-se no espelho do texto, contemplando os semelhantes transfigurados em personagens, o leitor dá-se conta da imperfeição do mundo e a um só tempo sente-se atraído pela promessa de um mundo melhor aqui na terra.” Genial.

Massaud Moisés faz o que não havia sido feito: conecta Machado a Eça de Queiroz e a Proust (que viria depois); desmistifica a oposição entre os dois Machados: o romântico e o realista; apresenta a ideia de que o adultério de Capitu é algo secundário em Dom Casmurro. E por falar em Capitu, há um ensaio sensacional em que o professor conecta Minha Vida de Menina, de Helena Morley, publicado em 1942, com a heroína Maria Capitolina. É uma das melhores coisas do livro. Bem, se você nunca leu os textos críticos de Massaud Moisés, pode começar por esse. Além de traduzir o sempre necessário Machado de Assis, dá uma aula de como pensar literatura.

Em tempo: seu nome é pronunciado “Massaúde” e não “Massô”. Ele era descendente de libaneses; não de franceses.

Tom Jobim & Jon Bon Jovi

Um querido amigo, professor no RJ, contou-me, estupefato:

“Pedi a meus alunos, todos na faixa dos 16 anos, que me apontassem um grande sucesso de Tom Jobim. Os alunos entreolharam-se, e os olhares pareciam perguntar ‘Quem é Tom Jobim?’. Eis que uma menina, mais espertinha e contumaz usuária de celulares conectados ao mundo, perguntou: ‘É esse?’, e mostrou-me uma foto — e subsequentes preciosas informações — sobre Jon Bon Jovi.” Para quem não sabe, este, abaixo, é Antônio Carlos Jobim:

Biografia de Tom Jobim revela mágoa com sucesso

Sim, caros sexto e sétimo leitores, é sério. A despeito do distante parentesco — afinal ambos os nomes possuam o, j e i, sem contar a nasalização após o fonema /o/ —, o problema não é confundir o gênio com o pop star. O real problema reside em não fazer ideia de quem é Tom Jobim. Ou pior: sequer ter ouvido falar nele. Convivo com essa realidade e, ao contrário de lamentar e pensar em suicídio, tomo-a como combustível para continuar meu trabalho. Insisto no árduo (e muitas vezes infértil) ofício de levar a essa meninada — no meu caso, pré-vestibulandos entre 17 e 20 anos — informações sobre o que vale a pena. Ou, por outra: o que eu penso que vale a pena.

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Claro que há exceções. Dia desses, surpreendi-me: uma aluna perguntou-me se eu conhecia a cantora Carmen McRae. Pensei imediatamente em pedir a Jorge Bergoglio que, sendo ele meu xará, rezasse uma missa — no Vaticano. É uma pergunta que, dado o ambiente e o costume, chega às raias do milagre dos pães e dos peixes. Comemorei tanto que estou escrevendo sobre. Aproveitei e sugeri a ela que lesse uma postagem sobre a distintíssima e extraordinária cantora Carmen. AQUI, caso alguém, além da aluna, deseje ler.

Eis a questão: qual o papel de um professor? Entristecer-se e, sozinho, no silêncio da noite, embebedar-se? Crer-se cúmplice do desconhecimento e, então, ingerir a letal ricina, proteína encontrada exclusivamente no endosperma das sementes de mamona? Frustrar-se com a duvidosa opção dos alunos ou, sabendo dessa triste realidade, oportunizar que eles conheçam algo além do que é veiculado pela restrita web que frequentam? Creio que a opção em negrito seja a adequada. Vou em frente, sempre. Drummond tinha razão ao afirmar “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã.” Sem heroísmos, mas cumprindo a tarefa.

Professores & Professoras em Vitrine

Em homenagem ao DIA DO PROFESSOR — 15 de outubro —, aí vão alguns vídeos do podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó com professores e professoras ligados, cada um a seu modo, à literatura. Reitero meus agradecimentos a todos e a todas que, gentilmente, dialogaram com este que vos escreve. Agradeço também a quem assistiu aos bate-papos — ou os ouviu, porque estão disponíveis, também, no Spotify. Em frente, então: é só clicar e assistir.

E se quiser deixar um comentário, será muitíssimo bem vindo!

