Músicos pintores #5: David Bowie

David Bowie era uma estrela dos palcos, do rock, da música. Inovador inveterado, mudava de pele surpreendendo a todos — até isso se tornar previsível, e ele, mais uma vez, surpreender a todos, modificando-se quando ninguém mais esperava. Um ciclo. Os amigos diziam que nos anos 1990, Bowie estava cansado de shows e gravações, da rotina de composição e de lidar com músicos, regentes, produtores etc. Abandonou temporariamente as atividades musicais para se dedicar à pintura. Alguns resultados se mostram nesta postagem.

25 Paintings by David Bowie - Art-Sheep

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Claro que prefiro o David Bowie roqueiro, cantor, dançarino, vozeirão bluseiro. Como não admirar, entretanto, a tela acima, Portrait of JO, uma homenagem ao também roqueiro Iggy Pop, cujo nome de batismo é James Osterberg? Até onde consigo perceber, o artista conseguiu capturar não a essência do Padrinho do Punk, mas o olhar desafiador e desconfiado de quem olha o mundo com certo desdém. Bowie, aliás, produziu dois discos de Iggy em meados dos anos 1970: The Idiot e Lust for Life. Não acho grande coisa, mas isso é irrelevante. O papo aqui é o traço de Bowie.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

 The hearts filthy lesson é quadro e é canção. Está no disco Outside, de 1995 — aliás, é também a data do quadro de cores muito fortes, principalmente o amarelo (em contraste com o cinza), que expressa — ou parece expressar — que algo incomoda as entranhas do homem. Sugere um parto masculino, de cócoras, imundo — como o título. A imobilidade do homem contrasta com o movimento da cria o que sai de dentro dele, expresso pela cor. É o aparente parto no lixo, na imundície inevitável. É um outsider de primeira hora.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

DryHeads Capetown, de 1995, é um exemplo do que os críticos chamam de neo-expressionismo. Duas mulheres nuas, de diferentes etnias, lado a lado, enquanto treze macacos — ou suas silhuetas — sobrepõem-se a elas, indo e vindo de algum lugar. Tons de azul melancólico, sugerindo o encontro do mar com o céu, convivendo com o bege quase marrom, terroso, contrastam com o vermelho-símio. As mulheres, aparentemente estáticas, mexem os cabelos como se os prendessem diante de um espelho. Tudo é expressão.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Head — portrait of Mike Garson é outra homenagem — no caso, o pianista e diretor musical de discos e shows de David Bowie. É ele quem toca piano em Aladdin Sane, um dos melhores trabalhos de Bowie, na primeira metade dos anos 1970. Tocou piano também na turnê que promoveu Ziggy Stardust. David Bowie fez uma série de retratos tenho Mike como tema — e chamou a essa série de DHead. A calvície de Mike parece ser o elemento chave de todos os retratos: alguns com pinceladas de azul sobre gelo: outros, com vermelho e marrom. É a homenagem valiosa.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Self portrait — 1996. O que um autorretrato pode oferecer, senão a visão um tanto narcisista de quem o produz? O neo-expressionismo escancarado mostra um Bowie ameaçador e ao mesmo tempo frágil, feito de vermelho, cinza, preto e verde, olhando diretamente quem se põe diante dele, como um espelho. Os olhos de pupilas desiguais são bem marcados, combinando bem com o bigode chinês e a barbicha quase judaica. É uma beleza. Há outros quadros de David Bowie apresentando David Bowie. Escolhi esse, que me parece definitivo.

Músicos pintores #4: Dorival Caymmi

Acho Dorival Caymmi chato de doer. Não somente ele, mas a família inteira: Danilo, Dori e Nana entram na dança. Evidentemente, falo da música, do que eles produzem. Acho realmente entediante — ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, não somente reconheço a importância musical dos 4 (o patriarca, mais), como chego a desconfiar que cometo um grande pecado ao achá-los chatos. Pode ser, mas, por enquanto, concordo comigo mesmo. Por outro lado, Dorival, o chefão familiar, pintava bem à beça. Era um craque, sua pintura era tão contundente quanto de aparente simplicidade. Observe isto:

Sem título - Dorival Caymmi - Dorival Caymi

Não há título, não há olhos, não há feições. Apenas o movimento da família em busca de algo – que provavelmente não será alcançado. O traço é aparentemente simples, sem rasuras, mãe grávida, pai pescador, crianças em fila. Eu, dentro de limitações críticas sobre pintura, acho um quadro genial. O primitivismo foi muito além; a simplicidade obteve algo lírico, pela citada leveza, e ao mesmo tempo narrativo. Há uma história sendo contada, que continuará num próximo capítulo. Caymmi foi certeiro.

