Meus xarás em ação: a melhor parceria

Meus xarás em ação: a melhor parceria

Pois é: estou de volta, após um abril sabático. Fui cobrado por alguns de meus 6 ou 7 leitores — um deles fez-me uma provocação, sem nada que, aparentemente, a motivasse: quem foi o grande parceiro de Chico Buarque? E deu-me opções: Vinicius, Edu Lobo, Ruy Guerra ou Tom Jobim. Na hora me veio à cabeça um quinto parceiro: para mim o melhor. Sei que qualquer comparação serve a nada. Ou talvez sirva para provocar polêmica. É questão de gosto pessoal, de modo que resolvi escrever sobre a dulpa Chico Buarque-Francis Hime, xarás entre si. E meus também.

Está certo: com Ruy Guerra Chico fez Calabar; com Edu, os discos A Dança da Meia-lua, O Grande Circo Místico e O Corsário do Rei. Com Vinicius, fez as canções Valsinha, Samba de Orly, Olha Maria e Desalento, e a parceria com Tom Jobim gerou, entre outras, Eu te amo, Olha Maria, Sabiá e a ótima Retrato em branco e preto. Só pérolas. E com Francis Hime? Bem, só para começar, criaram a clássica Atrás da Porta — que Elis imortalizou — , o genial choro-canção Meu Caro Amigo e a celebradíssima Vai Passar. Só isso já seria motivo para consagração, mas fizeram também o hino da separação, Trocando em Miúdos, a ultrapoética A Noiva da Cidade, a cínica Amor Barato e a deliciosa e ambiental Passaredo. Está bom para você?

Algumas gemas musicais da dupla Chico Buarque não gravou — ao menos não em seus discos oficiais: Pássara, O Rei de Ramos, Luíza, Quadrilha, Embarcação, Maravilha e Desembolada (cuja letra é um primor). Todas foram gravadas por Francis Hime, e às vezes com a participação luxuosa do xará. Por que escolhi Francis Hime como o parceiro ideal? Primeiro porque o refinamento musical e a sofisticação harmônica de Hime proporciona — e talvez provoque — uma pegada mais poética na linguagem do parceiro. Tom também conseguia isso, mas Francis Hime fez melhor. 

Em segundo lugar, porque Francis Hime esteve junto a Chico Buarque na década mais criativa de ambos: os anos 1970. Eu já afirmei — e repito! — que Chico não criou suas melhores canções por conta da ditadura, mas apesar dela. Foi seu momento mais inventivo justamente porque foi eleito, em certa medida, a falar por todos aqueles que, emudecidos pela truculência da censura, viam no compositor uma espécie de herói. Chico sempre negou esse papel de paladino. Hime, a seu lado, não era escudeiro — mas um parceiro que o compreendia musicalmente e que gerou melodias que imortalizaram muitas letras do compositor carioca. Parceria é isso. Não desmerecendo as outras, claro.

 

Solaris: Andrei & Stanislaw

Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época — e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho — no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo — buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

Melhores filmes: a quem interessa uma lista?

Pois é: fiquei em tempo sem postar, mas não consigo me segurar muito. Espero que meus escassos leitores tenham sentido falta. Tenho acessado a Folha de São Paulo e, nos últimos meses, leio, nesse veículo, algumas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Geralmente demandam cineastas — Scorsese, Oliver Stone, Francis Coppola, Walter Salles, Del Toro — e alguns atores, como De Niro e Di Caprio. Enfim, deve haver outros, mas minha memória falha. Eis a questão: qualquer lista brota da subjetividade e, portanto, está sujeita tanto a aplausos quanto a porretadas. Sem ter muito o que fazer, fui na onda, e fiz também minha lista. De onde vem a ideia de que ela interessa a alguém?, pergunta-me um de meus seis ou sete leitores.

