Tempo Rei é o título da última turnê de Gilberto Gil. Assisti ao show, no último sábado, no RJ, em companhia de amigos queridos — tão fãs de Gil quanto eu. Como sou o decano do grupo, posso dizer que sou fã há mais tempo, a considerar que Gil chegou a meus ouvidos em 1977, quando nenhum desses meus amigos era sequer nascido. Sim, sou velho. Eis aí a questão, que me consola: Gil mostra, durante todo o espetáculo, que o tempo existe para nosso aprendizado. Ele está certo: eu, por exemplo, muito aprendi com ele, com suas canções, em suas entrevistas, com a sua forma muito peculiar de encarar o mundo. Ele me levou à literatura e, claro, à MPB.
Emocionei-me durante o show: chorei mesmo, enquanto a maioria do público comemorava a comunhão com um dos mais importantes artistas da história da música brasileira. Chorei porque o tempo assim exigiu: voltei à minha adolescência, à minha querida amiga baiana Izinha, née Josemília, que me apresentou Refazenda, disco que veio ao mundo em 1975. Retornando aos 15 anos — minha idade em 1977 —, o tempo faz sua parte, e as lembranças sobrevieram, a emoção foi inevitável. Gilberto Gil foi-me um professor afetuoso, daqueles cujo trabalho se torna emblema que fica e se desenvolve.

Gil revisitou-se: foi do início da carreira — Domingo no Parque, Procissão, Eu só quero um xodó — passando por canções de pegada roqueira (Punk da Periferia, Expresso 2222, Banda Um e Realce, por exemplo), por temática familiar: Esotérico, Drão, Vamos Fugir, e clássicos como Se eu quiser falar com Deus, Refazenda, Refavela, Cálice e muito mais canções absolutamente inesquecíveis. Essa revisita é uma forma de respeitar o tempo, que passa e deixa seu rastro, sua marca indelével. E mais: a banda que o acompanha, formada por alguns familiares, é de primeiríssima linha, e família é um indício de que o tempo passa. Um naipe de metais competentíssimo aliado a um quarteto de cordas pra lá de eficiente. Chamou-me a atenção o acordeonista Mestrinho e o guitarrista João Gil, seu neto.
Só para constar: Nara Gil, a primogênita, é cantora; o filho Bem Gil é baixista e guitarrista; José Gil, outro filho, é ótimo baterista; o citado guitarrista João — filho de Nara — e, de quebra, a backing vocal Mariá Pinkusfeld, a bela nora casada com José. Afeto transbordando no palco. E por falar em afeto, repito-me: emocionei-me e sei que essa emoção se manterá por muito tempo. Gilberto Gil foi e continua sendo um dos meus compositores essenciais. Tenho certeza de que sem ele, sem sua música e seus ensinamentos, este texto que você lê não existiria. Já que o tema deste post refere-se ao tempo, aproveito e afirmo que serei grato a Gil para sempre. Sim, para sempre.
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“Tempo-espaço navegando todos os sentidos.” Os afetos de Gil dialogam com uma enorme paleta de cores, inclusive com a ciência. É generoso por partilhar sabedoria onde só se enxergam saberes. Junto com Caetano e Chico forma a prateleira de cima nas minhas preferências quando o assunto é música popular brasileira. Sou capaz de me emocionar, também.
Se dizem que o artista é a antena da raça, Gil confirma essa ideia.
Sempre antenado, contemporâneo, atualíssimo.
Um gênio que participa de seu tempo e antecipa o de tantos outros.
Sim, com Chico e Caetano, forma a Santíssima Trindade da MPB.
Foi um ‘revisita’ verdadeiramente lindo. Eu tb estava lá. Eu, como você, visitei algo do Tempo Rei.
Somos privilegiados, Bartyra. Acompanhamos por 45 anos e contando.
Gil me levou a tantos outros artistas. Sou grato mesmo.