O Nordeste é um tema de cem anos. Ou mais, se considerar que Alencar escreveu O Sertanejo mesmo sem nunca ter pisado o sertão. Virou tema literário, de fato, com o pessoal de 1930: Zé Lins, Graciliano, Raquel, Zé Américo. E, claro, seu irmão de armas: Jorge Amado. Caymmi fez, na pintura e na música, o que Jorge fez nos enredos: uma Bahia cheia de graça, beleza natural, sensualidade, gente simpática e solidária, misticismo e religiosidade. A cultura baiana — e nordestina, como um todo — é seu tema quase único.

Bahia: candomblé, pescadores, percussão — cuja origem é africanidade —, natureza, mar. Que elementos são mais necessários que esses, perguntou certa vez o próprio Caymmi. Não se sabe se o assunto é restrito pela próprias limitações do artista ou se o universo que ele reconhecia lhe bastava. Não interessa: o resultado é tão simples quanto original. Mais ou menos como sua música – só não é pintura aborrecida, chata (a meu ver, repito!). Ao contrário: é vivaz, alegre. Abaixo, o artista em ação, e diante de si personagens caros à Bahia. Caros a ele também.

 Caymmi com pincéis e telas: Rubem Braga dizia que ele foi o único a captar seu jeito de ser em uma pintura Foto: / Divulgação

Músicos pintores #3: Bob Dylan

Bob Dylan é o grande trovador norte-americano. Ganhou Nobel, fez um punhado de discos, escreveu letras longas que diziam verdades para a juventude, mudou de gênero uma ou duas vezes, fez rock, fez folk, influenciou gerações e escreveu canções imortais. E ainda por cima usou sua música para aventurar-se numa outra área: a pintura. É o nítido caso da Teoria das Correspondências, de Baudelaire. Bob Dylan assumiu essa ideia, e fez a audição conectar-se à visão numa sinestesia mais-que-perfeita. Observe o quadro Closing Time, de 2020.

See Bob Dylan's Cinematic Paintings, Welded Sculptures and More | Smart News| Smithsonian Magazine

Olho para o quadro e vejo a desolação do blues, o after hours decadente, do submundo, a tristeza exposta como se fosse uma obrigação para a arte. Ouço a música sublinhando significativamente a cena: a melancolia da guitarra, o som da bateria espaçado e simples, cheio de lacunas. Uma possível Marilyn, ao alto, observando, de sua cama, a derrocada de um homem enquanto o ambiente vai-se fechando. Abaixo, Manhattan Bridge, Downtown New York, de 2016, a visão pessoal (e de um ângulo improvável) de um dos pontos mais icônicos de Nova Iorque.

Limited edition Bob Dylan painting collection set to go on display in Bath | Bath Echo

Há algo de Edward Hopper nos trabalhos de Bob Dylan. A solidão das personagens é explícita, tendo a degradação do ambiente como testemunha e consequência. Dylan volta no tempo: opta por retratar uma época extemporânea — anos 1950 e a década seguinte —, como forma de expor parte da cultura norte-americana urbana, desolada, sem perspectivas. Álcool, cigarros, tristeza, blues. Hopper foi o primeiro a ir por esse caminho, compreendendo que, para alguma parcela social, não há saída. Apenas desapontamento. O quadro abaixo tem o título de Florida Keys.

Bob Dylan - Art Works - 2021 Retrospectrum - NSF - Magazine

O trovador não se restringe, entretanto, ao universo da consternação. O trabalho Abandoned Drive-In, Yucca Valley é um exemplo de como se pode observar o abandono de forma positiva: cores variadas sob um céu azulado. Dylan pinta desde 1968. É dele a capa do primeiro álbum do grupo The Band, além de Self Portrait, dele próprio. Em 1973 veio a glória pictórica: a editora Knopf publicou Writings and Drawings, contendo as letras das canções de Dylan + várias ilustrações feitas por ele. Eis aí a correspondência: Baudelaire confirmado por Bob Dylan.

In '*Abandoned Drive-In, Yucca Valley,' a sign points to a swap meet; above it, against a backdrop of blue sky, a sign for the 'Sky Drive-in Theater' by the Forward

Vale a pena checar os trabalhos dele na Halcyon Gallery. é só clicar AQUI.