Ei-la, sem uma ordem de preferência:

  1. A Laranja Mecânica, Stanley Kubrick
  2. Asas do Desejo, Win Wenders
  3. A Batalha de Argel, Gillo Pontecorvo
  4. O Poderoso Chefão, Francis Coppola
  5. O Vento será tua herança, Stanley Kramer
  6. O dia em que a Terra parou, Robert Wise
  7. Interestelar, Christopher Nolan
  8. A Felicidade não se compra, Frank Capra
  9. O Anjo Exterminador, Luís Buñuel
  10. O jardim dos Finzi-Continis, Vittorio De Sica

Imagens de Pessoa em duvida sem royalties | DepositPhotos

10 filmes? Os que vieram à cabeça, de imediato. Sem pensar muito, sem avaliar as consequências de ter deixado de lado algumas obras-primas. O cinema norte-americano aparece 6 vezes. Os outros  referem-se a filmes europeus — alemão, italiano, espanhol. Deixar cineastas como François Truffaut, Federico Fellini, Werner Herzog, Charlie Chaplin, Martin Scorsese, Roberto Rossellini, Akira Kurosawa e Carlos Saura de fora parece ser ousadia demais. Ou burrice demais. Enfim, resumir os melhores filmes em apenas 10 é tarefa inacabada.

Qualquer leitor que — por acaso ou não — leia esta postagem, vai apontar inconsistências. Pode manifestar-se, caso queira. Em tempo: não sei quem é o sujeito da ilustração acima,  mas espero que, ao menos, goste de cinema.

Filmes (re)vistos #11: Interestelar, 2014

Assisti, mais uma vez, ao já clássico Interestelar, do inglês Christopher Nolan. É filme para ser revisto por quem não domina a ciência como um estudioso da área — física, astronomia — e aproveita, desse modo, para tentar, mesmo que superficialmente, compreender aspectos técnicos acerca de buracos negros, velocidade da luz, gravidade, espaço-tempo e buracos de minhoca. Se não compreende, não importa: a diversão fala mais alto. Há, claro, o aspecto que me chamou a atenção e que me faz rever o filme, sempre que possível: a relação pai/filha. E dentro desse aspecto, a ideia de que somente o amor e a gravidade são ferramentas capazes de atravessar as dimensões.

Tudo no filme funciona: desde a tragédia provocada pela burrice humana, que despreza a fragilidade que ela própria causou ao ambiente, até os toques de bom humor na relação entre ser humano e robô. O retorno a uma sociedade agrária faz com que o mundo esqueça os exércitos, a ciência e o entretenimento. O que vale é produzir alimentos para amenizar o desespero provocado pelo iminente fim do mundo. Vale, por isso, tentar encontrar um novo lar para os habitantes da Terra condenada, que sufoca por conta da estranha e densa poeira cotidiana provocada pela irresponsabilidade dos homens.

Interestelar é, no fundo — e no raso também —, uma história de amor e preservação. É o pai que, ao perceber o interesse da filha de 10 anos por ciência, estimula-a a buscar respostas, a avaliar as possibilidades, a enxergar o que não está evidente. É ele quem terraplena o terreno inicial pelo qual ela vai transitar até chegar, com o próprio talento e esforço, à resposta que salvará a humanidade. É o amor que ele sente por ela — e que é recíproco — que estabelece a comunicação dimensional, o diálogo que ultrapassa qualquer barreira temporal. Não há como não se emocionar quando pai e filha se encontram.

Gosto de filmes de ficção científica. Escrevi sobre o meu preferido: O dia em que a Terra parou, de Robert Wise, feito há 74 anos. AQUI você pode ler, caso queira. É um filmaço: aventura, filosofia, pacifismo e pavor de que uma sociedade mais avançada faça conosco o que fazemos com os animais. Há uma refilmagem, de 2008, com Keanu Reeves e Jennifer Connelly que é melhor deixar pra lá. E por falar em mulher bonita, em Interestelar há a presença de Anne Hataway — que é, claro, uma belezura de aplaudir. Se você não gosta de ficção científica, assista ao filme para vê-la, ao menos.

