Vilões do Celuloide

Gosto de conversar com intelectuais. Considero-os o topo da cadeia, algo sacrossanto, estão a um passo da iluminação. Não estou sozinho nisso porque eles também se consideram assim. Conheço vários deles, e ligados também a múltiplas áreas. Quando versam sobre algo de que já ouvi falar, limito-me a aprender mais porque assim devem se comportar aqueles que reconhecem o próprio limite – no caso, eu. Há um tipo de intelectual que todos apreciam ser, até porque, para isso, não há necessidade de uma formação específica, nem muitos anos de estudo ou dedicação. Essa rara criatura é o conhecedor de cinema. Não, não falo de estudantes, críticos ou teóricos do assunto. Não é tão simples assim. Refiro-me aos reais conhecedores, àqueles que se esparramam pelas mesas de bar, loquazes, usam sandálias, discursam trechos inteiros de Herr Nietzsche e defendem, com os olhos rútilos, a produção cinematografia paquistanesa. Geralmente, perto deles, sou todo ouvidos. Meia hora de papo e me sinto diante de uma respeitável Pauline Kael regional.

Ouço-os falar de cinema. Todos eles assistiram às películas cruciais à formação cerebral do homem civilizado. Têm conhecimento sobre tomadas, sobre fotografia, sobre linguagem, sabem como adequar a música ao movimento, reconhecem o bom e o mau desempenho deste ou daquele ator, palpitam sobre figurinos e opinam sobre edição. Eu, de minha parte, gosto de ouvir e, como já mencionei, de aprender. Algo, porém, foge à minha compreensão: por que o cinema norte-americano virou o vilão da história? Por que, em roda de intelectuais, é tomado como o resumo da estupidez, da lepra visual? É claro que se tornou moda – há muito – elogiar o cinema indiano, o iraniano, o neozelandês, o europeu. Também é claro que têm eles seu valor. Há quarenta e cinco anos a coisa era assim: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Neorrealismo italiano formavam a trindade intocável do celuloide. Fellini, Glauber e Godard eram populares como Mickey Mouse e Donald Duck. Aos cineastas norte-americanos sobrava o vácuo intelectual.

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Acredito, com todo o respeito que os intelectuais merecem, que há um certo equívoco ao considerar o cinema lá de cima um cinema menor. Penso justamente o oposto. Não consigo vislumbrar nada melhor do que os filmes de Billy Wilder – que era austríaco mas fazia cinema americano como poucos. Alguém viu Farrapo Humano? Crepúsculo dos Deuses? A Montanha dos Sete Abutres? Pacto de Sangue? (Descartei as comédias porque sei o que a intelligentsia pensa delas). Quem, dentre os europeus, filmou melhor que Howard Hawks e John Ford? Falem a verdade. E quanto a Frank Capra, Robert Wise, George Cuckor, John Huston, Orson Welles, Elia Kazan, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Mervin Leroy, Otto Preminger, Raoul Walsh, Samuel Fuller, Fred Zinneman? Isso só citando o primeiro time, porque os reservas também goleavam. E mais: muitos estrangeiros, ainda que despidos do american way, fizeram filmes norte-americaníssimos, como Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Jaques Tourneur e Douglas Sirk.

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Ok, tinham os melhores diretores. Tinham tudo, então? Não. Como qualquer intelectual sabe, se não há uma boa história sendo contada, não há um bom filme. Martin Scorsese – que bem poderia vestir a camisa de titular, assim como Francis Coppola, também itálico – já dizia isso. Tinham também os melhores roteiristas, muitos deles os melhores escritores na época: do sisudo William Faulkner ao obsessivo Dalton Trumbo, passando por Leon Uris, Gore Vidal e Tenessee Williams. Junte um bom barco e um bom timoneiro e não haverá oceano intransponível. E possuíam os melhores fotógrafos, os melhores cinegrafistas, os músicos de excelência, os figurinistas de primeira linha. Tudo isso porque tinham dinheiro? Bem, souberam aproveitar a grana criando uma fábrica de sonhos, que, para muitos – pelo menos para alguns atores e algumas atrizes –, tornou-se uma fábrica de pesadelos, mas isso fica pra depois.

