Fala! #10: Henry L. Mencken

“Se os escritores pudessem trabalhar em fábricas grandes e bem ventiladas, como os fabricantes de charutos ou cuecas, cercados de colegas e trocando mexericos profissionais, sua labuta seria imensamente mais leve. Mas é essencial ao seu ofício que desempenhem suas tediosas e vexatórias operações a cappella, o que faz com que os horrores da solidão se somem às suas outras fragilidades. Um escritor trabalhando está, contínua e inescapavelmente, na presença de si mesmo. Não há nada para entretê-lo ou consolá-lo. Toda vez que um pensamento vadio o invade, pega-o instantaneamente pela orelha, e toda vez que uma câimbra desce a sua perna, sacode-o como a mordida de um tigre.”

Henry Louis Mencken, A Mencken Chrestomathy

Mulheres #11: Catherine Deneuve

Em 1995, o incomparável Joe Cocker contracenou com Catherine Deneuve – também incomparável – no clipe N’oubliez Jamais. Se quiser checar, está AQUI. Estava, à época, com 52 anos e sua beleza continuava tão intacta quanto luminosa. Num país de belas atrizes francesas — Bardot, Adjani, Ardant e tantas outras —, Catherine Deneuve leva vantagem: foi bonita a vida inteira, independentemente do tempo, do clima, das oportunidades, dos casamentos etc. Foi, não. Ainda é, mesmo aos 80 anos. O tempo, implacável com qualquer ser humano, foi obrigado a desacelerar com ela.

Claro, claro: as fotos nesta postagem foram escolhidas com o objetivo de explorar sua beleza refulgente, os cabelos alourados, o rosto simétrico de olhos expressivos que tanto encantaram cineastas como Buñuel, Lars Von Trier, Chabrol, Truffaut ou Manoel de Oliveira. Aliás, até onde se sabe, era a atriz preferida desses 5 diretores citados. Chabrol, por exemplo, afirmava que Catherine Deneuve era a melhor atriz do mundo. Sim, falava de atuação em cena, algo que encantava a todos. Buñuel perdia a voz ao conversar com ela. Quando conseguia falar, afirmava que ela era a melhor coisa que a França produziu. E olhe que ele era fã dos queijos Cancoillotte e Munster.

Vi Catherine Deneuve pela primeira vez contracenando com David Bowie em Fome de Viver, de Tony Scott. É bonita de doer. Estava com quase 40 anos e mantinha a beleza com que chegara à juventude — um pouco mais reluzente porque madura. O filme é ótimo e ela, como a vampira Miriam Blaylock, está magnífica. Consegue apagar a beleza sensual de Susan Sarandon, ao contracenarem. David Bowie, então, desaparece. Abaixo, a vampira, cheia de fome e solidária ao amante que envelhece. Não será difícil encontrar outro parceiro.

Fome de Viver" é marco fashion do terror dos anos 80 - Harper's Bazaar » Moda, beleza e estilo de vida em um só site

Catherine Deneuve contradisse o axioma de que a mais alta beleza está na juventude. Estava mais bonita como a personagem Gabi, de 8 Mulheres, quando contava com 60 anos, do que em Os Guarda-chuvas do Amor, em que faz a chatinha Geneviève, com apenas 20 anos. Claro, claro: é uma percepção individual, subjetiva. Há mulheres que adquirem mais beleza com a maturidade, tornam-se mais sensuais, apresentam um componente indecifrável e indefinido que boquiabrem todos aqueles que, diante delas, prostram-se. É o caso de Catherine Deneuve.

Se tivesse de enumerar 3 grandes atrizes francesas, daquelas que seguram a personagem do início ao fim, eu diria Catherine Deneuve, Simone Signoret e Anouk Aimée. Sim, há outras — mas eu mesmo, por vontade própria, limitei o número. As 3 são artistas de ponta, capazes de vestir qualquer personagem com a verossimilhança necessária. Catherine mais: faça o teste assistindo a A Bela da Tarde, Tristana e A sereia do Mississipi. Se procurar, encontrará todos esses filmes disponíveis na web ou em canais fechados. Aproveite, antes que retirem do ar. Corra!

Músicos pintores #4: Dorival Caymmi

Acho Dorival Caymmi chato de doer. Não somente ele, mas a família inteira: Danilo, Dori e Nana entram na dança. Evidentemente, falo da música, do que eles produzem. Acho realmente entediante — ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, não somente reconheço a importância musical dos 4 (o patriarca, mais), como chego a desconfiar que cometo um grande pecado ao achá-los chatos. Pode ser, mas, por enquanto, concordo comigo mesmo. Por outro lado, Dorival, o chefão familiar, pintava bem à beça. Era um craque, sua pintura era tão contundente quanto de aparente simplicidade. Observe isto:

Sem título - Dorival Caymmi - Dorival Caymi

Não há título, não há olhos, não há feições. Apenas o movimento da família em busca de algo – que provavelmente não será alcançado. O traço é aparentemente simples, sem rasuras, mãe grávida, pai pescador, crianças em fila. Eu, dentro de limitações críticas sobre pintura, acho um quadro genial. O primitivismo foi muito além; a simplicidade obteve algo lírico, pela citada leveza, e ao mesmo tempo narrativo. Há uma história sendo contada, que continuará num próximo capítulo. Caymmi foi certeiro.

O Nordeste é um tema de cem anos. Ou mais, se considerar que Alencar escreveu O Sertanejo mesmo sem nunca ter pisado o sertão. Virou tema literário, de fato, com o pessoal de 1930: Zé Lins, Graciliano, Raquel, Zé Américo. E, claro, seu irmão de armas: Jorge Amado. Caymmi fez, na pintura e na música, o que Jorge fez nos enredos: uma Bahia cheia de graça, beleza natural, sensualidade, gente simpática e solidária, misticismo e religiosidade. A cultura baiana — e nordestina, como um todo — é seu tema quase único.

Bahia: candomblé, pescadores, percussão — cuja origem é africanidade —, natureza, mar. Que elementos são mais necessários que esses, perguntou certa vez o próprio Caymmi. Não se sabe se o assunto é restrito pela próprias limitações do artista ou se o universo que ele reconhecia lhe bastava. Não interessa: o resultado é tão simples quanto original. Mais ou menos como sua música – só não é pintura aborrecida, chata (a meu ver, repito!). Ao contrário: é vivaz, alegre. Abaixo, o artista em ação, e diante de si personagens caros à Bahia. Caros a ele também.

 Caymmi com pincéis e telas: Rubem Braga dizia que ele foi o único a captar seu jeito de ser em uma pintura Foto: / Divulgação