2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

6 opiniões sobre “2 filmes de Francisco”

  • 15 de julho de 2026 em 11:42
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    Muito bacana! Mesmo!
    Gosto de ler você, de refletir em sua criativa análise, que sempre traz uma nota surpreendente, um adjetivo esquecido. Parabéns!

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  • 15 de julho de 2026 em 11:43
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    Excelente. Não me considero religioso, mas aprecio abordagens que contradizem a religião. A igreja, melhor dizendo. Vi “Irmão Sol, Irmã Lua” há muitos anos e gostei muito, apesar da alto teor poético. “Francesco” eu não conhecia, muito menos a informação supreendente da atuação do ator Mickey Rourke no papel do santo. Fiquei curioso.

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    • 15 de julho de 2026 em 21:57
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      Sim, é fato. “Irmão Sol Irmã Lua” tem teor poético que, se não for bem conduzido, acaba na pieguice. “Francesco” é menos lírico. Cavani quer contar uma história, e consegue. E quanto a Mickey Rourke, bem, tomando como base o que ele se tornou, é de admirar que tenha feito um filme sobre um santo.

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  • 16 de julho de 2026 em 07:23
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    Incrível a sua abordagem Grijó!! Estive em Assis em outubro/25 e quando retornei, emocionada com a energia daquele lugar, fui rever Irmão Sol Irmã Lua e me emocionei novamente, pois havia assistido há muitos anos atrás!!!
    Não conhecia “Francesco”, mas com certeza irei assistir!!
    Sempre agradecida por voce compartilhar tanto conhecimento e cultura !!

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    • 16 de julho de 2026 em 12:16
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      Bondade sua, Denise.
      Não estive em Assis, mas em Fátima, e foi uma experiência inédita.
      O ambiente e a história proporcionam isso.

      “Francesco” é um bom filme, mas acho “Irmão Sol Irmã Lua” melhor.

      Apareça sempre!

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