Wakeman, Henry VIII & as esposas

Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia — com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 — quando morreu —, teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.

O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.

Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.

Rick Wakeman nos cuenta sobre sus inicios y su próximos proyectosSe Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.

Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.

Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.

 

Meus xarás em ação: a melhor parceria

Meus xarás em ação: a melhor parceria

Pois é: estou de volta, após um abril sabático. Fui cobrado por alguns de meus 6 ou 7 leitores — um deles fez-me uma provocação, sem nada que, aparentemente, a motivasse: quem foi o grande parceiro de Chico Buarque? E deu-me opções: Vinicius, Edu Lobo, Ruy Guerra ou Tom Jobim. Na hora me veio à cabeça um quinto parceiro: para mim o melhor. Sei que qualquer comparação serve a nada. Ou talvez sirva para provocar polêmica. É questão de gosto pessoal, de modo que resolvi escrever sobre a dulpa Chico Buarque-Francis Hime, xarás entre si. E meus também.

Está certo: com Ruy Guerra Chico fez Calabar; com Edu, os discos A Dança da Meia-lua, O Grande Circo Místico e O Corsário do Rei. Com Vinicius, fez as canções Valsinha, Samba de Orly, Olha Maria e Desalento, e a parceria com Tom Jobim gerou, entre outras, Eu te amo, Olha Maria, Sabiá e a ótima Retrato em branco e preto. Só pérolas. E com Francis Hime? Bem, só para começar, criaram a clássica Atrás da Porta — que Elis imortalizou — , o genial choro-canção Meu Caro Amigo e a celebradíssima Vai Passar. Só isso já seria motivo para consagração, mas fizeram também o hino da separação, Trocando em Miúdos, a ultrapoética A Noiva da Cidade, a cínica Amor Barato e a deliciosa e ambiental Passaredo. Está bom para você?

Algumas gemas musicais da dupla Chico Buarque não gravou — ao menos não em seus discos oficiais: Pássara, O Rei de Ramos, Luíza, Quadrilha, Embarcação, Maravilha e Desembolada (cuja letra é um primor). Todas foram gravadas por Francis Hime, e às vezes com a participação luxuosa do xará. Por que escolhi Francis Hime como o parceiro ideal? Primeiro porque o refinamento musical e a sofisticação harmônica de Hime proporciona — e talvez provoque — uma pegada mais poética na linguagem do parceiro. Tom também conseguia isso, mas Francis Hime fez melhor. 

Em segundo lugar, porque Francis Hime esteve junto a Chico Buarque na década mais criativa de ambos: os anos 1970. Eu já afirmei — e repito! — que Chico não criou suas melhores canções por conta da ditadura, mas apesar dela. Foi seu momento mais inventivo justamente porque foi eleito, em certa medida, a falar por todos aqueles que, emudecidos pela truculência da censura, viam no compositor uma espécie de herói. Chico sempre negou esse papel de paladino. Hime, a seu lado, não era escudeiro — mas um parceiro que o compreendia musicalmente e que gerou melodias que imortalizaram muitas letras do compositor carioca. Parceria é isso. Não desmerecendo as outras, claro.

 

Este aqui é Bobby Timmons

Este aqui é Bobby Timmons

Bobby Timmons morreu no dia 1º de março, há 42 anos. É um dos grandes pianistas de um gênero, o jazz, cujo instrumento — o piano — é sempre estimado. É algo ancestral: lembra a música clássica, o homem diante das teclas, o som puro e de rara beleza. Timmons, por sua vez, é menos celebrado. Thelonious Monk, Duke Ellington, Bud Powell e Bill Evans estão no panteão, bem acomodados. Por mim, Bobby Timmons faria companhia a eles, principalmente porque — mais uma vez em minha opinião — sua mão direita tem pouquíssimos rivais, no jazz. Sem falar no suingue e na precisão com que marca a melodia. Neste momento em que escrevo, como uma homenagem, ouço This Here is Bobby Timmons (capa ao lado).

Se você curte jazz, conhece pelo menos um dos temas imortais de Timmons: Moanin’, que deu origem a um dos grandes discos do baterista Art Blakey. É, aliás, o título do disco, em que os mensageiros do jazz — incluindo Bobby Timmons — faziam a festa. O disco e o tema são clássicos: referências inevitáveis em qualquer coletânea de quinteto ou sexteto. Não conhece? Eis:

Play

Bobby Timmons se mostra, absoluto, a partir dos 7:02, num solo que dura quase 4 minutos de raríssima beleza e talento. É o dono da música, a qual, dizem, compôs num único dia. Observe que titãs do calibre de Lee Morgan e Benny Golson, estáticos, ouvem o som celestial. Art Blakey, dono da bola e do time, dá um risinho de admiração plena. Timmons é o gênio da raça.