1. HERON MIRANDA, professor de Física e escritor.

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2. LILIAN MENENGUCI, professora e escritora.

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3. ORLANDO LOPES, professor e poeta

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4. ANAXIMANDRO AMORIM, professor, poeta e escritor

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5. RICARDO SALVALAIO e SAMIRA FREITAS, professores

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6. FRANCISCO AURÉLIO RIBEIRO, professor e escritor

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7. BERNADETTE LYRA, professora e escritora

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8. SAULO RIBEIRO, professor, escritor e editor

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9. THAÍS HELENA, professora e escritora

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10. PAULO SODRÉ, professor e escritor

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11. MARCELA AMARAL e PAULO SCARDUA, professores

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12. CAMILA DALVI, professora e escritora

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13. FERNANDO ACHIAMÉ, professor, poeta e escritor

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14. JERRY TONONI, professor

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15. RENATA BOMFIM, escritora e professora.

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16. INÊS AGUIAR DOS SANTOS NEVES, escritora e professora

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O universo de Sagan

Li e reli, nestes dias pré-Carnaval, para um absoluto deleite, alguns contos de Philip K. Dick, o volume 5 da Caixinha Preta, que contém, inclusive, a pequena obra-prima Nós Recordamos para você por atacado, que rendeu, há algumas décadas, o excelente longa de aventura O Vingador do Futuro. Entretenimento e ciência, numa linguagem compreensível a qualquer pessoa com um mínimo de senso. Imaginei-me tentando escrever ficção científica e, claro, concluo que tropeçaria num item fundamental: o referencial científico, o qual ignoro como um cego ignora as cores. Não se iludam os meus 6 ou 7 leitores: se algum dia vier à superfície algum texto – curto que seja –, de minha autoria, contendo elementos ficcionais e científicos, podem apostar: é plágio, e merecerei tanto o cárcere quanto o desprezo daqueles que, ao menos por enquanto, têm-me em conta. Estamos conversados.

Não sou íntimo do cientificismo, mas reconheço seu absoluto valor – incluindo aí sua capacidade de ilustrar a arte, de reforçá-la, de torná-la veículo para a comunicação e para a educação. Assisti, quase trinta anos após sua exibição de estreia no Brasil, a todos os episódios de Cosmos, o extraordinário documentário estrelado e coproduzido pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan. É acachapante, para dizer o mínimo. Como tentar resumir quase 800 minutos de imagens e texto que transformam a inacessível – ao menos teoricamente – ciência em algo quotidiano? Repito: é difícil, pelo menos para mim. Carl Sagan fez um trabalho social. Mandou às favas a mística de que ciência é coisa para iniciados, cheia de códigos e vocabulários específicos que apenas físicos, astrônomos, biólogos e bioquímicos são capazes de compreender.

Clube de Astronomia exibe episódio de “Cosmos” nesta sexta (12/5) | Instituto de Física

O que me impressionou no documentário foi sua assombrosa atemporalidade, principalmente no que diz respeito à relação homem/planeta, seja ela direcionada ao âmbito ecológico-ambiental, seja ela fincada na questão científica de que é preciso compreender o processo histórico para se chegar a conclusões que hoje facilitam a vida de todos. Embora todo o documentário seja uma apologia à informação, é interessante perceber que Carl Sagan não dedicou capítulos – um só que fosse – à inevitabilidade da internet. Talvez nem ele mesmo pudesse imaginar o que aconteceria dez anos depois. Está tudo lá: desde a história dos grandes homens que fizeram a ciência até as probabilidades quanto à inteligência extraterrestre; dos microrganismos até a mitologia hindu, da biblioteca de Alexandria aos limites da eternidade, passando por teorias e conceitos herméticos como quarta dimensão, anos-luz, velocidades inimagináveis, questões sobre espaço-tempo e diálogos entre cetáceos. Até o Google, muito antes de ser criado, está lá.