O melhor do jazz #13: contrabaixistas

Quem é o melhor contrabaixista do jazz? Não faço a mínima ideia. Posso, claro, enumerar os meus preferidos, aqueles que, nesses 45 anos ouvindo jazz, mais me agradaram aos ouvidos. Creio que Charles Mingus seja uma unanimidade, um ícone jazzístico que superou a restritiva condição de contrabaixista. Além de band leader, foi um grande orquestrador, um arranjador de primeiríssima e um ótimo pianista. Penso que é o primeiro da lista, com justiça. E o disco em questão, Pithecantropus Erectus, de onde saiu a faixa homônima, se não é sua obra-prima, chega perto.

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Ray Brown aparentemente tocou com todos os grandes nomes do jazz. Ao menos com quem importa: Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell e Oscar Peterson. Dono e senhor de um estilo plural, foi um sideman de luxo, e um solista absolutamente perfeito. Gosto de todos os discos de que participou — todos os que conheço, evidentemente. Há um, em especial, Black Orpheus — que é, de fato, Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá —, cuja faixa-título pode ser ouvida e vista abaixo. Na bateria, George Fludas, o grande baterista de Chicago.

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Miles Davis responde como líder de dois enormíssimos quintetos do jazz. O primeiro traz como contrabaixista o gigante Paul Chambers; o segundo apresenta um dos maiores do jazz: Ron Carter. Fã de música brasileira, tocou com Antônio Carlos Jobim, Luiz Bonfá, Robertinho Silva e Hermeto Paschoal, sem contar que lançou um discaço chamado Orfeu. No quinteto de Miles, mostrava a que vinha: dono de um senso de ritmo de de suingue inigualáveis no jazz, Mr. Carter fazia na cozinha o que fazia na sala de jantar — ou seja, como líder. É um dos maiores. Abaixo, com seu quarteto, no Festival Internacional de Jazz de San Javier, na Espanha. Ouça tudo; em particular de 2:45 a 4:15.

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Imagine um contrabaixista que foi considerado como o melhor de todos por músicos como Paul Quinichette, Sonny Stitt e Lee Morgan. Imagine um músico que não se intimidou ao tocar junto a Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans, no quinteto que trouxe ao mundo Kind of Blue. Pois esse sujeito existe e se chama Paul Chambers, a quem se deveu uma revolução no instrumento, com um senso de ritmo até então nunca visto. Assim como Jimmy Blanton, seu ídolo e contrabaixista de Duke Ellington, Paul Chambers passou a não depender mais do baterista para atuar. Fez história. Abaixo, um solo em On Green Dolphin Street, acompanhando (e usando o arco) o pianista Wynton Kelly.

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Da primeira vez que ouvi The Shape of Jazz to come, do saxofonista Ornette Coleman, fiquei impressionado com o contrabaixista, Charlie Haden. Sem um piano que criasse a “liga” para os outros músicos, ficou por conta das cordas fazerem seu trabalho. Haden é um craque. Seu trabalho ao lado de Art Pepper é igualmente excelente, e mais maduro, mais profissional. E, com Jan Garbarek, no sax, e o brasileiro Egberto Gismonti, ao piano e ao violão, criou uma das grandes performances em Montreal. Acompanhe, abaixo, a partir de 6:29. Aliás, veja tudo.

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Professores & Professoras em Vitrine

Em homenagem ao DIA DO PROFESSOR — 15 de outubro —, aí vão alguns vídeos do podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó com professores e professoras ligados, cada um a seu modo, à literatura. Reitero meus agradecimentos a todos e a todas que, gentilmente, dialogaram com este que vos escreve. Agradeço também a quem assistiu aos bate-papos — ou os ouviu, porque estão disponíveis, também, no Spotify. Em frente, então: é só clicar e assistir.

E se quiser deixar um comentário, será muitíssimo bem vindo!

1. HERON MIRANDA, professor de Física e escritor.

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2. LILIAN MENENGUCI, professora e escritora.