Timmons gravou com grandes craques: além de ter feito parte dos Jazz Messengers, de Blakey, tocou com Chet Baker, com os saxofonistas Dexter Gordon, Johhny Griffin, Sonny Stitt e Hank Mobley. Fez um impressionante duo com o guitarrista Kenny Burrell em dois discaços — Blue Lights, em dois volumes. No início de carreira, tocou com os exigentes irmãos Adderley, Nat e Cannonball, e a estupefação tomou conta dos dois. Sabiam que aquele pianista era uma pérola.

Bobby Timmons DVDs - Blue SoundsA faixa This Here, que se combina ao título do disco, é um primor. Alegre, precisa, suingada: é a antessala de um subgênero que Bobby Timmons ajudou a criar: o soul jazz, e foi um sucesso comercial de que pouca gente, no jazz, usufruiu. Talvez Brubeck; talvez Miles. Se não conhece, tecle AQUI. Acompanhado pelo baixista Sam Jones e com Jimmy Cobb nos couros, é um dos ótimo discos de trio de jazz que conheço. A propósito, ouça o disco inteiro. É melhor, e faz justiça a esse enormíssimo pianista. Saravá, Bobby!

 

Eurípides encontra Chico & Paulo

Eurípides encontra Chico & Paulo

O texto Gota d’Água é uma leitura pós-moderna e urbana do texto clássico de Eurípides, uma adequação (com diferenças em relação à tragédia clássica) intertextualizada, transformada em drama em versos. Joana, a Medéia brasileira que, abandonada pelo amante Jasão, muito mais novo que ela, e com quem tivera dois filhos, torna-se uma mulher angustiada e oprimida pela situação amorosa e social. Jasão, autor do samba de (então) sucesso Gota d’Água, vai casar-se com Alma, a filha do poderoso Creonte, proprietário do conjunto residencial e explorador de todo aquele povo oprimido da Vila do Meio-Dia. Além de perder seu amante, Joana, encurralada pela engrenagem social, será expulsa por Creonte, com seus dois filhos. Tendo falhado o plano de vingança — de envenenar a noiva no dia do casamento —, ela acabará por envenenar os dois filhos e a si própria.

Bem, essa é a ideia central do drama em versos criado pela dupla Chico Buarque e Paulo Pontes. Este último, um craque da dramaturgia. Chico, genial como compositor, colabora — também — com o traço musical, compondo algumas pérolas interpretadas pelos atores e atrizes. É caso da triste Basta Um Dia e da eletrizante Flor da Idade (um trabalho intertextual drummondino). Paulo Pontes teve a ideia da singularidade estrutural: embora seja pertencente ao gênero dramático, o texto se preocupa fundamentalmente com a linguagem e com sua disposição, já que é estruturado em versos de todas as metrificações possíveis — mesmo havendo predominância dos versos alexandrinos e decassílabos. Outro elemento de destaque é a elaboração das rimas (soantes sempre) revelando o aspecto musical do texto.

O italiano Gianni Rato dirigiu a primeira montagem da peça — e com Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela canta no palco e canta no disco, este uma obra rara encontrada somente em sebos. Claro: Bibi não era cantora de excelência, mas também não era bissexta. Uma atriz completa, que encarnou toda a dor e a fúria da mulher rejeitada que resolve dar o troco, mas que tropeça no próprio exagero sentimental. Assisti à peça em 1981, quando foi encenada no Carlos Gomes. Já não era Roberto Bonfim que interpretava Jasão. Até onde me lembro era Adriano Reis.

Um espetáculo de beleza e potência, no qual se discutia desde a força capitalista — que resume o homem a um objeto insosso e vulnerabilíssimo — até a decomposição da mulher que envelhece, e cujo valor decai à medida que ela não vê chances de essa condição se alterar. Mestre da linguagem ligeira, Chico Buarque mistura tudo: do erudito ao pop, para agradar a gregos e curitibanos. Está faltando alguém montar uma atualização da peça — mas sem mexer no texto. Sequer uma linha.