Amazon.com.br eBooks Kindle: Cosmos, Sagan, Carl, Druyan, Ann, Geiger, PauloFalo por mim: a ciência seduz quando é bem traduzida, quando se torna comum (nunca banal), quando suas portas e janelas estão tão escancaradas que é possível vislumbrar o que há em seu interior. E qual o óbvio papel dos professores nessa empreitada? Penso que eles existem para tornar a ciência viável, para expor sua sedução e ajudar na sua compreensão. Não há por que distanciá-la do indivíduo ordinário – no bom sentido –, que não domina conceitos e, por triste consequência, ignora conteúdos essenciais. Essa é sua tarefa e – talvez – seu martírio. Quem, a não ser aqueles poucos, interessa-se pela compreensão de funcionamentos, ligações, movimentos, temperaturas, moléculas, vácuo? E quando mostram interesse? São chamados nerds, habitantes de uma outra dimensão. Mas isso é outro papo.

Carl Sagan foi pelo caminho oposto. Cosmos é uma aula saborosa e dinâmica que, mesmo atrasado 30 anos, usufruo como se tudo fosse uma grande novidade. E é provável que seja mesmo.

Cinco vezes Preto

Cinco exemplos, todos eles referências pessoais, sobre o que se discute, além da Covid-19. E tão importante quanto.

Strange Fruit, canção que Billie Holiday imortalizou, nesta gravação ao vivo, de 1959. Para quem não sabe, é uma das canções emblemáticas da luta contra o racismo nos EUA. As “frutas estranhas” são os corpos dos negros pendurados nas árvores, vítimas da perseguição e do ódio brancos.

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Adivinhe quem vem para jantar?, filme de 1967, do craque Stanley Kramer. A branca de classe média apresenta o namorado aos pais, figuras conservadoras da elite branca americana. Katherine Hepburn, a mãe, revela, com o olhar, todo o conflito entre a felicidade da filha e a marca elitizada do caucasiano.

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Colored Spade, do filme Hair, de 1979, interpretado pela personagem Hud, vivido por Dorsey Wright. A forma como o branco norte-americano vê o negro é expressa de modo irônico, potente, às vezes intencionalmente amedrontador. Uma cena inesquecível. Soul puro!

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Nina Simone, a grande artista/ativista, em seu melhor papel: escancarando, musicalmente, a falta – que é o maior patrimônio da negritude norte-americana. Mas ainda há esperança. A gravação é de 1968, um ano emblemático, terrível para os direitos civis nos negros daquele país. A letra de Ain’t Got No, I Got Life você encontra AQUI.

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O livro Tenda dos Milagres é, provavelmente, o melhor exemplo de discussão acerca de racismo escrito por Jorge Amado, um contador de histórias que teve o racismo como base para vários romances. Um intelectual negro de nome sincrético (Pedro Archanjo Ojuobá) é perseguido em seu trabalho – a academia – por ter a cor da pele daqueles que não poderiam, sob qualquer hipótese, fazer das ideias seu modo de vida. Um livro para ser lido e relido, e para apresentar às novas gerações que as coisas continuam na mesma. Mas é preciso mudar.

Livro: Tendas dos Milagres - Jorge Amado | Estante Virtual

O que se quer da Arte?

Lembro-me bem de, na metade – ou um pouquinho mais – dos anos 80, século passado, ter tido acesso às histórias de Paulette, a gostosíssima personagem criada e desenhada por dois Georges – Wolinski e Pichard. Paulette é anatomicamente imperfeita, algo que faz dela uma personagem quase corriqueira, uma prima distante, uma vizinha ocasional. Não poderia, nem de longe, ser uma mulher comum, já que despertou, quando criada, no início dos anos 1970, em terras francesas, repúdio por parte dos bem-comportados e dos moralistas duvidosos. Isso sem falar em sua aparência um tanto gótica e, justamente por isso, tão atraente.

Os tempos eram outros – em tese. Sim, porque foi justamente a involução, o retrocesso, a intolerância radical e a fúria homicida que apagaram das páginas a deliciosa Paulette. Fizeram pior, muito pior: mataram gente inocente cujo papel, na vida e no quotidiano, era fazer arte – e da melhor qualidade. Georges Pichard já não estava entre nós: morrera em 2003, levando seu traço imortalizado, sua capacidade inequívoca de, sinestesicamente, desenhar o sabor feminino. George Wolinski, por seu turno, foi, junto com outros componentes da Charlie Hebdo, vítima de uma ação que me repugna e revolta. Quem não se lembra, há 4 anos?