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Penso – e isso é apenas uma opinião – que não se deve tomar como base o cinemão industrial cujo objetivo é produzir entretenimento e que serve para enriquecer ainda mais os chefões judeus dos grandes estúdios. Há setenta anos também era assim, mas com mais estilo e glamour e mais histórias bem contadas – e com menos propaganda. Mas o que dizer de Woody Allen, David Mamet, Robert Altman, John Landis, Lawrence Kasdan, Ridley Scott, James Ivory, Spike Lee, George Lucas, Steven Spielberg? Muitos desses estão vivos e produzindo, cada um a seu modo, um grande cinema. Muitos chegam a fazer suspirar os estudantes de comunicação, mesmo quando ninguém está olhando. Não entro na seara da animação ou dos documentários, nem na dos talentos revelados pelo Sundance de Mr. Redford, no cinema independente, no underground, nem nessa nova safra de diretores que tentam – com êxito, a meu ver – expor um novo caminho para a ficção do écran, como Tarantino, Sam Mendes e Richard Kelly. Demonizar o cinema norte-americano tornou-se a ordem do dia, mas uma ordem que se estende por pelo menos cinco décadas. E olhe que os verdadeiros demônios dessa história – os produtores, os doughmen – nem entraram neste texto.

Gil, o roqueiro

O rock, como se sabe, instaura-se em nossa vida durante a adolescência. Poucos são os casos em que um indivíduo maduro, após ter experimentado gêneros musicais variados, tenha desembocado no rock como descoberta e como predileção. Não conheço alguém que tenha feito esse caminho. Deve haver alguém neste mundo, mas ignoro-o. Embora não seja meu gênero preferido – já disse isso em alguma postagem -, tenho apreço por algumas bandas e por alguns intérpretes. Elvis, Joe Cocker e Roger Daltrey moram em meu coração. The Who, Stones, Allman Brothers, Pink Floyd e Lynyrd Skynyrd estarão no meu funeral – metonimicamente falando. Hendrix e Rick Wakeman também. Sim, Rick Wakeman. Pode caçoar. Sou fã.

Sou fã também de Gilberto Gil, que em meados dos anos 1960, nutriu-se de rock a ponto de nos proporcionar um movimento que muito tinha do citado gênero: o Tropicalismo. Fã confesso de Jimi Hendrix, Gil percebeu que as poucas saídas – ou entradas – para a música brasileira era o rock. Foi entusiasta dOs Mutantes, a grande banda progressiva brasileira. Não conheço nada melhor, ao menos não entre brasileiros. Dia desses, conversando com um amigo, um autêntico detrator do rock, ouvi-o afirmar que não reconhece qualidade nas letras das canções roqueiras. Para ele é um festival de bobagens que acaba corroborando a ideia de que rock é coisa para adolescentes. Citou Titãs, Paralamas, Cazuza, Ultraje a Rigor, Blitz, Plebe Rude, Legião Urbana, Lobão, Camisa de Vênus. Desafiou-me a encontrar algo que se pudesse classificar, em termos textuais, como satisfatoriamente adulto. A expressão foi dele.

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De imediato, não encontrei. Lembrei-me, então, de Roque Santeiro, o rock, tema de Gil que compõe o magistral disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985. É uma aula de como se faz uma canção em homenagem a um gênero. É um rock para o rock, metalinguístico, positivo, questionador. Além das escancaradas referências ao BRock, que ganhava força e se estabelecia na cena musical brasileira, Gil explica por que se deve abrir o coração para o rock, símbolo da juventude, do questionamento, da insatisfação, do desejo incontido, da força poderosa. E com uma letra absolutamente bem armada, carregada de ironias, jogos de palavras, metáforas precisas. Sim, é uma beleza. Ouça e veja, AQUI. Dê um desconto, claro, para os costumes vestuários de 33 anos atrás. Mas ouça!

Resultado de imagem para brock rock brasileiroLi o livro BRock – o rock brasileiro dos anos 80, de Arthur Dapieve. Vale a leitura, embora eu o tenha considerado, quando li, indulgente demais. É um panorama, tão vasto quanto possível, de um movimento que devolveu à juventude o vigor que, num certo sentido, ela havia perdido. Resolvi, antes de escrever este texto, passar os olhos no livro, que li há 18 anos. Realmente meu amigo tem razão: textualmente falando, o mundo adulto passa longe. Mas isso o desmerece? E quanto a Gil? Bem, creio que o papo é outro. Gil homenageou, como eu disse, todo o movimento. Acreditou nele. Claro que não podia prever os desastres que se tornariam Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão, mas isso é outra história. O rock não merece que se discuta esse pormenor.