Brendel e Levine concertando Ludwig

Brendel e Levine concertando Ludwig

O notável pianista Alfred Brendel deixou-nos há alguns meses. Foi, para muita gente, o maior intérprete das obras para piano de 3 grandes: Beethoven, Liszt e Schubert. Eu não sei dizer se é o maior — mas está entre os melhores que ouvi. James Levine é um californiano que mandou e desmandou em duas grandes companhias musicais: a Met Opera e a Sinfônica de Boston. São dois craques que, inseridos (cada um a seu modo, mas como convidados) na centenária Sinfônica de Chicago, fizeram história. Um dos resultados dessa história é um disco triplo da Philips, ilustrado ao lado.

Que fique claro: sobre o casamento Brendel-Beethoven, ao menos um fruto é fundamental: foi o pioneiro na gravação de todos os concertos do alemão para piano. Ninguém se aventurava, já que era empreitada que previa desgaste, muito trabalho e o tempo parecia andar lentamente. Sem contar que era necessária a presença de um maestro tão linha-dura quanto maleável, a depender da situação. James Levine era o cara certo. Quanto à Sinfônica de Chicago, bem, quase mil gravações e mais de 60 prêmios Grammy credenciam-na como adequada para acompanhar a dupla Brendel-Levine.

Alfred Brendel gravou os concertos para piano três vezes. Fez o mesmo com as sonatas. Era um apaixonado por Beethoven, a quem considerava o maior nome da música. E olhe que gravou Schubert, Schumann, Haydn, Mozart e Brahms. Deu colher de chá aos russos Balakirev, Stravinsky e a Mussorgsky — naquele ótimo cedê da One Music. Sinceramente? O que mais se aproxima, em qualidade, dos concertos de Beethoven é a caixa que a Decca lançou, há alguns anos, intitulada Piano Works. Sim, com a obra de Schubert. Claro que considero apenas o que conheço. É opinião para lá de limitada.

Há muito lirismo na interpretação de Alfred Brendel e na condução de James Levine — mas esse lirismo, segundo o próprio pianista, está na concepção de Beethoven. Ao pianista cabe expor as características da obra sem embutir muito sua subjetividade. Há muita seriedade também: alguns concertos trazem a marca grave do grande criador que era o velho Ludwig. Bem, alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. Deixo para um possível leitor ouvir o que o trio Brendel-Beethoven-Levine tem a dizer. E esse leitor pode decidir se concorda ou não com Alfred. Eu, não.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Gil, o Tempo, o show & amigos

Gil, o Tempo, o show & amigos

Tempo Rei é o título da última turnê de Gilberto Gil. Assisti ao show, no último sábado, no RJ, em companhia de amigos queridos — tão fãs de Gil quanto eu. Como sou o decano do grupo, posso dizer que sou fã há mais tempo, a considerar que Gil chegou a meus ouvidos em 1977, quando nenhum desses meus amigos era sequer nascido. Sim, sou velho. Eis aí a questão, que me consola: Gil mostra, durante todo o espetáculo, que o tempo existe para nosso aprendizado. Ele está certo: eu, por exemplo, muito aprendi com ele, com suas canções, em suas entrevistas, com a sua forma muito peculiar de encarar o mundo. Ele me levou à literatura e, claro, à MPB.

Emocionei-me durante o show: chorei mesmo, enquanto a maioria do público comemorava a comunhão com um dos mais importantes artistas da história da música brasileira. Chorei porque o tempo assim exigiu: voltei à minha adolescência, à minha querida amiga baiana Izinha, née Josemília, que me apresentou Refazenda, disco que veio ao mundo em 1975. Retornando aos 15 anos — minha idade em 1977 —, o tempo faz sua parte, e as lembranças sobrevieram, a emoção foi inevitável. Gilberto Gil foi-me um professor afetuoso, daqueles cujo trabalho se torna emblema que fica e se desenvolve.

Gil revisitou-se: foi do início da carreira — Domingo no Parque, Procissão, Eu só quero um xodó — passando por canções de pegada roqueira (Punk da Periferia, Expresso 2222, Banda Um e Realce, por exemplo), por temática familiar: Esotérico, Drão, Vamos Fugir, e clássicos como Se eu quiser falar com Deus, Refazenda, Refavela, Cálice e muito mais canções absolutamente inesquecíveis. Essa revisita é uma forma de respeitar o tempo, que passa e deixa seu rastro, sua marca indelével. E mais: a banda que o acompanha, formada por alguns familiares, é de primeiríssima linha, e família é um indício de que o tempo passa. Um naipe de metais competentíssimo aliado a um quarteto de cordas pra lá de eficiente. Chamou-me a atenção o acordeonista Mestrinho e o guitarrista João Gil, seu neto. 