Paulette serve como metonímia: quantos personagens, a partir de agora, tornam-se malditos porque expressam liberdade, erotismo, tesão? O futuro da arte erótica no país mostra-se numa situação pouco confortável. Aponta-se para perseguições, censuras, truculências, hidrofobias. Em nome de uma moralidade tão questionável quanto frágil, preconceituam-se as atividades artísticas como inimigas da família, vilãs dos bons costumes e adversárias do bem-viver. À arte cabe, também, a transgressão. Não é seu único papel, mas questionar o status quo e as mesquinhas e quebradiças tradições é uma de suas funções. Atiçar o pensamento é seu mote.

Lembrei-me do episódio do Queermuseu, há 1 ano. Houve quem se posicionasse favorável à exposição, e tal apoio foi fundamentado em opiniões que, a meu ver, devem ser levadas em conta. A arte existe porque existe subjetividade. É justamente através da visão pessoal que se identifica o processo artístico, bem como seu valor. Houve, entretanto, uma forma distinta de ver a exposição – e essa forma precisa ser respeitada. O que não se pode respeitar (e, sim, repudiar) é a maneira como se deu o processo dialético: com violência, autoritarismo, força. O mesmo que levou, considerando as proporções, ao extermínio de Paulette. No fim das contas, é a arte levando a pior.

Fica a pergunta: e agora? Para muita gente, o poder público federal legitimará a violência contra artes e artistas que se mostrarem avessos àquilo que eles chamam de bons costumes. Não acredito muito nessa possibilidade. De qualquer forma, vão calar artistas, professores, intelectuais, pensadores, estudiosos? Gostaria muito de obter a resposta para minha pergunta: o que se quer da arte? Sabe responder, Paulette?

Darwin, Pedro Xisto, escola

 

A figura acima tem nome: Epithalamium, e foi concebida por Pedro Xisto, poeta pernambucano cujo talento para a visualidade era inequívoco. Foi concretista, aliado dos irmãos Campos, embora não rezasse fanaticamente na cartilha Noigandres. Tenho apenas um de seus livros, Logogramas, encontrado na Livraria São José, sebo carioca da rua do Carmo. Apresentei o poema a meus alunos – aliás, é um exemplo recorrente, que considero necessário à compreensão da estética concretista. Mas por que falo isso? O poema, como é apresentado pelo autor, propõe uma relação entre texto e o mito de Adão e Eva e, de quebra, alude ao formato curvilíneo da serpente como metáfora do mal e da sensualidade.

Chamo a atenção de meus alunos para isso e aproveito, muito despretensiosamente, para perguntar se há criacionistas na sala. Os criacionistas, em sentido amplo, creem que o universo e os seres que nele habitam foram criados por Deus – e ponto final. Respeito-os como respeito aqueles que os contradizem: os evolucionistas. Na verdade, embora tenha sido educado para comungar com a primeira categoria, encaixo-me na segunda. Charles Darwin, para mim, é fundamento.

Li, com certa desagradável surpresa, que o próximo presidente, por meio de seus assessores na área de educação, quer que o Criacionismo seja discutido nas escolas públicas. Quer que seja debatido e ensinado tanto quanto o Evolucionismo o é. Em outras palavras: quer que a escola faça o que a Igreja tem o papel de fazer. Está AQUI, para quem quiser ler. A meu ver, ensinar Criacionismo nas escolas é algo tão grave quanto o contrário: a Igreja querer ensinar física e química aos fiéis. Considero, entretanto, que isso deva ser debatido, de forma responsável, criteriosa. Assim como se ensinam os porquês de vulcões expelirem lava, de aves serem capazes de voar e o que vem a ser a velocidade da luz, deve-se inserir a criança no debate sobre como o ser humano passou a habitar a Terra. Eu disse porquês. Ou seja: apontar fatos incontestáveis, evidências, razões, embasamentos. A fé tem seu importantíssimo lugar – mas não é na escola.

Respeito os criacionistas – como disse, acima -, mas mantenho-me fiel à figuraça aí acima (a barba espessa e o olhar enganosamente vago) e à sua teoria. Não cegamente, porque penso que alguns pontos do que ele escreveu precisam ser repensados, afinal que teoria permanece intocável durante 150 anos? Poucas. Algumas duram até 6 mil anos. A existência de Deus e seu poder criativo, mesmo sem uma comprovação eficaz, é uma delas. Pedro Xisto morreu em 1987. Vivo estivesse, o que diria disso tudo?