Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

Filmes (re)vistos #9: O Vento será tua herança, 1960

Um tipo de filme em que os americanos são imbatíveis: filmes de tribunal ou, como querem os nativos puristas, legal films. Há grandes películas, não se pode (nem se deve) negar: O Veredito e 12 Homens e uma sentença, ambos de Sidney Lumet; O Sol é para Todos, de Robert Mulligan; Testemunha de Acusação, do sempre genial Billy Wilder, e o brasileiro O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sergio Person. Todos grandes filmes. Há muitos outros, claro, mas nenhum – a meu ver – supera O Vento será tua herança, de Stanley Kramer, em cartaz numa dessas tevês por assinatura. E se o naturalista Charles Darwin mostraria o polegar, concordando comigo.

Vídeo: O Vento Será Tua Herança continua atual

O que Darwin tem a ver com o filme? Bem, o enredo é simples: professor de uma cidade pequena é condenado por ensinar aos alunos a Teoria da Evolução. Uma lei estadual, escrita e sancionada por criacionistas, não permite que o Evolucionismo interfira na educação bíblica dos alunos. Toda a cidade está contra o professor. Em seu desespero, e sem dinheiro para pagar um bom advogado, pede ajuda a um jornal de Baltimore – que, progressista, contrata um grande advogado para defendê-lo. Esse grande advogado é um dos maiores atores de Hollywood em qualquer época: Spencer Tracy (de cabelos brancos, na foto).

Não menos notável é Fredric March, interpretando um político oportunista que ajuda o promotor a tentar mandar de vez o professor para o xilindró. Quer mais? Gene Kelly – sim, o grande bailarino do cinema (abaixo, de colete) – faz o papel de E.K. Hornbeck, jornalista que vai cobrir, de forma cínica e debochada, o Julgamento do Macaco, como ficou conhecido o caso (verdadeiro) em que o filme se baseou. Não, Gene Kelly não dança, no filme. Está ótimo sem requebrar-se, fazendo as vezes de Henry Louis Mencken, o mais temido jornalista norte-americano da primeira metade do século XX. Já escrevi sobre ele AQUI.

Tesouros da Sétima Arte - "O Vento Será Tua Herança", de Stanley Kramer

Como sou um homem de letras, aprecio diálogos – aliás, são eles o grande trunfo do filme. A bem da verdade, filmes de tribunal sustentam-se na palavra, no raciocínio, na loquacidade, na esperteza do advogado e/ou do promotor. Bem, a estrutura da Commom Law americana ajuda esse tipo de fita, permite que as habilidades dos causídicos sejam a grande atração. Em O Vento será tua herança é isso que conta. É um embate raro de se ver nos filmes – a não ser naqueles excepcionalmente inteligentes.

AQUI, o trailer, com legendas.

Filmes (re)vistos #8: O Baile, 1983

Para muita gente, Grease – ou Nos Tempos da Brilhantina – é o melhor musical já feito. Inegavelmente simpático e uma estrondosa máquina de fazer dinheiro, o filme tem um trunfo: o rock, gênero que a juventude preza e consome. Escrevi sobre musicais: quem quiser pode verificar AQUI. Mas por que estou falando sobre essa vertente cinematográfica? Porque assisti, mais uma vez – dentre tantas -, ao filme O Baile, do italiano Ettore Scola – para mim, obra-prima, daquelas que quem ama o cinema precisa assistir diversas vezes. Tenha certeza: o cansaço passa longe.

O Baile - Cenas de Cinema - Crítica do filme - Clássico

O Baile é o que é: um baile – ou seja: um evento em que música e dança unem-se para para entreter quem por ali se encontra. No caso, o filme vai além, porque seu objetivo (se é que precisa ter um) é contar a história da França a partir da união entre as duas artes citadas, conectando-as a suas causas e consequências: a cultura, o costume, o tempo, a história. A ousadia da película reside no fato de que palavras não são tão necessárias à comunicação. Música, gestos, comportamento e talento para unir tudo isso, sim.

O filme fará quarenta anos em dezembro – data de seu lançamento. Scola é craque: fez Nós que nos amávamos tanto e Feios, sujos e malvados. Só isso já lhe justificaria a celebridade, e seria suficiente para que não se sentisse na obrigação de dirigir a ótima comédia O Jantar. Voltemos, pois, ao baile. Há quem diga que, sem palavras, é impossível contar uma história. Balela de diletante, claro. Ettore Scola parte da ideia do contrário, transformando em narrador a combinação de cenário, vestimenta, gesto, expressões faciais e, claro, música. Sem legendas – porque elas são, aqui, desnecessárias -, a narrativa funciona: é poética, é engraçada, emotiva.