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3. ORLANDO LOPES, professor e poeta

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4. ANAXIMANDRO AMORIM, professor, poeta e escritor

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5. RICARDO SALVALAIO e SAMIRA FREITAS, professores

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6. FRANCISCO AURÉLIO RIBEIRO, professor e escritor

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7. BERNADETTE LYRA, professora e escritora

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8. SAULO RIBEIRO, professor, escritor e editor

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9. THAÍS HELENA, professora e escritora

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10. PAULO SODRÉ, professor e escritor

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11. MARCELA AMARAL e PAULO SCARDUA, professores

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12. CAMILA DALVI, professora e escritora

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13. FERNANDO ACHIAMÉ, professor, poeta e escritor

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14. JERRY TONONI, professor

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15. RENATA BOMFIM, escritora e professora.

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16. INÊS AGUIAR DOS SANTOS NEVES, escritora e professora

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O melhor do Jazz #12: os livros

Livros sobre jazz há aos montes — ainda bem! Embora se diga que é um assunto que interessa a poucos, eu discordo. A maioria que diz não apreciar o jazz na verdade não o conhece. Ou pode ter sido mal apresentada a ele. Os cinco livros selecionados são, todos, traduzidos para o português. Dois deles foram escritos em nossa língua. Evidentemente — e eu teimo em repetir —, a lista é subjetiva, e composta somente por livros que eu tenha lido. Ou seja: é lista restrita, consumida por quem não é músico, mas por alguém que gostaria de ser.

Veja os detalhes da imagem relacionada. O JAZZ: DO RAG AO ROCK - Berendt, Joachim E.Joachim-Ernest Berendt era um incansável jornalista apaixonado por jazz. Organizou vários festivais do gênero, incluindo um dos melhores em todos os tempos: o Berliner Jazztage. Nesse livro, O Jazz — do rag ao rock, há uma análise arguta – embora resumida – de cada um dos subgêneros do jazz. Os grandes instrumentistas, os arranjadores essenciais, as inesquecíveis formações — e o mais importante: a história do jazz contada por que era um obcecado. Ao final, como um apêndice, há uma discografia selecionada que serve como guia necessário a quem ouve ou quer ouvir jazz.

Resumo - Kind of Blue - Recentes - 1O lendário quinteto de Miles Davis era um sexteto quando um dos maiores discos da história do jazz foi concebido. Kind of Blue: a história da obra-prima de Miles Davis, escrito pelo crítico e estudioso do jazz Ashley Kahn, narra, com clareza, os antecedentes e os consequentes da criação modal de um dos maiores gênios do jazz. Das fofocas aos registros oficiais, da natureza de cada um dos envolvidos no processo de concepção do disco. Mais sobre o livro: AQUI.

Capa do livroUm dos primeiros livros que li sobre o assunto foi escrito por Luiz Orlando Carneiro: Obras-primas do Jazz, que saiu pela Zahar e, 1986. Livro de didatismo inquestionável e percepção sensível sobre os grandes nomes do gênero. Um glossário, ao final do livro, com o objetivo de familiarizar o leitor com o vocabulário jazzístico, é um dos pontos altos – sem contar, claro, a abordagem crítica de um dos grandes conhecedores brasileiros do jazz.

Jazz Panorama – Wikipédia, a enciclopédia livreJorge Guinle era uma figura. Playboy riquíssimo, frequentador do jet set internacional, cicerone das estrelas de Hollywood, e apaixonado por jazz. Bem, o livro foi publicado há 70 anos — daí estar desatualizado. À parte esse pormenor, Jorge Guinle era dono de uma coleção de discos invejável, e resolveu, por conta e risco, escrever sobre jazz. Bem, teve ele a vantagem de escrever sobre muitos a quem ele conhecia pessoalmente: Gillespie, Getz, Bill Evans e Roy Eldridge eram seus amigos. Um livro ótimo, com relevantes análises de quem conhecia muito o elemento. Jazz Panorama é um título adequado, e evidentemente subjetivo.