Músicos pintores #2: Ron Wood

“Se Miles Davis pode, por que não você, Ronnie?”, perguntou, certa vez, Charlie Watts, o célebre baterista dos Rolling Stones. Segundo a lenda, a frase foi proferida quando o guitarrista Ron Wood, entre a oitava e a nona dose de uísque, afirmou que não somente apreciava Van Gogh como sentia que tinha talento para fazer, numa tela, o mesmo que o genial holandês fez. Bem, o C₂H₆O fez a autoestima do guitarrista ir à estratosfera – o que não chega, para muitos, a ser uma vantagem. Eu, de minha parte, aprecio os quadros do stoned. O Keith abaixo é uma beleza:

 Ronnie Wood is looking to earn a bit of extra cash by selling portraits of his fellow Rolling Stones bandmates

A partir de então, Ron Wood frequentou a Ealing Art College, levando a sério a arte de pintar. Percebendo o óbvio, que as cenas de rock são plásticas per si, o guitarrista dedicou-se a imprimir, em cores e pinceladas, o que havia de mais emblemático – e por que não acrobático? – nas performances não somente dos Stones, mas de outros músicos que lhe chamavam a atenção. É o caso de Jimi Hendrix, abaixo, cuja essência parece bem capturada. A pose de beatitude, de reflexão cósmica está lá, nos olhos fechados e lábios cerrados. Quer mais? AQUI você vê Jeff Beck e Eric Clapton, pela mão de Ron.

Alguns poucos críticos levam a sério quando o guitarrista sai do palco e substitui um instrumento por outro. A maioria diverte-se com as estripulias pictóricas que Ron Wood apresenta ao público – e isso inclui uma quantidade enormíssima de obras que vão da arte figurativa ao abstracionismo, passando por esculturas, line drawings, imagens naturais e representações de animais. AQUI, por exemplo, seu gorila. Para Ron, a arte é terapêutica: “Não há melhor terapia do que iniciar um quadro e conseguir terminá-lo.”

Critics tell Ronnie Wood to stick to music ahead of exhibition | Ronnie Wood | The Guardian

A crítica Louisa Buck disse  que “somente o ego de uma estrela do rock seria capaz de achar interessante colocar a si mesmo e a própria banda num quadro que representa a devastação de Guernica”. Tem razão, claro, em criticar a possível heresia em relação ao mestre espanhol, mas não é este um dos propósitos da arte: transgredir, subverter a ordem estabelecida? Para ela, Ron Wood deveria manter nas mãos uma guitarra, e não pincéis. Um outro crítico, Oliver Basciano, afirmou que “a arte deve possuir uma dose de ousadia, mas aí já é demais.” Talvez esteja certo, talvez não.

Rolling Stones Guitarist Ronnie Wood Is Also an Artist—But His Amateur Paintings Can't Get No Satisfaction From Critics

A quem interessar possa: AQUI, uma palinha.

Músicos pintores #1: Miles Davis

Não é incomum um artista, já sacralizado em seu ofício, aventurar-se numa outra arte, nunca antes visitada por ele. E menos incomum ainda é ver gente ligada à música conectar-se à pintura, como se essa conexão fosse visível e compreendida por gente comum, desligada da criação artística. Ron Wood, dos Stones; Dee Dee Ramone, dos Ramones, Joni Mitchell e Bob Dylan deram pinceladas que foram celebradas, ora por seus fãs, ora por gente especializada no assunto. O primeiro desses aventureiros merece destaque, a meu ver: Miles Davis. Veja só o que o jazzista produziu:

Miles já havia transformado uma de suas telas em capas de disco. Amandla é um exemplo. Não consigo, e isso pode ser uma falha minha, conectar seus quadros ao jazz, como se audição e visão se misturassem numa sinestesia óbvia. Nos quadros de Miles Davis, há alguma coisa de Basquiat, e não somente algo que se conecte à negritude ou à marginalidade. O exercício da abstração, aliado ao senso de expressão subjetiva, sugere influências de Kandinsky e da arte tribal africana. AQUI você fica sabendo mais.

Miles Davis levava a pintura a sério. Ele mesmo dizia que a pintura era a música que podia ser vista, enquanto a música era a pintura absorvida pela audição. Essa ideia não é de fácil percepção, até porque o próprio músico dedicou-se à pintura por considerar sua carreira como músico terminada. Ou seja: é possível que seus quadros exprimam justamente essa angústia – mas isso, a meu ver, nada significa para quem se depara com eles. O que interessa é o que vemos; não o que o pintor quer exprimir. Estou falando o óbvio.

Jo Gelbard, pintora e professora, orientou Miles, aceitando o desafio de fazê-lo libertar-se de fantasmas que habitavam seu passado. Chegaram a criar juntos, de forma colaborativa. Ela mesma afirmava que “tentava fazer Miles ocupar a mente com elementos positivos quando não estava produzindo música.” AQUI está uma entrevista interessantíssima com ela. Tiveram um envolvimento amoroso que foi bom para ambos, tendo a pintura como leitmotiv e como consequência. Bom para os dois; bom para nós.