João Ubaldo, aos 83

Talvez eu esteja exagerando, mas o romance brasileiro do século XX chegou a seu apogeu com dois autores: João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues. O primeiro aperfeiçoou o regionalismo, saindo do NE e rumando para o sertão mineiro, levando a linguagem – que é a matéria-prima da literatura – a consequências últimas. O outro não tem rivais quando os temas são a perversão humana, a vilania, o pecado, a hipocrisia e o sexo. São dois mestres inquestionáveis, a meu ver. E depois deles? Quem é o grande romancista brasileiro? Quem conseguiu a façanha de manter-se sempre no auge, enquanto escreveu?

O escritor João Ubaldo Ribeiro Foto: Leo Aversa

Eu escolho João Ubaldo Ribeiro. Ok, você dirá: ele é muito mais cronista que romancista. O citado Nelson Rodrigues também – mas o que é um romance senão um emaranhado de pequenas narrativas que, juntas, caracterizam uma longa história? Se duvida, leia, ao menos, dois de seus livros: Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto. E olhe que estou deixando de lado a obra-prima Sargento Getúlio que, na verdade, mereceria uma postagem só para ela. A Casa dos budas ditosos é ótimo, mas não tem o vigor literário dos 3 citados neste parágrafo.

VIVA O POVO BRASILEIRO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO, EDITORPermitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.

Livro: O Sorriso do Lagarto - João Ubaldo Ribeiro | Estante VirtualO Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.

Escolhi escrever sobre João Ubaldo Ribeiro porque hoje, 23/1, ele faria 83 anos, caso estivesse vivo. E não está?, alguém pode perguntar.

14 opiniões sobre “João Ubaldo, aos 83”

  • 23 de janeiro de 2024 em 18:04
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    Ótima lembrança, Grijó. Excelente romancista, sim. Gostei muito do caldeirão de personagens explosivos em “O sorriso do lagarto”. Quanto a “Viva o povo brasileiro”, é um monumento!

    Em julho se completa uma década de sua morte.

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  • 23 de janeiro de 2024 em 19:41
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    Gosto de ler Grijó. Sempre nos traz à memória grandes nome imortais da música ou literatura.

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  • 23 de janeiro de 2024 em 20:14
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    Ótimo ler vc. Bom reencontrar aqui Ubaldo Ribeiro.

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  • 23 de janeiro de 2024 em 20:16
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    Maravilha! Me lembro que assisti a série O sorriso do lagarto, gostei muito. Só li dele Os budas ditosos. Quero ler Viva o povo brasileiro.

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    • 23 de janeiro de 2024 em 20:29
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      Também assisti, e gostei da adaptação (ao menos na época).
      Eu tinha acabado de ler “Vencecavalo e o outro povo”.
      Ótimo também.

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  • 23 de janeiro de 2024 em 20:40
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    Que prazer senti ao ler texto tão justo, tão bom e belo, com suas apropriadas metáforas e metonímias, sobre esse grande romancista que é João Ubaldo Ribeiro. Fez-me relembrar, décadas depois, a emoção quando de sua descoberta.

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  • 24 de janeiro de 2024 em 11:45
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    Dos livros de João Ubaldo, só conheço Diário do Farol e Política. Mas recebi de muito bom grado esse convite para ler as principais obras dele.

    Valeu, Grijó!

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  • 26 de janeiro de 2024 em 11:40
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    Nunca li João Ubaldo Ribeiro, mas seu post me inspirou. Obrigada! Fale sobre o mestre Veríssimo. Um excelente autor que me parece não ser devidamente lembrado e festejado com um dos nossos grandes escritores.

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    • 26 de janeiro de 2024 em 12:17
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      O grande problema de Verissimo, de quem sou fã tb, é que enveredou para a crônica de humor.
      Assim como comédias, no cinema, são vistos como filmes “menores”, os textos literários bem humorados passam a sofrer do mesmo mal.
      Mas LFV é genial.
      Escreverei!

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      • 26 de janeiro de 2024 em 17:57
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        Ah, me refiro ao pai! 🙂

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        • 26 de janeiro de 2024 em 20:38
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          Que era um grande romancista.
          Alguns, maldosamente, dizem que a obra-prima dele é o filho.
          Sacanagem.
          Li O Tempo e o Vento na faculdade. Completo, magistral.
          E Li Olhai os Lírios do Campo, claro.
          A biografia dele – Solo de clarineta – está na lista.

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