Ainda na faculdade, ganhei, de um amigo querido, Jazz — das raízes ao rock, cuja autora é Lillian Erlich. Bem, o título original é muito mais bacana: What Jazz Is All About. Enfim, o problema de tradução é grave. Por exemplo, traduz-se o disco Live at Village Vanguard, de Coltrane, como Ao vivo na Vila Vanguarda, mas tudo bem. A despeito disso, é um livro delicioso, cheio de informações básicas (para quem não tem intimidade com o jazz) e preciosas (para quem tem). São 12 capítulos que expõem a evolução do gênero, bem como suas mudanças de caminho. O capítulo sobre o be-bop, sob o título de Bird e Diz lideram o movimento é absolutamente sensacional.

Um p.s. necessário: compositores, instrumentistas, arranjadores, trios, quartetos, quintetos, orquestras e gravadoras que tenham surgido depois de 1990 não são contemplados nos livros desta lista. É o senão desta postagem — se é que não há outros.

O melhor Woody (para quem?)

Conversava eu com alguns amigos sobre cinema. Nada técnico: apenas preferências, lembranças, bons e maus momentos em filmes, canastrice de atores e atrizes, diretores competentes etc. Tudo baseado em opiniões que, na maioria das vezes, não precisavam de justificativa. Sim, assim que é bom. Pois na conversa veio a pergunta, direta, a meus ouvidos: qual o melhor filme de Woody Allen? E a pergunta se fez seguir de um desafio ainda maior: dentre tantos, precisaria escolher três — nem menos, nem mais.

Bem, eu escolho, logo de cara, Zelig, filme de 1983. Obra-prima, sem tirar nem pôr. É ousadia demais produzir, no início dos anos 1980, um filme (em formato documental) em preto & branco sobre um homem cuja única característica interessante é ser um camaleão humano — ou seja: ao aproximar-se de alguém, ele passa a se parecer com essa pessoa a quem acompanha. A esposa à época, Mia Farrow, faz uma psicanalista que se apaixona por seu paciente. Comédia? Não é exatamente uma comédia, e não sei bem sei a que gênero pertence. A película, contudo, é ótima, principalmente para se rever.

Tour Filme Meia Noite em Paris (2011) - Simplesmente ParisOutro: Meia-noite em Paris, de 2011. É a homenagem à literatura, ao cinema, à música e à pintura e, claro, àquela tal geração perdida, gente que se refugiou em Paris porque havia espaço para a criação, para o desbunde (da época), para a liberdade. É a conexão absolutamente perfeita entre humor e surrealismo — sem falar, claro, que surrealistas como Buñuel e Dali privavam com Zelda Fitzgerald e seu marido, Cole Porter, e Gertrude Stein. Aliás, a breve conversa entre Gertrude e Picasso é ótima. Quem não apreciaria, sabe-se lá por quê e como, voltar no tempo e contracenar com seus ídolos? Uma beleza de filme.

O terceiro filme: Poucas e boas, de 1999: Woody Allen e o jazz, gênero o qual tanto ama. Sean Penn, sempre excelente, é um músico de jazz (Emmet Ray) cujo passatempo é matar ratos a tiros. Melhor que ele, no instrumento — guitarra —, somente o cigano Django Reinhardt (em cuja presença Emmet sempre desmaia). Engana-se, entretanto, quem acha que seja um filme sobre música. É, de fato, um filme sobre afeto, sobre como o artista lida com as pessoas a quem ama e, mais ainda, como o artista vê o mundo. E de como perde a pessoa amada justamente por ser artista — ou seja: um egoísta por princípio. Vale ver, se não viu. Rever, então, nem se fala.

Poucas e Boas | Isabela Boscov

Deixar de fora Annie Hall, Maridos e Esposas, Manhattan e Interiores é pedir para ser internado. Coisa de hospício mesmo. Vamos em frente, todavia.

João Ubaldo, aos 83

Talvez eu esteja exagerando, mas o romance brasileiro do século XX chegou a seu apogeu com dois autores: João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues. O primeiro aperfeiçoou o regionalismo, saindo do NE e rumando para o sertão mineiro, levando a linguagem – que é a matéria-prima da literatura – a consequências últimas. O outro não tem rivais quando os temas são a perversão humana, a vilania, o pecado, a hipocrisia e o sexo. São dois mestres inquestionáveis, a meu ver. E depois deles? Quem é o grande romancista brasileiro? Quem conseguiu a façanha de manter-se sempre no auge, enquanto escreveu?

