Escrevo muito sobre jazz, como sabem os seis ou sete leitores deste blogue. Criei, inclusive, uma série O melhor do jazz, que pode ser conferida AQUI. Há 6 anos, escrevi sobre os melhores discos de jazz gravados ao vivo. Sim, claro: é visão pessoal, critério subjetivo. Um dos discos é este à esquerda: The Milestone Jazzstars in concert, um clássico da gravadora Milestone em que brilham 4 ases: Sonny Rollins (saxofone tenor e soprano), Ron Carter (contrabaixo), McCoy Tyner (piano) e Al Foster (bateria).
Em vinil, é álbum duplo, com 9 faixas, gravadas em diferentes locais, já que o grupo fazia um tour pelos EUA, em 1978: ora no Masonic Auditorium, em San Francisco, ora na Universidade de Wisconsin, ora na Universidade Yale. O disco é uma maravilha do pós-bop, um monumento sonoro capitaneado por Sonny Rollins, o mais importante saxofonista vivo, e por McCoy Tyner dando o ritmo, a cadência. É uma das melhores performances que conheço desse extraordinário pianista, que acompanhou Coltrane nos bons dias e criou discos solo absolutamente irretocáveis.
Ron Carter é, para muitos, o maior contrabaixista do jazz. Não sei se é o maior, mas está entre os grandes. Equilibrado, neste disco, varia entre o som mais percussivo e o lirismo das cordas, como na primeira faixa, The Cutting Edge, ou brilhando sozinho, em Willow Weep For Me. Tem no currículo mais de 30 discos como líder e mais de 200 como sideman, incluindo aí os elepês com os brasileiros Eumir Deodato, Hermeto Paschoal, Airto Moreira, Dom Um Romão, Rosa Passos, Miúcha e Tom Jobim.
Al Foster é um subestimado. Criticam-no os puristas que abominam o fusion, gênero em que ele brilhou, ao tocar com Miles Davis. É uma crítica tão injusta quanto desnecessária, porque é só checar as gravações dele com os pianistas Horace Silver e Herbie Hancock para perceber que ele passeia pelo acústico de forma implacavelmente perfeita. É um baterista que administra como poucos uma cozinha onde brilham os três colegas de trabalho, estrelas do jazz. Ouça e me diga se erro.
A propósito: o disco inteiro está AQUI. Desfrute!

Permitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.
O Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.
E por falar em diálogo, e também em Machado de Assis, tenho-me incomodado com uma questão, que certamente se liga a Mr. Allen. Simples: creio eu que o cineasta, já que afeito à palavra escrita, tenha-se relacionado com o texto machadiano de forma adulta – ou seja: leu-o com a maturidade necessária a uma compreensão que favorece não somente o leitor, mas também o texto. Em outras palavras: os livros do autor carioca – assim como acontece com vários outros autores – exigem daqueles que os leem um certo costume de boa leitura, uma apreensão criteriosa do texto literário, uma intimidade com textos que desafiem o leitor. Isso não retira, em absoluto, a possibilidade de ler tais textos como passatempo, hobby. Fiquei sabendo, há uns dois anos, que o texto machadiano 



Cabrera Infante tem aquilo que todo escritor deseja ter: maturidade irônica. E é justamente munido dessa ferramenta que ele escreve – parece conversar com o leitor, entre charutos e doses de bourbon – sobre Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, Vincente Minnelli, sobre seus filmes e como eles conseguiram referenciar uma época e muitos costumes. Sim, o cinema é, claro, a grande personagem do livro, reverenciada por um autor que desde a infância se mostrou cinéfilo apaixonado, febril. O título, aliás, é uma grande brincadeira. Pode-se viver sem sardinha, mas não sem cinema.
E para quem torce o nariz para o cinema americano, há diversão fora do eixo: Guillermo Cabrera Infante escreve sobre Almodóvar, Fritz Lang, Kiarostami, Kurosawa. Escreve sobre grandes diretores e, claro, grandes filmes feitos por eles, sobre filmes B, sobre o faroeste, os filmes em preto e branco e por aí vai. Tudo sob a ótica de um erudito que sabe ser popular – e vice-versa. Li vários livros sobre cinema – da crônica ao romance, passando por biografias e análises fílmicas -, mas nada me divertiu tanto quanto, diante da erudição e do conhecimento de Cabrera Infante, perceber que o cinema sobrevive e para sempre viverá. Vale ler para crer.