Bella & Alfredo: os mestres em ação

Sendo eu professor – e de Literatura –, faz sentido eu preferir comentar sobre essa espécie tão, digamos, desprezada. Eu explico o motivo do peremptório adjetivo: como a leitura tem-se tornado algo secundário, é também natural que a literatura pegue carona nesse desprezo. E alguns dos vetores literários (no caso, professores) são, grosso modo, vistos como indivíduos que falam para surdos — ou, pelo menos, para a massa desinteressada em quem foi Guimarães Rosa ou o que vem a ser uma hipérbole. A da linguagem; não a da geometria — que fique claro. Voltemos aos professores. Já ouviram falar de Alfredo Bosi? E de Bella Jozef? Não? Então, prepare-se. A propósito: são estes dois abaixo:

Alfredo Bosi é meu ídolo — desde que assisti, no início dos anos 1980 (eu, estudante de Letras e tentando me firmar como professor), a uma palestra de sua lavra, na USP. O tema, se minha memória não me faz tropeçar, era sobre a narrativa de Brás Cubas, a revolução machadiana. A clareza com que expunha seu ponto de vista e a facilidade em dissecar as ironias do velho escritor causaram-me um grande impacto. Foi uma epifania: se eu tinha dúvidas sobre levar adiante a profissão, a coisa se dissipou como fumaça infértil. A partir dali, quis ler tudo o que ele produzira — e num certo sentido, obtive êxito. Leio seus livros até hoje, e me divirto como se a leitura fosse inédita.

Terminei a releitura de alguns estudos de seu Céu, Inferno. Obra essencial, subintitulada Ensaios de Crítica Literária e Ideológica. Se você espera uma linguagem carregada de hermetismos, inversões gramaticais e referências obscuras que dificultam a compreensão do leitor médio — eu, no caso —, esqueça. Alfredo Bosi é de uma clareza invejável, dono e senhor de um estilo que privilegia a comunicação direta aos interessados no assunto. Os ensaios sobre Giovanni Verga e Luigi Pirandello são absolutos. Machado, João Cabral, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda estão lá, entre tantos outros.

1986 – Página: 110 – O Sebo Cultural – Venda de livros, cd's e lp's novos e usadosE quanto a Bella Jozef? Conhecida e reconhecida como uma autoridade em literatura ibero-americana, em A máscara e o enigma, publicado há 40 anos pela Francisco Alves, a autora vai além. Aborda os temas crítica, modernidade, semiologia, cultura de massas, arte (em geral) e vanguarda. É uma fera na análise precisa, arguta, de observações que injetam discussão ampla em ensaios curtíssimos. É um volume necessário a quem se interessa por literatura e pelas vertentes que dela brotem — isso sem falar das várias abordagens que tendem a ampliar o significado literário. Livro essencial, sim, a professores e a estudiosos do tema. Afinal, espera-se, continuem leitores.

O clássico História da Literatura Hispano-Americana, e os essenciais O Espaço Reconquistado e Romance Hispano-Americano são obras de interesse específico — isso é inegável. Como apreciar a literatura, de modo geral, sem levar a conta a expressiva originalidade de uma literatura feita na América Espanhola? Para muitos críticos — Bella incluída —, não há nada melhor nos últimos 150 anos. É possível que tenham razão, mas, no fim e ao cabo, cada um lê como quer, e como pode.

2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

Wakeman, Henry VIII & as esposas

Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia — com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 — quando morreu —, teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.

O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.

Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.

Rick Wakeman nos cuenta sobre sus inicios y su próximos proyectosSe Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.

Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.

Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.

 

O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia — era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 —, eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto — do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes — ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie — e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão — daí pra frente! —, e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Eurípides encontra Chico & Paulo

Eurípides encontra Chico & Paulo

O texto Gota d’Água é uma leitura pós-moderna e urbana do texto clássico de Eurípides, uma adequação (com diferenças em relação à tragédia clássica) intertextualizada, transformada em drama em versos. Joana, a Medéia brasileira que, abandonada pelo amante Jasão, muito mais novo que ela, e com quem tivera dois filhos, torna-se uma mulher angustiada e oprimida pela situação amorosa e social. Jasão, autor do samba de (então) sucesso Gota d’Água, vai casar-se com Alma, a filha do poderoso Creonte, proprietário do conjunto residencial e explorador de todo aquele povo oprimido da Vila do Meio-Dia. Além de perder seu amante, Joana, encurralada pela engrenagem social, será expulsa por Creonte, com seus dois filhos. Tendo falhado o plano de vingança — de envenenar a noiva no dia do casamento —, ela acabará por envenenar os dois filhos e a si própria.

Bem, essa é a ideia central do drama em versos criado pela dupla Chico Buarque e Paulo Pontes. Este último, um craque da dramaturgia. Chico, genial como compositor, colabora — também — com o traço musical, compondo algumas pérolas interpretadas pelos atores e atrizes. É caso da triste Basta Um Dia e da eletrizante Flor da Idade (um trabalho intertextual drummondino). Paulo Pontes teve a ideia da singularidade estrutural: embora seja pertencente ao gênero dramático, o texto se preocupa fundamentalmente com a linguagem e com sua disposição, já que é estruturado em versos de todas as metrificações possíveis — mesmo havendo predominância dos versos alexandrinos e decassílabos. Outro elemento de destaque é a elaboração das rimas (soantes sempre) revelando o aspecto musical do texto.