O escritor João Ubaldo Ribeiro Foto: Leo Aversa

Eu escolho João Ubaldo Ribeiro. Ok, você dirá: ele é muito mais cronista que romancista. O citado Nelson Rodrigues também – mas o que é um romance senão um emaranhado de pequenas narrativas que, juntas, caracterizam uma longa história? Se duvida, leia, ao menos, dois de seus livros: Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto. E olhe que estou deixando de lado a obra-prima Sargento Getúlio que, na verdade, mereceria uma postagem só para ela. A Casa dos budas ditosos é ótimo, mas não tem o vigor literário dos 3 citados neste parágrafo.

VIVA O POVO BRASILEIRO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO, EDITORPermitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.

Livro: O Sorriso do Lagarto - João Ubaldo Ribeiro | Estante VirtualO Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.

Escolhi escrever sobre João Ubaldo Ribeiro porque hoje, 23/1, ele faria 83 anos, caso estivesse vivo. E não está?, alguém pode perguntar.

Cinema ou sardinha, Guillermo?

Guillermo Cabrera Infante y la censura

Escrevi sobre livros de Guillermo Cabrera Infante, um dos meus ídolos literários. Dois deles: Fumaça Pura e Mea Cuba, volumes cuja (re)leitura me enche de prazer e – se me permitem a pieguice – enchem meu coração de alegria. Cabrera Infante é fã de cinema, e o compreende de forma bastante singular, e essa singularidade é expressa em palavras que se transformam em crônicas bem humoradas, por vezes mordazes, que emitem luz sobre a arte que tanto aprecia a luminosidade. No início de 2023, adquiri os três volumes de artigos sobre filmes: Cinema ou sardinha. Em espanhol os volumes concentram-se num só.

Cinema ou sardinha - parte 2: Vias, bem vivas: Volume 2 | Amazon.com.brCabrera Infante tem aquilo que todo escritor deseja ter: maturidade irônica. E é justamente munido dessa ferramenta que ele escreve – parece conversar com o leitor, entre charutos e doses de bourbon – sobre Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, Vincente Minnelli, sobre seus filmes e como eles conseguiram referenciar uma época e muitos costumes. Sim, o cinema é, claro, a grande personagem do livro, reverenciada por um autor que desde a infância se mostrou cinéfilo apaixonado, febril. O título, aliás, é uma grande brincadeira. Pode-se viver sem sardinha, mas não sem cinema.

As mulheres não estão ausentes: o volume 2, cuja capa ilustra a postagem, é marcado por crônicas que homenageiam Marilyn, Rita Hayworth, Anita Loos, Mae West, Barbara Stanwyck, Gloria Swanson, Ava Gardner. Até Sharon Stone e Melanie Griffith entraram no rol. E homens célebres como William Holden, Orson Welles, Fellini, Chaplin, Cary Grant e James Mason. É uma festa. E tudo isso escrito com a pena infantiana – ou seja, veloz, mordaz, sacana, trocadilhesca e tão literária que causa inveja: ao menos em mim. Vai causar inveja a você, também. Se você que lê aprecia cinema, não pode deixar de ler a trilogia.

Cinema Ou Sardinha - Parte 1 Pompas Fúnebres - SBSE para quem torce o nariz para o cinema americano, há diversão fora do eixo: Guillermo Cabrera Infante escreve sobre Almodóvar, Fritz Lang, Kiarostami, Kurosawa. Escreve sobre grandes diretores e, claro, grandes filmes feitos por eles, sobre filmes B, sobre o faroeste, os filmes em preto e branco e por aí vai. Tudo sob a ótica de um erudito que sabe ser popular – e vice-versa. Li vários livros sobre cinema – da crônica ao romance, passando por biografias e análises fílmicas -, mas nada me divertiu tanto quanto, diante da erudição e do conhecimento de Cabrera Infante, perceber que o cinema sobrevive e para sempre viverá. Vale ler para crer.