Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.
Por que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.
O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.
Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.