Cinco filmes para conhecer Ettore Scola | GZH

As referências culturais, sublinhadas pela coreografia e pelos variados gêneros musicais, são expostas como um banquete sobre a mesa: todas as iguarias juntas, mas é possível eleger aquela que mais agrada, que mais se destina ao espectador que, tenha certeza, participa, a seu modo, da atmosfera que a música e o movimento provocam. Nem tudo é alegria, claro. Por exemplo: uma das cenas mais tocantes da película é o repúdio do(a)s dançarino(a)s – que batem os pés no assoalho, repetidamente – a um personagem vestido de preto (cicatriz num dos olhos), que levanta a mão numa menção ao nazismo. Eis a resistência. Esse é Scola.

A propósito: é possível assistir ao filme AQUI.

A única antologia, por enquanto

Vamos ao óbvio: só se deve enumerar um artigo se houver outros exemplares dele. Se for único, não faz sentido chamá-lo “primeiro”. Sim, falei algo dispensável, implícito em qualquer discurso. A editora Paz  e Terra, entretanto, pensa diferentemente. Aliás, sendo honesto: o problema não é da editora brasileira, mas da própria revista mundialmente conhecida e respeitada: The New York Review of Books. Vou explicar: em 1997, adquiri um livro que saía do forno: a edição brasileira de uma reunião de artigos publicados, por 30 anos, do citado veículo.

Se você que está lendo se interessa por cultura, arte, política, sociologia e uns nacos de filosofia vai apreciar a seleção de artigos feita por Robert Silvers, Barbara Epstein e Rea Hederman. Algumas perguntas iniciais devem ser feitas. Quem escreve? Sobre o que e sobre quem se escreve? Como se escreve? Esta última pergunta é fácil de responder: escreve-se bem. Alguns textos são absurdamente bem escritos – chega a dar inveja, ao menos a mim. As duas primeiras perguntas podem ser respondidas ao mesmo tempo.

Para se ter uma breve ideia: o crítico de arte Robert Hughes escreve sobre Andy Warhol; o poeta Wystan Auden versa sobre enxaquecas, enquanto o polêmico Gore Vidal fala sobre aviação em A Paixão de Voar. É um prazer saborear cada parágrafo da entrevista que o maestro Robert Craft faz com o sempre genial Igor Stravinski: o assunto é Beethoven e suas sinfonias. Richard Ellmann, claro, fala sobre Joyce, e meu texto preferido, Balzac aos trinta anos, é escrito pelo brilhante crítico inglês V. S. Pritchett.

Falei em preferência textual, mas é difícil escolher, dentre 23 artigos, qual o mais interessante. Eu não conheço uma revista literária com tamanha envergadura intelectual, capaz de abraçar tanto talento pontuando ideias que interessam não somente aos iniciados, mas a qualquer um que enxergue na boa leitura prazer e benefícios. Em tempos de boçalidade escrita e falada, de superficialidade de ideias, de enaltecimento dos medíocres, o New York Review of Books é um foco necessário de resistência.

Péret & O Amor

Poetas surrealistas sempre tiveram minha simpatia. Li Breton, Alexandre O’Neill, Apollinaire, Desnos, Élouard. Li também o brasileiro Murilo Mendes e, no início dos anos 2000, caíram-me aos olhos – por pura fortuidade – alguns poemas da escultora mineira Maria Martins. Nada se compara, em minha modestíssima avaliação, aos poemas do francês Benjamin Péret, os quais li, numa tradução de Amor Sublime, livro de poemas e ensaio publicado pela editora Brasiliense, há 37 anos. A propósito: nasceu num 4 de julho, há 123 anos.

Péret, trotskista (como Breton), era um ativista de primeira linha, dotado da charmosa agressividade dos artistas politizados. Envolvido com o movimento surrealista, que ajudara a fundar, era a mente criativa – dentre outras mentes criativas – por trás do periódico La Révolution Surréaliste. A convite do amigo pessoal Mário Pedrosa, seu concunhado, morou no Brasil por três anos, viajou um bocado como etnógrafo, pesquisou, encantou-se com o povo nordestino até ser expulso formalmente por Getúlio Vargas.