O italiano Gianni Rato dirigiu a primeira montagem da peça — e com Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela canta no palco e canta no disco, este uma obra rara encontrada somente em sebos. Claro: Bibi não era cantora de excelência, mas também não era bissexta. Uma atriz completa, que encarnou toda a dor e a fúria da mulher rejeitada que resolve dar o troco, mas que tropeça no próprio exagero sentimental. Assisti à peça em 1981, quando foi encenada no Carlos Gomes. Já não era Roberto Bonfim que interpretava Jasão. Até onde me lembro era Adriano Reis.

Um espetáculo de beleza e potência, no qual se discutia desde a força capitalista — que resume o homem a um objeto insosso e vulnerabilíssimo — até a decomposição da mulher que envelhece, e cujo valor decai à medida que ela não vê chances de essa condição se alterar. Mestre da linguagem ligeira, Chico Buarque mistura tudo: do erudito ao pop, para agradar a gregos e curitibanos. Está faltando alguém montar uma atualização da peça — mas sem mexer no texto. Sequer uma linha.

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

José Rubem Fonseca foi o camisa 10 durante os anos 1970. Manteve-se em campo até meados da década seguinte, quando se cansou. Não precisava provar mais nada: nem que sabia manejar as palavras, nem que sabia construir personagens ou boas tramas. Podia ter-se aposentado, mas continuou a insistir em criar — e criou. O talento continuava, mas o fôlego foi, aos poucos, perdendo força, mesmo sendo capaz de, em 2003, escrever o ótimo Diário de um Fescenino. É seu último grande voo, seu derradeiro salto para a eternidade. Seus grandes livros? O Caso Morel, A Coleira do cão, O Cobrador, Feliz Ano Novo, Bufo & Spalanzani e sua obra-prima, A Grande Arte. Todos, coincidentemente, entre 1965 e 1985.

Ok, ok. Uma exceção, talvez, para Agosto — mas eu disse talvez. Preciso pensar melhor sobre isso. O que quero dizer, com esse preâmbulo? Que não há livro melhor sobre o qual falar, nesta época do ano, do que Feliz Ano Novo — um clássico das histórias curtas na literatura brasileira. Em 1975, durante o governo Geisel, Fonseca expõe, com crueza e vigor estético, a oposição entre classes sociais. O livro não se resume a isso, mas o conto-título é o escancaramento da diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais. Há contos antológicos, como Nau Catrineta — sobre canibalismo —, o metalinguístico Intestino Grosso e o divertido e futurista O Campeonato, sobre potência sexual. 

A linguagem (o que define a literatura) é marcada pela oralidade, e em algumas histórias o vocabulário — por muitos considerado chulo, pornográfico — é expresso de forma rude, desleixada, bem a gosto da realidade periférica que, em muitos casos, é retratada. Há outras histórias em que a linguagem é mais bem elaborada, mais acadêmica, como o diálogo entre o entrevistador e o Autor, no citado Intestino Grosso. Rubem Fonseca é craque nisto: representar linguisticamente cada camada social presente no enredo. Ninguém conseguiu isso — ao menos não com tanta precisão — na literatura contemporânea. 

Mandrake The Magician - Magic - T-Shirt | TeePublic

Uma curiosidade: no conto Dia dos Namorados, a personagem central é um advogado de apelido Mandrake. Sim, tornou-se famoso: estrelou A Grande Arte, vários contos e uma pequena novela, intitulada Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005. No citado conto, ele mesmo narrador, diz “quando nasci me chamaram de Paulo, que é nome de papa, mas virei Mandrake, uma pessoa que não reza, e fala pouco, mas faz os gestos necessários.” Alguém ainda se lembra de Mandrake the Magician? Aquele que, nos gibis que estrelava, hipnotizava instantaneamente seus oponentes fazendo gestos? Às novas gerações: ao lado, na imagem. Pois é. Rubem Fonseca foi mágico por 20 anos. E para muitos ainda é.

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Book coverNo início da década de 80, século passado, a Abril Cultural lançou uma coleção intitulada Literatura Comentada, que se propunha reunir os grandes nomes da produção literária brasileira — contemporâneos ou não — em edições cujos autores eram, também, pessoas ligadas às letras: professores e estudiosos, na maioria. Foi por meio dessas publicações que conheci, metonimicamente falando, os poetas Francisco Alvim e Cacaso, criadores de estilos distintos pertencentes a uma geração de jovens poetas que se tornaram referência da poesia jovem dos anos 1970. Aliás, esse era o título do volume de Literatura Comentada, que trazia também figuras como Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal, Alice Ruiz e mais um bocado de poetas — além dos dois citados. A organização do volume ficou por conta de alguém tarimbadíssima na área: Heloísa Buarque de Holanda.