Seinfeld versus Friends

Rendi-me à Netflix. Vale menos do que se propaga, mas, ainda assim, merece uma checada. A parte boa: além de algumas boas séries (a maioria sugerida por meus alunos), há Seinfeld.  Sim, ele mesmo, com os deliciosos microcapítulos de Comedians in Cars Getting Coffee e Jerry Before Seinfeld. Só isso já valeria ficar em frente à tevê. Vasculhando mais, encontrei a série Friends, completinha, sem pôr nem tirar. Mas por que falo isso? Eu explico.

Não sei quem disse que, daqui a 100 anos, os americanos serão reconhecidos por 3 elementos básicos: a sua Constituição, sintética e eficaz, o jazz e os filmes de faroeste. Eu diria 4: as sitcoms, as comédias de costumes de 25 minutos que, de uma forma inequívoca, demonstram o que os ianques pensam e como agem. É claro que todo o mundo conhece Friends, que a cada episódio fazia um balanço do dia-a-dia de seis amigos – homens e mulheres, em igual número – na atribulada New York dos anos 90. Das piadas de Chandler à beleza refulgente de Rachel, os amigos faziam rir – ainda fazem, em reprises – com seu humor ligeiro e em alguns momentos piegas.

Summarizing All Seasons of 'Friends': The Hit Sitcom that Has Made Us Laugh  for Decades - Hollywood Insider

O sucesso de Friends não residia somente no seu timaço de vistosos atores/competentes humoristas, mas principalmente nas resoluções alto-astral de cada episódio. Assistindo a Friends, aprende-se sobre solidariedade, sobre lealdade, carinho, confraternização e amizade – tão caros nos dias de hoje, e mais raros ainda em cidades grandes, onde reina o pessimismo e onde o egoísmo é carta marcada. É algo cristão. O título é apropriadíssimo: nada é tão importante quanto os laços que nos unem a pessoas de origens distintas que invadem nossa vida e fazem dela algo mais fácil de suportar. Eram doces, todos eles – cada um a seu modo. Muitas vezes a taxa de glicose superava o limite tolerável, mas a desmiolada Phoebe e o medíocre ator Joey (com sua charmosa burrice) seguravam o barco – e não deixavam que ele afundasse. Seinfeld, a meu ver, trabalhava na contramão, e talvez esse seja seu mais precioso segredo.

Jerry Seinfeld fazia o papel de si mesmo, um judeu com cara de passarinho. Nem bonito nem atlético, o meia-idade Jerome era o exemplo do politicamente incorreto. Daí seu charme transgressor e sua empatia com um público que desejava muito silenciosamente que o mundo acabasse. Vivia num cubículo e frequentava um coffee-shop decadente, ponto de encontro de um grupo tão heterogêneo quanto engraçado. Jerry era um humorista bem-resolvido, mas não tão bem-sucedido, seus pais eram neuróticos, muitas vezes chatos, e ele os amava mais quando estavam na Flórida, a milhares de quilômetros. Tinha 3 amigos tão politicamente incorretos quanto ele: o baixo, calvo e complexado George Costanza; a pequena, inquieta e interesseira Elaine Benes, e o incompreensivelmente alucinado Cosmo Kramer.

Quem lhes cruzasse o caminho era invariavelmente chicoteado pela mordacidade das piadas cáusticas, pela falta de solidariedade, pelo desprezo por aquilo a que nós chamamos raça humana. Ninguém era poupado, nem eles mesmos. Com frequência, George sentia-se satisfeito por ver Jerry em apuros. Os deboches direcionados a Elaine eram constantes. Kramer não era levado a sério: suas idéias mirabolantes e sua capacidade de raciocínio confundiam a todos – os espectadores inclusos. Mas a incorreção política desses 4 cavaleiros do fim-do-mundo constituía seu patrimônio maior porque nos fazia rir daquilo que estávamos – e sempre estaremos – impossibilitados de fazer: não obedecer a essa neurose carregada de regras – muitas delas idiotas – que invade o Ocidente e faz de nossa sociedade um grupo de caretas. Infelizmente – ao menos por enquanto -, os capítulos de Seinfeld não estão disponíveis na Netflix.

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Muita gente vai dizer que não se pode comparar Friends com Seinfeld. Pode ser. Mas convém lembrar que ambos conheceram a estratosfera do sucesso nas comédias de costumes, e fizeram o mundo rir. Têm, portanto, algo em comum, inclusive o fato de que sobrevivem apenas na memória e nos revivals. E, no caso de Friends, na Netflix. E como se diz por aí, se há algo em comum, a comparação é inevitável. Ok, evitemos. Então fale você. Se você tem canal por assinatura, dê uma checada nos 2 sitcoms e diga a verdade: em qual você preferiria estar?