Amor Sublime é um livraço. No original, Je Sublime e Un Point c’Est Tout: poemas de força literária invulgar, cheio de imagens que, à leitura desavisada, não agradam imediatamente. Péret deve, penso, ser lido devagar, com a lentidão que auxilia a absorção plena. Versos longos, nem sempre pontuados, exigindo que o leitor estabeleça com o texto a cumplicidade necessária. Desde que adquiri o livro – em fins dos anos 1980 – vou (re)lendo devagar, poema a poema, indo e voltando como textos de mão dupla.

O ensaio O Núcleo do Cometa é uma obra-prima. Seu tema é o amor e quem já dele falou: de Santo Agostinho a Platão, passando pelas tábuas de Moisés, Baudelaire, Stendhal, Tolstói, Rousseau e mais um punhado de citados que, numa algazarra bem ordenada, ilustram um dos textos que deveriam ser lidos por todos os interessados em afeto e em seus desdobramentos.

E ainda nos revela isto: “A sociedade permite livre curso a todas as formas de amor, exceto ao amor sublime, para cujo triunfo ela antepõe todos os vetos, pois ele tende a desagregá-la ao revelar aos homens a felicidade à margem dela e de seus ideais. É por isso que os homens apelam sem cessar para a voz dos poetas e dos artistas.” É isso aí, Benjamin.

Genialidade mutilada #2

Cover of the album Caetano e Chico - juntos e ao vivo.jpgEscrevi sobre o disco Caetano e Chico – juntos e ao vivo, lançado pela Polygram em 1972. Você pode ler a postagem AQUI. Repito: a capa do disco, agora numa repetição mais tímida, está ao lado. O elepê em questão – destaque do mês -, um dos shows mais emblemáticos do período brabo do regime militar, foi miserável, grotesca e truculentamente mutilado. Um encontro entre dois dos maiores artistas da música brasileira, num show, durou menos de 36 minutos. Vou repetir: um show com pouco mais de meia hora. E pior: mal gravado.

Tenho buscado na web informações sobre o disco. Busquei também na biografia de Caetano, sobre a qual também escrevi. Pouca coisa se fala sobre esse show, até porque sua temporada fora abalada pela morte suicida do jornalista, poeta e compositor Torquato Neto, amigo chegado de Caetano. A Polygram imaginou que o disco, lançado no início de 1973 – mas registrado como se fosse de 1972 -, fosse fracassar. Errou feio. O disco vendeu bem, e dinamitou a ideia de que os dois artistas eram inconciliáveis. Não encontrei detalhes sobre o assunto nem em Verdade Tropical, do próprio Caetano.

Consegui, entretanto, algumas informações sobre o que os dois compositores propuseram para o show. Caetano, vestido intencionalmente de forma espalhafatosa, de batom e brilhos, escandalizava os censores. Chico, comedido por conta da timidez, deu seu recado. O que interessa, entretanto, é que as canções propostas praticamente não foram gravadas. Ou, se foram, não constam do disco. Daí a pergunta (a qual repito): que diabos de show é esse que dura menos de 40 minutos? Veja a lista das canções num documento da época:

O trabalho da censura foi um sucesso. Das canções propostas, apenas algumas foram selecionadas. Os originais dessa gravação certamente estão em poder da Polygram, que poderia – e deveria, em minha opinião! – corrigir esse erro. Imagine, nos 50 anos de vida desse disco, ele realmente vir à tona, sem cortes! Para os fãs, o tesouro absoluto. Resta saber se haverá disposição para resgatar o passado. Um passado de valor absolutamente necessário. Um resgate essencial.

Genialidade mutilada #1

Em 1972 , Chico Buarque (que aniversaria hoje) e Caetano Veloso resolveram estapear a mídia, que insistia em rivalizá-los, afinal um era tropicalista e outro, herdeiro do samba e artífice da MPB. Para muita gente, eram opostos, um querendo comer a jugular do outro. Coisa de jornalista que nada tinha a fazer. O tapa de luvas (de boxe) deu-se em forma de show no Teatro Castro Alves, em Salvador. O resultado desse show – cuja duração desconheço – foi um disco gravado e distribuído pela Polygram. É o disco do mês do blogue, como se pode ver, à sua direita. A capa está abaixo:

CD - Caetano e Chico - Juntos e Ao Vivo - Beco do Disco

Agora pasme: as canções, juntas, adicionadas às manifestações efusivas do público (sobre as quais falarei daqui a pouco) somam 35 minutos e 48 segundos. Você leu direito. O show, a contar pelo disco, não chega a 36 minutos. Qualquer pessoa minimamente inteligente percebe que há coisa errada aí. E essa coisa errada tem um nome: censura. Imposta, evidentemente, pelos militares e aplaudida pelos papalvos que a apoiavam. O governo Médici, sanguinário e truculento, mostrava sua força contra os artistas.

