Eurípides encontra Chico & Paulo

Eurípides encontra Chico & Paulo

O texto Gota d’Água é uma leitura pós-moderna e urbana do texto clássico de Eurípides, uma adequação (com diferenças em relação à tragédia clássica) intertextualizada, transformada em drama em versos. Joana, a Medéia brasileira que, abandonada pelo amante Jasão, muito mais novo que ela, e com quem tivera dois filhos, torna-se uma mulher angustiada e oprimida pela situação amorosa e social. Jasão, autor do samba de (então) sucesso Gota d’Água, vai casar-se com Alma, a filha do poderoso Creonte, proprietário do conjunto residencial e explorador de todo aquele povo oprimido da Vila do Meio-Dia. Além de perder seu amante, Joana, encurralada pela engrenagem social, será expulsa por Creonte, com seus dois filhos. Tendo falhado o plano de vingança — de envenenar a noiva no dia do casamento —, ela acabará por envenenar os dois filhos e a si própria.

Bem, essa é a ideia central do drama em versos criado pela dupla Chico Buarque e Paulo Pontes. Este último, um craque da dramaturgia. Chico, genial como compositor, colabora — também — com o traço musical, compondo algumas pérolas interpretadas pelos atores e atrizes. É caso da triste Basta Um Dia e da eletrizante Flor da Idade (um trabalho intertextual drummondino). Paulo Pontes teve a ideia da singularidade estrutural: embora seja pertencente ao gênero dramático, o texto se preocupa fundamentalmente com a linguagem e com sua disposição, já que é estruturado em versos de todas as metrificações possíveis — mesmo havendo predominância dos versos alexandrinos e decassílabos. Outro elemento de destaque é a elaboração das rimas (soantes sempre) revelando o aspecto musical do texto.

O italiano Gianni Rato dirigiu a primeira montagem da peça — e com Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela canta no palco e canta no disco, este uma obra rara encontrada somente em sebos. Claro: Bibi não era cantora de excelência, mas também não era bissexta. Uma atriz completa, que encarnou toda a dor e a fúria da mulher rejeitada que resolve dar o troco, mas que tropeça no próprio exagero sentimental. Assisti à peça em 1981, quando foi encenada no Carlos Gomes. Já não era Roberto Bonfim que interpretava Jasão. Até onde me lembro era Adriano Reis.

Um espetáculo de beleza e potência, no qual se discutia desde a força capitalista — que resume o homem a um objeto insosso e vulnerabilíssimo — até a decomposição da mulher que envelhece, e cujo valor decai à medida que ela não vê chances de essa condição se alterar. Mestre da linguagem ligeira, Chico Buarque mistura tudo: do erudito ao pop, para agradar a gregos e curitibanos. Está faltando alguém montar uma atualização da peça — mas sem mexer no texto. Sequer uma linha.

A verdadeira musa

A verdadeira musa

Reinaldo Santos Neves observa-nos do píncaro. Estacionado, movimenta sua literatura de forma diversificada, absoluta, como se somente ele tivesse permissão para criar textos tão distintos. Para quem sabe do que falo, aí vai: o que Kitty, Jose e Sueli têm em comum a não ser o fato de terem brotado da fértil criação do criador? Quem são elas? Se você não sabe, procure: é um conselho dos bons. Não vai se arrepender. Uma dessas citadas senhoras — Jose — é a musa de Muito Soneto por Nada: cinquenta poemas que, segundo seu próprio autor, foram escritos entre 1988 e 1991, mas publicados em 1998.

São sonetos sem divisão estrófica e possuem um tema fundamental: a forma como o texto literário se constrói a partir da ideia fixa entre criador e criatura. Fazendo uso de uma linguagem ora mais acadêmica, ora coloquial, passando pela intertextualidade e pela ironia, Santos Neves cria mais que sonetos — cria um romance que, se não narrado de forma convencional, dá-nos uma visão de início, meio e fim de uma história de amor na qual somente um ama. Eis o óbvio destino daquele que cria. É lícito afirmar que a Pós-Modernidade se nutre de elementos intraculturais como cinema, publicidade, quadrinhos etc.