Só para constar: Nara Gil, a primogênita, é cantora; o filho Bem Gil é baixista e guitarrista; José Gil, outro filho, é ótimo baterista; o citado guitarrista João — filho de Nara — e, de quebra, a backing vocal Mariá Pinkusfeld, a bela nora casada com José. Afeto transbordando no palco. E por falar em afeto, repito-me: emocionei-me e sei que essa emoção se manterá por muito tempo. Gilberto Gil foi e continua sendo um dos meus compositores essenciais. Tenho certeza de que sem ele, sem sua música e seus ensinamentos, este texto que você lê não existiria. Já que o tema deste post refere-se ao tempo, aproveito e afirmo que serei grato a Gil para sempre. Sim, para sempre.

Gilberto Gil em turnê 'Tempo Rei' — Foto: Pridia

Músicos pintores #5: David Bowie

David Bowie era uma estrela dos palcos, do rock, da música. Inovador inveterado, mudava de pele surpreendendo a todos — até isso se tornar previsível, e ele, mais uma vez, surpreender a todos, modificando-se quando ninguém mais esperava. Um ciclo. Os amigos diziam que nos anos 1990, Bowie estava cansado de shows e gravações, da rotina de composição e de lidar com músicos, regentes, produtores etc. Abandonou temporariamente as atividades musicais para se dedicar à pintura. Alguns resultados se mostram nesta postagem.

25 Paintings by David Bowie - Art-Sheep

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Claro que prefiro o David Bowie roqueiro, cantor, dançarino, vozeirão bluseiro. Como não admirar, entretanto, a tela acima, Portrait of JO, uma homenagem ao também roqueiro Iggy Pop, cujo nome de batismo é James Osterberg? Até onde consigo perceber, o artista conseguiu capturar não a essência do Padrinho do Punk, mas o olhar desafiador e desconfiado de quem olha o mundo com certo desdém. Bowie, aliás, produziu dois discos de Iggy em meados dos anos 1970: The Idiot e Lust for Life. Não acho grande coisa, mas isso é irrelevante. O papo aqui é o traço de Bowie.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

 The hearts filthy lesson é quadro e é canção. Está no disco Outside, de 1995 — aliás, é também a data do quadro de cores muito fortes, principalmente o amarelo (em contraste com o cinza), que expressa — ou parece expressar — que algo incomoda as entranhas do homem. Sugere um parto masculino, de cócoras, imundo — como o título. A imobilidade do homem contrasta com o movimento da cria o que sai de dentro dele, expresso pela cor. É o aparente parto no lixo, na imundície inevitável. É um outsider de primeira hora.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

DryHeads Capetown, de 1995, é um exemplo do que os críticos chamam de neo-expressionismo. Duas mulheres nuas, de diferentes etnias, lado a lado, enquanto treze macacos — ou suas silhuetas — sobrepõem-se a elas, indo e vindo de algum lugar. Tons de azul melancólico, sugerindo o encontro do mar com o céu, convivendo com o bege quase marrom, terroso, contrastam com o vermelho-símio. As mulheres, aparentemente estáticas, mexem os cabelos como se os prendessem diante de um espelho. Tudo é expressão.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Head — portrait of Mike Garson é outra homenagem — no caso, o pianista e diretor musical de discos e shows de David Bowie. É ele quem toca piano em Aladdin Sane, um dos melhores trabalhos de Bowie, na primeira metade dos anos 1970. Tocou piano também na turnê que promoveu Ziggy Stardust. David Bowie fez uma série de retratos tenho Mike como tema — e chamou a essa série de DHead. A calvície de Mike parece ser o elemento chave de todos os retratos: alguns com pinceladas de azul sobre gelo: outros, com vermelho e marrom. É a homenagem valiosa.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Self portrait — 1996. O que um autorretrato pode oferecer, senão a visão um tanto narcisista de quem o produz? O neo-expressionismo escancarado mostra um Bowie ameaçador e ao mesmo tempo frágil, feito de vermelho, cinza, preto e verde, olhando diretamente quem se põe diante dele, como um espelho. Os olhos de pupilas desiguais são bem marcados, combinando bem com o bigode chinês e a barbicha quase judaica. É uma beleza. Há outros quadros de David Bowie apresentando David Bowie. Escolhi esse, que me parece definitivo.

Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.