Elefante, volume de pouco mais de 140 páginas, foi publicado há 25 anos. Afeito aos minimalismos da palavras, Francisco Alvim é um herdeiro do epigrama (por aqui chamado poema-minuto, tão caro a Oswald no início do Modernismo). Há de tudo, ao menos um pouco: quotidiano, sensualidade, política, medo, esperanças perdidas e reencontradas, amor — e por aí vai. A linguagem? Da secura ao lirismo fingido, usando as palavras economicamente. Alguns poemas têm apenas um verso. Outros, apenas uma palavra.

Há algo de Dalton Trevisan, em Tetéia: “Quem te deu esse brinquinho?/Comprei lá na feira do Gaminha.” Embora não seja leitura fácil, assimilada de imediato, vale conhecer o universo do meu xará. E Cacaso? É outro caso à parte nessa nova poesia de 50 anos. Suas œuvres complètes são absolutamente essenciais a quem gosta de poesia. Cacaso é o Baudelaire brasileiro pós-moderno, é um mestre da ironia, ingrediente fundamental de um texto sem propósito definido. Aliás, para que definir?

Aí vai Salário Máximo: “De noite sou amante da empregada/De dia sou patrão da amante”. Poemas curtos, poemas longos, poemas sem tamanho: letras de canções, homenagens, ritual cotidiano, iconoclastia, homenagens, metalinguagem, e muito mais. Ou seja: se não tudo, quase. E ainda a fortuna crítica, com as vozes de Roberto Schwarz, a citada Heloísa Buarque de Holanda e o aqui mencionado Francisco Alvim. O poema-minuto, instaurado naquela geração que precisava da velocidade da mensagem, está presente. Cacaso foi um herói literário de seu tempo, e que nos deixou esta pérola, tão atual, no poema intitulado Palavra do $enhor: “No princípio era a Verba.”

Valeu, Cacaso! Valeu, Xará!

 

 

 

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Gil, o Tempo, o show & amigos

Gil, o Tempo, o show & amigos

Tempo Rei é o título da última turnê de Gilberto Gil. Assisti ao show, no último sábado, no RJ, em companhia de amigos queridos — tão fãs de Gil quanto eu. Como sou o decano do grupo, posso dizer que sou fã há mais tempo, a considerar que Gil chegou a meus ouvidos em 1977, quando nenhum desses meus amigos era sequer nascido. Sim, sou velho. Eis aí a questão, que me consola: Gil mostra, durante todo o espetáculo, que o tempo existe para nosso aprendizado. Ele está certo: eu, por exemplo, muito aprendi com ele, com suas canções, em suas entrevistas, com a sua forma muito peculiar de encarar o mundo. Ele me levou à literatura e, claro, à MPB.

Emocionei-me durante o show: chorei mesmo, enquanto a maioria do público comemorava a comunhão com um dos mais importantes artistas da história da música brasileira. Chorei porque o tempo assim exigiu: voltei à minha adolescência, à minha querida amiga baiana Izinha, née Josemília, que me apresentou Refazenda, disco que veio ao mundo em 1975. Retornando aos 15 anos — minha idade em 1977 —, o tempo faz sua parte, e as lembranças sobrevieram, a emoção foi inevitável. Gilberto Gil foi-me um professor afetuoso, daqueles cujo trabalho se torna emblema que fica e se desenvolve.

Gil revisitou-se: foi do início da carreira — Domingo no Parque, Procissão, Eu só quero um xodó — passando por canções de pegada roqueira (Punk da Periferia, Expresso 2222, Banda Um e Realce, por exemplo), por temática familiar: Esotérico, Drão, Vamos Fugir, e clássicos como Se eu quiser falar com Deus, Refazenda, Refavela, Cálice e muito mais canções absolutamente inesquecíveis. Essa revisita é uma forma de respeitar o tempo, que passa e deixa seu rastro, sua marca indelével. E mais: a banda que o acompanha, formada por alguns familiares, é de primeiríssima linha, e família é um indício de que o tempo passa. Um naipe de metais competentíssimo aliado a um quarteto de cordas pra lá de eficiente. Chamou-me a atenção o acordeonista Mestrinho e o guitarrista João Gil, seu neto. 

Só para constar: Nara Gil, a primogênita, é cantora; o filho Bem Gil é baixista e guitarrista; José Gil, outro filho, é ótimo baterista; o citado guitarrista João — filho de Nara — e, de quebra, a backing vocal Mariá Pinkusfeld, a bela nora casada com José. Afeto transbordando no palco. E por falar em afeto, repito-me: emocionei-me e sei que essa emoção se manterá por muito tempo. Gilberto Gil foi e continua sendo um dos meus compositores essenciais. Tenho certeza de que sem ele, sem sua música e seus ensinamentos, este texto que você lê não existiria. Já que o tema deste post refere-se ao tempo, aproveito e afirmo que serei grato a Gil para sempre. Sim, para sempre.

Gilberto Gil em turnê 'Tempo Rei' — Foto: Pridia