Reinaldo Santos Neves se utiliza desses elementos para compor não somente sua musa-personagem Jose, mas também servem de apoio para a criação de todo um ambiente em torno da situação amorosa. Referências como o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, ou o filme Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, constituem esse universo pós-moderno de que faz uso o autor. Franz Kafka,  Hieronimus Bosch, o poeta norte-americano e. e. cummings, Federico Fellini, o escritor capixaba Renato Pacheco (na pele de seu personagem Fernão Ferreiro), os músicos de jazz Charles Mingus e Joe Pass, o lendário herói suíço Guilherme Tell são presenças que servem para criar a atmosfera pós-moderna dos poemas. O jazz, a Coca-cola (apresentada com maiúscula como ênfase ao símbolo consumista), o IRA, a pizza, Tântalo, o Santo Graal — todos elementos que perpassam o texto como adereços que compõem a poesia.

Reinaldo é um craque. Até para, ironicamente, ludibriar o leitor. Sua verdadeira musa não é Jose — e sim a própria literatura. Essa, sim, é esticada, comprimida, posta ao avesso e em pedaços, para depois refazê-la e, mais uma vez, ciclicamente, recomeçá-la. Jose, inatingível, apenas observa o que faz o criador. Se você não conhece Muito Soneto por Nada, corra atrás. Ainda há tempo.  

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

José Rubem Fonseca foi o camisa 10 durante os anos 1970. Manteve-se em campo até meados da década seguinte, quando se cansou. Não precisava provar mais nada: nem que sabia manejar as palavras, nem que sabia construir personagens ou boas tramas. Podia ter-se aposentado, mas continuou a insistir em criar — e criou. O talento continuava, mas o fôlego foi, aos poucos, perdendo força, mesmo sendo capaz de, em 2003, escrever o ótimo Diário de um Fescenino. É seu último grande voo, seu derradeiro salto para a eternidade. Seus grandes livros? O Caso Morel, A Coleira do cão, O Cobrador, Feliz Ano Novo, Bufo & Spalanzani e sua obra-prima, A Grande Arte. Todos, coincidentemente, entre 1965 e 1985.

Ok, ok. Uma exceção, talvez, para Agosto — mas eu disse talvez. Preciso pensar melhor sobre isso. O que quero dizer, com esse preâmbulo? Que não há livro melhor sobre o qual falar, nesta época do ano, do que Feliz Ano Novo — um clássico das histórias curtas na literatura brasileira. Em 1975, durante o governo Geisel, Fonseca expõe, com crueza e vigor estético, a oposição entre classes sociais. O livro não se resume a isso, mas o conto-título é o escancaramento da diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais. Há contos antológicos, como Nau Catrineta — sobre canibalismo —, o metalinguístico Intestino Grosso e o divertido e futurista O Campeonato, sobre potência sexual. 

A linguagem (o que define a literatura) é marcada pela oralidade, e em algumas histórias o vocabulário — por muitos considerado chulo, pornográfico — é expresso de forma rude, desleixada, bem a gosto da realidade periférica que, em muitos casos, é retratada. Há outras histórias em que a linguagem é mais bem elaborada, mais acadêmica, como o diálogo entre o entrevistador e o Autor, no citado Intestino Grosso. Rubem Fonseca é craque nisto: representar linguisticamente cada camada social presente no enredo. Ninguém conseguiu isso — ao menos não com tanta precisão — na literatura contemporânea. 

Mandrake The Magician - Magic - T-Shirt | TeePublic

Uma curiosidade: no conto Dia dos Namorados, a personagem central é um advogado de apelido Mandrake. Sim, tornou-se famoso: estrelou A Grande Arte, vários contos e uma pequena novela, intitulada Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005. No citado conto, ele mesmo narrador, diz “quando nasci me chamaram de Paulo, que é nome de papa, mas virei Mandrake, uma pessoa que não reza, e fala pouco, mas faz os gestos necessários.” Alguém ainda se lembra de Mandrake the Magician? Aquele que, nos gibis que estrelava, hipnotizava instantaneamente seus oponentes fazendo gestos? Às novas gerações: ao lado, na imagem. Pois é. Rubem Fonseca foi mágico por 20 anos. E para muitos ainda é.