Se você já ouviu esse disco – creio que sim! -, percebeu que, em algumas canções, a efusão do público (assobios, palmas) foi grotescamente enxertada, com o objetivo de não permitir ao ouvinte uma audição plena do que se cantava. Sem contar que algumas canções – Bárbara, de Chico, e Tropicália, de Caetano – tivessem parte de sua letra simplesmente riscada do mapa. A isso chamo vilipêndio. Abaixo, ambos, nas areias da praia, em Salvador. Há 50 anos.

Caetano Veloso ...en detalle.: 1972 - CAETANO E CHICO juntos e ao vivo

Não conheço ninguém que tenha ido a esse show. Gostaria de conhecer, para que algumas perguntas pudessem ser respondidas. Duas delas: o que Chico e Caetano conversavam com o público, entre uma e outra canção? Outra: qual foi, mais ou menos, a verdadeira duração do show? Durante anos quis saber qual o repertório que foi apresentado à censura. Chico havia lançado, um ano antes, o discaço Construção, e nenhuma canção do disco foi executada – com exceção de Cotidiano. E apenas duas canções da trilha sonora de Quando o Carnaval chegar, filme de Cacá Diegues: Partido Alto e Bom Conselho.

E quanto a Caetano? Nenhuma canção dos seus discos de 1971 – composto no exílio londrino, intitulado Caetano Veloso – e de 1972, Transa. Enfim, a mutilação foi longe, exemplo da truculência de uma época que ninguém (ou quase ninguém) quer que volte. Na sequência – outra postagem – você saberá quais as canções propostas pelos artistas para o show.

A Boêmia de Paris

Jerrold Seigel é um historiador norte-americano cuja principal característica não é o detalhe, a fofoca, a particularidade. Deixa isso para historiadores que têm no leitor curioso – e somente nesse tipo de leitor – seu principal alvo. Aquele que quer, na rodinha de amigos, expor algo tão inédito quanto desnecessário. Seigel preocupa-se com o macrocosmo: com as causas sociais, culturais e políticas de uma época e de uma região (também macrocósmica), como a Europa. Esse específico texto, Paris Boêmia – cultura, política e os limites da vida burguesa (1830-1930),  engloba 100 anos de uma vida cultural que determinou as características de outras vidas que, hoje, são essenciais a quem se interessa por arte, cultura, sociedade, política, história.

PARIS BOÊMIA: CULTURA, POLÍTICA E OS LIMITES DA VIDA BURGUESA (1830 - 1930)  - Jerrold Seigel - L&PM Pocket - A maior coleção de livros de bolso do  BrasilO termo boêmia tem origem cigana – o que já indica a marginalidade sobre a qual o livro versará. Esse marginal (artista ou não) ´é o contraponto ao burguês, ao bem nascido, que desfrutava de um ambiente confortável e de uma renda segura. Ao mesmo tempo, quase como um paradoxo, Jerrold Seigel mostra que a ideia de burguês varia de acordo com a fatia social a que pertence seu opositor.  Em outras palavras: não existiria o burguês se não houvesse sua consequência: o marginal. No caso específico do livro: o boêmio.

A contestação e a busca pela liberdade total são a tônica daqueles artistas (ou outros) que, na cidade de Paris – e arredores – buscavam alternativas que desembocariam, 50 anos depois, naquilo a que se denominou, quase institucionalmente, de vanguardas: Dadaísmo, Futurismo, Cubismo, Fauvismo, Expressionismo e, mais tarde, Surrealismo. O embrião está na vida boêmia: escritores, pintores, analistas de uma sociedade que consideravam decadente, professores. Todos eles frequentadores dos cafés parisienses, locais identificados com a boêmia nas décadas centrais do século XIX. A propósito: Jerrold Seigel é este:

Jerrold Seigel — New York Institute for the Humanities

Gente do Simbolismo (Verlaine, Rimbaud, Corbiére, Mallarmé, e principalmente Baudelaire), do Realismo (Balzac, Flaubert), da pintura moderna (Picasso, Modigliani), da música e do teatro (Eric Satie, Alfred Jarry) – todos eles, indivíduos que transformaram o futuro – hoje nosso presente -, passaram pelas fronteiras da Boêmia, esse mundo criativo, insolente, desafiador, que uniu política e arte e que nos legou um tempo melhor e mais fecundo. Se puder, leia o livro. Ainda não se tornou clássico nem sei por quê.

Periferia e vestibular

Começo agradecendo ao Revson. Mas quem é ele e por que lhe agradeço? Bem, Revson – cujo nome familiar desconheço – é leitor assíduo deste blogue e, por sê-lo, merece meu humilde agradecimento. Pronto! Pois Revson fez um comentário sobre minha postagem anterior, na qual falo sobre Chico Buarque e sua canção Tanto Mar, que homenageia a lusitana Revolução dos Cravos. Disse que o compositor carioca é passadista e, segundo suas palavras, “O mundo é dos mano, da moçada que faz música periférica”. O que isso quer dizer? Que as atenções são dirigidas aos rappers, fanqueiros e que tais?

Sobrevivendo no inferno | Amazon.com.brTalvez ele tenha razão num ponto: o apelo que, hoje, essa música periférica (termo dele) tem é inegavelmente maior do que têm as canções de Caetano, Gil e Chico (compositores mencionados por ele). É preciso, entretanto, levar em consideração a faixa etária. Inúmeros cinquentões e sessentões, cuja formação musical contou com a participação de craques da MPB, muito provavelmente ignoram quem são os emicis, os fanqueiros et alli. Uma exceção que conheço: eu.

Acabei de ler Sobrevivendo no inferno, dos Racionais mc’s. Li porque é um dos livros selecionados por um dos vestibulares mais seletivos e importantes do país, o da Unicamp. Confesso que não leria, caso não me obrigasse a tal. Apreciei o prefácio – bastante esclarecedor, diga-se – do professor Acauam Silvério de Oliveira , fundamental para a compreensão da importância social e política do movimento no qual o grupo sobressaiu (e do qual, para muitos, é pioneiro). Os textos apresentados, contudo, não me apetecem esteticamente. Não aprecio a linguagem, mas não a desmereço. Sempre é bom lembrar que literatura não é tema. Literatura é linguagem.

Reconheço a relevância social do movimento – enalteço-a, inclusive. A representatividade política dos Racionais é inegável, e deve ser louvada porque é essencial. São, como diz o título, sobreviventes de um sistema social que quer – ou queria -, calar uma voz necessária a quem nunca teve permissão para falar. Desde 2018 são publicados pela prestigiada Cia. das Letras e a edição do livro é bem cuidada, eu diria até refinada. Resta saber se alguém considera isso uma conquista ou condescendência burguesa. Enfim, com as contas no fim: vale a leitura. E, mais uma vez, obrigado, Revson!

Racionais MC's anuncia retorno e promete: "Em breve, novidades"

Antes que eu me esqueça: aos olhos de muitos, então, Chico Buarque, sim, é um autor periférico. Hoje, claro.

Cravos, Chico, Festa (e a versão original)

Hoje é dia 25 de abril – e os portugueses estão em festa desde então. Há 47 anos Portugal, por meio da Revolução dos Cravos, mostrava-se frente a frente ao processo democrático. Segundo consta, uma garçonete lisboeta chamada Celeste Caeiro, iniciou a distribuição de cravos durante o conflito. Muitas dessas flores chegaram aos soldados que, simbolicamente, acoplavam-nas às espingardas.

Não vou explicar como e por quê se deu a revolução que pôs fim ao salazarismo em Portugal. Este espaço é insuficiente para tal narrativa. AQUI você encontra tudo. O que quero dizer é que meu xará, Chico Buarque, homenageou o país e o movimento na canção Tanto Mar. A segunda versão dessa canção é conhecida: está no disco Chico Buarque, de 1978. A primeira, original, feita em 1975, está aqui:

Play

Observe a atualização das formas verbais utilizadas em uma e outra versões. O resto é com você, leitor.

Um P.S. No disco Chico e Bethânia, de 1975, a canção Tanto Mar teve a letra censurada – por motivos óbvios, de modo que apenas a melodia (violão, flauta, palmas etc) pôde ser veiculada. Há também uma belíssima – mesmo! – interpretação da cantora portuguesa Eugênia de Melo e Castro dessa canção. Wagner Tiso acompanha a moça. Vale ouvir!